“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Um homem culto é um homem descontente com sua cultura

Um guru muito conhecido veio vê-lo mais uma vez. Estavam sentados num formoso jardim rodeado de muros; o verde gramado se achava muito bem cuidado; havia rosas, cheiro de ervilhas, brilhantes calêndulas amarelas e outras flores do norte oriental. O muro e as árvores mantinham afastado o ruído dos poucos automóveis que passavam; o ar estava impregnado com o perfume de muitas flores. Ao anoitecer, uma família de chacais resolvia sair do oculto refúgio que tinha abaixo de uma árvore; haviam cavado um grande buraco onde a mãe tinha seus três filhotes. Formavam um grupo de saudável aspecto, e em seguida, depois do crepúsculo, a mãe saía com eles mantendo-se próxima das árvores. Detrás da casa havia lixo e mais tarde iriam recolhê-lo. Também vivia uma família de mangustos; todo entardecer, a mãe, com seu focinho rosado e sua larga e grossa cauda, saía do esconderijo seguida por seus dois filhotes, um atrás do outro; encostados ao muro, também se dirigiam à parte traseira da cozinha onde algumas vezes lhes deixavam coisas. Eles mantinham o jardim livre de cobras. Jamais parecia haverem-se cruzado com os chacais, porém se o fizessem, se deixariam mutuamente em paz.

O guru havia anunciado uns dias antes que desejava fazer uma visita. Chegou, e mais tarde vieram em seguida seus discípulos. Tocaram seus pés como um sinal de grande respeito. Queriam também tocar os pés do outro homem, porém ele não quis que o fizessem; explicou-lhes que isso era degradante, porém a tradição e a esperança do céu eram demasiado fortes neles. O guru não quis entrar na casa, já que havia feito votos de não entrar jamais num lugar de pessoas casadas. O céu estava intensamente azul nessa manhã e as sombras eram grandes.

“Você nega ser um guru, porém é um guru de gurus. Tenho lhe observado desde sua juventude, e o que você disse é uma verdade que muito poucos compreenderam. Para muitos, nós somos necessários, de outro modo estariam perdidos; nossa autoridade salva ao homem simples. Nós somos os intérpretes. Temos tido nossas experiências, sabemos. A tradição é um resguardo, e são somente uns poucos os que podem permanecer sós e ver a realidade desnuda. Você se encontra entre os bem-aventurados, porém nós devemos marchar com a multidão, cantar seus cantos, respeitar os nomes sagrados e borrifar água benta, o qual não quer dizer que sejamos inteiramente hipócritas. Eles necessitam ajuda e nós estamos aqui para lhes dar. Qual é, se me permite perguntar-lhe, a experiência dessa realidade absoluta?” Os discípulos estavam indo e vindo, sem interesse na conversa e indiferentes ao que lhes rodeava, à beleza da flor e da árvore. Alguns deles vieram sentar-se no pasto para escutar, esperando não serem demasiadamente perturbados. Um homem culto é um homem descontente com sua cultura.

A Realidade não é para ser experimentada. Não há atalho que conduza a ela e nenhuma palavra pode assinalá-la; não é algo que possa buscar-se e encontrar-se. O encontrar depois de buscar é a corrupção da mente. A mera palavra verdade não é a verdade; a descrição não é o descrito.

“Os antigos tem falado de suas experiências, de sua bem-aventurança na meditação, de sua superconsciência, de sua realidade sagrada. Se é lhe permitido perguntar: Devemos descartar tudo isto e o exaltado exemplo daqueles seres?” Qualquer autoridade na meditação é a negação completa desta. Todo o conhecimento, os conceitos, os exemplos não tem lugar na meditação. A completa eliminação do meditador, do experimentador, do pensador, é a essência mesma da meditação. Esta liberdade é o ato cotidiano da meditação. O observador é o passado, seu terreno é o tempo, seus pensamentos, suas imagens, suas projeções, estão presas ao tempo. O conhecimento é tempo, e a libertação a respeito do conhecimento é o florescer da meditação. Não existe sistema algum e, portanto, não há direção alguma para a verdade ou para a beleza da meditação. Seguir o outro, seguir seu exemplo, suas palavras, é expulsar a verdade. Só no espelho da relação você vê realmente o rosto do que é. O que vê é o visto. Sem a ordem que a virtude traz consigo a meditação e as intermináveis afirmações dos outros carece em absoluto de significado algum; são completamente improcedentes. A verdade não tem tradição, não pode ser transmitida.

Com o sol, o aroma das ervilhas era muito mais intenso. 

Krishnamurti — 12 de Outubro de 1973
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)