“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

Solidão

Que coisa estranha é a solidão, e como ela é assustadora! Nunca nos permitimos muita intimidade com ela; e se por acaso o fazemos, rapidamente fugimos. Fazemos qualquer coisa para fugir da solidão, para encobri-la. Nossa preocupação consciente e inconsciente parece ser evitá-la ou superá-a. Evitar e superar a solidão são ações igualmente fúteis; embora reprimidos ou negligenciados, a dor e o problema ainda existem. Você pode se perder na multidão e ainda estar completamente sozinho; você pode estar intensamente ativo, mas a solidão silenciosamente se insinua a você; ponha o livro de lado, e lá está ela. Diversões e bebidas não podem afogar a solidão; você pode escapar dela temporariamente, mas quando o riso e os efeitos do álcool terminam, o medo da solidão retorna. Você pode ser ambicioso e bem-sucedido, pode ter enormes poderes sobre os outros, pode ser rico em conhecimento, pode tomar parte em um culto religioso e se esquecer de si mesmo no palavrório dos rituais; mas, faça o que quiser, a dor da solidão permanece. Você pode existir somente por seu filho, pelo Mestre, pela expressão de seu talento; mas, como a escuridão, a solidão cobre você. Você pode amar ou odiar, fugir disso segundo seu temperamento e suas exigências psicológicas; mas a solidão estará lá, esperando e observando, retirando-se apenas para se aproximar novamente.

A solidão é a percepção do isolamento total; nossas atividades não são fechadas em si mesmas? Embora nossos pensamentos e emoções sejam expansivos, não são exclusivos e separadores? Não estamos buscando controle em nossos relacionamentos, em nossos direitos e posses, e com isso criando resistência? Não consideramos o trabalho como “seu” e “meu”? Não estamos identificados com o coletivo, com o país, ou  com alguns? Toda a nossa tendência não é isolarmo-nos, dividir e separar? A própria atividade do Eu, em qualquer nível, é um modo de isolamento; e a solidão é a consciência do Eu sem atividade. A atividade, física ou psicológica, torna-se um meio de auto-expansão. E quando não existe atividade de tipo algum, há uma percepção do vazio do Eu. É esse vazio que buscamos preencher, e passamos nossas vidas preenchendo-o, em níveis nobres ou desprezíveis. Pode parecer que não há danos sociológicos em preencher esse vazio em níveis nobres; mas a ilusão gera dor e destruição incalculáveis, que podem não ser imediatos. A ânsia de preencher esse vazio – ou de fugir dele, que é a mesma coisa – não pode ser sublimada ou reprimida; pois quem é a entidade que vai suprimir ou sublimar? Não é essa mesma entidade uma outra forma de anseio? Os objetos de anseio podem variar, mas não serão semelhantes todos os anseios? Você pode mudar o objeto de seu anseio, da bebida para o pensamento; mas sem entender o processo do anseio a ilusão será inevitável.

Não existe uma entidade separada do anseio; só existe anseio, não existe ninguém que anseia. O anseio assume diferentes máscaras, em momentos diferentes, dependendo de seus interesses. A memória desses interesses variados encontra o novo, o que produz conflito, e assim, aquele que escolhe nasce, estabelecendo a si mesmo como uma entidade separada e distinta do anseio. Mas a entidade não é diferente de suas qualidades. A entidade que tenta preencher ou fugir do vazio, da incompletude, da solidão, não é diferente daquilo que  ela evita; ela é aquilo. Ela não pode fugir de si mesma; tudo  que pode fazer é entender a si própria. Ela é sua solidão, seu vazio; e enquanto considerá-lo como algo separado de si, estará em ilusão e em interminável conflito. Só quando experienciar diretamente que ela é sua própria solidão, poderá haver libertação do medo. O medo existe apenas em relação a uma idéia, e a idéia é a reação da memória como pensamento. O pensamento é o resultado da experiência; e embora ele possa ponderar sobre o vazio, ter sensações a respeito, ele não pode conhecer o vazio diretamente. A palavra “solidão”, com suas lembranças de dor e  medo, impede a experienciação do novo. A palavra é lembrança, e quando a palavra não é mais signifcativa, o relacionamento entre o experienciador e o experienciado é totalmente diferente;  assim, aquele relacionamento é direto e não através de uma palavra, por meio da memória; o experienciador é a experiência, o que resulta em libertação do medo.

Amor e vazio não podem permanecer juntos; quando há o sentimento de solidão, o amor não existe. Você pode esconder o vazio sob a palavra “amor”, mas quando o objeto de seu amor não existe mais ou não responde, você tem consciência do vazio e se sente frustrado. Usamos a palavra “amor” como um meio de fugir de nós mesmos, de nossa própria insuficiência. Agarramo-nos à pessoa que amamos, somos ciumentos, sentimos saudades quando ela não está presente e ficamos totalmente perdidos quando ela morre; e depois buscamos conforto de alguma outra forma, em alguma crença, em algum substituto. Isso é amor? O amor é uma idéia, o resultado de associações; o amor não é algo a ser usado como uma fuga de nossa própria infelicidade; e quando nós realmente o usamos, criamos problemas que não tem solução. O amor não é uma abstração, mas sua realidade só poderá ser experienciada quando a idéia, a mente, não for mais o fator supremo.

Krishnamurti - Comentários sobre o viver


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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill