“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

A transformação vem quando há compreensão direta


Creio que já nos habituamos a idéia de que a luta é inevitável e que pela luta chegaremos à compreensão, teremos paz, descobriremos algo que se acha fora da esfera dos problemas que ocasionam conflito. Parece-me importante compreender esta questão da luta, do conflito, dentro e ao redor de nós, e descobrir se ela é necessária à compreensão criadora, a obtenção da felicidade humana.
            Aceitamos a luta como parte integrante de nossa existência diária, de nossos contatos sociais, de nossa existência interior, nossa existência psicológica, e pensamos que, sem luta, sem conflito, cairemos em estagnação. Há o medo da estagnação, o medo do "ser nada", de nos destruirmos, se não fizermos esforço, se não lutarmos em prol de um objetivo, um alvo, um fim. Pensamos que, sem luta, sem intenso esforço interior, nunca atingiremos a felicidade suprema. Por isso, aceitamos a luta como parte da vida, e pensamos que pela luta levaremos ao efeito uma transformação fundamental em nós mesmos. Nesta manhã, vamos averiguar, se possível, se a luta é necessária, se o conflito contribui para a compreensão, para o esclarecimento e a felicidade do homem.
            Vemos que a luta é necessária em certos sentidos, em certos níveis: a luta com a natureza, a luta para a solução de problemas objetivos. Em certos níveis da existência parece necessária a luta; mas transportamos essa luta para o terreno psicológico, onde ela se torna esforço de aquisição, do "eu", para subsistir, para sobreviver.
            E é ai que devemos averiguar se a luta contribui para a nossa felicidade, para o bem-estar da humanidade, para a criação de uma sociedade pacifica. Esse conflito nas relações é um problema complexo, não achais? Temos aceitado, através dos séculos, como inevitável, e, conseqüentemente, é muito difícil examinar toda a questão de maneira nova, penetrá-la a fundo e descobrir sua inteira significação.
            Tentemos hoje verificar, se possível, até que ponto a luta é justificável, se é necessário que a luta cesse, para que possamos alcançar as profundezas do coração humano. Porque lutamos, psicologicamente, interiormente? Lutamos com o fim de nos adaptarmos a um padrão de ação; lutamos para expressar certos sentimentos, ou porque temos um problema que, pela luta, esperamos resolver; lutamos para alcançar uma continuidade, uma subsistência do "eu" como entidade. Pois bem!
            Esta luta para nos adaptarmos, sobrevivermos, se expressa na crença, no ideal, não é verdade?
            "Projetamos" o ideal e lutamos por adaptarmos, ajustar-nos a ele, na esperança de que, por meio desse conflito, desse ajustamento, nos tornemos melhores, mais felizes, mais benevolentes, etc.
            Isto é criamos um padrão de ação, impelidos pelo desejo de alcançarmos certo resultado, e formamos assim o hábito da luta constante, psicológica ou interior, ente as várias camadas da nossa consciência. Lutamos com problemas, tanto pessoais como coletivos; visto que temos problemas, examinamos, analisamos, estudamos o mais profundamente possível, esperando, por essa maneira, resolvê-los.
            Lutamos com as frivolidades da nossa mente, com o fim de bani-las, pô-las de parte, e passar além. Nossa vida é uma serie de conflitos intermináveis; estamos sempre inquirindo, sempre lutando por descobrir algo. Começamos com o intuito de descobrir, mas, gradualmente, firmamos o hábito de um determinado padrão de ação. Ou, se estamos mais profundamente interessados, pensamos que pela luta seremos criadores, que é necessário passarmos por este processo de conflito, para conseguir certa paz de espírito.
            Tudo isso é nossa vida, o padrão muito conhecido de nossa existência cotidiana, e não precisamos entrar em mais pormenores a este respeito. Pois bem! Desejo averiguar se a luta é necessária, se a luta pode produzir a transformação radical, que é tão essencial. Quando temos um problema psicológico, um problema de relações, porque lutamos para resolvê-lo?
            Pode tal problema ser resolvido mediante luta, mediante conflito?
            Só lutamos com um problema quando desejamos determinado resultado, uma solução para o problema; mas se nossa intenção é compreender e transcender o problema, então, por certo, o conflito com o problema não nos ajudará neste sentido, não achais?
            Só podemos compreender o problema quando somos capazes de observá-lo sem condenação, nem justificação, sem nenhum desejo de achar uma solução fora dele. No momento em que procuramos ajustar-nos a um determinado padrão "projetado" pela mente, na esperança do resolvermos o problema, há um estado de luta e quanto mais lutamos, quanto mais complexo se torna o problema. Vemos, pois, que, para compreendermos profundamente um problema, não deve haver, em primeiro lugar, nenhum esforço para lhe acharmos uma solução particular.
            Quando tenho um problema, não estou sempre em busca de uma solução especifica para ele?
Não me interessa compreender o problema, o que me interessa é a solução; e por isso se estabelece o conflito. Se, ao contrário, desejo compreender realmente o problema, preciso conhecer todo o seu conteúdo, o que só é possível quando “não me estou identificando” com determinada solução, quando não estou julgando, quando não estou condenando.
            Quando perfeitamente lúcida, a mente esta tranqüila; e é só então que o problema se resolve, e não quando ocorre luta para achar-lhe a solução. Num nível queremos uma solução, e noutro nível não a quaremos. Buscamos solução particular para o problema e, entretanto, no fundo, sabemos que a busca de solução particular envolve conflito dentro em nós mesmos e, por conseguinte, só tem o resultado de aumentar o problema, noutro sentido.
            O que se requer, conseguintemente, é perfeito discernimento do problema, o que significa compreensão da totalidade da nossa consciência, do processo total de nós mesmos. Vemos, pois que a luta para resolvermos um problema não nos liberta do problema. Pelo contrário, torna o problema mais complexo ainda. Podeis observá-lo por vós mesmos!
            Ora, pensamos que a conservação da existência só é possível mediante luta, disputa, conflito; percebemos, entretanto, que sempre que existe conflito entre indivíduos, entre grupos, entre nações, não há possibilidade alguma de sobrevivência; ao contrario, a guerra e a destruição em massa são inevitáveis. Enquanto lutarmos por obter segurança psicológica, por subsistirmos, sobrevivermos através do esforço aquisitivo, por sermos "mais"; enquanto estivermos empenhados nesta luta de aquisição, nesta luta para sermos "mais", quer material, quer espiritualmente, haverá conflito, haverá incessante batalha dentro e ao redor de nós.
            Lutamos para ter segurança, para ter certeza, porque a mente teme a incerteza, o achar-se no estado de constante indagação, constante compreensão, constante descobrimento. Só é possível haver descobrimento e compreensão no estado de profunda incerteza. Mas como a mente não gosta de estar incerta, só quer andar de uma lembrança para outra lembrança, para se sentir segura constrói ela para si mesmas várias virtudes qualidades, atributos, hábitos, padrões de ação, para funcionar dentro desta esfera. Inconsciente, bem como conscientemente, estamos, os mais de nós, em busca desta subsistência psicológica, que nega a subsistência no mundo físico.
            Enquanto cultivarmos o "eu", enquanto lhe dermes nutrição e força, haverá conflito sem fim.
            Tal é, pois, a nossa condição, não é verdade?
            E se desejamos modificar-nos profundamente, então, as muralhas que a mente construiu em torno de si mesma - muralhas de virtude, de crenças, de ideais, o desejo de imortalidade, etc. - terão de ser arrasadas, para que a mente fique completamente livre para descobrir o que é real.
            O necessário, em primeiro lugar, é percebermos, por nós mesmos, sem persuasão ou argumentação, que estamos sempre andando de “uma lembrança para outra lembrança”, de um conhecimento para mais outro conhecimento, considerando esse movimento como uma revolução.
            A tradição, o ambiente, a educação, o condicionamento, tudo isso pode ser modificado - e é a isso que aspira toda revolução exterior, seja capitalista, seja comunista ou fascista. Todas elas tentam mudar o ambiente, o condicionamento, a tradição. Isso é possível, naturalmente; mas não liberta o homem do sofrimento, liberta?
            E é justamente isto o que estamos considerando: como libertar a mente do sofrimento, se o sofrimento pode ser dissolvido pela luta. A própria luta não fortalece mais ainda a causa do sofrimento, que é o "eu", com suas atividades egocêntricas?
            Quando luto para ser virtuoso, isto é virtude?
Embora tenhamos sido educados para crer que um estado virtuoso pode ser alcançado por meio de luta, de conflito, de disciplina, de influencia, de educação, este processo não fortalece o "eu", que a verdadeira causa do sofrimento?
            Quando procuro disciplinar-me para tornar-me mais generoso, não estou fortalecendo o "eu", que é a causa da avidez? Quando luto para ser humilde, não ter orgulho, esta luta não representa uma atividade egocêntrica?
            Este problema é muito complexo e não pode ser atendido fortuitamente, num só nível.
            Percebendo a complexidade do problema e reconhecendo que a raiz do sofrimento é o "eu", o "ego" - como pode este alicerce, esta base, ser quebrada, destruída?
            Como pode este "eu" ser posto de parte, sem luta?
            Eis o problema verdadeiro e é aqui que tem de operar-se a transformação.
            Esta transformação é possível por meio de conflito?
            Posso dissolves o "eu" impondo-lhe regras e compulsões?
Ou só é possível a sua dissolução quando a mente está cônscia de todo este complexo problema e se torna inativa com relação a ele?
            Afinal, a mente é que é o centro do "eu", não é verdade?
            Talvez a maioria de nós ainda não tenha pensado neste problema.
            Enquanto existir o "eu", haverá conflito, sofrimento; enquanto existir o "eu", nunca haverá um viver criador.
            Mas, a maioria de nós aceita o "eu" e o cultiva por várias maneiras!
            Ora, se compreendermos a natureza do "eu", se ficarmos amplamente cônscios dos seus complexos problemas, não será possível a mente ficar inativa com relação a eles, de modo que não contribua para fortalecer o "eu" dando-lhe nutrição?
            Estou interessado na dissolução do "eu", na negação do "ego".
            Como posso realizá-la sem transformá-la em objetivo?
            Vejo que o sofrimento, a frustração, o conflito, são inevitáveis enquanto a minha mente está, consciente ou inconscientemente, ocupada com o "eu” e suas atividades.
            Como dissolver tudo isso?
            Minha identificação com uma nação, com uma idéia , com o que chamo "Deus", poderá dissolvê-lo?
            Esta identificação é uma atividade do "eu", pois não?
            Ela representa mera expansão do eu; evadimo-nos do "eu" interessado em frivolidades, para o que chamamos "o imenso", "o universal" - que continua, entretanto, a fazer parte de nossa mesquinha mente. A identificação, pois, não pode dissolver o "eu'', não pode arrasar-lhe as muralhas.
            Também a disciplina, a prática de determinado padrão de ação, não tem poder para isso; nem o terá a oração, a prece, ou a constante exigência de que ele seja dissolvido. Tudo isso são simples meios de fortalecer o "eu", de dar-lhe continuidade - sendo o "eu" um feixe de lembranças, experiências, prazeres, lutas, dores, sofrimentos. Nada dissolverá o "eu" enquanto a mente estiver diligenciando dissolvê-lo, uma vez que mente é incapaz de arrasar as barreiras, as muralhas que ela própria criou.
            Mas, quando estou cônscio de toda esta complexa estrutura do "eu", que é o passado em movimento, através do presente, para o futuro; quando estou cônscio de tudo o que se passa tanto interior com exteriormente, tanto oculta como abertamente - quando estou de todo cônscio de tudo isso, então, a mente, que criou as barreiras, no seu desejo de sentir-se segura, permanente, no seu desejo de continuidade, se torna extraordinariamente, tranqüila inativa; só então se apresenta a possibilidade de dissolução do “eu”.
            Ora bem, ao ouvirdes uma asserção deste gênero tem muita importância a maneira como a ouvis, não achais?
            Porque, afinal, que é que estamos “tentando” nestas nossas palestras?
            Não estamos “tentando” sobrepor um conjunto de idéias a outro conjunto de idéias, ou adotar uma crença para substituir outra, ou seguir um mentor renunciando a outro.
            O que estamos “tentando” é compreender o problema; queremos conversar, e neste conversar estais aberto a sugestões, percebeis bem a significação das coisas, e desse modo descobris diretamente, por vós mesmos; a falácia da luta.
            Não fazeis nenhum esforço consciente para alterar-vos!
            Vem a transformação quando há compreensão direta e, por conseguinte, certa espontaneidade e nenhum senso de compulsão. Mas isso só é possível quando sois capazes de escutar muito tranqüilos, interiormente, com completa ausência de barreiras.
            Se vos modificais em conseqüência de argumentação, de imperativos lógicos, de influencia, estais então, apenas, condicionado numa direção diferente, o que também traz o seu sofrimento respectivo. Se, entretanto, compreendeis este problema do sofrimento como um todo, e não como algo a que podemos fugir superficialmente, então a vossa mente se torna muito tranqüila; e nesta tranqüilidade se realiza uma transformação que não foi provocada, que não é o resultado de nenhuma espécie de compulsão ou de desejo.
            Esta transformação é que essencial, e ela não é alcançável por meio de nenhuma influencia, nem de nenhum saber.
            O saber não resolve os nossos sofrimentos.
            Saber significa ter explicações.
            Só suprimindo completamente o saber, só deixando de considerá-lo como meio de orientação, só então teremos a possibilidade de que a nossa mente sinta o inefável, o que constitui o único fator capaz de produzir uma transformação fundamental, uma revolução verdadeira.
           
            Krishnamurti - Ojaí, Califórnia, 17 de agosto de 1952, págs. 83/92 do livro “Claridade na Ação” – ICK 1957 – tradução de Hugo Veloso. 
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill