“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

Sobre Pensar



O pensamento é o denominador comum de toda a humanidade. Seja qual for o tipo de conflito humano, compulsão ou obsessão, independente da nacionalidade, cor, raça, classe social, o pensamento é o denominador comum à todos nós. Independente do modo como fomos "educados", independente do modo como fomos condicionados, independente do acumulo de conhecimento adquirido por meio de nossas vivências e experiências, todos nós pensamos e, portanto, somos todos prisioneiros de uma ampla e emaranhada rede de pensamentos.

Se você observar, verá que o cérebro está ocupado todo o dia com uma coisa ou outra, tagarelando, falando interminavelmente, como uma máquina que nunca para. E, assim, o cérebro gradualmente vai se desgastando.



Desde a mais tenra idade fomos "programados" através de símbolos e imagens, quer fisicamente, religiosamente, mentalmente, intelectualmente, nacionalmente e, por meio dessa sistemática programação, acabamos nos conformando à um modo mecânico e vazio de ser, onde o tédio, a rotina e a solidão, são apenas algumas das dolorosas e consequentes manifestações. Fomos programados para produzir resultados sociais pre-estabelecidos, independente do desenvolvimento e integridade de nossa psique, de nossa sensibilidade e de nossa energia vital. Como resultado dessa sistemática programação, nosso potencial humano, nosso potencial interno, nosso talento, quase sempre, se mostraram extremamente limitados.
Não fomos educados para perceber o que é a nossa consciência, para perceber o pensamento e todo seu processo divisor, em vista disso, estamos todos fragmentados, portanto, não somos indivíduos. Fomos concionados para pensar que somos indivíduos, que estamos separados, para pensar que temos almas separadas, mas isso é mera ilusão. 


Fomos programados para dar excessiva importância às nossas atividades externas, sem que houvesse a formação da consciência da grande importância de dar a devida atenção às nossas atividades internas, psicológicas, emocionais, em desenvolver observação e a compreensão de nossos motivos, desejos, tendências, ansiedades e torturantes medos que nos impelem à participar da louca, competitiva e inconsequente busca por segurança e privilegiado conforto. Em vista disso, muitos de nós conseguimos através de inconfessáveis esforços, aparentar ordem em nosso exterior, enquanto tentávamos disfarçar nossa realidade interior. Não fomos incentivados à observação de nossa consciência; ao contrário, fomos sistematicamente moldados para darmos vazão às descabidas e separatistas exigências de nosso ego. Vivemos de  modo tão acelerado, tão estressado, que raramente estamos de fato cônscios de nossos motivos e atividades. Não fomos incentivados ao fundamental auto-questionamento: "O que e por que buscamos?" Quase sempre funcionamos de forma mecânica e reativa, fundamentados na velha carga de nosso passado para fazer frente aos constantes desafios do presente.

Fomos excessivamente expostos à um padrão cultural comportamental e à um sistema de educação que nunca nos preparou para o levantamento de questionamentos quanto à tudo que de nós nos era exigido como sendo o politica e socialmente correto. Não fomos incentivados ao exercício do olhar livre, da percepção pura, os quais se traduzem num modo criativo de ser. Ao contrário, fomos incentivados ao ajustamento e a imitação, o que em última análise, se apresenta como a natureza de toda forma de corrupção geradora de um contínuo estado de ansiedade, conflito, separação, sofrimento, angústia, incerteza, desespero e solidão. Esse ajustado e imitativo modo de ser é que nos colocou num compulsivo ciclo de insegurança, medo, ciúme, inveja, ganância, confusão e sofrimento.

Fomos educados para nos ajustarmos à um padrão cultural que alimenta o individualismo auto-centrado, que alimenta o "eu", o "ego" e seus pronomes possessivos, os quais obscurecem a visão de uma consciência voltada para a criativa e responsável participação social. Esse resultante modo de estar na vida de relação, parece ser a natureza exata da consequente ilusão de separatividade que impede a consciência de que não estamos sós, de que não estamos isolados, de que todos fazemos parte de uma única consciência, de que estamos todos interligados.

Não fomos educados para "olhar a natureza do pensamento", para perceber que o pensamento não é algo individual, mas sim coletivo, grupal. O pensamento não é o nosso pensamento: é pensamento. Temos que aprender a ver as coisas como realmente são e não do modo como fomos condicionados para olhar. No entanto, como é possível ver com clareza, quando se está condicionado, influenciado por algum grupo, pela tradição, por conceitos, literaturas, crenças e achismos? Como é possível ver sem nenhuma distorção a natureza exata de toda forma de caos e sofrimento que se manifesta na consciência?

Se queremos saber se é possível ou não a manifestação de um estado de unidade interna e bem-estar comum entre mente e coração, precisamos inventariar todo o movimento do pensamento condicionado, porque o pensamento condicionado é responsável por todo o conteúdo da consciência, tanto das camadas mais profundas quanto das superficiais. Se você não possuísse nenhum pensamento condicionado, não haveria nenhum medo, nenhuma busca de prazer imediato, nenhum conflito no tempo, nenhuma culpa, nenhuma vergonha tóxica. É o pensamento condicionado o grande responsável por isso tudo. Portanto, o pensamento condicionado é o denominador comum de todo tipo de conflito humano.

Qual é a origem do pensar?
Qual é a origem do pensar? Esta é uma questão sobremodo complexa (…) No momento em que se descobre realmente a origem do pensar, o pensamento recebe o lugar que lhe compete e não transbordará para outra esfera, outra dimensão, onde não há lugar para ele. Só nessa dimensão pode operar-se a transformação radical; só nela pode nascer uma coisa nova, não produzida pelo pensamento.(1) 

Que é pensar? (…) Quando há “desafio” e “reação”, se a reação é imediata, não há “processo de pensar”. Se lhe perguntam seu nome, você responde prontamente (…) Mas se lhe fazem uma pergunta mais complicada, você precisa de tempo para responder; há um intervalo de tempo entre o desafio e a reação. Nesse intervalo, a mente fica em busca de uma resposta, a pesquisar, a indagar, a esperar, a questionar. Esse intervalo é o que chamamos pensar.(2)

E esse pensar depende da sua raça, (…) família, do conhecimento, da memória, das marcas do tempo, de suas experiências, (…) dores e sofrimentos, das inumeráveis pressões e agonias da vida, ou seja, do seu background. De acordo com ele, você “reage” ou responde. Por conseguinte, a reação ao desafio é sempre inadequada. (…) E essa insuficiência da reação gera contradição.(3)

Por conseguinte, temos de compreender, não só o mecanismo do pensar, mas também esse depósito de conhecimentos acumulados, com os quais “respondemos” a um desafio, que é sempre novo. Sempre respondemos ao novo com o “velho”: com a tradição hinduísta, se somos hinduístas; (…) com nossos conhecimentos, se somos cientistas, etc. Essa resposta nunca é total, porém sempre fragmentária; por conseguinte, apresenta-se uma contradição, um conflito, uma dor ou um prazer (…) Tal é o ciclo de nossa vida.(4)

O pensamento é condicionado. A mente, que é o depósito de experiências, lembranças, das quais se origina o pensamento, é, ela própria, condicionada; e todo movimento da mente (…) produz resultados peculiares e limitados.(5)

Ora, todo pensar é mecânico, porquanto todo pensar constitui uma reação de nosso background de experiência (…) de memória. E, sendo mecânico, o pensar nunca pode ser livre. Poderá ser razoável, sensato, lógico, conforme o seu background, sua educação, seu condicionamento.(6)

Quando não me conheço a mim mesmo, e não sei que fazer ou que pensar, naturalmente estou envolvido no torvelinho da confusão. Mas quando me conheço a mim mesmo (…) então, dessa compreensão, nasce a claridade, resulta a conduta correta. A compreensão de si mesmo traz amor (…) ordem.(7)

Sobre o pensar correto

Antes de agir, precisamos saber pensar. Não há ação sem pensamento. A maioria de nós, porém, age sem pensar, e o agir sem pensar nos trouxe a esta confusão. Por conseguinte, precisamos descobrir como pensar antes de saber como agir. Você e eu precisamos encontrar a maneira correta de pensar. Se nos limitamos a citar o Bhagavad Gita, a Bíblia ou o Alcorão, isso não tem significação; citar o que outra pessoa disse não tem valor algum.(8)

Para compreendermos a confusão e as misérias que nos atribulam, e compreendermos, assim, o mundo, cumpre acharmos, em primeiro lugar, dentro de nós mesmos, a clareza que se origina do correto pensar. (…) O correto pensar não é produto do simples cultivo do intelecto, tampouco é submissão a padrões, por mais dignos e nobres que se afigurem. O correto pensar nasce com o autoconhecimento.(9)

Só quando você e eu descobrirmos a maneira de pensar corretamente, estaremos aptos a resolver os formidáveis problemas que nos desafiam. Se esperarmos que outros façam esse trabalho para nós, esses outros se tornarão nossos chefes e nos levarão, como sempre, ao desastre.(10)

Ora, como começar a pensar corretamente? Para pensar corretamente, vocês precisam conhecer a si mesmos (…) Se não se conhecem, não tem base para pensar corretamente e, portanto, o que pensarem não terá valor.(11)

Assim, só nas relações podemos descobrir o que é pensar. Isto é, (…) descobrir como pensamos, momento a momento, quais são as nossas reações, e proceder assim, passo a passo, ao desenvolvimento do pensar correto. Isso não é uma coisa abstrata ou difícil, o observar com exatidão o que está ocorrendo em nossas relações, quais são as nossas reações, e assim descobrir a verdade contida em cada pensamento, em cada sentimento.(12) 

O reto pensar só pode ocorrer quando a mente não está escravizada pela tradição ou pela memória. É a atenção que permite que o silêncio sobrevenha à mente, o que representa a abertura da porta para a criação. Eis por que a atenção é da mais alta importância.(13)

Devemos nos tornar cônscios desse complexo problema da dualidade mediante contínua vigilância, não para corrigir, mas para compreender; porque, se não souberem cultivar o correto pensar, origem do esforço verdadeiro, estaremos sempre a desenvolver opostos com seus conflitos infindáveis.(14)

Só o pensar correto pode nos fazer compreender e transcender o composto causa-efeito e o processo dualista. Quando integrados o pensador e o pensamento, pela meditação correta, existe o êxtase do Real.(15)

O pensar correto é um processo contínuo, nascido do descobrimento de nós mesmos, da percepção de nós próprios. Não há começo nem fim nesse processo e, assim, o correto pensar é eterno. O pensar correto transcende o tempo; não o limita o passado, (…) a memória, nem tampouco as fórmulas. Nasce da libertação do temor e da esperança. Sem a qualidade vivente do conhecimento de nós mesmos, não é possível pensar com exatidão. Constituindo um constante processo de auto-revelação, o correto pensar torna-se criador.(16)

O pensamento correto é o pensamento condicionado; é um resultado, um artifício, um composto; geram-no os padrões, a memória, o hábito, a prática. É limitador, cumulativo, tradicional. Forma-se mediante o temor e a esperança, a cupidez e o desejo de vir-a-ser, a autoridade e a limitação. (…) O pensar e o sentir verdadeiros situam-se acima e além dos opostos, ao passo que o pensamento correto ou condicionado é por eles oprimido.(17)

O pensar justo vem no fluir constante da autovigilância, vigilância tanto das ações mundanas como das atividades meditativas. A potência de criar e o êxtase que a acompanha surgem na liberdade, no estar livre do anseio. E isso é virtude.(18)

Acho que é importante compreender que só há “ser” quando não existe mais o pensador, e que no “ser” pode haver radical transformação. (…) Só pode haver revolução radical quando o pensador chega a uma pausa, quando o pensador deixa de existir. Quando é que você tem momentos criadores, um sentimento de alegria, um sentimento de beleza? Certamente, apenas quando o pensador está ausente, quando o processo do pensamento se suspende por um segundo, por um minuto, por um período de tempo; então, nesse espaço, há alegria criadora.(19)

Para se descobrir alguma coisa totalmente diferente, não só é necessário compreender a origem do pensamento, o começo do pensamento, mas também descobrir se é possível o pensamento cessar, a fim de que se ponha em movimento um novo processo. Esta é uma questão importantíssima.(20)

O problema, por conseguinte, é este: “Conhecendo-se a função da mente, tal como é, pode essa mente renovar-se?” (…) Pode essa mente inquieta, volúvel, essa mente que vagueia em todas as direções, que acumula, que rejeita (…) pode essa mente findar instantaneamente e tornar-se silenciosa?(21)

O pensamento cessa, não como resultado da transformação do pensamento, mas tão só pela compreensão dos movimentos do pensador. Quando o pensador está cônscio dos próprios movimentos, quando a mente está cônscia de si mesma em ação (…) você verá, então, que ocorre um período em que a mente fica absolutamente tranqüila, em que ela fica em estado de meditação, em que nada a distrai ou agita. Então, no momento em que o pensamento está em silêncio, surge o ser criador.(22)

Para fazer cessar o pensamento, cabe-me primeiro penetrar no mecanismo do pensar. (…) Impende-me examinar cada pensamento, não deixando escapar um só sem tê-lo compreendido totalmente (…) Se eu acompanhar cada pensamento até a raiz, (…) verei que ele se desfaz por si. Nada tenho de fazer, nesse sentido, pois o pensamento é memória. A memória é a marca deixada pela experiência.(23)

Entretanto, se você perceber a verdade de que só com o findar do pensamento pode o problema ser resolvido, (…) descobrirá então o significado de todo o “o processo” do pensar. O pensar, com efeito, fortalece o “eu”. O “eu”, que é o fator de perturbações, o fator de malefícios e sofrimentos (…) O pensar é produto do “eu”, acumulando durante séculos; por conseguinte, o pensar não nos resolverá os problemas e, sim, pelo contrário, os multiplicará e causará mais sofrimentos.(24)

Se percebemos a verdade desse asserto; se, pelo autoconhecimento, percebemos a verdade sobre como a mente funciona, tanto a mente consciente como a inconsciente - se estamos cônscios do “processo” total, então esse próprio percebimento acarretará a cessação do pensamento, e, portanto, a tranqüilidade da mente.(25)

O findar do pensamento, pois, é essencial; porque a mente precisa estar de todo tranqüila, sem nenhum movimento para trás ou para diante, porque o movimento supõe o tempo e, conseqüentemente, temor e desejo. Assim, quando a mente se acha de todo tranqüila (…) é possível vir à existência aquilo a que se não pode dar nome.(26)

Se eu lhe dissesse que se pode fazer cessar o pensamento, você perguntaria: “Como posso alcançar esse findar do pensamento?” (…) O importante é descobrir a natureza do centro, penetrá-lo e descobrir todo o processo do pensar, por você mesmo (…); e nessa viagem você não pode levar nenhum companheiro. Nem esposa, nem marido, nem guru, nem livro algum pode lhe ajudar. Essa viagem deve ser empreendida completamente a sós.(27)

Já lhe sucedeu alguma vez você se encontrar naturalmente num estado de total ausência de pensamento? Nesse estado, você esta cônscio de si mesmo como pensador, observador, e experimentador? O pensamento é reação da memória, e o feixe de lembranças é o pensador. Quando não há pensamento, existe o “eu” (…)? Não nos referimos a uma pessoa em estado de amnésia, ou a sonhar acordada, ou a controlar o pensamento a fim de silenciá-lo, mas sim à mente que está totalmente desperta, atenta. Quando não há pensamento nem palavra, não está a mente numa dimensão de todo diferente?(28)

Só há percebimento do todo quando a mente está completamente tranqüila. Mas esse silêncio, essa serenidade não é provocada ou produzida por meio de disciplina ou controle. Vem a serenidade só quando cessam as distrações, isto é, quando a mente toma conhecimento de todas as distrações.(29)

Assim, uma mente tranqüila é essencial para a percepção do todo; e só está tranqüila a mente quando compreende cada pensamento e cada sentimento que surge. (…) Resistir, levantar uma muralha de isolamento e viver nesse isolamento, isso não é tranqüilidade. A tranqüilidade que é cultivada, disciplinada, forçada,(…) é ilusória.(30)

Agora, para um homem que deseja encontrar a Realidade ou a compreensão que lhe revelará a Realidade, para esse homem o pensamento deve cessar - pensamento no sentido de totalidade do tempo. E como pode cessar o pensamento? - mas não por meio de nenhuma espécie de exercício, disciplina, controle, repressão.(31)

Vê-se, pois, que o pensador e o pensamento são um só todo; sem pensamento não há pensador. E quando não há pensador e só há pensamento, há então um estado de percebimento sem pensamento; o pensamento desaparece.(32)

O relevante, pois, é que a mente (…) comece a investigar a si mesma (…) Se você compreender bem isso, verá que a mente se torna sobremodo tranqüila, não apenas a mente consciente, mas também a mente inconsciente (…) Mas só se verifica essa tranqüilidade total da mente quando há a tremenda energia do autoconhecimento. É o conhecimento que traz essa energia.(33)

Conhecer o processo integral da mente - todas as suas inclinações, “motivos”, propósitos, seus talentos e suas exigências, seus temores, frustrações e sucessos - conhecer todas essas coisas significa estar tranqüilo e não permitir que elas atuem. Só então pode manifestar-se o que se acha além da mente. (…) Só a mente que compreende o processo total, pode receber as bênçãos do Real.(34)

Parece-me assaz evidente que, para compreender um problema complexo, e principalmente um problema psicológico, seja necessária uma mente muito quieta, (…) tranqüila, mas não com uma tranqüilidade forçada.(35)

O que impede essa tranqüilidade é, sem dúvida, o conflito. Quase todos vivemos cheios de agitação (…) E é essencial (…), para a perfeita compreensão de um problema, que se tenha uma mente silenciosa, sem preconceito, capaz de libertação, tranqüila e que permita ao problema revelar-se, desdobrar-se. E uma mente assim quieta (…) é impossível quando há conflito.(36)

Mas, uma mente que está tranqüila, que não é posta tranqüila, que não é forçada ao silêncio; uma mente que está tranqüila porque tem verdadeiro interesse, porque divisou a verdade, porque a verdade veio a ela, é inteligente e se liberta do conflito.(37)

O conflito se dissolve pela percepção de cada movimento do pensamento e do sentimento, e pela percepção da verdade relativa a tais movimentos. A verdade só é perceptível, ou só pode vir à existência, quando não existe condenação, justificação e comparação; só então está a mente tranqüila, só então se acaba a memória.(38)

A simplicidade, portanto, só vem a existir no processo da compreensão de nosso complexo “eu”, (…) Quanto mais compreendo “o que é”, (…) tanto mais me liberto de conflitos e de sofrimentos. (…) E assim como é tranqüila a superfície de um lago, assim também fica a mente tranqüila depois de compreender todo o processo do esforço. E, na tranqüilidade da mente, manifesta-se o atemporal.(39)

Só quando ausente o “eu”, existe a possibilidade de a mente estar quieta, e, portanto, apta a compreender, apta a receber aquilo que é eterno. (…) Mas, para que o eterno seja, torna-se necessário, evidentemente, que as atividades, as fabricações, as projeções do “eu” cessem inteiramente. E o cessar dessa projeção é o começo da meditação (…) Porque a compreensão de si mesmo é o começo da meditação; e sem meditação não há possibilidade de compreender-se o “eu”.(40)

Em momentos de intensa criação, de grande beleza, há uma tranqüilidade absoluta; em tais momentos, verifica-se uma ausência completa do “ego” e de todos os seus conflitos; é essa negação - a forma suprema do pensar-sentir - que é essencial para alcançarmos o estado de potência criadora. (…) Depois de experimentar uma vez essa tranqüilidade viva, o pensamento-sentimento prende-se à sua lembrança, impedindo assim a continuidade da experiência da realidade.(41)

Textos de Krishnamurti, extraídos de: Seleta de Krishnamurti
 Fontes das citações:
(1) Encontro com o Eterno, pág. 85
(2) A Suprema Realização, pág. 46
(3) A Suprema Realização, pág. 46
(4) A Suprema Realização, pág. 47
5) Diálogos sobre a Vida, pág. 59
(6) O Passo Decisivo, pág. 174
(7) A Arte da Libertação, pág. 78
(8) A Arte da Libertação, pág. 13)
(9) O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 7
(10) A Arte da Libertação, pág. 13
(11) A Arte da Libertação, pág. 13
(12) Nosso Único Problema, pág. 18
(13) O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 17
(14) Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 36
(15) O Egoísmo e o Problema da Paz, 1ª ed., pág. 25
(16) Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 49-50
(17) Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág.50
(18) O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 53
(19) Da Insatisfação à Felicidade, pág. 65
(20) Encontro com o Eterno, pág. 75
(21) Poder e Realização, pág. 84
(22) Da Insatisfação à Felicidade, pág. 65-66
(23) Visão da Realidade, pág. 105
(24) Viver sem Temor, pág. 68-69
(25) Viver sem Temor, pág. 69
(26) A Renovação da Mente, pág. 45
(27) O Homem Livre, pág. 96
(28) A Outra Margem do Caminho, pág. 32
(29) A Arte da Libertação, pág. 46
(30) A Arte da Libertação, pág. 47
(31) O Homem Livre, pág. 149
(32) Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 119
(33) O Homem Livre, pág.151
(34) As Ilusões da Mente, pág. 116
(35) Nós somos o Problema, pág. 44
(36) Nós somos o Problema, pág. 44
(37) O que te fará Feliz?, pág. 96
(38) O que te fará Feliz?, pág. 96-97
(39) Nós Somos o Problema, pág. 98
(40) Nós Somos o Problema, pág. 60



Não pensamos - o pensamento acontece em nós.

No caso da maioria das pessoas, quase todos os pensamentos costumam ser involuntários, automáticos e repetitivos. Não são mais do que uma espécie de estática mental e não satisfazem nenhum propósito verdadeiro. Num sentido estrito, não pensamos - o pensamento acontece em nós. A afirmação "Eu penso" implica volição. Ou seja, podemos nos pronunciar sobre o assunto, podemos fazer uma escolha. Mas isso ainda não é percebido pela maior parte das pessoas. "Eu penso" é uma afirmação simplesmente tão falsa quanto "eu faço a digestão" ou "eu faço meu sangue circular". A digestão acontece, a circulação acontece, o pensamento acontece.

A voz na nossa cabeça tem vida própria. A maioria de nós está à mercê dela; as pessoas vivem possuídas pelo pensamento, pela mente. E, uma vez que a mente é condicionada pelo passado, então somos forçados a reinterpretá-lo sem parar. O termo oriental para isso é carma. Quando nos identificamos com essa voz, ignoramos isso. Se soubéssemos, não seríamos mais possuídos por ela, porque a possessão só acontece de verdade quando confundimos a entidade que nos domina com quem nós somos, isto é, quando nos tornamos essa entidade.

Ao longo de milhares de anos, a mente vem intensificando seu domínio sobre a humanidade, que deixou de ser capaz de reconhecer a entidade que se apossa de nós como o "não-eu". Por causa dessa completa identificação com a mente, uma falsa percepção do eu passa a existir - o ego. A densidade dele depende do grau em que nós - a consciência - nos identificamos com a mente, com o pensamento. Pensar não é mais do que um minúsculo aspecto da totalidade da consciência, de quem somos.

O grau de identificação com a mente difere de indivíduo para indivíduo. Algumas pessoas desfrutam de períodos em que se encontram libertas do domínio da mente, ainda que brevemente. A paz, a alegria e o ânimo que elas experimentam nesses momentos fazem a vida valer a pena. Essas também são as ocasiões em que a criatividade, o amor e a compaixão se manifestam. Outras pessoas se mantêm presas ao estado egóico de modo contínuo. Permanecem alienadas de si mesmas, assim como dos demais e do mundo ao redor. Quando as observamos, conseguimos ver a tensão na sua face, talvez a testa franzida ou um olhar vago e distante. A maior parte da sua atenção está sendo absorvida pelo pensamento, por isso não nos vêem nem nos escutam. Elas não estão presentes em nenhuma situação - sua atenção está ou no passado ou no futuro, que, é claro, são formas de pensamento que existem apenas na mente. Ou, se estabelecem um relacionamento conosco, fazem isso por meio de algum tipo de papel que interpretam e, assim, não são elas mesmas. As pessoas, em sua maioria, vivem alienadas de quem elas são. Às vezes esse estado chega a tal ponto que a maneira como se comportam e se relacionam é reconhecida como "falsa" por quase todo mundo, a não ser por aqueles que também são falsos e igualmente alienados de quem são.

Alienação quer dizer que não nos sentimos à vontade em nenhuma situação, em nenhum lugar nem com ninguém, nem mesmo conosco. Estamos sempre tentando nos sentir "em casa", mas isso nunca acontece. Alguns dos maiores escritores do século XX, como Franz Kafka, Albert Carnus, T. S. Eliot e James Joyce, não só reconheceram a alienação como o dilema universal da existência humana como é provável que a tenham sentido em si mesmos de modo profundo e, assim, foram capazes de expressá-la excepcionalmente em suas obras. Eles não ofereceram uma solução. Sua contribuição foi nos proporcionar uma reflexão sobre essa dificuldade humana, para que pudéssemos vê-la com mais clareza. Ter uma visão mais nítida de uma situação complicada em que nos encontramos é o primeiro passo no sentido de superá-la.

Eckhart Tolle - Um Novo Mundo - O Despertar de uma Nova Consciência - Ed. Sextante






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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill