“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

O que motiva a não aceitação do mundo espiritual?


[...] Deve haver um determinado clima, uma imponderável atmosfera em certas pessoas; e neste ambiente germina com facilidade a semente da certeza espiritual, sem nenhuma argumentação violenta. Em outras pessoas, a mesma semente não brota. 

Será que A é de natureza crédula, emocional, ao passo que B é naturalmente incrédulo, cético? 

Entretanto, a mais profunda razão dessa diferença é outra. 

Um vive habitualmente num clima propício à aceitação do mundo espiritual, e por isso enxerga facilmente os fatos que têm afinidade com a sua atitude positiva; toda a moralidade do seu ser interno, mesmo inconsciente, é favorável à aceitação do fato. O que na verdade, determina o assentimento do homem não é este ou aquele argumento analítico — que não passa de um catalisador, de uma espoleta de ignição, que lança a faísca na massa explosiva preexistente. O interno Eu do homem espiritual é como a lenha seca que pega fogo com a aproximação de uma pequenina chama de fósforo — ao passo que em outra alma essa lenha está muito úmida, e não reage facilmente à ignição da chama. 

Em nossos cursos de filosofia cósmica tenho feito, através de muitos anos, a observação que "compreender" não quer dizer ter ouvido ou lido; "compreender" não é um ato isolado, desconexo, mas supõe uma longa série de atos, até que esses atos formem uma atitude, uma longa cadeia de elos concatenados. Finalmente, quando todo o ambiente está saturado de atitude propícia, surge essa coisa misteriosa e indescritível que se chama "compreensão". 

Essa compreensão não vem de provas, demonstrações, argumentos analíticos — que podem servir de lenha, mas a lenha, por mais seca, não ateia fogo em si mesma. Todos esses preliminares conscientes são necessáriosmas nenhum deles é suficiente para a ignição ou compreensão final. Algo do extraconsciente deve acontecer para que o consciente pegue fogo.

É, pois, de suma importância essa creação de ambiente, porque "quando o discípulo está pronto, o Mestre aparece"...
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O chute psíquico e o mistério da compreensão


Compreender — que é isto?

Não é apenas inteligir, entender, pensar, analisar. 

É "com-preender" — prender totalmente. 

Compreender é uma tremenda experiência — mortal e vital ao mesmo tempo. 

É um misterioso morrer e nascer. 

É um sofrimento redentor — porque morrer e nascer são sofrimento. 

Sofrimento rumo a uma vida maior...

Ninguém compreende algo de grande sem passar por um grande sofrimento — por um morrer e por um nascer.

Quem não é crucificado, morto e sepultado não pode ressuscitar para uma páscoa de compreensão. 

Quantas vezes defrontamos com esse tenebroso enigma: queremos fazer alguém compreender uma grande verdade, e não o conseguimos; essa verdade o poderia preservar de uma tragédia existencial — mas ele não nos compreende...

Por que não?

Porque ainda não sofreu devidamente as dores de parto — e por isto não pode dar à luz a prole da Verdade redentora. Falta-lhe ainda um fator preliminar — quiçá um grande terremoto, uma tempestade, um incêndio de Pentecostes. E ninguém lhe pode dar esse abalo redentor; terá de vir de dentro dele mesmo...

Para que o homem possa ver as estrelas do céu, tem de descer primeiro às profundezas do inferno, de um inferno de sofrimento, aceito e compreendido... 

Só pelo terrível contraste das trevas é que o homem enxergará a luz. 

Tudo quanto o egoísmo creou de terrífico sobre a face da terra — guerras, devastação, tragédia, miséria, angústias, morte — por tudo isto tem de o homem passar antes que o filho pródigo amadureça para a grande eclosão do reino de Deus. 

Na verdade, o homem só aceita aquilo que ele mesmo sofre e experimenta nas mais profundas profundezas do seu ser; ninguém se converte com bons conselhos de amigos; só o trágico dilema de ser ou não-ser o fará mudar de rumo.

É a crise redentora...

O homem só compreende realmente aquilo que ele mesmo sofreu em angústias mortíferas e salutíferas...

Quando me encontro com um homem assim, redimido pelo sofrimento aceito e compreendido, sinto que estou diante de um novo mundo, de inaudita grandeza e formosura. E não tenho a menor vontade de falar, de analisar, de pensar — só tenho vontade de calar, admirar, gozar, adorar... Vontade de ser deliciosamente...

Um homem assim é um redentor. O seu silencioso ser é muito mais poderoso que todo ruidoso dizer ou fazer de outros. Ninguém se converte por causa de belas palavras, ou elevados pensamentos — só se converte aquele que entrou no campo imantado de um homem divinizado por uma compreensão da Verdade libertadora. 

Ao Tabor — só através do Getsêmane e do Gólgota...

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Da impotência do ego à onipotência do Ser


Toda verdadeira YOGA, meditação, contemplação, ou que outro nome tenha, visa essencialmente a isto: remover de dentro do homem todos os impedimentos e entraves creados pelo seu ego e que lhe vedam realizar a experiência do seu Eu central. O homem que não realiza essa experiência de profundidade, mas se limita ao círculo vicioso das suas periferias, está radicalmente desviado da sua órbita, do seu verdadeiro destino, entregue à tirania do mundo objetivo e às potências do caos, por mais próspera que talvez seja a sua vida terrestre. Abriu falência no plano central da sua verdadeira razão-de-ser. Vitorioso talvez nos secundários, é derrotado no primário.

Somente pela experiência vital do seu centro entra o homem na sua órbita cósmica, que lhe garante harmonia existencial e imortalidade.

De dentro dessa experiência vital do seu Eu central pode o homem crear, também aqui na terra e em todos os setores da vida, um destino feliz e harmonioso; deixa de ser joguete da tirania da causalidade mecânica que rege o mundo inferior, e tornar-se autor e ator da causalidade dinâmica, da auto-determinação do seu livre-arbítrio; passa da velha escravidão da heteronomia para a nova liberdade da autonomia. Verifica que tudo é possível àquele que tem fides, fidelidade a seu verdadeiro Ser, e nada lhe é impossível. Quem liga os seus canais com a Fonte da Onipotência torna-se onipotente por participação.

Nesta nova dimensão da sua vida, experimenta o homem, pela primeira vez, a sua total alteridade em face de todas as coisas do mundo circunjacente; verifica, talvez com jubilosa surpresa, que ele não é uma peça na máquina do mundo objetivo e impessoal que o rodeia; mas que, pelo poder do seu livre-arbítrio, ele está desligado do automatismo escravizante dos objetos externos; nasceu, finalmente, para a onipotência do seu Eu central e morreu para todas as impotências ou semi-potências do seu ego periférico. Verifica que essa onipotência estava sempre dentro dele, mas ele a ignorava — e uma onipotência ignorada funciona como impotência. O que redime o homem de todas as suas misérias tradicionais não é o fato da sua onipotência central, mas é somente a consciência desse fato; não é o fato dormente, mas é o fato plenamente acordado, que é a consciência do fato. A Verdade é universal e onipotente — mas somente o conhecimento consciente da verdade é que liberta o homem de todas as suas escravidões.

E esse conhecimento consciente não é apenas uma análise mental, mas sim uma realização vital. É necessário que o Verbo mental se faça carne vital, cheio de graça e de verdade.

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Ninguém escolhe ter um espírito Outsider

A importância do silêncio e da solidão

[...] A alma desta terapia (cosmoteparia) só pode ser conscientizada em período de profundo silêncio e solidão. Enquanto o homem não tomar a sério o sentido desse silêncio e dessa solidão não haverá cosmoterapia. Todos os grandes iluminados e iniciados, de todos os tempos e países, viveram dias, semanas, meses, e alguns até anos, em profundo e dinâmico silêncio, permitindo que a plenitude cristo-cósmica fluísse para dentro da sua ego-vacuidade. 

Enquanto o nosso pequeno ego pensa, fala e ouve falar, consegue ele sobreviver – mas, quando deixa de pensar, de falar e de ouvir falar, começa a agonizar e, se persistir no silêncio, acabará por se afogar nesse Oceano Pacífico do silêncio redentor. E então, após esse egocídio, pode nascer o Eu crístico, e esse homem pode dizer:

“Eu morri, e é por isto que eu vivo, mas já não sou eu (ego) que vivo, o Cristo (Eu) é que vive em mim”. Eu não sou mais ego-vivente – eu sou Cristo-vivido”...

O ego vive no barulho e do barulho – e morre no silêncio. 

O Eu, sendo Deus no homem, vive no silêncio como a Divindade. Mas esse silêncio é mil vezes mais fecundo que todos os ruídos. Não é um silêncio-vacuidade, é um silêncio-plenitude. Não é um silêncio de ausência, é um silêncio de presença – é a mais poderosa presença, a onipresença cósmica da Infinita Realidade.  

Somente esta poderosa presença da Realidade é que pode realizar o homem. Nunca nenhum homem se realizou a não ser nas profundezas do Silêncio-Realidade. 

Huberto Rohden em, Cosmoterapia

Não faz sentido investir no que chamam de normalidade

Indícios que pressagiam a vinda da Graça


Não é preciso que façamos qualquer gesto exterior de renúncia ao mundo — embora o destino talvez o ordene — a fim de chegar a esse ponto de total auto-sujeição. Pois não somos instados a nos render a um determinado assunto ou pessoa, MAS NO SENTIDO PESSOAL INTERIOR QUE NOS MANTÊM CATIVOS. Esse SENTIDO DO EGO não pode ser banido por nenhuma força nossa, da mesma forma pela qual um homem não pode erguer-se com a ajuda dos cordões dos próprios sapatos. Conquanto durante a fase adiantada todo o objetivo do nosso esforço dirija-se para o ESVAZIAMENTO DA MENTE DE TODOS OS SEUS PENSAMENTOS e para possibilitar ao incontestável Eu Superior responder á nossa pergunta, não devemos, contudo, imaginar que seremos capazes de parar de pensar à custa dos nossos próprios esforços. O pensamento só cessará quando um poder superior se impuser a ele. Tal poder pertence ao Eu Superior e, assim sendo, aquilo que realmente fazemos é CONVIDAR, ROGAR e PERMITIR ao Eu Superior que torne o turbulento intelecto silencioso e calmo. O que pode ser feito é PREPARAR o caminho e REMOVER os obstáculos ao advento de um Poder Maior, que não é senão a Graça do Eu Superior. A Graça é o guardião do tempo. É a comunicação da Graça, essa manifestação de uma autoridade maior do que a nossa, que acaba por EXTINGUIR A NOSSA VINCULAÇÃO COM O EGO e dar-nos a inimaginável paz da liberação. Talvez haja uma grande distância a percorrer até chegar a esse ponto, mas isso não nos deve impedir de fazer a tentativa. "Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos" são as palavras do Mestre Cristão, embora a mera manifestação de interesses ligados a este caminho possa ser um sinal de que a pessoa se inclua entre aqueles poucos felizardos. E mesmo que esse ponto elevado não seja atingido, OS ESFORÇOS JAMAIS SERÃO DESPERDIÇADOS. Um pouco de paz, um pouco de iluminação com certeza serão conseguidos em troca. 

A atuação desse poder da Graça é misteriosa. O nosso dever é PREPARAR AS CONDIÇÕES ADEQUADAS, a atmosfera conveniente dentro da qual o Eu Superior possa conceder sua revelação, pois não somos capazes de prever o momento exato em que tal revelação irá ocorrer, mesmo depois de preparada as condições. 

A Graça é considerada como um movimento definido do ser interior do aspirante, um movimento que tende a apossar-se dele e introvertê-lo ainda mais. A GRAÇA É SEMPRE EXPERIMENTADA COMO UMA MANIFESTAÇÃO INTERIOR À REGIÃO DO CORAÇÃO. 

Ela surge no interior do aspirante com tal força e se apossa de tal forma dos seus sentimentos e pensamentos que ele não apenas percebe ser inútil qualquer resistência como também não sente nenhuma inclinação a resistir, pois sua consciência está como que sob efeito de um encantamento. Tudo começa com a sensação de que algo SE ESTÁ DERRETENDO DENTRO DO CORAÇÃO. A seguir acontece uma revolução de todos os primitivos pontos de vista acerca da vida, durante a qual o orgulho, o preconceito, as ideias arraigadas, os desejos e as aversões são todos atirados a um canto e desaparecem por algum tempo. O desfecho é uma maior ou menor RENDIÇÃO DO EGO AO DIVINO GOVERNANTE recém-aparecido. Esta experiência poderá repetir-se amiúde ou não voltar a acontecer por muito tempo. Se se der a primeira hipótese, então o aspirante é um homem de sorte e o progresso da sua iluminação será deveras rápido; espantosas transformações irão ocorrer em sua vida, até que ele chegue a uma REVELAÇÃO não mesmo certa, precisa e definitiva do que sublime. A Graça poderá baixar tão apenas por cinco minutos, como poderá também persistir durante cinco horas. Nesta eventualidade o aspirante será um grande felizardo e, em consequência, passará por uma grande modificação. Foi através dessas generosas manifestações da Graça que ocorreram notáveis conversões na história religiosa da humanidade, tanto no Leste como no Oeste. 

Há indícios que pressagiam a vinda da Graça. O principal dentre eles é um forte desejo de luz espiritual que mais e mais toma CONTA DO CORAÇÃO, que atormenta o homem com frequência e que faz o resto parecer insatisfatório. A vida comum parece tornar-se insípida, estúpida, oca, mecânica e opressiva. A rotina diária torna-se espectral e despropositada. Quando essa aspiração intensa transforma-se como que numa poderosa corrente na vida emocional de um homem, ele poderá começar a pensar então que a sua gratificação não está muito distante. E quanto maior a intensidade do desejo, maior será a manifestação da Graça concedida. 

Entre os arautos da vinda da Graça encontra-se logo a seguir o ato de chorar, seja em virtude da ausência dessa luz espiritual, seja em virtude de alguma palavra, acontecimento, pessoa ou retrato que recorde a existência do Eu Superior. Tal pranto nem sempre será visível e exterior; poderá ocorrer SILENCIOSAMENTE NO FUNDO DO CORAÇÃO. Quando, porém, as lágrimas fizerem a sua aparição, não deveremos lhes resistir, mas ceder à sua pungente emoção, até mesmo ao ponto de derramá-las com frequência, tanto quanto o permitam as circunstâncias externas. ESSAS LÁGRIMAS SÃO ALIADOS DE VALOR NA CAUSA DO ASPIRANTE; ELAS TRAZEM CONSIGO UMA MISTERIOSA INFLUÊNCIA QUE TENDE A DISSOLVER AS DURAS INCRUSTAÇÕES CONSTITUÍDAS PELO EGO QUE BARRAM A ENTRADA DA GRAÇA. Através de sua ajuda suave porém poderosa muita coisa é conseguida, às vezes tanto quanto seria conseguido através do esforço da meditação. 

Por essa razão recebamos de braços abertos essas visitantes, quando elas vierem e choremos franca e deliberadamente se nos for possível estar a sós, ou silenciosa e ocultamente se for o caso, permitindo desta forma que as nossas deficiências auto-engendradas desapareçam. Tais anseios e tal pranto para serem eficazes deverão abalar o aspirante até as profundezas do seu ser. Na verdade, as lágrimas devem decorrer de uma compulsão interior. Somente aquele que sabe como chorar pelo mais Alto e como abster-se de chorar pelos desenganos mundanos está apto a conhecer a Verdade. 

Outros sintomas também poderão manifestar-se; o aspirante poderá ter um único e profético sonho, o qual será capaz de traduzir intuitivamente como uma mensagem do Eu Superior. Tal sonho será extraordinariamente vívido e inesquecível. Ademais, poderá ocorrer alguma modificação nas circunstâncias da sua vida terrena ou até mesmo alguma crise nos seus negócios indicando que é chegada a hora — ou que chegará dentro em breve — de mudar-se para novas vizinhanças, portadoras de novas influências. Desta e de outras maneiras, bem como em função dos seus sentimentos interiores, poderá o aspirante saber que se aproxima um período de luz espiritual. 

Um canal importante através do qual a Graça poderá atuar quando, finalmente, vier, é aquele que a ligue com alguma atividade externa do homem. Não raro a separação ou a morte de uma pessoa muito querida acarreta tal coisa, e como consequência do intenso sofrimento resultante, a vida do aspirante poderá receber uma orientação inteiramente nova em que a Graça poderá vir como uma espécie de compensação pela perda sofrida. A princípio ele terá contudo que passar por TODAS AS FASES DA AGONIA da sua perda e quando, por fim, a Graça começar a bafejá-lo, o aspirante irá descobrindo gradualmente que é capaz de suportar a dor com resignação. Já não terá um fardo a esmagá-lo, pois perceberá que o desaparecimento da outra pessoa da sua vida encerra um significado espiritual. O sacrifício que lhe foi imposto poderá fazer nascer em sua alma, primeiro um sentimento de resignação e depois a aceitação da vontade de Deus, o que afinal lhe trará a compensação da paz interior. O próprio ato da aceitação transferirá para Deus o seu ônus e em boa parte o libertará de novos sofrimentos nesse sentido. O sofrimento numa forma tão aguda poderá em última instância ser o arauto de uma serenidade compensadora ainda por vir. Não devemos, contudo, imaginar a partir disto que a Graça sempre nos magoa onde somos mais passíveis de nos magoar. Ela pode vir sem o concurso de um arauto tão pouco auspicioso. 

A outra forma humana através da qual a Graça pode vir inicialmente a um aspirante é a de um sábio ou iniciado — ou mesmo um discípulo especial de qualquer um destes — que via de regra poderá ser usado como um instrumento adequado para transmiti-la. Mas isto supõe alguns fatores incomuns, e tais homens raramente surgem no nosso caminho neste século vinte, embora alguns iniciados autopromividos continuem a enganar aos outros ou a si mesmos. 

Paul Brunton - A Busca do Eu Superior

Breve recado

Meu amigo tudo que é preciso, a única coisa necessária, a pérola de maior valor, o grande peixe, não será descoberto pela mente e suas limitadas racionalizações.... Isso encontra-se bem no centro do seu peito cansado, bem na dimensão de seu sofrido coração. Sei que isto soa como mais um clichê, mas lhe garanto que não é.

É preciso meditar na nossa respiração, observar sua presença, entrar em seu compasso, retomar nosso ritmo e sair da disritmia.

Quando vamos fazendo isso, começamos a ter um CONTATO CONSCIENTE COM O SOPRO QUE NOS HABITA E QUE NOS ANIMA.

Não fomos educados espiritualmente para perceber o Sopro do Espírito Único que tudo permeia, o qual, em última análise, É O SI MESMO, EM SI MESMO E POR SI MESMO.

Nossa mente, como vive de agitação, tudo sugere para que não sentemos com ISSO que somos. Ela diz que ISSO, vai estar em qualquer outro lugar, numa prática qualquer ainda por nós desconhecida.

E assim passamos anos e anos feito um pequeno e assustado Hamster em sua roda condicionante.

Tudo é muito simples...

Sente-se... Aquiete-se... Observe... Absorva o ritmo Sopro... E absolva-se das ilusões mentais e emocionais que alimentam a disritmia egóica...

Permita-se contemplar a Sagrada Presença e Seu Criativo Pensamento Puro.

Por mais que sua mente duvide, lhe garanto:

É simples assim!

Out

Palestra sobre Paul Brunton

Palestra realizada em 18/03/2007
Série:
Estudos com Alan Berkowitz
Inglês com tradução consecutiva para Português
Duração:
1 h
Lembranças de Paul Brunton e idéias de seus Notebooks
Insights, filosofia comparada, vegetarianismo, papel de um mensageiro cósmico e informações sobre Wisdom's Goldenro

A retomada da consciência de nossa Real Natureza

O desconhecimento místico da maioria

O fato é que a maioria das pessoas não está familiarizada com o ponto de vista místico, está desinformada sobre os ensinamentos místicos e não se sente atraída pelas práticas místicas. Isso, em parte, se deve a que existem poucos místicos no mundo e à ausência de suficiente informação confiável sobre misticismo; em outra parte, porque as tendências predominantes na maioria das pessoas são materialistas e pelos valores que consideram como os mais importantes serem sensuais.

Assim, prevalece o desprezo ao misticismo entre aqueles que nem sabem o que de fato ele significa.

Enquanto os seres humanos não vierem a conhecer e sentir seu ser real – que existe dentro do ser de Deus – a fricção e a hostilidade prevalecerão entre eles.

Visivelmente está ausente a beleza em suas mentes, em suas atitudes e em seus lares; a verdade não é uma ideia cuja descoberta seria excitante para eles; a bondade é tida como certa, mas só em um nível burguês comum.

Todas as suas ideias sobre a verdade estão limitadas pelas ilusões, falsidades, feiuras e fraquezas que limitam e sustentam suas próprias mentes.

A maioria das pessoas vive na superfície de suas consciências sem terem conhecimento do grande Poder e Inteligência que as sustenta.

Todos aqueles que estão demasiado imersos em atividades externas ao ponto de não terem nenhuma vida interna, morrem antes mesmo de estarem mortos.

Em um extremo, estão aqueles que permanecem cativos à convenção; em outro, os que se regozijam em ridicularizar a opinião pública.

A atitude comum considera aquilo que está além da compreensão humana como algo que não lhes concerne.

Todas essas pessoas procuram fugir das responsabilidades próprias ao tentarem encontrar alguém mais que tome as decisões por elas e que seja o responsável pelos resultados subsequentes; alguém que possam se ocultar por trás, diante dos estresses do mundo, e cuja proteção as permita evitar a necessidade de pensar, de terem vontade própria e de viverem suas experiências por elas mesmas.

Não existe um propósito interno, nenhuma significância espiritual e nenhum objeto de valor real em suas vidas. Elas passam através dos anos na direção de coisa alguma. Movem-se de uma ação a outra sem terem qualquer consistência ou princípio. Tateiam através da vida como se fossem jogadores em um jogo de cabra-cega. Ou não sabem como conduzir suas vidas ou falham ao conduzi-la na direção errada. Elas necessitam de ajuda, de orientação e de terem uma direção em suas vidas. Contudo, o conselho que não é solicitado não é bem-vindo.

Sua necessidade é a de ideias definitivas e revigorantes que as liberem da extenuante perplexidade e de uma fé iluminadora que as permita viver nesse mundo de sombras.

Mas, para isso, seus interesses não deveriam girar somente ao redor de si mesmas ou ao redor de seus interesses ampliados representados pela família.

A crosta dos condicionamentos e a Broca do Ser que somos

Sobre guardar silêncio e o falar


Nós índios sabemos do silêncio. Não o tememos.

De fato, para nós é mais poderoso que as palavras…

Nossos anciãos foram educados nas maneiras do silêncio, e eles nos transmitiram esse conhecimento. Observa, escuta, e logo atua, nos diziam. Essa é a maneira de viver.

Observa os animais para ver como cuidam de suas crias. 

Observa aos anciãos para ver como se comportam.

Observa o homem branco para ver o que quer...

Sempre observa primeiro, com coração e mente quietos, e então aprenderás. 

Quando tenhas observado o suficiente, então poderás atuar. 

Com vocês é o contrário. Vocês aprendem falando. 

Premiam as crianças que falam mais na escola. 

Em suas festas todos tratam de falar. 

No trabalho sempre estão tendo reuniões nas quais todos interrompem a todos, e todos falam cinco, dez ou cem vezes... e o chamam "resolver um problema". 

Quando estão numa residência e há silêncio, tornam-se nervosos. Têm que encher o espaço com sons. 

Assim, falam impulsivamente, inclusive antes de saber o que vão dizer. 

O povo branco gosta de discutir. Nem sequer permitem que o outro termine a sua frase. Para os índios, isto é muito desrespeitoso e, inclusive, muito estúpido...

Sempre interrompem.

Se começas a falar, eu não vou lhe interromper. O escutarei.  

Quem sabe deixe de lhe escutar se for desagradável o que estejas dizendo. 

Porém, não vou lhe interromper... Quando terminares, tomarei minha decisão sobre o que dissestes, porém, não lhe direi nada se não estiver de acordo, a menos que seja importante... Ao contrário, simplesmente me manterei calado e me afastarei.

Me dissestes o que necessito saber...

Não há nada mais a dizer.

Porém, isso não é o suficiente para a maioria da gente branca. 

A gente deveria pensar em suas palavras como se fossem sementes.

Deveriam plantá-las, e logo lhes permitir cresceeme em silêncio. 

Nossos anciãos nos ensinaram que a terra sempre nos está falando, mas que devemos guardar silêncio para lhe escutar. 

Existem muitas vozes além das nossas. Muitas vozes...

"Guarda tua língua na juventude", disse o velho chefe Wabashaw, “e na maturidade, quem sabe, firmes um pensamento que seja de utilidade a teu povo”.

(Ohiyesa/Dr.Charles A. Estman, Dakota santee, 1902)



Extratos do livro "Nem lobo nem cão. Por caminhamos esquecidos com um índio ancião" de Kent Nerburn.

Das artimanhas do ego


O que ele fez foi transferir o ego, com sua ganância autocentrada, sua complacência arrogante e sua colossal ignorância sobre sua própria origem, das atividades no mundo para as atividades espirituais. O ego fará qualquer coisa possível para preservar sua existência e arquitetará todo recurso possível para assegurar seu futuro. É por isso que, raramente, o indivíduo desperta para o que está acontecendo e, assim, o destino poderá vir a esmagá-lo no chão, destruindo seu sono. Se tal situação ocorrer enquanto ele for comparativamente jovem, quando seus poderes ainda estiverem fortes, e não no fim da vida, quando eles estarão mais débeis e menos eficazes, ele em verdade será afortunado, embora, com certeza, não pensará desta forma nessa idade.

É tanto um ironia como uma tragédia na vida que utilizemos nossa cota estrita e limitada de anos de vida em propósitos que, posteriormente, perceberemos que foram inúteis e em desejos que nos trazem sofrimentos quando realizados. Um moribundo, que vê o filme de sua vida passada lhe ser revisionada através de flashes diante de seus olhos, descobrirá essa ironia e sentirá essa tragédia.

Quando vier a descobrir que vinha seguindo sua própria vontade mesmo quando acreditava que estava seguindo a vontade do eu mais elevado, é que realizará a extensão do poder do ego, o prolongado tempo que será necessário para subjugá-lo e o que terá de sofrer antes que isso seja alcançado. 

Um dia o aspirante se sentirá completamente cansado do ego; verá então quão astuta e insidiosamente ele se imiscuiu em todas as suas atividades; como, mesmo nas atividades supostamente espirituais ou altruístas, esteve apenas trabalhando para o ego. Nessa aversão pelo seu eu terreno, o aspirante irá orar para libertar-se. Verá como esse ego o enganou no passado, como todos os seus anos foram monopolizados pelos desejos dele, como sustentou, alimentou e cuidou dele, mesmo quando pensava estar espiritualizando a si próprio ou servindo a outros. Orará então fervorosamente para ser libertado do ego, procurará avidamente desidentificar-se e desejará ardentemente ser tragado no nada de Deus. 

O impulso que compele o ser humano a buscar a verdade ou a encontrar a Deus vem de algo que é mais elevado do que seu ego. 

O pecado do orgulho espiritual é o do indivíduo se sentir orgulhoso por ser um aspirante espiritual. Ele não percebe que quase sempre é ele que está no centro de sua busca, enquanto que seria SUA relação com Deus que importaria. Ele está sempre apegado ao ego!

Será necessária uma real humildade para que ele reconheça que está errado. Tal sentimento o beneficiará de duas formas: corrigirá sua tendência errada e diluirá a inflação do ego.

Quando puder perdoar a Deus por toda a angústia de suas calamidades passadas e aos outros homens e mulheres pelos erros cometidos, ele chegará à paz interna. Pois é justo isso que seu ego não pode fazer.

Lao Tzu louvava a modéstia no comportamento social e o mínimo de conversa entre os outros. Tais sugestões tinham a intenção de pôr o ego no seu lugar e torná-lo humilde.

Oito minutos de prosa sobre família funcional

Será que conhecemos o real coração de nosso ser?


No contexto de nossa experiência pessoal, sabemos que a consciência é mais do que a mente racional. Possuímos todo um undo interior de reações e respostas; vivenciamos amor e apreciação, e sentimos alegria quando abrimos nosso coração para os outros. Os nossos sentimentos de bem-estar brotam de uma fonte interior que não entendemos completamente. Sabemos da existência da intuição e da inspiração, mas não temos meios de explicá-las; conhecemos a criatividade mas não conseguimos despertá-la por um ato racional ou volitivo. Somos sensíveis a uma sensação de admiração e poder que transcende o nosso senso de eu, e podemos manifestar compaixão pelos nossos semelhantes.

Estas parecem ser respostas humanas universais ao fato de vivermos em um mundo intrinsecamente belo, que se altera de momento para momento, em um desdobrar que é sempre novo. Porém, nossas reações a este mundo vivo e cambiante são interpretadas e julgadas pela parte da nossa mente que nos diz o que desejar, o que rejeitar, e o que irá nos "fazer" felizes, como se não tivéssemos, dentro de nós, meios para "ser" felizes. Aplicamos rótulos que são inteiramente nossos, mas que derivam do nosso condicionamento cultural. Como este aspecto condicionado da mente não consegue penetrar as barreiras do processo da percepção, ele não consegue conhecer o coração do nosso ser, a parte nossa que responde ao verdadeiro e ao real. 

Quando o conhecimento do ser humano não passa além da fisiologia e dos aspectos mais visíveis da consciência, como é que podemos sequer pensar sobre todas as coisas que o homem possui como direito inato, ou pensar em abrir novas possibilidades de crescimento? 

Nossa consciência é receptiva por natureza, e pode se sustentar a partir de influxos de apreciação e alegria. Porém, como um grande lago, ela pode se exaurir quando sua energia corre apenas para fora. Quando a consciência fica continuamente preocupada e pressionada, cheia de pensamentos, desejos e expectativas, não abrimos espaço algum para revitalização. Com o tempo, nossa consciência fica cansada. Os sentidos, inadequadamente sustentados por nossa percepção, tornam-se amortecidos e embotados, exigindo formas cada vez mais intensas de estimulação externa. 

O nosso modo atual de viver e de estar no mundo não consegue impedir que isto aconteça. Por maior que seja o número de fatos que tenhamos sob nosso comando, e por melhor que aprendamos a manipular informações, o uso que fazemos da mente não é suficientemente dinâmico para despertar o poder pleno da nossa consciência. 

Apesar de todo o nosso esforço para satisfazer o desejo natural do homem de uma vida mais saudável e feliz, há sinais de que uma form profunda está crescendo no seio das mais prósperas sociedades. Necessidades e desejos parecem estar aumentando, em vez de diminuir. À medida que ingressamos no futuro, inventando novas aplicações para o nosso conhecimento e produzindo uma torrente infindável de novos produtos, parecemos forçados a andar mais depressa, impelidos por um querer inquieto que não se deixa serenar. Sob certo aspecto, nossa criatividade está sendo canalizada no sentido de conceber e dar forma a novos produtos, para que possamos, então, desejar novas criações. 

Nossas vidas hoje caminham rapidamente, transportando-nos em uma onda de desejos, e permitindo-nos pouco tempo para desfrutar em profundidade qualquer experiência. Enquanto uma festa de produtos e prazeres se estende à nossa frente, temos tempo apenas para provar e passar adiante, seguindo as imagens dos nossos desejos de um lugar para outro. Estamos sempre em movimento; levados por pensamentos e imagens para longe de nosso centro vital, ficamos sem lugar de descanso, sem uma verdadeira morada.

Tarthang Tulku em, Conhecimento da Liberdade              

Será que a mente racional, de fato, comanda o nosso ser?


Ao refletir sobre as complexidades da mente, pode ser útil pensarmos em nossa consciência comum como um navio, tendo como capitão a mente racional e valorativa, que mapeia o curso que nossa vida irá seguir. Nossos sentidos e sistema nervoso, bem como os centros cognitivos da mente, possuem todos suas próprias redes que distribuem força para todo o navio. No entanto, eles também trabalham em conjunto, coordenados pela mente. 

O intrincado sistema de alimentação de força do nosso navio-mente inclui incontáveis interações que estimulam a energia da consciência, evocando correntes de força que entram em nossa cognição com grande ímpeto, à medida que pensamentos explodem em imagens. Estas imagens multiplicam-se, refletem-se, fundem-se e dividem-se em mais imagens, que dão continuidade aos mesmos processos. Interagindo umas com as outras e criando de volta inúmeras réplicas, estas imagens cambiantes estruturam-se em padrões definidos. Os padrões de imagens encontram-se também em movimento, dividindo-se em reformando-se em um sem-número de combinações, Toda esta atividade transcorre dentro do pensamento, como se o pensamento em si fosse uma esfera de prismas facetados, cada qual tendo a oportunidade e o brilho de um diamante. 

Pensamentos isolados giram para fora desta esfera, para se disporem em progressão linear, dentro de uma cadeia de pensamentos correlatos. Estes, por sua vez, interagem entre si e se proliferam numa complexa dinâmica interna, que inclui surtos de impressões sensoriais, percepções, lembranças, associações e interpretações, que jorram juntas e respondem umas às outras sem cessar.

Mesmo antes que consigamos vislumbrar um pensamento que vem surgindo, o processo está quase que concluído, despertando sentimentos e emoções que canalizam mais energia para ciclos padronizados. O sistema inteiro está pré-programado para disparar automaticamente, com o início do processo de percepção. 

Nosso navio-mente navega num oceano de emoções, algumas vezes encontrando bom tempo, outras atravessando tempestades. O oceano, em movimento com as correntes alternadas dos desejos, raramente é calmo; guiando o navio através de águas incertas, o capitão toma decisões que determinam o nosso curso. 

Mas será que podemos confiar em nosso capitão para nos guiar com sabedoria? Em um nível, pensamos que conhecemos a nossa mente. Treinamos suas capacidades racionais e as utilizamos e as utilizamos para conferir uma ordem coerente à nossa vida. Podemos testar a sensibilidade dos nossos sentidos e localizar, em nosso cérebro, os centros que a eles correspondem; podemos acompanhar a trajetória do processo da percepção, definir nossas faculdades integrativas e analíticas, e mensurá-las de acordo com uma escala de definições. Mas será que estes métodos conseguem revelar toda a extensão da capacidade humana? 

Quanto mais de perto olhamos para a natureza da mente, menos confiantes ficamos. Consideramos a mente o árbitro do nosso conhecimento. Tudo aquilo que constitui a nossa realidade é percebido pela mente. A mente nos diz o que é conhecível e o que é inconhecível; nossas perguntas surgem dentro da mente e são respondidas pela mente. A mente mede, a mente interpreta, a mente desenvolve diálogos com a mente, a mente avalia e julga, a mente decide. 

Quando investigamos a natureza do nosso mundo interior de sentimentos, emoções, pensamentos, lembranças, associações e conceitos, vemos que a mente é, igualmente, o árbitro da nossa experiência. Porém, se tentamos investigar o campo que está por trás das nossas percepções e pensamentos, a mente se mostra curiosamente silenciosa. Parece que a mente consegue apenas fazer mensurações dentro de padrões de pensamentos e de conceitos; a mente não tem medidas para ela mesma. 

Será que a mente racional comanda verdadeiramente o nosso ser? Como é ela influenciada por emoções, por sentimentos e pelas flutuações na receptibilidade dos nossos sentidos? Qual é a verdadeira natureza do pensamento? Existiriam outros aspectos da nossa consciência que não entendemos por inteiro? Se existissem, como é que ficaríamos sabendo? O que acontece com a nossa consciência quando dormimos, quando passamos horas sem consciência de que estávamos pensando? Será que realmente sabemos quem somos, e, em caso negativo, será que podemos saber para onde estamos indo? 

Podemos nós confiar na capacidade da nossa mente discernir entre o verdadeiro e o aparente, ou distinguir entre valores reais e superficiais? Mesmo quando pensamos que estamos sendo racionais ou razoáveis, será que este é sempre o caso? Nossa posição pode parecer razoável na superfície e, no entanto, estar fundamentada em suposições falsas. Se somos hábeis, conseguimos justificar quase que qualquer posição que tenhamos interesse em assumir. Mesmo inconsequentemente, podemos mudar de uma posição para outra, em diferentes ocasiões, automaticamente ajustando os "fatos" de modo a se encaixarem nos nossos propósitos. Da mesma forma que tendemos a ser enganados por aparências externas, tendemos a aceitar argumentos lógicos como convincentes, sem examinar muito de perto as suposições que estão apoiados. É possível que vejamos a palavra escrita de maneira ainda menos crítica do que a falada. Como os pensamentos que as precederam, as palavras tendem a ser "verossímeis" quando apresentadas "racionalmente" — esquecendo-nos de que tanto as palavras quanto a lógica são produtos da mente humana. 

As percepções são instantaneamente nomeadas e rotuladas pela mente, dando origem ao pensamento e ideias que criam uma determinada versão da realidade. Nosso senso de "realidade" é especialmente acentuado quando estamos envolvidos por uma forte emoção, como por exemplo, a raiva. Aí, afirmamos, negamos, rejeitamos, tudo com a base no que "sabemos" ser o correto. No entanto, daí a instantes, podemos estar nos sentindo ternos e carinhosos. Então, pode ser que a nossa realidade seja diferente; os motivos da nossa raiva talvez não sejam mais contundentes; mais tarde, podemos até negar a nossa raiva passada. Será que uma "realidade" era menos real do que a outra? Que tipo de fio une estas duas "realidades"? Nós poderíamos, provavelmente, estabelecer uma ligação que soasse muito plausível. Será que estas ligações são válidas, ou será que são suposições? Será que são verdadeiras em si mesmas, ou será que são aquilo que gostaríamos de acreditar que fosse verdade? Como é que podemos saber?

A "construção" da nossa realidade pode ser vista mais claramente em circunstâncias em que sentimos necessidade de nos "acobertar". Raramente precisamos mentir — geralmente existem muitas "meias verdades" que servem para nos proteger. Em um certo sentido, nenhuma das nossas respostas precisa estar errada, embora todas possam ser enganosas. Facilmente perdemos de vista as formas sutis pelas quais escondemos a verdade pura de nós mesmos e dos outros. Uma vez que tenhamos explicado nosso comportamento e a outra pessoa tenha aceito nossas razões, nossa mente pode tomá-las como sendo toda a verdade. As palavras conferem solidez às nossas razões; depois que as palavras são pronunciadas, podemos facilmente nos convencer de que são verdadeiras. Não temos proteção alguma contra tais enganos, que nascem da qualidade oscilante de nossa própria mente. É possível que a nossa "realidade" seja mais "flexível" e instável dos que nos damos conta.

Esta qualidade oscilante parece permear todas as nossas experiências. Por exemplo, valorizamos nosso direito de "mudar de ideia", mas será que esta "mudança" toma por base conhecimentos novos que investigamos a fundo? Ou será que ela reflete apenas uma alteração de interesse ou de motivação? Até que ponto é estável a nossa ligação com as coisas que possuem valor e valem a pena buscar? Como é que podemos confiar em nossas ideias, quando elas podem "mudar", ser mudadas ou influenciadas tão facilmente?

Não dispondo de um maior conhecimento sobre o funcionamento da mente, alimentamos nossa consciência com uma dieta mista de coisas verdadeiras e falsas, reais e artificiais, a começar dos pensamentos que surgem em nossa mente. Quando acreditamos na realidade dos pensamentos e imagens criados pelo impulso arrebatador da cognição, fundimos nossa consciência a ilusões, e plantamos as sementes do auto-engano. A cada vez que surgem percepções mais pensamentos são criados, repetindo-se o processo de fusão da nossa consciência a ilusões. 

Nossa consciência fica sintonizada neste processo contínuo; as sementes anteriormente plantadas deitam raízes e se desenvolvem. A qualidade de pureza original da percepção diminui; uma qualidade de inquietação permeia todas as nossas experiências, condicionando nossa visão de nós mesmos e do nosso meio. Ao buscar contato com o real, encontramos o superficial, o provisório e o artificial.

Dado que a nossa consciência tem uma fixação tão forte no polo objetivo das nossas experiências, fica muito difícil olharmos para dentro e nos estudarmos de perto. Apesar de todos os nossos conhecimentos a respeito do mundo observável, e da nossa engenhosidade em manipular o nosso meio ambiente, pouco sabemos sobre a nossa própria natureza.

Tarthang Tulku em, Conhecimento da Liberdade        

A formação da limitada e separatista mente dual


Em algum ponto no passado, os seres humanos começaram a reconhecer contrastes de luz e sombra como formas isoladas às quais podiam dar nomes. Contrastando, identificando e nomeando formas, eles criaram um mundo de polaridades interdependentes (dualidade): grande e pequeno, duro e macio, macho e fêmea. Embora todas estas distinções, bem como os rótulos aplicados a elas, foram criação da mente humana e variassem em caráter de cultura para cultura, com o tempo adquiriram maior substância e passaram a ser vistas como efetivamente sólidas e reais.  

A partir desta única semente, com raiz no processo da percepção, os seres humanos criaram o "eu" e o seu mundo. Eles se transformaram em espectadores que vivenciavam seu meio comum como um mundo objetivo. Ao olhar para dentro, podiam refletir sobre os contrastes que percebiam em seus próprios estados interiores, e dar nomes a sentimentos e emoções. Assim, foi-lhes possível distinguir entre gostos e aversões, prazer e dor; podiam recordar e refletir sobre suas sensações. Empregando nomes, os seres humanos podiam avaliar sua experiência e expressar preferências e opiniões. 

Gradativamente, os nomes foram adquirindo maior significado, através de associações com outros nomes; conceitos se tornaram mais complexos. Mais tarde, criou-se uma base que viria possibilitar pensamentos mais abstratos e sofisticados. Derivados desta longa cadeia de desenvolvimentos, moldados pela linguagem, pela cultura e pelo meio ambiente, nossos atuais padrões mentais evoluíram ao longo de muitos milhares de anos. 

Durante toda a história da humanidade, a parte da nossa consciência que se liga a objetos recebeu contínuos reforços. Canais profundos foram entalhados em nossa mente, direcionando nossa energia mental para o plano dos objetos, e distanciando-a da dimensão aberta da consciência. A cada pensamento ou sensação, nossa mente agora ágil com a velocidade de uma corrente elétrica para absorver o mundo aparentemente objetivo. Desde o nascimento, somos condicionados a estes padrões de percepção, pensamento e reação

Automaticamente, empregamos estes padrões para interpretar objetos e situações, e responder a eles. Esta forma única de reagir é tudo o que conhecemos: como um trem segue seus trilhos, parecemos predestinados a seguir o caminho demarcado pelo curso da nossa evolução. Embora possamos estar convencidos de que estamos pensando e agindo de acordo com nossas próprias escolhas, na verdade vivemos condicionados por um sentido de separação e pelo jogo de atração e repulsão das polaridades. Estamos fadados a avaliar e reagir a todas as coisas em termos de agradável e desagradável, desejável e não-desejável, bom e ruim. 

Comprometidos com uma visão baseada na dualidade, e confinados às estruturas conceituais que emergem a partir desta visão, não conseguimos conceber a possibilidade de uma estrutura mais aberta para os nossos pensamentos e ações. Quase nada existe em nosso modo de vida que nos leve a qualquer indagação sobre os nossos padrões de percepção e pensamento, ou a qualquer reflexão sobre as inclinações mais profundas da nossa maneira de ver a nós mesmos e ao nosso mundo. 

Ao mesmo tempo, a força atrativa do mundo objetivo tornou-se mais intensa do que em qualquer outra época. As sociedades modernas deram luz a inúmeras tecnologias novas, colocando em movimento um tipo moderno de evolução, alimentado pela inventividade da mente racional. Embora nossa evolução científica e tecnológica seja um desenvolvimento recente na história do planeta, sua força fez crescer de forma significativa o impulso natural das mudanças. 

[...] À medida que o mundo se torna mais caótico e confuso, será que estaremos sendo mais e mais atraídos pela previsibilidade racional do computador? Será que alguns de nós poderão chegar até a se identificar mais com a inteligência computadorizada do que com seus semelhantes? (o aparelho celular como exemplo). Será que com o tempo vamos começar a avaliar nossa própria inteligência por comparação aos computadores?
[...] As respostas a estas perguntas precisam estar fundadas em um conhecimento do ser humano que seja o mais completo possível. Antes que sejamos arrastados na direção de um futuro que talvez não se apresente da maneira como desejamos, precisamos olhar de perto para a nossa situação atual, e começar um processo de exame da base mesma do nosso conhecimento — nossa consciência humana e a natureza da nossa mente. 

Os conceitos e a "linha de enredo" do pensamento

Se refletirmos sobre a natureza dos conceitos e sobre a maneira não-crítica como aceitamos a realidade que eles criam, poderemos ter a impressão de estar presos no meio de um elaborado programa de computador que funciona sem a nossa decisão consciente. E, no entanto, tendemos a achar que comandamos o nosso pensamento. Somos nós que estamos operando o programa, ou será que é ele que está nos operando? Seríamos capazes de nos separar do programa e permitir que os nossos pensamentos e ações fossem informados por um conhecimento mais abrangente e confiável, intrínseco ao nosso próprio ser?

À luz de uma compreensão mais ampla, será que poderíamos retreinar a nossa mente para uma forma mais satisfatória de visão? Seria possível uma visão que conseguisse penetrar as nossas estruturas e padrões conceituais? Haveria um meio de abrirmos os nossos conceitos e revitalizá-los com significados que nos permitissem comunicar nossas ideias de forma mais completa? Poderíamos encontrar conceitos que fossem mais próximos da qualidade imediata de nossa experiência, e mais sintonizados com os nossos insights e sentimentos?

Talvez haja meios de vislumbrarmos um lado mais sutil da nossa consciência que poderia nos permitir examinar, com maior clareza, os padrões fixos da mente. Quando relaxamos o corpo, podemos diminuir o ritmo dos pensamentos e das imagens, e observar mais diretamente o processo dos pensamentos em si. 

Este relaxamento não precisa de qualquer técnica especial. É simplesmente uma questão de observarmos os pensamentos que vêm, sem comentários nem interpretações. Quando experimentamos esta maneira de observar o funcionamento da mente, o que vemos talvez não seja bem o que esperávamos: pode parecer não muito importante. Porém, com o tempo, é possível que comecemos a observar com uma qualidade de concentração relaxada e não-forçada, a qual, em si mesma, pode constituir uma experiência nova. Esta forma de olhar para dentro pode levar a importantes insights acerca da natureza dos pensamentos, bem como uma nova consciência das ligações que existem entre os pensamentos e os sentimentos.

Os pensamentos, quando deixados por si só, tendem a caminhar até um ponto em que pausam, quase como se tivessem convergido para uma parede vazia. Pode ser que já tenhamos vivenciado esta pausa, num momento em que seguíamos rigorosamente um determinado encadeamento de pensamentos, ou que nos percebemos "entalados" num problema. A qualquer momento, a mente pode ficar silenciosa por um instante. Se notamos esta pausa, geralmente consideramos que chegamos ao fim de uma cadeia de pensamentos. Se nenhum pensamento novo surge para continuá-la, voltamos nossa atenção para um outro assunto. 

No entanto, este aparente "beco sem saída", onde os pensamentos caminham para um único ponto e se desfazem, pode também representar a porta para um novo conhecimento. Focalizando-nos neste ponto com uma concentração equilibrada, podemos ver possibilidades de um modo de conhecer que se encontra além de nossos padrão habitual de pensamento.

Se permanecermos relaxados e atentos, poderemos perceber uma sensação de luminosidade, como se através do silêncio brilhasse uma luz. O fluxo normal dos pensamentos e o hábito de fixarmos a atenção no conteúdo dos pensamentos, dão-nos poucas oportunidades de perceber a presença de luz em nossas imagens mentais. Se afrouxarmos nosso apego ao conteúdo dos pensamentos e ficarmos atentos aos pensamentos em si, poderemos percebê-los surgindo de dentro desta luminosidade, logo antes de tomarem a forma de palavras.

O processo acontece tão rápido que imediatamente identificamos os pensamentos com palavras, ou talvez com blocos inteiros de palavras que dão início a um diálogo interno. À proporção que mais interpretações vão se seguindo, e que conceitos vão se combinando e evocando fortes cores emocionais, podemos nos dar conta de que os nossos sentimentos estão onerados por uma sensação de peso que parece escura e séria. Que pensamentos contribuem para esta sensação pesada? O que aconteceu com as qualidades de abertura e luz com as quais o processo havia se iniciado?

Ao fazermos estas perguntas, talvez o fluxo dos pensamentos faça novamente uma pausa, por um breve momento. Porém, quase que imediatamente, um novo fluxo de pensamentos se põe em movimento, durando um período longo ou talvez apenas poucos instantes, antes que uma nova sequência se inicie. De onde vêm estas fileiras de pensamentos? O que acontece quando tomamos posse dos nossos pensamentos e conscientemente os guiamos em uma direção específica?

Talvez pareça não haver pausas no fluxo dos pensamentos: somos envolvidos por uma sequência que tem um tema ou uma "linha de enredo", quando, de repente, o conteúdo muda e nos vemos no meio de uma outra história. Como fomos parar de uma história na outra? Será que cada uma delas tem um começo e um fim, ou será que são contínuas? Elas se sobrepõem, influenciado-se umas às outras?

Ao questionarmos os pensamentos desta maneira, conseguimos afrouxar nosso apego e fixação ao conteúdo dos pensamentos, e ganhar novos insights acerca dos nossos processos mentais. Cada pensamento constitui uma oportunidade para observarmos a nossa mente e aprendermos com ela. Com maior experiência, podemos começar a ver como os pensamentos podem, na verdade, criar confusão e prolongar estados mentais indesejáveis. Com o tempo, ficará mais óbvio o modo como um pensamento gera outro, e como a dinâmica dos pensamentos tende a se auto-propelir, alimentando e realimentando ciclos de impulsos que correm pela mente.

Da mesma forma que um tecelão cria uma tapeçaria, definindo a trama básica do tecido, e depois ornamentando-a com um desenho após outro, nossa mente parece ter pensamentos e imagens em réplicas intermináveis. Quando pegamos o começo de um pensamento, podemos observar como ele se inicia com um padrão simples, aberto e espaçoso, que vai se tornando mais denso, à medida que imagens se entrecruzam para formar padrões cada vez mais complexos.

Ao estimular lembranças e associações que evocam um universo de sentimentos e emoções, os pensamentos perdem sua abertura, enquanto vão se proliferando e se entrelaçando. Concomitantemente, podemos perceber nossas faculdades críticas em ação, rotulando nossa experiência como felicidade, depressão, êxtase, tédio, raiva, como algo nobre ou condenável. 

À medida que cada experiência é carimbada e testemunhada pela mente, nossos pensamentos a seu respeito tornam-se mais conscientes e "reais"; então, identificamo-nos com a experiência e reagimos a ela de acordo com o nosso condicionamento. Dentre todas as possibilidades de enxergarmos uma determinada experiência, vamos, quem sabe, optar por chamá-la de "prazer". A seguir, projetamos a experiência fora de nós, e decidimos que queremos ter aquela experiência. Ao buscarmos as coisas que associamos com o prazer, encontramos a nossa própria imagem do que o,prazer "deve ser". Ao tentar agarrar um objeto, esperando sentir prazer e desejando prolongá-lo, experimentamos prazer por apenas um curto tempo. Quase que imediatamente, sentimos que ele escorrega em nossa mão.

Observar os movimento de ir e vir dos pensamentos nos permite ver como a mente apõe rótulos às percepções, sentimentos e emoções, e como ela então produz comentários e mais comentários sobre o que estamos vivendo. Ao ver estes padrões de pensamento sendo tecidos diante de nossos olhos, podemos nos perguntar se eles, na realidade, formam uma trama sólida. Talvez seja possível nos vermos — não só a nossa personalidade, aparência e atividades, mas a própria raiz do nosso ser —  de modo diferente. Uma visão assim nova e aberta poderia aliviar a mente das tendências que congelam a experiência e nos deixam vulneráveis a confusões. Assim que descobrimos que é possível soltar a garra dos conceitos que nos enredam em dores emocionais, teremos dado os primeiros passos em direção a uma compreensão nova, capaz de transformar a qualidade de todas as nossas experiências.

Com um maior discernimento acerca de quem somos e do que somos, por que percebemos, sentimos, compreendemos e interpretamos da maneira como fazemos, seria possível considerar tudo o que sabemos de uma perspectiva inteiramente nova. Poderíamos, então, analisar nossas pressuposições mais a fundo, decidindo por nós mesmos o que é possível e  que não é possível mudar, que forma de pensar são saudáveis e úteis, e quais delas nos envolvem em sofrimentos desnecessários. À medida que continuássemos a questionar, nossos pensamentos poderiam se tornar mais vitais e mais claros, abrindo novas possibilidades de autocompreensão e de maior controle sobre a direção da nossa vida.

Tarthang Tulku em, Conhecimento da Liberdade

Assumindo a Natureza Outsider de ser

É possível ver tudo como que pela primeira vez?

Será que conseguimos sequer pensar em alguma coisa para a qual não temos um conceito? Se não tivéssemos um conceito de amor, será que poderíamos ter expectativas sobre como é o amor, ficar decepcionados quando nossas experiências não correspondessem a estas expectativas, ou então fantasiar sobre as pessoas que amamos? Se não tivéssemos noção alguma de amor, poderíamos ter ódio? E como seria se não tivéssemos nenhum conceito de "eu", ou da nossa pessoa como, de alguma forma, separada dos outros? Então, o que iríamos amar ou odiar? Será que poderíamos ficar apegados a pessoas ou coisas, sentir insegurança ou temer rejeição? Se a sociedade não fosse capaz de nos apresentar ideais que não se casassem com a realidade da nossa situação, será que iríamos nos sentir culpados por não nos pormos à altura desses ideais? Que diferença poderia haver na qualidade da nossa vida se não tivéssemos nenhum "deveria" ou "gostaria" em nosso idioma? 

Se olharmos com cuidado para a nossa experiência, poderemos ver que muitas coisas que parecem substanciais e reais são, na verdade, noções formadas por nossa mente. Ao operá-las em nosso pensamento e empregá-las em nosso cotidiano, tendemos a esquecer que são formulações mentais, e nos relacionamos com elas como se fossem reais. Assim, por exemplo, a felicidade não é inerente aos objetos que desejamos, mas nasce da maneira como interpretamos uma certa qualidade de entusiasmo. Por mais que valorizemos a felicidade, ela é também um conceito, um nome que aprendemos a aplicar a certos tipos de situações ou sentimentos.

Sem a nossa ideia de felicidade, e sem as muitas noções ligadas a ela sobre o que nos deixa felizes, será que iríamos saber se éramos felizes? Será que poderíamos ser infelizes? Será que teríamos os mesmos sentimentos se nos faltasse uma palavra para expressá-los? Como é que poderíamos ficar pensando ser éramos felizes, ou então nos sentir carentes se não o fôssemos?

É quase impossível imaginar como seria a vida sem estes conceitos familiares. Passamos a confiar em nossas atuais estruturas e padrões conceituais, tomando por um reflexo razoavelmente seguro da verdade, e não vemos nenhuma razão para questioná-los. Mas será que as nossas estruturas conceituais aumentam as nossas opções de estar e atuar no mundo, ou seriam elas limitadas demais para atender às nossas necessidades? Será que os nossos conceitos atuais são capazes de acomodar todo o conhecimento que nos é possível adquirir, ou será que eles se tornaram demasiadamente rígidos para sustentar uma perspectiva mais abrangente com relação ao conhecimento?

Quando dependemos de conceitos de uma maneira automática — seja ao pensar, falar ou escrever — podemos, na realidade, estar diminuindo nossa capacidade de comunicação. Todos nós vivemos em um mundo mental próprio; nossas experiências pessoais condicionaram as conotações específicas dos conceitos que utilizamos. Embora nosso mundo mental coincida em parte com os das outras pessoas, eles nunca são completamente idênticos. Ao dependermos de um conhecimento que seja filtrado através de conceitos, não conseguimos comunicar plenamente os significados que tencionamos transmitir; ficamos sutilmente isolados uns dos outros. Embora todos nós empreguemos as mesmas palavras diariamente, há um hiato em nossa comunicação que não pode ser fechado por completo. 

Quando traduzimos os conceitos de uma cultura para os de outra, o hiato na comunicação se amplia. O significado de cada conceito pode parecer o mesmo, mas as conotações associadas a eles podem variar enormemente. Hoje em dia, à medida que o inglês e outros idiomas ocidentais estão cada vez mais usados nas comunicações internacionais, os povos do mundo parecem estar caminhando em direção a um corpo comum de conceitos. No entanto, o que é compartilhado talvez seja apenas algo superficial; as mesmas palavras podem ter significados diferentes dentro de culturas diferentes. Mesmo a estrutura de diferentes idiomas pode influenciar muito a capacidade de expressarmos importantes nuances de significado. Assim, há um grande potencial para confusões e mal-entendidos. Podemos, sem saber, perder conhecimentos valiosos no processo de tradução. É também possível que os povos do mundo venham a se comportar como parceiros dentro de um mau relacionamento, que trocam palavras e procuram se reassegurar, mas que não dispõem de uma base para uma comunicação real. 

Seriam os nossos padrões conceituais necessariamente a melhor base para expandirmos a nossa compreensão de nós mesmos e do nosso mundo? Já exploramos as pressuposições que estão por baixo dos nossos conceitos? Se as condições do nosso passado tivessem sido diferentes, é possível que outros padrões mentais tivessem se desenvolvido com igual facilidade; aí, estaríamos vivendo em outro panorama mental, tão confiantes em nosso senso de realidade quanto estamos hoje. O que agora consideramos como nossas verdades inquestionáveis e auto-evidentes poderia nem sequer existir; não teríamos como pensar nelas, ansiar por elas, sofrer com elas, lutar por elas.     

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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill