“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

Auto-enfrentamento

Se não atingi, posso ajudar no atingimento da Verdade?

Pergunta: Os indivíduos não se acham desenvolvidos por maneira igual em suas capacidades. Se um possuir a capacidade de verificar intelectualmente a Verdade, porém for cativo, emocional ou fisicamente, dever-se-ia abster de ajudar os outros a se aproximarem da libertação embora ele próprio ainda não se houvesse liberto completamente?

Krishnamurti: Formulemos esta pergunta por uma outra forma. Deverei eu, que não atingi ainda, ajudar a outros no caminho do atingimento? Deverei impedir a outrem de cair e de ser esmagado na mesma estrada enquanto que eu próprio ainda estou sobre essa estrada? Deverei auxiliar a um homem que se encontre caminhando sobre a estrada da vida a orientar-se para a mesma meta; e deverei estender-lhe a mão compassiva ou deixa-lo sozinho? Perguntas tais demonstram que não tendes ideia da verdade ou do significado do atingimento da libertação e felicidade. Imaginais que essas coisas estão longe de vossos semelhantes, em qualquer reino distante, junto do mar ou das montanhas. Por que razão imaginais vós que eu gasto meu tempo pela forma em que o faço? Ser-me-ia muito mais fácil, estaria mais calmo se fosse para a solidão, como o fez Lao Tse quando atingiu a libertação. Tenho sido um viajor sobre a estrada da vida; e, pelo fato de haver transitado por essa estrada da vida; e, pelo fato de haver transitado por essa estrada, sei que muitos há que se encontram lutando e desejando ajuda-los. Sei muito bem que eles não atingiram a meta. Se a houvessem atingidos, estariam em paz. Eu não me intrometo com pessoa alguma, nem me esforço por convencer seja a quem for de minha mensagem, de minha atitude, de minha autoridade; porém, dado o fato de se encontrarem os homens encerrados em prisões de desgraça, em gaiolas de tristeza, em limitações de dor, quiser liberta-los, ou antes, despertar neles o desejo de, por completo, destruírem essas gaiolas por si mesmo. Isto é o que cada um de vós necessita fazer — atingir, para depois ajudar. Não quer dizer que não devais ajudar enquanto vos encontrais em processo de atingimento. Seria esta a maneira egoísta de encarar a vida. Os homens têm construído muitos mosteiros no mundo, por amor a seus vários instrutores, porém, nenhum ainda foi construído pelo amor à vida. Jamais podereis construir mosteiros sobre a forte corrente da vida.

Pergunta: Como aprendermos a estar em amor com a vida se o não estivermos? Como aprendermos a gostar de todas as espécies de experiências se dela não gostarmos? Como aprendermos a não ter medo se o tivermos?

Krishnamurti: Em primeiro lugar, por admitir essas coisas todas, por não tentar evita-las. A partir do momento que reconheçais que tendes medo, começa ela a desaparecer. Porém, enquanto disserdes, “eu expulsei todo o temor”, enganando-vos a vós mesmos, estareis ainda colhidos nas garras do medo. A partir do momento que conheçais a vós mesmos em todas as vossas fraquezas, tereis vencido. Não necessitais de aprender a como estar em amor com a vida; a própria vida vos ensinará. Se não estiverdes em amor com a vida, a vida vos tornará infelizes e vos obrigará a estar em amor com ela, por meio da tristeza, pela dor, pela solidão, pelo convidar-vos a penetrar em suas águas abertas, onde tereis que lutar. Esta é a maneira única de estar em amor com a vida, e não o repetir meras palavras, depois de afivelar uma máscara. Estas perguntas surgem pelo fato de vos contentardes em repetir as minhas palavras. Fazeis de mim uma máscara que vos assenta mal.

Pergunta: Como é que se pode trazer o Reino da Felicidade à realização perfeita no mundo dos negócios? Ou quem sabe se o Reino da Felicidade não significa, necessariamente, felicidade nas atividades do plano mundano? Não deve ser este ultimo antes transcendido que transformado pelos homens?

Krishnamurti: Não concordo com essa sugestão. A felicidade, se não puder ser trazida até o físico, não vale a pena de ser possuída. Que importância tem o serdes felizes depois que houverdes morrido? Quando compreenderdes o que significa a felicidade real, pode ela ser alcançada neste momento e neste lugar, nas atividades diárias do nosso mundo físico. Dado o fato de separardes o espirito da matéria, imaginais que o espirito habita em qualquer local desconhecido, onde também deve estar a consumação da felicidade. Se, porém, a felicidade de que falo somente existisse no reino puramente do espirito e não pudesse ser realizada neste mundo, não seria digna de ser possuída. Digo que, se ela for adequadamente compreendida, pode ser imediatamente atingida. Se imaginardes que a felicidade só pode ser atingida na esfera onde mora o espírito, negligenciareis e evitareis o físico. Podeis ver o resultado disto na Índia, onde, na busca do que é espiritual, se tem ignorado o que é material. Esta felicidade da qual falo tem de transformar o mundo, e não de se encontrar pelo transcender o mundo. Enquanto a vida for mantida em cativeiro, as expressões dessa vida serão imperfeitas.

Pergunta: Que passos sugeriríeis eu desce afim de encontrar o caminho para minha alma, afim de que pudesse começar a viver em mais íntimo contato com o Espírito Eterno?

Krishnamurti: Viver. Pelo defrontar dos acontecimentos — não pelo tentar evita-los, não pelo buscar os falsos e evanescentes confortos. Imaginais que a eternidade está oculta em qualquer lugar distante; ao passo que ela está dentro de vós mesmos e em tudo que vos rodeia. É pelo conservar o eterno dentro de vosso coração que o presente se torna como o perfume de uma rosa.


Krishnamurti, 1930

A verdadeira felicidade que nasce da libertação

Pergunta: Pode a ideia da perfeição constituir um incentivo em qualquer estágio da evolução?

Krishnamurti: Naturalmente quando o selvagem vê contas brilhantes, não se sente excitado e desejando-as? Esta é uma das maneiras de aproximar-se da perfeição. Em primeiro lugar vem o desejo de possuir, tal como no selvagem; mais tarde o desejo de colocar de lado todas essas coisas, como se dá com o homem culto. Entre estes dois extremos existem todos os graus de evolução, com seus desejos variantes, todos eles encaminhando-se para a perfeição.

Pergunta: Por que  é que vós, que haveis sido especialmente preparados para vossa grande missão, durante anos, no passado, esperais que nós, que não fomos preparados pela mesma forma, possamos atingir a libertação convosco, agora?

Krishnamurti: Como sabeis ter eu sido especialmente preparado? Não vos estais vós preparando pelo fato de viverdes, todos os dias? Não estais lutando em meio da tristeza e do prazer? Não é isto uma preparação? Não são o descontentamento, a inveja, o ódio, o afeto, todos eles uma preparação?

É verdade que atingi e que por causa desse atingimento posso mostrar-vos o caminho  como   agora o faço. Não espero, porém, que atinjais imediatamente, pois que para vós existe ainda a renuncia e o auto-sacrifício; e assim, não podeis por enquanto atingir. Se, porém, fixardes a vossa meta — a verdadeira felicidade que nasce da libertação — então isso tornar-se-á mais fácil e direto e uma luz continua virá a ser projetada sobre os vossos pensamentos e atos. Que mais necessitais do que fixar vossa meta e encaminhar todo pensamento, emoção, e ação, para essa meta?

Pergunta: Será possível separar a pessoa da verdade? Como pode um homem ordinário aprender a fazer isso? A autoridade externa pode ser uma mal, porém é uma mal inevitável no presente.

Krishnamurti: Tem importância por ventura o poço de onde extrais água desde que seja água extingua vossa sede? Digo que descobri, que estabeleci por mim mesmo uma certa verdade; e sinto desejo e ardor no mostrar essa verdade, a todo aquele que quiser aprender. Se voz, porém, cultuardes ao individuo portador dessa verdade, ela não mais será a verdade. Que importa quem traz a verdade, desde que haja em vosso coração e mente a resposta que vos proporcione força para lutar e jamais ceder? Se imaginais que a autoridade é indispensável, tendes que vos sujeitar a ela. Se um homem não pode ver claramente, tem que usar óculos. A grande maioria das pessoas, porém, não necessita de óculos. Um ou outro dia, haveis de chegar a verificar que a autoridade não vos proporciona felicidade. Eu tomo como exemplo o meu próprio caso. Quando meu irmão morreu, já há alguns anos, disseram-me ser ele perfeitamente feliz no plano astral, e tudo lhe era róseo e belo. Porém disse eu: “no fim de contas, perdi um grande amigo e sinto-me muito só; preciso de sua companhia”. Pensais que minha tristeza se extinguiu porque me disseram que ele era perfeitamente feliz no além? Verifiquei que, enquanto houver separação entre os indivíduos, enquanto Krishnamurti fosse mais importante para mim, como indivíduo, do que quaisquer outras pessoas, tinha que haver tristeza, e sempre sentiria a perda de meu irmão. A partir do momento em que me tornei capaz de me identificar com todos e sentir, não intelectualmente, mas por intermédio de meu coração, que não existe separação real, então encontrei minha felicidade.

Pergunta: O ideal é estar só, porém será isto para todos no presente momento?

Krishnamurti: Cada qual tem que decidir por si mesmo. Quereis, ainda uma vez, que a verdade vos seja Rebaixada. A Verdade, que é felicidade, que é a compreensão da vida, e, portanto, a conquista da vida, não pode ser rebaixada. Vós tendes que vos encaminhar para a Verdade e não esperar que a Verdade seja trazida para baixo. Assim como, no outono, todas as folha murcham e fenecem e novos rebentos lhes vem tomar o lugar, assim também deveis deitar fora todas as vossas velhas ideias, afim de ganhardes a frescura e a glória da primavera; não confiar em passageiros confortos ou deixar-se apanhar pelo presente.

Krishnamurti, 1930


Sobre a questão da educação

Pergunta: Como poderemos distinguir entre a propulsão do verdadeiro Tirano interior e a obsessão proveniente do entusiasmo pessoal?

Krishnamurti: Por meio da experiência. Para reconhecerdes o verdadeiro Tirano que está dentro de vós, tendes que experimentar, tendes que observar, necessitais peneirar e separar vossos próprios pensamentos, emoções e impulsos. Se estes não se harmonizarem com a vossa meta, criarão tristeza e por esse modo vos conduzirão ao entendimento.

Pergunta: Devem as crianças ser educadas de acordo com as opiniões dos adultos, ou deve-se-lhes permitir que resolvam seus próprios problemas?

Krishnamurti: Qual o propósito da vida? Chegar à felicidade por meio da libertação, a liberdade para todos. Se tiverdes isto em mente, agireis como alguém que protege enquanto a criança é nova, mantendo essa finalidade em vista a todo instante. Se eu fosse professor em uma escola, guardaria de continuo em minha mente a ideia da liberdade como sendo a meta para as crianças, o atingir da absoluta libertação e felicidade eterna. Naturalmente, elas não podem atingi-la nesse breve período de tempo que denominamos uma vida; porém é esta a meta final. Assim, pois, eu estabeleceria certas regras e regulamentos, porém todas elas ficariam sujeitas a esta única coisa.

Tomai como exemplo uma planta pequena. Enquanto ela é nova, vós lhe dais água, vós a abrigais do sol e dos ventos; sabeis, porém, que tempo virá em que ela não mais necessitará de vosso abrigo. Ela exigirá espaço e liberdade para crescer, ou então morrerá.

O mesmo se dá com as crianças. Atingir essa felicidade que é eterna por meio da libertação, é o que todos desejam; isso porém não significa desordem e caos. A libertação significa a produção de um milagre de ordem, tirando-a de séculos de caos, resultante de gerações de pensar ignorante e de crenças insensatas.

Pergunta: Que consecução da vida espiritual ( não de uma religião ou dogma ) a não ser a vida que ela conhece, apresentaríeis a uma criança, de modo a não ficar ela emaranhada em imagens picturais e concepções concretas?

Krishnamurti: Eu lhe ensinaria a amar a vida, a gozar a vida, quer esta traga consigo a felicidade ou a tristeza. Se eu tivesse um filho, ensinar-lhe-ia a averiguar que ele é o seu próprio mestre, seu próprio guia e que não deverá confiar na autoridade externa, em busca de conforto, em expressões exteriores dessa mesma vida, para chegar ao entendimento; que ele precisa de descobrir e esforçar-se, no sentido de encontrar a maneira de libertar a vida.

Se se mostrar a uma criança, desde o inicio que o preenchimento da vida, dentro dela própria, se produz pelo libertar essa vida de todas as limitações, o que é o resultado de passar pela experiência, e ultrapassar toda experiência, por essa luz se guiará ela a si mesma e não pela luz — ou treva como eu de preferencia lhe chamaria — ou de uma autoridade, do medo, da tradição. Explicai-lhe desde o início que ela própria tem de libertar essa vida que é espiritual. Não lhe podeis ensinar a realiza-la, — pois a via de preenchimento difere para cada homem — porém podeis mostrar-lhe a meta final sem começo nem fim. Dado vós, o pai, o haverdes compreendido, podeis dar-lhe do vosso entendimento.

Pergunta: O estudo da ciência moderna, com sua concepção da imensidade, da natureza e da insignificância do homem, com seu curto palmo de vida, tende a estupidificar todo o presente esforço, especialmente nos jovens e produz uma atitude negativa à vida. Como pode isto ser contrariado?

Krishnamurti: A imensidade da natureza não é maior do que a própria vida. A natureza, no fim de tudo é vida; é um termo que expressa a vida por uma maneira diferente. Pelo fato de os homens não estarem enamorados pela vida, são vencidos pela atitude negativa, que estupidifica e limita a vida. A vida está em cada um. Se a vida não constitui vosso predominante interesse e o preenchimento da vida vossa necessidade mais urgente, tudo o mais, naturalmente assumirá maior importância. Daí provirá a estupidificação dessa mesma vida. Como impedir isso? Fazendo convite a grandes tristezas, a grandes gozos, na plenitude de vosso coração; pelo convite à dúvida. É esta a maneira única de escapar de ser colhido pela limitação e, por essa maneira, sufocar a vida.

Pergunta: Que espécie de educação devemos dar a uma criança afim de faze-la aceitar a mensagem da libertação?

Krishnamurti: Nutro a esperança de que ela não aceite. Quereis forçar as pessoas a libertação por meio de outrem, seja quem for. Vós próprios não possuis o desejo de vos libertar ou deixar que outros se libertem, e, assim, pretendeis forçá-los a aceitar a ideia da libertação.

Ultimamente, na Califórnia, vi uma localidade denominada Lázaro Riu-se. Quando Lázaro ressurgiu do túmulo, começou a rir, porque sabia não existir a morte; ele riu-se por ver que todos se incomodavam com a morte. Ele tem discípulos e seguidores e estes riem-se também, porém riem-se por meio de uma máscara.

É isto que vós estais fazendo agora. Falais de libertação, de felicidade, através de uma máscara, não por convicção própria. Para mim ela é real, eterna; para vós não o é. Haveis posto fora a máscara de que haveis sido portadores, durante todos esses anos; porém agora afivelasteis uma outra que vos assenta mal.

Pergunta: Como apresentaríeis a ideia da morte a uma criança, de modo a não sentir ela medo? Não nascem certas crianças com um medo inato da morte? Como pode ele ser removido?

Krishnamurti: Se vós pessoalmente tiverdes medo da morte, comunicareis esse medo a vosso filho. Como a maioria das pessoas se atemorizam com a morte, as crianças atemorizam-se também. Na Índia, o povo não se atemoriza muito com a morte. Há tantas mortes todos os dias que, de fato, eles habituam-se a isso. Podeis ver crianças contemplando corpos mortos ao serem conduzidos pelas ruas. Para explicar a morte a uma criança, eu usaria o exemplo de uma flor. Assim como uma flor murcha, o corpo murcha também. Nada existe que possa causar medo, por tal motivo. É um acontecimento natural, o curso natural de uma flor ou de um ser humano. Nada existe de horror, de terrífico, a respeito da morte. A morte só é temível, quando vos apegais à forma externa, a qual é mera expressão da vida. Se, porém, estiverdes em amor com a vida, a expressão dessa vida não vos colherá fortemente.


Krishnamurti, 1930

Sobre a verdadeira intuição

Pergunta:  Haveis dito outro dia que entendíeis por crenças algo imposto do exterior. Uma convicção ou intuição interna, não necessariamente provável pela lógica, seria por acaso prejudicial?

Se estabeleceis regras mesmo sobre tais crenças, se as pessoas admitirem vossos conceitos a respeito de não possuíssem crenças assim tão literalmente, não chegaria a vida a deter-se?

Krishnamurti: Se as pessoas tornarem crenças as minhas explicações, a vida chegará a deter-se. Convicções, intuições, e o vosso próprio conhecimento interior não são a mesma coisa que crenças. Por crença entendo eu a aceitação de uma ideia imposta por outrem ou a qual vos tenhais adestrado para aceitar sem entendimento. A intuição, ao contrario, é o mais elevado ponto de inteligência e pelo conservardes a inteligência constantemente desperta, fazeis convites à intuição, a qual é a luz guiadora pela qual deveríeis conduzir a vossa vida, em lugar de o fazerdes pelas crenças e dogmas.
Todo homem tem crenças que lhe são impostas ou nas quais ele cresceu. Essas jamais mudarão ou libertarão a vida interior; porém, pelo convidar a dúvida e pelo manter a inteligência entusiasticamente desperta, produzirá ele algo de muito maior do que jamais pudera conseguir por meio de meras crenças.

Pergunta: Poderia parecer que a intuição é necessária afim de compreender-se a verdade. Pode esta intuição ser ensinada ou é ela apenas a resultante do desenvolvimento?

Krishnamurti: Não pode ser ensinada. Como se pode ensinar a experiência? Ou ainda a maneira de colher experiência? A intuição — somente estou dando uma definição; há centenas de outras; podeis tomar aquela que vos aprouver — a intuição é o mais elevado ponto de inteligência e a inteligência é o acúmulo da experiência. Sem experiência e sem inteligência jamais pode haver intuição. Podeis possuir rudimentos dela — todos os possuem — porém eu falo acerca da intuição consumada e completa. Uma tal intuição jamais pode ser ensinada.

Quando vedes um mestre pintor, podeis imaginar que lhe seja possível transmitir seu dom aos discípulos? E no entanto perguntais-me: “Podeis, por favor, transmitir-me a vossa intuição?” Se eu a pudesse transmitir, não valeria a pena ou possuí-la; se a aceitásseis, ela não teria valor algum para vós. Isto é o que tendes estado a fazer até agora — a aceitar a intuição, a compreensão de outrem e orientando as vossas vidas de acordo com ela. Por isso, é que há o caos. Se, por outro lado, caminhásseis na luz de vosso próprio entendimento da Verdade, não projetaríeis sombra sobre o caminho ou sobre o semblante de outrem. Se obedecerdes às intuições, às ordens de outrem, estareis criando tristeza, não somente para vós como para esse outrem. Na obediência não há consecução; no executar os desejos de outrem, não há entendimento. A verdade e a liberdade da vida somente podem ser atingidas por meio da vossa própria experiência, de grandes tristezas, dores, êxtases e alegrias — e por ultrapassa-las todas.

Krishnamurti, 1930


A vida condicionada não pode penetrar na chama que é eterna

Pergunta: Não se achará implícita em vosso ensinamento a ideia de que existe uma alma ou centelha individual, para me servir de vosso próprio exemplo, que pode atingir a perfeição? Porem, a existência de uma tal alma ou unidade espiritual é inteiramente especulativa para muitas pessoa; não pode ser assunto de conhecimento. Não será, portanto, uma crença sobre a qual se baseia todo o resto de vosso ensino?

Krishnamurti: Não sentis que sois um indivíduo diferente de vosso semelhante? Não vos sentis diferentes em vossa estrutura, mental e emocionalmente, dos outros? Que lhe chameis alma ou centelha individual, é coisa que não tem muita importância; essa certeza de vossa individualidade a que falo, existe. A harmonia da vida é produzida pelo entendimento da unidade subjacente em todos os indivíduos.

Não pretendo que acrediteis ser um individuo uma centelha divina ou que exista uma alma, por afirmar eu ser isso um fato. Para mim, já não é crença; não vos sirvais, porem, desta explicação para em vós próprios criardes uma crença. A centelha, — ou aquilo que eu chamaria a vida condicionada — não pode penetrar na chama que é eterna, ou realizar a verdade que é o preenchimento da vida, enquanto a própria centelha não se voltar à chama, ou a vida condicionada não atingir o preenchimento de si mesmo.


Krishnamurti, 1930 

Sobre a questão da reencarnação

Pergunta: Não se acha todo o vosso ensino baseado sobre a reencarnação? Para a maioria das pessoas isto não pode ser assunto de conhecimento, porém apenas uma hipótese ou crença — e vós dizeis que não devemos ter crenças.

Krishnamurti: Nego que todos os meus ensinos sejam baseados na reencarnação. Para mim, a reencarnação é um fato, porque eu me lembro de certas coisas. Podeis perguntar-me: “Do que vos lembrais?” É coisa de muita importância saber o que haveis feito há dez anos em determinado dia? A maioria das pessoas que se recordam de suas vidas passadas sempre acham que foram reis, rainhas, grandes santos, grandes discípulos, — jamais o pobre mendigo que permanece à beira da estrada. Como facilmente o individuo se engana a si mesmo! Como gosta de se lisonjear a si próprio!


Para mim, a reencarnação é um fato, não uma crença; não quero, porém, que acrediteis na reencarnação. Pelo contrário, rejeitai-a; expulsai-a de vossa mente; e lembrai-vos somente que assim como sois um produto do passado, assim podeis dominar o futuro. Sois donos de vós mesmos e em vossas mãos está a eternidade.

Krishnamurti, 1930      

Sobre a questão do desejo

Pergunta: Tem-se dito que o mundo deveria ser encaminhado pelo desejo, não pelas crenças. Portanto, não tem importância o perguntar quais são as nossas crenças. Não sufocam as crenças o desejo e não nos deveria antes ser permitido agir licenciosamente, dado ser isto necessário para o crescimento?

Krishnamurti: É necessário proceder licenciosamente?


Pessoalmente, sustento eu que o desejo é muito mais importante do que as crenças. É quando sufocais os desejos que as crenças são criadas e a estagnação surge. É pelo constante re-despertar do desejo que vos tornais capazes de criar, que sois capazes de progredir — uso da palavra no sentido vulgar. Portanto, necessitais de ter desejos. A ideia de que o Nirvana ou o Céu é um lugar onde o desejo em absoluto não existe, é absurda. Eu sustento que a mais elevada felicidade é a do preenchimento de todos os desejos — o ultrapassar todos os desejos pelo fato de havê-los experimentado a todos. Os desejos são semelhantes aos feixes de lenha que adicionais a uma figueira. Quanto mais feixes, maior a intensidade e a pureza da chama. Porém, os desejos levam à licenciosidade, e haverá o caos enquanto cada qual não houver fixado sua meta e não se servir do desejo inteligentemente. O selvagem possui inúmeros desejos que, frequentemente, o tornam licencioso. Porém, o homem inteligente é aquele que já fixou a sua meta — a qual sustento eu ser a libertação e a felicidade — e utilização de todos os desejos para o conduzirem a esse fim. Então existe nele a ordem. Mesmo que ele tenha grandes desejos, não haverá caos. Esta meta é eternamente a mesma para todos, porém se cada qual fixara meta por si mesmo, e se ela não for fixada por outrem, haverá harmonia.   As pessoas podem correr vindo de pontos diversos, porém todas se estão dirigindo para o mesmo centro. 

Krishnamurti, 1930

Ao homem que atingiu, tudo se torna mais difícil

Pergunta: Para muitos de nós, a ideia do Cristo como um exemplo, tem-se tornado irreal, pelo fato de Ele haver se apresentado como diferente de nós — o Filho de Deus em sentido único. Não haverá a mesma possibilidade no que a vós concerne? Pode qualquer de nós esperar jamais vir a ser o que vós sois?

Krishnamurti: Dizeis-me: “É diferente para vós, pelo fato de haverdes atingido; ao passo que eu, a quem não aconteceu, tenho que passar por todas as complexidades, as complicações da vida”. Um montanhês que haja subido e conheça o caminho, adverte aqueles que desejam atingir o cimo, dos perigos que tem adiante. Não tem, portanto, que replicar: “Isto é bom para vós, porém eu quero escorregar por este precipício abaixo”. Vós estais vos esforçando por operar divisões na vida, porém, para aquele que atingiu, tais divisões não existem. Dizeis ainda “Pelo fato de haverdes atingido, isto vos é fácil”. Ao contrário, para o homem que atingiu, tudo se torna mais difícil e por causa dessas dificuldades, diz ele: “Amigos, afastai-vos destas armadilhas, e complicações; existe uma via mais simples, uma via mais nobre, uma via menos complicada”. O homem que atingiu é a própria vida; para ele não existe divisão da vida. Daí, ele quisera mostra-vos o modo pelo qual podeis unificar a vida. Se quiserdes dar preenchimento à vida, necessitais de destruir todas as barreiras que dividem os homens. Se tiverdes o atingimento como reservado apenas a uns poucos, para algumas pessoas estranhas, misteriosas, ele torna-se irreal; e por causa dessa irrealidade, começais a construir aquilo que supondes ser real e duradouro. Porém, isso será somente uma gaiola de limitação.

Um homem que haja sido mutilado na guerra, que haja sofrido a corrupção da crueldade, aconselhar-vos-ia a não combater. Se, porém, vós responderdes: “Eu quero lutar, quero gozar do conflito, quero contemplar as trincheiras e todos os preparativos da guerra”, ele não vos pode impedir. Amigo, o homem que haja atingido é vós próprio; posto que vos encontreis ainda em limitação. Assim, quando dizeis: “Vós sois diferente”, estais simplesmente exagerando as vossas limitações.

Pergunta: Haverá algum ponto em o qual as vossas ideias da vida difiram dos ensinos dados ao mundo por Jesus?

Krishnamurti: Compete a vós descobrir.

Ultimamente tenho viajado bastante e tenho conferenciado muito, — como é meu métier, — e após cada conferência tem-me sido perguntado; “É a vossa compreensão da vida diferente da de qualquer outro instrutor?”

Tem que ser diferente, pois que a descoberta da verdade, por parte de cada homem, é diferente também. Se simplesmente eu me amoldasse ao padrão de outrem, seria isto uma imitação.  

Krishnamurti, 1930

       

Quem te pode dizer se teu coração é limpo?


Quem te pode dizer se teu coração é limpo?
Quem te pode dizer se tua mente é pura?
Quem pode dar a satisfação ao teu desejo?
Quem te pode curar da calcinante dor da saciedade?
Terá que te ser dado o entendimento
Ou mostrado o caminho para o amor?
Escaparás ao temor do que os homens chamam morte?

Poderás libertar-te da dor da solidão
Ou escapar ao pranto da ansiedade?
Poder-te-ás esconder sob o riso da música
Ou perder-te em festivos regozijos?

A sabedoria nascerá do entendimento,
Ela emite sua voz
No deserto da inteira confusão.

Um homem viu as sombras a dançar
E foi buscar a causa de tanta beleza.

Pode a Vida morrer?
Olha dentro dos olhos do teu próximo.

O vale se esconde na treva nevoenta
Mas o tope da montanha está sereno
Em seu pasmo para os céus abertos.
Às margens de um santo rio
Repete um peregrino, cem cessar, um canto,
E enclausurado em frio templo,
Ajoelhado, um homem, perde-se em devoto murmurar.

Mas vede, sob a pesada poeira do verão,
Está a folha verde.

Mas quem te irá chamar em teu presídio?
Ou rasgar a venda que te tapa os olhos?
Tardo, um atalho sobe a vertente da montanha,
Mas quem te levará como a um fardo?

Vi um coxo que vinha em direção a mim;
Verti lágrimas de uma dolente lembrança,

À distância, bem longe,
Uma estrela isolada segura-se nos céus.

Krishnamurti



Quem busca a Verdade não pode levar em conta a gratidão

No seguir a Verdade, não se pode levar em conta a gratidão. Cada indivíduo que haja resolutamente lutado para alcançar a Verdade, tem que se haver tornado aparentemente ingrato para com alguém, quer se trate de parentes ou amigos que hajam sido professores e colaboradores. O professor que se deixasse atingir pelo sofrimento, ou pelo desapontamento, dado o fato de um discípulo qualquer o abandonar, para seguir aquilo que à sua mente se afigurasse uma verdade superior, não seria um instrutor legítimo. Ter-se-ia, por esse modo, condenado a si mesmo, em virtude do próprio ressentimento.  

Krishnamurti

Toda evolução se refere à expansão do Ego

Toda evolução se refere à expansão do Ego e por tal motivo pertence ao mundo do tornar-se em vez de pertencer ao mundo do Ser. A pessoa que pensa em conformidade com as linhagens espirituais, que sinta ambição por tornar-se “maior” do que os outros nas coisas espirituais, revela imediatamente que ainda se encontra aprisionada ao mundo do tornar-se. No mundo do Ser, não existem noções de maior e menor, pois que ali trata-se da realização da Vida; e a pura vida não conhece gradações. Os pretensos “grandes” na vida interna, estão frequentemente mais longe da verdade essencial do que os seus mais humildes e simples seguidores.


Em assunto da vida interna, as pessoas às vezes acham-se prontas a apegar-se a qualquer coisa, quer se trate de Deuses, de gurus ou de simples mecanismos mágicos que, segundo pensam, hão de fazer para elas aquilo que a ordem natural das coisas as deveria levar a elas próprias a fazer sozinhas. Só a experiência lhes pode evidenciar a miragem que estão perseguindo.  

Krishnamurti

A ilusão do “trabalho para o mundo”

Uma das maiores ilusões do mundo das coisas espirituais é o pretendo “trabalho para o mundo” — e é uma ilusão tanto mais perigosa por ser muito sutil. Grande parte daquilo a que se dá o nome de “auxílio ao mundo”, brota do egoísmo disfarçado. É, porém, ainda mais, devido a um temor não reconhecido. As pessoas temem combater consigo mesmas, com suas naturezas e pensam que, por certo modo, podem obter um atestado de imunidade ocupando-se a praticar boas obras. Tais atividades são fundamentalmente falsas. Se, realmente, amardes o mundo haveis de vos esforçar por ser, por amor ao mundo. E se a vós próprios não puderdes conduzir à prática deste esforço é porque o vosso amor não tem realidade. O homem que tiver purificado a sua natureza até o ponto de encher-se de verdade e amor, não pode deixar de prestar auxílio; no entanto, ele não é consciente da ajuda que presta, pois não fará mais que meramente expressar o que é. E um auxílio prestado assim, mesmo segundo as normas vulgares, será infinitamente mais poderoso, pois que operará a todos os instantes sob quaisquer circunstâncias e sobre todas as pessoas com as quais chega a entrar em contato. As boas obras, tal como muito frequentemente são entendidas, são sinais de pobreza, antes que de riqueza da verdadeira vida interna. 

Krishnamurti

A natureza do ego

A inteligência plenamente liberta não é consciente nem de subjetivo nem do objetivo considerados como tais. Ela inclui a ambos na pura realização. Uma tal inteligência, ao demais disso, não é um Ego. É absolta impersonalidade — a qual, apesar disso, conserva a faculdade de pensar, sentir e agir.

O ego, não é uma entidade. Pode mais veridicamente ser denominado um sintoma. Ele surge na consciência somente quando o livre fluxo da vida é obstruído. Podemos encontrar disto uma analogia familiar em nossos próprios corpos. Normalmente somos perfeitamente inconscientes de nossos órgãos internos; eles somente se fazem notar quando algo anormal com eles se passa. Pela mesma forma, se estivéssemos em perfeita saúde espiritual não seríamos conscientes de “eu-dade” alguma separatista. O fato, porém, é que não nos encontramos em saúde espiritual; não existe, na maioria de nós, o verdadeiro e não impedido fluxo da vida. E daí, apercebemo-nos da obstrução —e é esta obstrução o que a nós parece ser o nosso eu. 

É um erro, portanto, discutir a questão do Ego e de sua persistência como se se tratasse de uma entidade real tendo perante si somente duas alternativas — ou permanecer como está (isto é, uma entidade real) ou ser abolido. O Ego, como entidade, não possui e jamais possuiu existência, qualquer que ela seja. Nada mais é quem um sintoma de desordem interna, à qual, em nossa ignorância, vimos atribuindo o ser objetivo.

Em cada um de nós é a vida somente que age, sente e pensa; porém, dado o fato de ser por enquanto incapaz de manifestar-se com essa absoluta liberdade e pureza que lhe pertence como vida, a ilusão de um Ego é assentada — uma ilusão que é tão pouco entidade objetiva como o é a protuberância causada pela picada de um mosquito. O Ego existe somente quando o imaginamos.

De fato é possível a qual um de nós eliminar a consciência de Ego e restabelece-la vinte vezes ao dia. Quem quer que esteja completamente absorvido em alguma tarefa simultânea e funcionando livremente nessa tarefa deslizará da consciência de Ego, automaticamente, enquanto que a concentração persiste — e tanto assim é que frequentemente “volta a si próprio” com uma espécie de estremecimento quando ela passa. A absorção absoluta em qualquer atividade é, na verdade, tudo de que necessita para provar quão ilusório é o sentimento de eu-dade e quão não essencial para a plenitude e intensidade do viver. Significa, porém, isto que o homem que se acha absolutamente centrado esteja temporariamente nas mesmas condições do homem liberto? Não; a não ser que esteja ao mesmo tempo em contato com a Verdade. No que se refere ao Ego, acha-se ele em um estado que se assemelha ao da libertação, exatamente como um homem que ama a certo indivíduo intensamente e exclusivamente se assemelha, dentro dos limites de seu afeto particular, ao homem cujo amor abrange a todo o mundo pela mesma forma. Porém, o indivíduo concentrado ordinário, engana-se por duas maneiras: em primeiro lugar sua perda do eu separado é temporária; em segundo lugar, enquanto perdura, depende de certa atividade especial que cessa logo que a atividade passa.

A consciência liberta, por outro lado, jamais pode deslizar retrospectivamente para a eu-dade, separada, porém, permanece tão livre da separatividade quando se acha em estado de suspensão como quando se encontra empenhada em alguma atividade definida. E a razão disto é que ela tem sua morada na Verdade. Somente a Verdade pode proporcionar essa ausência de todo o egoísmo, a qual é independente de todas as condições mutantes e portanto, não é devida a qualquer coisa de exterior ao próprio homem.

O que ocasiona a maior parte das dificuldades nestas discussões acerca do Ego é o não acharmos fácil distinguir entre um eu que é puro sujeito ativo e um eu ao qual podem acontecer coisas e que, por consequência, pode tornar-se objeto. O eu real — o eu que continua para sempre e que a libertação não pode afetar — jamais pode ser objeto. Ele é eternamente sujeito e expressa-se a si mesmo, no que se denomina a “pura ação”; no passo que o outro eu somente vem à existência ilusória quando houver “reação”, isto é, quando o movimento — vida, por qualquer razão, for detido e feito retroceder sobre si mesmo. É somente este último eu que é o Ego. O outro eu é completamente não egoísta. É absoluto — pois que é a própria vida, a vida que despertou no auto-apercebimento.

Porém, que acontece à “uniquidade individual?” Não será esse eu que é puro, sujeito à mesma coisa que aquele?

Sim. Isto, porém, não a impede de ser vida universal ao mesmo tempo. Quando falamos de “tornar-nos unos com toda a vida”, não devemos pensar nesse todo sujeitando-o a termos de espaço — quantidade.

A totalidade, neste sentido, é o todo como qualidade. Significa pureza absoluta. O conjunto integral da vida pode existir em um ponto único, se a vida nesse ponto se encontrar absolutamente pura. Isto é que torna possível à vida do homem liberto o ser ao mesmo tempo individual e universal. A pura vida, em si mesma considerada, jamais pode atuar de outra maneira que não seja universalmente. Assim, pois, quando um homem houver purificado completamente a si mesmo de modo absoluto, — quando houver extirpado de sua natureza os últimos resquícios de egotismo e separatividade — a ação universal manifesta-se imediatamente, embora por detrás de todo o pensamento, sentimento e ação se encontre o ser único que é sujeito vivo em todas as atividades.

A universalidade, digamos para encurtar, é assunto não do que p homem é e sim daquilo que ele faz. Não pode isto deixar de ser verdade, ao verificar-se que a própria vida não é mero Ser passivo, porém é, ao invés disso, um momento de energia ativa. Não podemos, portanto, proferir a palavra “é” em um sentido puramente estático, relativamente a qualquer pessoa ou a qualquer coisa. No mundo da Verdade não há substantivos, há somente verbos. O homem torna-se universal na proporção direta, até ao ponto em que pensa, sente e age universalmente. Assim, pois, o assunto real não é o de saber se existe um Ego e se este persiste ou se é suprimido; e sim, o de saber se aquilo que está por detrás de todo o pensar, sentir e agir, como ser vivo e único, é capaz de tornar-se sujeito ativo em um processo de vida universal, portanto por intermédio e através de suas atividades, isto é, de transcender sua própria uniquidade.

O fato é possível. Pois é nisto, justamente, que consiste a libertação.

Os indivíduos acham-se atualmente tão interessados pelas questões últimas, que se esquecem de que têm de começar pelo início. Se partissem, simplesmente, do ponto em que se encontram e permitissem que o desdobramento se efetuasse naturalmente, verificariam que todas essas perguntas, com o correr do tempo, teriam respostas por si mesmas. A crisálida não pode sair da borboleta. Tornai-vos primeiro a borboleta, para depois chegardes a saber.


Praticamente, todas as perguntas feitas acerca do estado de libertação por aqueles que se encontram ainda em cativeiro, são feitas erradamente. Isto acontece por terem eles como coisas reais as coisas que para o homem liberto são ilusões. E quando o investigador chega a ver todas essas coisas como ilusões, não mais necessitará de fazer perguntas, pois que saberá. 

Krishnamurti, 1929

A escada do tempo psicológico

Como pode uma pessoa contristada ser feliz?

Pergunta: Pode-se jamais ser completamente feliz quando nosso irmão se acha em cativeiro?

Krishnamurti: Por acaso quando vosso irmão está doente, vós o ficais também? Quando alguém é esmagado por um automóvel, por acaso vos atirais sob as rodas do mesmo e vos fazeis despedaçar? Não quereríeis antes atingir a felicidade eterna que vos capacite proporcionar a paz aos outros? É uma ideia bem falaz a de que não podeis ser felizes se os outros forem infelizes. Como podereis auxiliá-los a possuírem a felicidade, se vós próprios não tiverdes a compreensão e a realização da felicidade? Se certas pessoas no mundo forem cegas, tornar-vos-eis por acaso cegos afim de ajuda-los? Se alguém não possuir abundância de experiência, deveis por isso rejeitar a experiência? Se algumas pessoas não houverem fixado sua meta na existência e não procurarem seu atingimento, fareis vós a mesma coisa? É bem grotesco o imaginardes que podeis auxiliar às pessoas descendo a seu nível, antes do que elevando-as até o vosso. Para poderdes ajudar àqueles que estão na tristeza, aos que estão sofrendo, àqueles que se acham em cruel cativeiro, não vos haveis de tornar vós próprios de espírito estreito, emaranhados pelos dogmas, colhidos pelo temor e engaiolados nas limitações estreitas. Ao contrário, fugireis a essas coisas se realmente quereis ajudar. Para ajudar com verdade tendes que haver ultrapassado a necessidade de ajuda.  

Pergunta: Haveis dito que não podemos fugir à tristeza. Como pode uma pessoa contristada ser feliz?


Krishnamurti: A resposta é muito simples: Não pode. Porém a tristeza dá o perfume da vida. Não podeis atingir a perfeição sem lágrimas, nem chegar à consecução sem sorrisos. Todos vós tendes medo à tristeza. Porém a tristeza dá a força que vos há de sustentar em vossa luta; e a tristeza é experiência. Convidai a tristeza para o vosso coração e não a eviteis nem a deixeis de parte por temerdes a dor. Como podeis ser felizes sem o entendimento da tristeza? Como podeis ter simpatia sem haver tido lágrimas nos olhos? Como podeis produzir ou criar alegria no coração dos outros, se em vós próprios não tiverdes tido o êxtase? Necessitais de todas as coisas e a tristeza é tão nobre como a alegria. Somente por vestir-se a tristeza de preto é que ela é tornada horrível. Sem provar de toda a experiência, como a abelha prova toda a flor num jardim, jamais podereis atingir a felicidade eterna a qual é libertação do jugo da experiência. Vós quereis atingir sem luta. Pensais atingir grandes alturas por algum milagre. Por isto é que tendes tantos credos, tantas religiões, tantos ritos, tantas escórias para vos sustentar. Temeis fazer face a vós próprios e às vossas fraquezas. Somente pelo entenderdes essa fraqueza e a vencerdes é que podeis atingir à perfeição.    

Krishnamurti, 1930

Libertai-vos de vossas muletas

Pergunta: Se alcançardes êxito no despedaçar os grilhões que amarram a vida e a verdade e quando a vida estiver liberta da superstição, do dogma e da autoridade, não será o resultado disso um caos maior do que aquele que vemos ao redor de nós presentemente? Podeis prever o que virá a acontecer quando a humanidade estiver liberta dessas amarras?  

Krishnamurti: Dado a meta ser para todos, sem olhar as distinções, e se fixardes essa meta por vós próprios, todos os vossos pensamentos e atos serão encaminhados por ela. Sustento isto porque ninguém no mundo possui uma tal meta, existe o caos e não o êxtase de propósito que advém quando cada qual houver estabelecido a sua meta por si mesmo. Ao demais disso, se existir caos ao redor de nós, como existe presentemente, é melhor experimentar com algo que, com toda a probabilidade venha a produzir a ordem. Não há utilidade alguma em dizer que, pelo fato de haver desordem, não devêramos tentar nada por medo de que possa produzir desordem maior. Isto é uma maneira covarde de encarar a vida. Não é esta a atitude do criador, do gênio; este é o caminho da estagnação, da falta de compreensão da vida. Se habitardes na sombra, de nada serve o dizer: “Não ouso abandonar a minha sombra por medo de que haja maiores sombras lá fora”. O propósito da vida é fazer face às sombras e não o evita-las por medo.

“Podeis prever algo do que virá acontecer?”

Não sou leitor de cartas. Além disso, é coisa de pouquíssima importância. Estáveis na incerteza quando fizestes esta pergunta. Pretendeis obter uma nova esperança para a ela vos apegardes, de modo a, ao seu redor, criar outra sombra, outra superstição a mais. Em vossa mente todo o futuro se acha baseado em esperanças. A verdade, no entanto, nada tem a ver com a esperança de vossa salvação particular. E se essa esperança existe, será ela uma traição à verdade. Cada qual deseja ser glorificado no futuro, possuir uma situação particular no céu o mais perto possível de Deus, o Deus de sua própria criação. Em um tal céu não existe sombra de verdade. Ele acha-se vazio no que respeita à verdade.

Enquanto buscardes uma esperança, um conforto e um bálsamo que cure todas as feridas, estareis afastando-vos cada vez mais desse reino onde reside a felicidade, onde a verdade habita para sempre.

Pergunta: Devemos repelir por inúteis as “verdades”, “princípios” ou “ideias” que nos serviram de ajuda, digamos, exemplificando, para ir do agnosticismo à espiritualidade?

Krishnamurti: Não vos deis ao trabalho de guardar as cascas das frutas que comeis, nem conservai de memória todos os acontecimentos que vos auxiliaram a crescer. Conservai aquelas verdades que alcançasteis mediante a experiência, antes do que a experiência em si mesmo considerada. De nada serve o sobrecarregar as vossas mentes com cascas vazias. À medida que cheguei a compreender por mim mesmo, fui deixando de lado as crenças, repetições, palavras vãs. Naturalmente, se eu vir a outrem fazendo a mesma coisa que eu fiz, digo-lhe: “Não repitais os meus erros. Eu passei pelo estágio em que necessitava de muletas; e verifiquei que todas essas coisas são desnecessárias”. Não vos digo: “por ter passado eu por todos esses estágios, vós tendes que fazer a mesma coisa”.

“Devemos repelir por inúteis as “verdades”, “princípios” ou “ideias” que nos serviram de ajuda, digamos para ir do agnosticismo à espiritualidade?”

Vós já as haveis ultrapassado. Aquilo que sustentáveis como verdade há dez anos não mais vos satisfaz agora. Vós não guardais isso, eu vo-lo asseguro. Ninguém repelirá suas verdades, princípios, ideias, a não ser que deseje faze-lo. É este o desejo que eu quisera criar em vós e não fazer-vos a imposição de minha forma particular de compreender.

Pergunta: Pode-se tirar todas as muletas e apoios à fraca humanidade nos tempos atuais?

Krishnamurti: Eu não vos posso tirar vossas muletas e apoios. Vós é que as deveis atirar fora.
Se eu vos tirasse um apoio, inventarieis outro. Se destruísse uma gaiola, criaríeis outra e enfeitar-lhe-íeis as grades. Meu propósito não é tirar coisas, porém sim criar esse imenso desejo pela verdade que vos faça despedaçar por vós mesmos todas as gaiolas.

Krishnamurti, 1930

O estar inteligentemente descontente é uma dádiva divina

Pergunta; Podeis nos dizer algo a respeito desse afeto por meio do qual haveis dito que se pode fugir à experiência em detalhe?

Krishnamurti: Digo que é possível a um ser humano atingir a perfeição sem passar por todas essas experiências; porém, para passar por todas as experiências, é preciso que a pessoa tenha grande afeto e simpatia. Existe um caminho complicado e um caminho direto. Afim de desenvolver a imaginação que vos proporciona experiência sem por ela passardes, tendes que possuir afeto.

Como se adquire o afeto? Por meio da experiência.

Quando vedes um alcoólatra, ou um homem cruel, ou um homem bestial em seus pensamentos e sentimentos, se possuirdes imaginação aliada ao afeto real, podeis adquirir o entendimento da sua tristeza e não precisais de passar pela sua particular forma de experiência.

Não pretendo complicar a vida por meio de mais teorias. Quero proporcionar-vos aquele entendimento da vida que atuará como uma lâmpada para a vossa alma, por meio da qual podeis guiar os vossos pensamentos e sentimentos. Não quero que penseis de acordo com o meu modo de entender. Não quero que atueis de acordo com a minha percepção da verdade. Se o fizerdes, apenas estareis imitando. A imitação jamais pode produzir a verdadeira cultura, a qual é resultante da percepção individual e criativa da verdade. Se fordes capazes de traduzir essa percepção na ação diária, estareis trilhando o caminho que conduz ao pleno entendimento que é felicidade.

Pergunta: Haveis dito que deveríamos ascender nossa própria tocha de afeto. Para aqueles que naturalmente não sentem muito afeto por alguém seja ele quem for, como pode isto ser feito sem se tornar o indivíduo artificial e irreal?

Krishnamurti: Pela tristeza. Alcançareis simpatia e amor abrindo as portas à tristeza. Pela tristeza desenvolvereis o afeto. Eu não vos posso proporcionar uma droga que em vós faça desenvolver o afeto. Todas as coisas no mundo clamam por afeto — cada ramo morto, cada folha murcha, cada flor, cada ser humano. E se não sentirdes afeto seja por quem for, mesmo por um ramo morto, tereis que sofrer, que verter lágrimas.

Pergunta: Não será a gaiola na qual dizeis que estamos encerrados, sido construída pelos crimes e limitações que nos rodeiam, antes do que por algo com que nos tenhamos rodeado a nós próprios? Se enfeitamos a gaiola não será isto uma demonstração de que estamos nos esforçando por satisfazer nosso anseio superior, com toda a beleza que nos é dado ver?

Krishnamurti: A gaiola é de vossa própria construção, de vossa criação pessoal. Nenhuma outra pessoa cria essas limitações que vos rodeiam. E somente vós podereis destruí-las. Porém, vós enfeitais a gaiola porque o enfeita-la é muito mais fácil do que quebra-la. Tendes medo de quebrar a vossa gaiola e entrar pelos espaços abertos. Sois constrangidos pela estreiteza de vosso próprio entendimento, pois que vos atemorizais de compreender a vida.

Porque nós estamos nos esforçando por dar satisfação ao nosso mais elevado impulso por meio da beleza tal como podemos ver”. Por isso é que a maioria das pessoas é medíocre. Satisfazem-se com a pouca beleza que imediatamente percebem, em lugar de se sentirem descontentes com o mesquinho regozijo das coisas pequenas.

Se quiserdes ser um grande artista — como necessitais de o ser afim de poderdes compreender a vida — não vos deveis vos satisfazer com as pequenas coisas, por belas que sejam. Não podeis imaginar um grande artista satisfeito com o seu primeiro quadro. Se para ele não existisse progresso, não poderia aperfeiçoar a sua arte. Se vos encontrardes satisfeitos com a lagoa estagnante do conforto fácil, tereis a produção da mediocridade — o espírito de burguesia.

A percepção da verdade de outrem, jamais pode ser grande, por admirável que se afigure aos vossos corações, por muito que isto corresponda ao vosso sentimento. Enquanto estiverdes contentes e satisfeitos, somente estareis enfeitando a gaiola de vossa limitação.

Para atingirdes a liberdade necessitais de estar em revolta constante. O dia de hoje necessita ser diferente do de ontem. Vossas ideias devem ir desdobrando-se de dia para dia, devem estar sempre crescendo, jamais imóveis.

Vossa mente e coração jamais podem crescer se estiverem atados pelas limitações da beleza imediata. Se todos fosseis provados de vossas gaiolas, de vossos dogmas, de vossas religiões, deuses, seitas, crenças, ficaríeis terrivelmente atemorizados. Necessitais de vossas gaiolas, de vossas crenças estreitas, necessitais de vossos deuses sectários; e a partir do momento que os abandonardes, atemorizar-vos-eis de vós mesmos. Jamais podeis atingir a meta pelo vos esconderdes do auto-exame e evitar o entendimento da vida.

Pergunta: Haveis feito uso da frase “revolta inteligente”. Podeis, por favor, ampliar isto e indicar a que fazes da vida devemos aplica-lo?


Krishnamurti: A todas as fases. A revolta é essencial à vida. O estar inteligentemente descontente é uma dádiva divina. Podeis dizer: “Muita gente no mundo está descontente. É uma das coisas mais fáceis do mundo, o estar descontente. Porém, o estar inteligentemente descontente, é virtude rara. A inteligência é o resultado do acumulo de experiência. A partir do momento que estejais inteligentemente em revolta, então estareis verdadeiramente crescendo.     

Krishnamurti, 1930

Tendes buscado o conforto, não a verdade

Pelas perguntas que me têm sido feitas por todo o mundo, verificar-se-á quão poucas pessoas realmente desejam compreender e atingir a verdadeira liberdade da vida. Fazem citações de antigas escrituras e de autoridades eruditas e colocam-me em confronto com elas, imaginando por esse modo haverem posto em solução seus próprios problemas. Porém, aqueles que quiserem compreender a vida, precisam de procurar a verdade fora desses muros tradicionais, longe dos ditames dos antigos, por eruditos, por sábios que possam ser.   

Meu ensino não é místico nem oculto, pois sustento que tanto o misticismo como o ocultismo são limitações do homem postas à verdade. A vida é mais importante do que quaisquer crenças ou dogmas e, para se permitir à vida a sua plena fruição, tendes que libertá-la das crenças, da autoridade e da tradição. Aqueles, porém, que estão ligados por essas coisas, encontrarão dificuldade no entender a verdade.

Minhas respostas a todas as perguntas que me foram feitas não se acham baseadas na autoridade de livros eruditos, em opiniões já firmadas. Encontrei a libertação e entrei nesse reino onde existe a eterna felicidade e por isso quisera ajudar a outros a compreenderem as coisas sob este ponto de vista.
Assim como eu estou liberto de tradições e crenças, quisera libertar a outras pessoas dessas mesmas crenças, dogmas, credos e religiões que condicionam a vida. É somente sob esse ponto de vista que eu falo e não pelo desejo de infiltrar uma nova doutrina ou de impor uma nova autoridade. Por ter fugido a toda a limitação, é meu desejo libertar a todos os homens.

Não sou oráculo para solver todos os problemas. Quero fazer que as pessoas pensem por si mesmas. Desejo que duvidem das próprias coisas que têm por mais caras e preciosas, de modo a, após haverem feito convite à duvida, somente aquilo que seja de valor eterno permaneça.

Pergunta: Que provas podem ser apresentadas a uma alma de haver passado por certas experiências ou estágios?

Krishnamurti: Não pode haver prova a não ser a própria experiência. Se uma vez vos houverdes queimado, não mais necessitareis de provas para saber que o fogo queima. Tereis a capacidade de reter o conhecimento que a queimadura vos trouxe. Se uma experiência vos advier e não houverdes colhido todas as suas lições, tendes que novamente passar por ela. Ninguém vos pode dar prova de que haveis passado por ela senão vós mesmos.

Pergunta: Dizeis que não devemos buscar conforto. Qual é, pois, vossa ideia a respeito da compaixão?

Krishnamurti: Tendes buscado o conforto por tantos anos, por tantas gerações, por tantos séculos, e haveis encontrado assim o afeto perdurável? Se não haveis encontrado esse entendimento que é perdurável, deixai de lado o conforto e não mais vos abrigueis à sua sombra. Para possuirdes real compaixão deveis assemelhar-vos a um médico, um grande cirurgião que conhece o perigo de uma moléstia e deseja cortá-la pelo seu entendimento. Quão felizes serieis se eu vos proporcionasse mais abrigos, mais conforto! Vós me fazeis esta pergunta porque em vossa mente e coração imaginais que eu estou falando à compaixão. Amigo, a verdade não é compaixão e nem ódio — é todas as coisas.


A verdade é cruel para a treva; onde quer que exista entendimento ela proporciona compaixão, desabrocha como uma flor desabotoa abrindo sua glória para a luz. Vós quereríeis antes um médico que momentaneamente vos curasse as vossas dores, do que um cirurgião que destruísse a causa de vossa doença. Preferiríeis de muito um propinador de confortos para o vosso pequeno entendimento, antes do que alguém que destruísse todos os vossos confortos e vos mostrasse o caminho para essa eterna compaixão que é a verdade. Pelo fato de haverdes tomado abrigo nos confortos da decadência, os confortos que podem ser destruídos em tempos de tristeza, ides para outros abrigos, para outras moradas onde reside a treva e o engano; e rejeitais a quem vos quisera levar para o ar livre e para as frescas brisas, que vos hão de proporcionar a verdade perdurável, que é o entendimento da vida. 

Krishnamurti, 1930        

Poesia de Krishnamurti

Hei vivido o bem e o mal dos homens,
E em trevas se desenvolveu o horizonte do meu amor.

Hei conhecido a moral e a imoralidade dos homens
E cruel se tornou meu pensamento ansioso.

Partilhei da piedade e da impiedade dos homens,
E pesado tornou-se o meu fardo da vida.

Eu segui a carreira dos ambiciosos
E vã me tornou a glória desta vida.

E agora penetrei o secreto propósito da vida.

Krishnamurti


Apontamentos de Krishnamurti

Fazei convite à tristeza com abundância de coração, pois que a tristeza proporciona o perfume do entendimento e é criadora do afeto.

O atingir da Verdade consiste no desdobrar da vida e no dar à vida a meta mais plena possível para os fins de sua expressão.

Eu sustento que o presente caos, ansiedade e luta, surgem do fato da vida ter sido levada ao cativeiro e mutilada, e a Verdade ter sido limitada e condicionada.

O mundo presentemente é a expressão da vida em cativeiro.

Pelo fato de haverdes colocado as religiões e as crenças antes da vida, produziu-se a estagnação.

A religião é o pensamento solidificado dos homens, por meio do qual eles constroem templos e igrejas.

A rede da vida é tecida por meio das coisas vulgares e essas coisas vulgares são as que podeis dominar. Podeis dar-lhes originalidade, podeis por meio delas criar grandeza; ou podeis desaproveitá-las por falta de entendimento.

Eu vos digo, buscai, não o conforto, porém o entendimento. A busca do conforto é o cativeiro da vida; a busca do entendimento é a sua liberdade.

Vós vos atemorizais de fazer face a qualquer de vossas fraquezas; atemorizai-vos de fazer-lhes frente e vencer.

Cavar por meio do presente para atingir o eterno, tal é o propósito do homem. Todo o ser humano tem de, cedo ou tarde, cavar esse túnel que é o caminho direto para o atingimento da vida. Nesse túnel não se pode voltar para traz, pelo fato de se haver lançado para traz aquilo que se tiver cavado. Tereis que avançar sempre. E uma vez que por vós mesmos tenhais estabelecido a meta — a qual é a liberdade de todos os desejos, de todas as tristezas, dores e lutas — então o cavar o túnel tornar-se-á um êxtase.

A verdade não é misticismo, nem ocultismo. Ocultismo e misticismo são limitações que o homem põe à Verdade.

Se um homem for sábio e ardoroso em sua busca, verificará que coma Verdade não pode haver transigência.

A mente da maioria das pessoas afigura-se necessário possuir um intermediário, um interprete da Verdade. Eu vos digo, porém: deixai que a própria meta se torne o vosso mediador. Uma pessoa qualquer, só momentaneamente vos pode ajudar. Que cada homem, pois, fixe sua própria meta, criando por essa maneira a ordem.

Para fortificar a semente que tem de vir a crescer, até tornar-se a árvore frondosa que dá proteção a todo o transeunte, necessitais desde o começo, fazer convite à dúvida. Examinai todas as vossas crenças, tudo aquilo sustentardes ser vosso conhecimento, não pelo deixardes que a dúvida se insinue para dentro de vosso coração, porém sim convidando-a a entrar. Pois eu sustento que a duvida é essencial para chegar-se à descoberta e ao entendimento da Verdade. A não ser que tenhais feito convite à duvida, com toda a sua crueldade de exame, aquilo que possuirdes não é real.

Todos vós podeis ser levados à duvida por outrem. Porém a duvida que não for determinada por vós mesmos, não purifica.

Eu vos digo que a ortodoxia se estabelece quando a mente e o coração estão em decadência.

Se possuirdes a compreensão e a coragem de fazer convite à duvida, então sereis discípulos da Verdade e não discípulos de um indivíduo qualquer. Então, somente, podereis ser capazes de compreender, somente então possuireis certeza — e possuindo a certeza, capazes de ministrar as águas da vida que hão de extinguir a sede do mundo.

Tendes que despedaçar todas as coisas, afim de verificar, duvidar de tudo afim de descobrir.

Não quero que me adoreis; não quero que acrediteis cegamente nas coisas que digo; não quero que de mim crieis um santuário para vosso abrigo ou que de mim vos sirvais como muleta. Quero que descubrais e compreendais. Pois que é somente pelo entendimento da Verdade que a não vireis a atraiçoar; somente pelo entendimento dela estareis habilitados a dar.

Antes quisera eu ter uns poucos que compreendam, do que muitos que me sigam sem entendimento.

O caminho direto é o caminho único; a união simples é a melhor.

Quando um homem houver compreendido este caminho, quando esta união houver sido conseguida, então o tempo e todas as complicações do tempo, para ele terão cessado. Então ele será seu próprio Mestre, seu próprio Deus. E, chegando a ser isto, ele é tudo.

Uma desordem verdadeira, uma desordem divina, é necessária afim de produzir-se a divina ordem.

Quando libertardes essa vida que é divina, e consumardes essa vida, então vós próprios vos tornais Deus. Por Deus não entendo eu o Deus tradicional, porém sim o Deus que está em cada qual; e este Deus pode somente ser realizado por meio da consumação da vida. Por outras palavras, não existe Deus, exceto Deus manifesto no homem purificado, tornado perfeito.  

Quando atribuis à autoridade externa uma lei e ordem divina espiritual, sufocais, limitais essa mesma vida que pretendeis consumar.

Crenças, dogmas, religiões, nada têm que ver com a vida, e daí com a Verdade.

Para auxiliardes com êxito, tendes que haver transcendido a necessidade de receber auxílio. Para dar com verdade, tendes que haver deixado de ser aquele que recebe.

Para verdadeiramente amar, tendes que haver transcendido a corrupção do amor.

O problema do mundo é o problema individual. Tomais em consideração o problema do mundo antes de haverdes cogitado do vosso. A paz e o entendimento somente virão quando houver a compreensão, a certeza e força em vós mesmos.

Tendes que pertencer à Verdade, que fazer parte da Verdade e apesar disso vosso trabalho tem de relacionar-se com o irreal e o passageiro. O afastar-se do mundo mais não é que o auto-atingimento, a busca de si próprio.

A libertação não é negativa; é positiva. Não é o penetrar em um vácuo e aí perder-se a si mesmo; é o integrar-se na Verdade, tornar-se parte da Verdade, e sair para o mundo e libertar aqueles que estão adorando ilusões.        
  

Jiddu Krishnamurti, 1930 

Sintomas da retirada da estrutura dependente

Não se encontra liberdade na troca de gaiola


A vida é um processo de desenvolvimento por meio da seleção; e é assim, quer se seja jovem ou velho. Tanto a juventude como a velhice têm suas ilusões. Os velhos têm as ilusões das superstições ocultas nas quais buscam refúgio para o conflito com a vida. Os jovens de hoje, frequentemente, não têm crença alguma; acham-se em revolta contra todas as ortodoxias. Porém, esta revolta, pode, ela própria, ser uma ilusão pelo fato de ser, muito frequentemente, somente uma oculta auto-indulgência. A ortodoxia de qualquer espécie que seja implica disciplina e a revolta contra a autoridade pode ser a revolta contra isto. De modo que tantos os jovens como os velhos possuem suas peculiares ilusões — encontrando-se as dos velhos no conforto da superstição, e as dos jovens na descrença confortável. Nos velhos isto induz à estagnação, nos jovens à revolta sem sentido. Quando ferirdes a raiz da ilusão por meio da seleção e por meio do esforço, estareis libertando essa vida que é verdade. Não se trata de atingir alguma coisa; trata-se simplesmente de libertar algo que já existe. Pelo libertar a vida de ilusões vós a capacitais a funcionar livremente através de vós e assim a vós próprios firmais nessa perfeita serenidade de pensamento e pureza de emoção que faz parte da liberdade da vida. Para ferirdes a raiz da ilusão precisais primeiro saber qual é a sua raiz. É o desejo. Averiguai quais são os vossos secretos desejos e sabereis o que é que está criando as vossas ilusões. Não procureis, porém, matar o desejo, pois o desejo é vida. Buscai simplesmente desejar com verdade — isto é, desejar do ponto de vista da Vida Universal, não da vida separada. Quando puderdes fazer isto tereis atingido a espécie de desejo, que não acalenta ilusões.

Buscar alcançar a verdade pela destruição do desejo é como destruir as raízes da árvore e ao mesmo tempo esperar que ela proporcione frescas sombras, fragrância e folhas verdes. Se destruirdes o desejo, até mesmo o vosso crescimento como seres humanos ficará destruído. O problema é manter e intensificar o desejo, ao mesmo tempo que impedi-lo de buscar satisfação na ilusão. Uma vez que possais efetuar isto, então vosso desejo será livre. Na maioria das pessoas há conflito entre o desejo e os meios de auto-realização que a ele se impõem e assim, em lugar do desejo finalizar pela felicidade — como o deveria — termina pela tristeza. E quando isto acontece, o desejo busca imediatamente conforto. Isto é, ferido pelo seu próprio resultado, busca refúgio em si mesmo e por esta maneira estabelece um padrão ilusório de espiritualidade. Quase todos se satisfazem com este padrão, não reparando que ele não colabora para os fins do preenchimento da vida, porém antes para a negação desse preenchimento. A espiritualidade que flui da vida evidencia-se espontaneamente a si mesma na conduta. Quando a espiritualidade for uma simples fuga da vida, dá-se sempre o conflito entre ela e a conduta.  

Há três estágios na evolução do desejo. No primeiro, pensa o homem que será feliz de possuir uma casa, automóvel, livros ou dinheiro. Não estou condenando este estágio; é uma primeira tentativa natural para formular o anseio verdadeiro que a pessoa que dele é objeto não compreende ainda. O que ela realmente está buscando é uma beleza e uma felicidade que são impessoais; porém não se apercebe perfeitamente disto e muito naturalmente interpreta-o como uma busca de bens pessoais. Porém, uma tal busca, implica inveja, cobiça, ódio e exploração dos outros, pois que tem de ser alcançada as custas de outrem e, sendo esta a sua natureza, tem que, cedo ou tarde, produzir a desilusão.  

Tempo virá em que o homem descubra que por meio das posses a felicidade jamais pode ser atingida; e quando ele verifica isso, vulgarmente entra no segundo estágio do desejo, a transferência do anseio pelas posses para o reino das coisas sutis. Aí o desejo toma o caráter de apegar-se aos confortos espirituais para que o protejam contra o conflito com a vida. Exatamente como alimentará a ânsia pela riqueza e outras coisas mais, afim de proteger-se contra a luta da existência física, assim agora procura os guias, os gurus, as autoridades de modo a estas pouparem-lhe o conflito em um nível superior. Porém, mais uma vez, isto tem que demonstrar-se ilusório, pois que a maneira única de escapar ao conflito é a vitória. E assim, o segundo estágio do desejo é abandonado e entra ele no terceiro (por favor lembrai-vos de que estes estágios não constituem divisões reais. A vida, em si, não pode ser subdividida por esta maneira. É por mera conveniência que deles falo).

O terceiro estágio parece a princípio semelhante à pura negação pois que representa o abandono de todas as tentativas para encontrar a felicidade em algo externo — seja nos confortos físicos externos, seja nos confortos espirituais tais como os Mestres e os instrutores. Se, porém, tivermos a coragem de realmente entrar nele, verificaremos ser positivo, não negativo. O eliminar todo o desejo de auxílio externo é libertar o verdadeiro desejo o qual se refere ao desejo que somente pode ser encontrado dentro de si próprio. Isto é o que realmente estamos buscando a todo o instante, porém sem o sabermos. É o significado real da busca do auxilio exterior. Quando o desejo é assim liberto, a própria vida fica livre. Pois um tal desejo nada mais é que vida.

O verdadeiro desejo é puro ser, é a mais alta verdade, a mais alta espiritualidade, o absoluto. É a ligação do amor com a intuição, é Deus, é tudo.

Para libertardes, portanto, os vossos desejos, tendes primeiro que verificar a espécie de satisfação que eles buscam, e depois colocar à prova essa satisfação à luz da intuição; isto é, ver qual o valor que eles têm em relação ao puro ser. Então, seguramente, haveis de verificar que não pode existir verdadeira interpretação para o desejo, que torna a sua satisfação dependente de outrem. Somente dentro de vós e por intermédio de vós mesmos, podereis realizar o puro ser, de modo que somente pelos vossos próprios esforços, pela vossa seleção continuada e constante consecução, podeis alcançar o preenchimento, podeis chegar à consumação do desejo — essa consumação pela qual a vida manifestando-se como desejo, realmente anseia.

Existe somente uma prova para todas as vossas ideias e emoções, e esta é saber se elas pertencem ao mundo do que é perdurável; porém o aplicar esta prova subentende a necessidade de pensar e sentir por vós mesmos, coisa que é a última coisa a ser desejada pela maioria das pessoas. Tendes que possuir uma visão independente da vida; vosso pensamento deve ser original, não meramente mecânico. A chave para a mais alta das realidades é a independência — independência de pensamentos, de ação e sentimento. Por muito difícil que seja isto, deveis praticá-lo sem restrição. 

Crescer é lutar, e aquilo pelo qual tendes que lutar não é algo para o vosso eu separado, nem é assunto de cultivar esta ou aquela qualidade especial. É simplesmente o libertar a vida. A pergunta a ser feita é: Flui ela espontaneamente provindo de um impulso interior, sem depender de nada de exterior fora dela mesma? Somente por esta maneira é que a mais alta realidade é atingida. Tudo mais fomenta a desordem, confusão e tristeza. É confinar a vida dentro de gaiolas ou pelo menos, substituir uma gaiola por outra.

Assim, pois, homem feliz é aquele que encontrou sua própria verdade — não a verdade de outrem — o homem que segue a voz de sua própria intuição a qual é a voz do Eterno dentro dele existente.   
   

 Jiddu Krishnamurti, 1930 
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill