“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

A ousadia que proporciona a reta compreensão

Pergunta: Relativamente à condição do que é novo e do que é velho, existem duas espécies diferentes de conciliação? Uma tenta evitar o decidir, evitar a saída real, e tenta dar cumprimento ao velho e ao novo, parte de uma parte de outro. A outra espécie, porém, de conciliação, acha-se desejosa de tomar decisão, porém quer compreender o liame que existe entre o que é velho e o que é novo. O que nos disseram no velho método, foi, ou pelo menos parece ter sido, consistente em si mesmo. O que sois e o que dizeis, não é somente consistente em si mesmo, porém é, para mim, a mais elevada forma de viver a verdade que eu conheço. Porém, em alguns pontos, não compreendo integralmente, quer o exato significado de vossas palavras, quer o que de praticamente implícito elas contêm. Posso dizer honestamente que me esforço ardorosamente durante todas estas semanas, para compreender-vos. Em meu ser mais interno, sinto que já fiz minha escolha de seguir o caminho direto. Sinto, agora, depois de vos ter escutado por estes dez dias, que não se trata mais de escolha e que não mais poderei voltar ao passado. E no entanto existe ainda alguma incerteza em minha consciência. Estarei compreendendo-vos corretamente ao dizer: que existe a verdade relativa no velho método (estágios de discipulado, governo interno do mundo, etc.), porém que ambos os caminhos não podem ser trilhados pela mesma pessoa, que o velho caminho não é destituído de verdade, porém que o indivíduo tem que tomar a resolução de por qual dos caminhos quer seguir?

Krishnamurti: Perfeitamente. Tendes que resolver sobre aquilo que ides fazer. Por favor, isto mão é um ultimato. É assunto deixado à escolha do indivíduo, porque, no fim de tudo, eu não posso forçar ninguém e ninguém me pode forçar a mim.

Eu trilhei todos esses velhos caminhos do disciplinado, do culto, e verifico serem eles muito longos, demasiado complicados, desnecessários — porque, seja qual for o caminho que sigais, seja qual for o deus que cultueis, seja qual for o santuário que edifiqueis, sereis, por fim, forçados a voltar sobre vós mesmos para solver esse eu. Fosse qual fosse o caminho que eu seguisse, havia sempre essa luta interna, esse descontentamento, essa infelicidade, essa solidão, esse temor, buscando os outros para encontrar animação — havia sempre algo revolvendo-se dentro de mim semelhante a um vulcão em ebulição. Assim, pois, digo que não tem importância aquilo em que acrediteis, aquilo que cultuais, pois seja como for, sereis sempre forçados a voltar a vós próprios. Porque haveis de precisar ser crentes, porque haveis de precisar de cultos, porque precisais de deuses, teorias, filosofias, dogmas e temores? Eles serão inúteis enquanto o “Eu” não estiver contente, enquanto não for levado ao entendimento, não estiver tranquilo, não estiver liberto da corruptibilidade. Como diz o inquiridor, o caminho a seguir, é assunto de escolha individual. Podeis preferir o caminho do conforto, o do discipulado — eu coloco este no conforto — porém, a seu tempo sereis forçados a defrontar-vos a vós próprios, não podereis evita-lo. Tendes que possuir dentro de vós, essa harmonia, liberta de todos os deuses, Mestres, discipulado, temores, tradições, nascimentos e mortes, existência — tudo. Pelo fato de haver eu conseguido todas essas coisas e havê-las achado inúteis digo que é melhor estabelecer harmonia dentro de vós antes do que buscar auxílio do exterior. A escolha pertence-vos, porque ninguém se interessa para que escolhais uma coisa ou outra — eu certamente que não. Tendes que decidir. Nenhuma Sociedade vos virá forçar a tomar a decisão. Esta é a razão pela qual não podereis fazer um dogma ou uma filosofia disto que vos digo. Trata-se de uma escolha individual. E, como sois livres, escolhereis ou a limitação ou a liberdade, ou o conforto, ou essa ousadia que proporciona a reta compreensão.     


Krishnamurti, no Castelo de Eerde, 19 de julho de 1929

A Vida Real desconhece limitação

Pergunta: Por que modo a vida, segundo vós a encarais, difere da concepção teosófica do plano divino? Quereis vós dizer que não existe tal plano, ou antes, aventurando-me a interpretar-vos, que nessa concepção do plano, o perpétuo, sempre continuado fluxo de vida divina, é visto demasiadamente como algo de estático, dividido em compartimentos por modo antropomórfico?

Krishnamurti: Eu não sei qual é o plano divino teosófico; tenho que compreender, das próprias palavras do inquiridor, que todas as coisas, segundo ele, se acham decretadas, são estáticas, como ele diz. Estou somente acompanhando o pensamento do inquiridor. Um outro teosofista poderá talvez dizer: Não é assim.

Para mim, a vida, não pode ter um plano. A vida que é incondicionada, livre, integra, está inteiramente liberta de todos os planos. A partir do momento que tenhais um plano, estareis trazendo essa vida à limitação. E, não podeis trazer para baixo aquilo que é incondicionado e que jamais pode ser dominado, vosso plano não pode corresponder à vida que é livre.


Krishnamurti, no Castelo de Eerde, 19 de julho de 1929

Sobre a relação com Mestres, Anjos e Seres Ascensionados

Pergunta: Todas as coisas, todo o ser que realmente existe na natureza, deve possuir seu lugar natural; isto é, um local determinado pela sua própria natureza e valor intrínseco, e devem existir conexões naturais entre todos os seres da natureza, isto é, relações representadas por esses valores intrínsecos e representando-os em proporções não deturpadas, por exemplo, há uma conexão natural entre os homens e os animais. Qual é, então, em nosso presente estágio de evolução, nossa relação natural com os seres mais elevados, super-humanos, como os Mestres e Anjos? (Não quero com isto implicar o implorá-los ou sobre eles descansar).

Krishnamurti: Quereis saber qual a relação natural entre os seres super-humanos, superiores, tais como Mestres e os Anjos e o homem. Qual a relação existente entre um selvagem e um homem pretendidamente civilizado? Existe a evolução, a distância; esta é a relação mútua natural. Quereis saber qual a relação natural entre a humanidade e os Mestres e os Anjos. A mesma relação natural que existe entre um ser civilizado e um selvagem. Isto, porém, é de pouquíssima importância para ambos, porque tanto o homem civilizado como o Mestre têm que chegar ao preenchimento da vida — e é desta que estou falando e não dos estágios naturais. Assim, pois, não tem utilidade o perguntardes quem está na vossa frente e quem vem atrás. Isto, sob o meu ponto de vista, é, uma vez mais, tomar o não-essencial pelo essencial. Todos vós vos achais imensamente interessados em Mestres, em saber se eles existe ou não, e qual o meu ponto de vista em relação a eles. Eu vos direi meu ponto de vista. Para mim é de pouquíssima importância que eles existam ou não existam porque digo eu que o home tem que chegar a essa libertação à qual os Mestres devem também chegar. Assim, pois, preocupai-vos com isto e não em saber quem se acha na vossa frente. Quando tendes que ir a pé para o Acampamento ou para a estação, partindo daqui, há pessoas que vão na vossa frente que estão mais próximas do Acampamento ou mais próximas da estação; pessoas que partirão mais cedo. Que é mais importante? Alcançar a estação ou vos sentardes a cultuar o homem que está na vossa frente? Tanto vós quanto o homem que vai na vossa frente acham-se muito longe da meta, ambos têm que ali chegar pois toda a vida lá conduz.     


Krishnamurti, no Castelo de Eerde, 19 de julho de 1929

Você precisa perder o medo do medo

Quantos dentre vós estão dispostos a tentar aquilo que digo?

Pergunta: Algumas pessoas têm feito objeções ao vosso ensinamento sobre a vida, dizendo que a vida sempre se expressa em formas e que não podem conceber a vida, puramente, em si mesma. Ora, eu penso que a vida e a forma não estão opostas, pois que a vida não me parece ser nem com a forma nem sem a forma, porém, externa-se mediante o processo de mudar sempre, sempre vir-a-ser, enquanto que a forma, em si mesma, é produzida pela ilusão do estar-parado. Estará isto de acordo com o vosso ponto de vista?

Krishnamurti: Em parte. Para mim não existe separação entre forma e vida, entre espírito e matéria, tudo é um. A forma é a expressão da vida; se a vida não for forte, vital, flexível, enérgica, completa e integralmente livre, vossas formas serão limitações. Assim, deveis vos preocupar com a vida e, depois, as formas cuidarão de si mesmas.

Pergunta: Dizeis que a maneira pela quais ensinais é a mais rápida e mais fácil. Qual a razão porque, aparentemente, tão poucas pessoas na história encontraram esta via mais curta?

Krishnamurti: Quantos dentre vós estão dispostos a tentar aquilo que digo, a efetuar experiências? Muitos poucos. E esta é a razão pela qual existem tão poucas pessoas na história. No fim de tudo, o homem que atinge, encontra a sua meta após haver passado através das coisas ordinárias, não-essenciais de todos os dias, exatamente como todos os outros. Porém, imediatamente após haver atingido, vê ele que todas essas coisas não-essenciais, mesquinhas, são desnecessárias. E, assim, diz ele aos outros: “Não façais estas coisas”. Poucos, porém, o escutam. Muitos poucos contendem com ele nas coisas essenciais.

Pergunta: A crença necessita ser ensinada do exterior até uma certa idade. A que estágios da evolução da humanidade será isso aplicável?

Krishnamurti: Não podeis aplicar isto à humanidade. Nada temos que ver com a humanidade. Não me desentendais, por favor. Temos que ver com o indivíduo, pois que o indivíduo “é” a humanidade. Se o indivíduo necessita ser ensinado do exterior, então a ele compete decidir em que estágio deve ser ensinado e em que estágio o não deve. Não podeis estabelecer lei. Isso depende do indivíduo.

Pergunta: Dizeis que ensinais a verdade absoluta. Acha-se vossa expressão dessa verdade absoluta, de algum modo, necessariamente, limitada pela limitação das palavras?

Krishnamurti: Certamente. Se eu dispusesse de um novo vocabulário, estaria muito bem, porém, isto implicaria meu aprendizado de um vocabulário novo. Assim, usando palavras vulgares, — não palavras técnicas ou filosóficas — e esforçando-me para explicar essas coisas que são inexplicáveis por meio de palavras ordinárias, dá-se, naturalmente, uma limitação. Porém, certamente, a limitação das palavras, não virá a ser a limitação da verdade. Pelo menos para mim. Para mim é isto uma experiência vasta, imensa, que todo o ser humano necessita fazer, na qual necessita viver e ter concentrado o seu ser. É como se fosse o céu inteiro, enquanto que as palavras são meras janelas. Não podeis traduzir o céu inteiro por meio de palavras. Se, porém, passardes para além das palavras, — vede bem, intelectualmente, não mística ou sonhadoramente — então a ilusão das palavras desaparecerá.


Krishnamurti, no Castelo de Eerde, 19 de julho de 1929

Precisais libertar-vos de todas as gaiolas

Em minhas palestras anteriores, dividi o “Eu” em eterno e progressivo, porém isto foi feito, não para inaugurar uma nova teoria ou filosofia, porém puramente pela conveniência de vos tornar isto absolutamente claro para vós como o é para mim. Assim, peço-vos que não sistematizeis. Por favor, não elaboreis disto uma nova filosofia. Cada qual deve ver distintamente por si mesmo, não à maneira congregacional, isto é, coletivamente. A libertação é o atingimento do indivíduo, é tarefa do indivíduo. Se vos esforçardes por fazer daqui uma filosofia, um sistema, ou um dogma, torná-lo-eis aplicável ao todo quanto não o é; é questão de percepção individual, de luta individual e individual esforço para entender claramente.

A libertação é para ser atingida por toda a humanidade e, por conseguinte, por todo indivíduo separadamente. Precisais libertar-vos de todas as gaiolas. Precisais vos libertar da gaiola que vierdes a fazer daquilo que eu vos estou dizendo. Fareis disto uma muleta ou uma gaiola que vos permita fugir a certas coisas que vos causam dor? Se, fizerdes do que vos estou dizendo uma muleta ou uma gaiola, ficareis tão escravizados, tão longe da libertação como o estáveis antes. Esforçai-vos para tornar isto perfeitamente claro por vós mesmos e, mediante a vossa percepção interna, animai a vós mesmos a fazer este esforço que há de esclarecer vossa visão e proporcionar-vos entendimento e reta compreensão.

Como estava dizendo, a vida, que é tudo, livre e incondicionada, na qual existe a semente de todas as coisas, é o “Eu” eterno, universal. Estou me esforçando para reduzir a palavras algo que jamais pode ser posto em termos, porém não façais disto um dogma.

Para chegar à vida, que é livre, que é incondicionada, que é todo conservadora e, no entanto, não pode admitir em si mesma nada que seja impuro, corruptível, imperfeito, vós, como indivíduos, como eus separados dessa vida, precisais criar a harmonia dentro de vós mesmos e, assim, tornar-vos unidos com a vida que é livre. Por outras palavras: Vós, individualmente — se como “Eu” progressivo se como “Eu” universal é coisa que não nos deve preocupar de momento — precisais ser incorruptíveis; vós, como indivíduos necessitais ser livres, pois que em vós essa vida universal deve estar centralizada. Assim como a verdade não pode ser rebaixada, como não pode ser limitada por sistemas de moral, por cultos, por deuses, por santuários, vós, como “Eu” individual, tendes que abandonar essas limitações do medo, do conforto, e, pela eliminação, estabelecer a harmonia dentro de vós.

Tendes que vos tornar vosso legislador único, e manter-vos libertos de todas as autoridades exteriores, libertos de todo o medo. Dado que sois plenamente responsáveis por vós próprios, tendes primeiro que perceber esta visão de toda a vida, tomando a esta, que eu digo ser liberdade, estabelecer vossa lei de acordo convosco próprio e não de acordo com outrem. No final das contas, não me podereis dizer a mim o que é que eu devo fazer e o que não devo; e eu também, por minha vez, não vos irei dizer o que deveis e o que não deveis fazer. Porém, todos vós sabeis, se houverdes sofrido, se houverdes observado, se estiverdes presa da dor, em grande isolamento e solidão ou em grande companhia, que toda a vida — individualmente, bem como a vida toda que vos rodeia — deve culminar, finalmente, nessa vida que é, que não tem começo nem fim. Sabendo ser esta a meta final — se me é dado usar esta palavra sem estabelecer nisto limitação — podereis, então, desenvolver uma certa qualidade interna de verdadeira e apropriada percepção, que atuará como vosso legislador.
Esta é a modalidade única pela qual vos podeis tornar livres, de modo a vos não atemorizardes com as circunstâncias, com os convencionalismos, quanto ao que outras pessoas dizem e pensam. Se por vós mesmos estiverdes certificados com a certeza nascida da reta compreensão, que tem sua semente na imortalidade, da liberdade à qual toda a vida tem de chegar, dela derivareis vossa força para caminhar retamente. Então não mais precisais vos atemorizar, não mais vos preocupareis com a criação de dogmas e filosofias.

Para chegar a esta percepção da liberdade, tendes que passar pelo processo de eliminação. Quando digo “tendes que passar”, por favor, não o façais pelo fato de eu vo-lo haver solicitado. Estais aqui porque desejais compreender, por julgardes que eu atingi e que vos posso auxiliar. Na realidade, não vos posso ajudar, porém posso vos tornar clara a percepção disto, de modo a poderdes, pela vossa própria força, lutar pela sua conquista e vos tornardes homens livres e incondicionados. Não podeis perceber essa visão da vida com todos os vossos emaranhados, e sem essa percepção nada podeis executar. Eu não sei o que é que vos impede de eliminar todas as coisas inúteis e não-essenciais. Tendes que pensar, por vós próprios, individualmente, no modo pelo qual haveis de fazer isto, pois de outra maneira o que vos estou dizendo terá sido totalmente inútil; somente virá criar uma outra muleta. Em vez da antiga, tereis uma nova.

No fim de tudo, isto exige uma certa determinação de propósito. Quando buscais dinheiro, amor ou diversões, estais continuamente a pensar nisso, ficais excitados e enxergais os meios e modos de obter essas coisas. Porém, seguramente, aquilo de que vos estou falando é maior que todos os divertimentos, maior do que o amor, maior do que todo dinheiro. E, se é digno de ser possuído, deveis também enxergar meios e modos de atingi-lo, deveis estar constantemente vigilantes, apercebidos em tudo quanto fizerdes. 
         

Krishnamurti, no Castelo de Eerde, 19 de julho de 1929

Sois sábios em coisas infantis

Comentário: O “Eu” progressivo que não está em perfeita harmonia com o eterno acha-se em oposição às condições sociais. Após haver-se harmonizado com o eterno aparece como estando ainda em oposição, apesar de estar exprimindo as mais profundas necessidades da sociedade.

Krishnamurti: Isto é. “Enquanto o ‘Eu’ não estiver em harmonia com o eterno, esse ‘eu’ deve estar em conflito com as condições sociais; porém, uma vez que este ‘Eu’ haja atingido a harmonia, posto que possua uma aparência de estar em conflito com as condições sociais e econômicas do mundo, não expressará as mais profundas necessidades da sociedade?” Quando vós, como indivíduos, vos não achais ainda em harmonia com o eterno, tendes naturalmente que opor-vos, tendes que achar-vos em conflito com todas as circunstâncias exteriores. Estareis em revolta com todas as coisas que superficialmente vos forem impostas pela autoridade, pelo medo, por meio da ambição. Se vos achardes em revolta com essas coisas não-essenciais que a sociedade, as condições sociais, a humanidade vos impõe, quando essa harmonia com o eterno for estabelecida, achar-vos-eis ainda mais em revolta. Vós, porém, não estais ainda em revolta nem mesmo com as coisas ordinárias! Vós vos atemorizais, não vos achais, realmente, ansiosos. Achai-vos ansiosos por coisas, que na realidade, não têm importância nenhuma. Haveis vos tornado sábios em coisas infantis. Temos que criar homens fortes, que estejam em revolta por se acharem harmonizados com o eterno, que é a coisa muito maior e muito mais formosa do que achar-se em revolta por estar em desacordo. Quando estiverdes harmonizados, então desejareis modificar as pessoas, mudar todas as coisas, então possuíreis a chama que arde nitidamente. Necessito de uma dúzia de pessoas que se achem ardorosas acerca desta coisa não acerca de seus pequenos deuses e velas, suas pequenas profissões de fé particulares. Afim de estar-se verdadeiramente em revolta, para possuir esse êxtase de propósito que nasce da harmonia com o eterno, o “Eu” progressivo precisa estar em revolta com todas as circunstâncias externas, o que significa constante apercebimento e acautelamento de si mesmo.

Pergunta: Não é vossa opinião que, se todos se conhecerem e sentirem a si mesmos unos com a vida, e viverem a vida dirigidos pela voz interior, que é a voz da vida, todas as limitações caem e experimentamos essa felicidade da qual falais?

Krishnamurti: Mais uma vez, estais retornando ao mistério. A vida não tem voz, essa voz interna é a resultante das vossas experiências. A vida deixa-vos progredir sozinhos em direção à vida, — o todo. Ela não se preocupa com indivíduos. Não penseis ser isto um dogma cruel. Se a vida se preocupasse convosco, serieis perfeitamente diferentes, serieis seres perfeitos emocional, mental e psiquicamente. A voz interna é o resultado, o produto da vossa experiência, a qual é intuição.

Pergunta: A visão da substância do “Eu”, do eterno, vem como um lampejo ou passo a passo?

Krishnamurti: Vem a luz do sol como um lampejo? Sobe o sol repentinamente ao zênite do céu? Vem a primavera com toda a sua tenra folhagem numa explosão? Ou desce a treva sobre vós subitamente? Vós quereis que essa visão vos venha subitamente — por isso é que essa pergunta foi feita. Quereis que subitamente ela se vos revele. Não pode ser desse modo. Ao contrário, é um processo contínuo, incessante — um solevar de sombra após sombra, um suceder de luz após luz, dor após dor, e prazer após prazer.

Pergunta: É esse “Eu”, do qual todos somos conscientes, o “Eu” progressivo? Sem olhar ao seu grau de entendimento?

Krishnamurti: Seguramente. Deste “Eu” somente é que sois conscientes e não do “Eu” eterno.

Pergunta: Começa o progresso real somente depois de uma completa separação de todas as coisas não-essenciais?

Krishnamurti: O progresso real começa quando o “Eu” progressivo principia a retirar-se para dentro do “Eu” que está fora do tempo. Porque vos afastais de todas as coisas não-essenciais? Pelo fato de reconhecerdes a estupidez, a infantilidade de todas essas coisas. Porém, como chegais a esse estágio? Pelo pensamento, pelo sofrimento, pela pesquisa, pelo estudo, pelo fato de sentirdes com grandeza.

Pergunta: é POSSÍVEL EDUCAR O “Eu” antes de se atingir a libertação?

Krishnamurti: É possível. Depois não há mais que educar o “Eu”. Uma vez ainda vos digo que alimentais a esperança de encontrar um caminho em que vos possais evitar de educar o “Eu” agora. Oh, vós não sentis ardor nestas coisas!   


Krishnamurti, no Castelo de Eerde, 18 de julho de 1929

Do “Eu” progressivo ao “Eu” Eterno

Pergunta: Como concebeis a conexão, a relação ente o “Eu” progressivo e o “Eu” eterno? Porque é que o “Eu” progressivo precisa tornar-se o “Eu” eterno?             

Krishnamurti: Porque é que quereis ser felizes? Porque quereis ser livres? Porque quereis a harmonia em tudo quanto fazeis? Porque é que o “Eu” tristonho, dolorido, lutador, está sempre buscando aquilo que e calmo, sereno, equilibrado, estável? Quereis vencer a tristeza e a dor e estabelecer dentro de vós aquilo que é incorruptível e, portanto, cheio de felicidade, aquilo que não liga, que é livre.

Pergunta: É a “união simples” a fusão do “Eu” progressivo e do “Eu” eterno?

Krishnamurti: Todos vós gostais dessa expressão “a simples união”, porém ela nada significa para vós. Parece tão simples que todos pensam poder alcança-la. A união simples é muito difícil, porque é preciso ser-se um gênio para ser-se simples — não infantil, eu não quero falar desta espécie de simplicidade, que é crueza, porém da simplicidade real do refinamento, o resultado do crescimento de todas as coisas externas. Essa simplicidade é o resultado de grande tristeza, grande dor, grande entendimento. A pergunta é: “Constitue o progresso a união entre o “Eu” progressivo e o “Eu” eterno? Naturalmente. Porém vós quereis obter esta união com o eterno antes de estardes em harmonia com os vossos amigos, antes de serdes amistosos para com o vosso próximo, antes de vos haverdes tornado tolerantes para com aqueles que, ou são demasiado intelectuais ou não o são o bastante. Para alcançardes esta união com o eterno, precisais primeiro possuir a harmonia dentro de vós. Todos vós pensais nela como sendo algo distante, porém ela não está longe nem perto.

Pergunta: É o “Eu” eterno a mesma coisa que “vida”?

Krishnamurti: É.

Pergunta: Se a verdade reside no processo, a perfeição é, portanto, progressiva. Torna-se a perfeição cada vez mais perfeita?  

Krishnamurti: Do meu ponto de vista, não. A perfeição do caráter não é progressiva; existe algo mais que é progressivo. É isto: O eu — a mente e as emoções — precisam ser progressivas, até que estejam em perfeita harmonia com o eterno. Enquanto caminhardes em direção a alguma coisa, manifesta-se o progresso; quando, porém, entrardes naquilo em cuja direção haveis estado progredindo, o progresso de uma espécie cessa e uma espécie diferente de progresso começa, bem como uma espécie diferente de perfeição. Enquanto caminhais na direção do eterno existe o desejo de ser perfeito. Quando, porém, entrais em harmonia com o eterno, essa perfeição progressiva, a qual haveis estado acostumados, cessa de existir. Olhais para estas coisas no momento presente, com mente e coração em limitação: assim, para vós, toda a coisa, imperfeita ou perfeita, boa ou má, é progressiva; vossa mente julga dentro da limitação. Quando falo acerca daquele eterno que não está em limitação, vós aplicais os tramites da perfeição progressiva, da limitação a algo que não pode ser descrito por meio de palavras. No fim de tudo, o que para vós descrevo somente pode ser uma espécie de sentimento; é coisa incerta, não podeis argumentar a respeito, não podeis explica-la. Quando, porém, ela se tornar vosso conhecimento próprio, vossa própria certeza, não vos importareis de discuti-la, de conversar acerca de tal, de dela duvidar e ninguém vos levará à incerteza.


Krishnamurti, no Castelo de Eerde, 18 de julho de 1929

No processo de transmutação reside a verdade


Desejo acentuar — e já fiz isto antes — que o que estou dizendo não é uma nova teoria para ser acrescentada às teorias, filosofias e sistemas inumeráveis já existentes. Nada tem a ver com tais coisas. É aquilo que eu considero a vida — o todo. E, como eu vivo isto, digo que tal é a quintessência de toda a vida, a culminância de toda a vida, a flor de toda a vida.

Falo da fruição de minha vida, que é a vida de toda a gente. Assim, portanto, peço-vos, não trateis o que vos estou dizendo como se fosse uma teoria intelectual para ser elaborada ou um calor emocional para ser gozado.

Falo acerca de algo que para mim é real, algo que estou vivendo. Para vós, porém, tudo isto é estranho, pelo fato de ainda condescenderdes com teorias, crenças, sistemas, por intermédio dos quais evoluis. O que vos digo relaciona-se essencialmente, vitalmente, com a vida, tendo como implícito que a vida diária deve ser tornada perfeita — para todos e não meramente para uns poucos.

Quando digo “vida”, uso deste termo com um significado especial: vida — não a parcial, a vossa ou a minha — porém essa vida que é o todo, que inclui a vossa e a minha, que é a semente de todas as coisas, que é móvel e imóvel, transitória e eterna. Ela é todas as coisas, criou o homem e Deus. Deus não é senão o homem enobrecido, livre; e este Deus que é o homem está em harmonia com o eterno, com a vida. Esta é a função do homem, harmonizar o seu “Eu”, o seu ser, com o eterno. Não será por meio da meditação, por meio da filosofia, que firmareis esta harmonia, porém por meio da luta, do domínio e do esforço contínuo, uniforme, — o qual vós não quereis. Vós não quereis a luta, quereis um caminho suave, fácil.

Esta harmonia precisa de ser estabelecida entre aquilo que é transitório, aquilo que está em cada um de nós e aquilo que é constante, que está também em cada um.

A vida cria o homem e o deixa absolutamente independente, corruptível, limitado, escravo das circunstâncias. Sendo independente, sendo livre, está apto a escolher por si mesmo, porém, em virtude de sua falta de habilidade, de sua ignorância do que é essencial, escolhe ele, entre as coisas que o rodeiam, as que são triviais.

Se olhardes para vós próprios, verificareis que isso se aplica a cada um. Se para dentro de vós olhardes, averiguareis que existem aí o “Eu” mutável e o “Eu” imutável. Não traduzais isto como sendo o Ego e a Mônada, sentindo-vos satisfeitos, com esse fato. Não sabeis mais acerca dessas coisas do que acerca daquilo de que vos estou falando. Se para dentro de vós mesmos olhardes, verificareis que existe aí o mutável, jamais tranquilo, constantemente variável. Não é assim? Depois, existe ao mesmo tempo o ser que é constante, imutável, certo, calmo, seguro. Acerca deste ego, nada sabeis.

Existem portanto, estes dois egos e compete a cada um de nós tornar o “Eu” mutável, no “Eu” imutável, tranquilo, todo-conservador. Isto é: tendes que tornar, ou antes, transmutar o mutável no imutável, porque não podeis fazer descer o imutável ao mutável, não podeis trazer o eterno para o transitório, porém, sim, antes, pela purificação, pela luta, pelas negações, pelos sacrifícios, pelo esforço contínuo, precisais transmutar o mutável e conduzi-lo ao imutável. Como não podeis trazer o eterno para o transitório, como não podeis trazer o eu eterno à harmonia com o eu mutável, progressivo, tendes que tornar esse eu progressivo, mutável, no eterno. O que cada um de vós está tentando fazer, é, justamente, o contrário disto, é trazer o eterno para o transitório. Por quererdes evitar todas as lutas, toda a dor, toda a tristeza, evadir-vos em vez de transmutar, tendes todos os vossos abrigos de conforto, vossas filosofias, vossos deuses, vossos templos, vossas igrejas e vossas religiões. Quereis fugir, quereis esquecer, e mergulhar no eterno. Não o podeis! Pois onde existir corruptibilidade, a incorruptibilidade não pode existir; onde houver imperfeição a perfeição não pode encontrar guarida. Assim, pois, tendes que tornar esse progressivo, mutável, constantemente variável “Eu” no incorruptível, constante, todo preservador, todo-conservador imutável, “Eu” eterno, que não é nem ser e nem não-ser, nem sabedoria nem não-sabedoria.

No processo de transmutação reside a verdade e não no mero atingir. É à medida que progredis para o eterno que encontrais a Verdade, não na consecução final. A consecução final é natural, é o resultado do processo continuo. Tendes que ter em vista essa verdade, essa vida, essa libertação, essa felicidade enquanto dura o processo de transmutar o progressivo no imutável, o eterno. Assim, pois, tendes que vos preocupar com o “Eu” que é progressivo e no cuidar dele, no torna-lo puro, forte, intemerato, íntegro dentro de si mesmo, completamente liberto de toda a ilusão, reside a harmonia que é eterna.              


Krishnamurti, no Castelo de Eerde, 18 de julho de 1929


Nem tempo nem espaço existem para quem conhece o eterno...

Nem tempo nem espaço existem para o homem que conhece o eterno.

O espaço e o tempo são reais para o homem que é ainda imperfeito e o espaço acha-se para ele dividido em dimensões, e o tempo em passado e futuro. Ele olha para trás e vê seu nascimento, suas aquisições, tudo quanto rejeitou. Este passado vai sempre sendo adicionado. Do passado o homem desvia os olhos para o futuro onde a morte, o desconhecido, a treva, o mistério, o esperam.

Fascinados por estas coisas ele não pode mais desapegar-se delas. O mistério do futuro encerra para ele o preenchimento de todos os seus desejos, que o passado lhe negou e, em seus sonhos, voa ele para esse horizonte brilhante onde a felicidade deve existir e onde tem ele de procurar.

Erro fatal!

Ninguém jamais penetrará o infinito mistério do futuro, impenetrável em sua evanescente ilusão — nem mago, nem profeta, nem Deus! Porém, ao contrário, há de ser o mistério que há de engolfar o homem, que o não deixará escapar, que há de despedaçar a mola principal da sua vida.

A vida não pode ser atingida por meio do passado, nem através da miragem do futuro. A vida não pode ser atingida por interferência de intermediários, nem conquistada por outrem.

Essa descoberta somente pode ser efetuada no imediato presente — pelo indivíduo, para si próprio e não para os outros — pelo indivíduo que se haja tornado o “Eu” eterno. Esse “Eu” eterno é criado pela perfeição do ser — perfeição na qual todas as coisas estão contidas, mesmo a humana imperfeição: O homem — se não tiver ainda atingido essa condição de vida no presente — vive no passado que deplora, vive no futuro pelo qual alimenta esperança, porém jamais no presente que ignora. É este o caso que se dá com todos os homens.

Equilibrado entre o passado e o futuro, está o “Eu” como tigre preste a dar o bote, como águia pronta a voar, qual o arco no momento de deferir a seta.

Este momento de equilíbrio, de alta tensão, é “criação”. É ele a plenitude de toda a vida, é imortalidade.

O vento do deserto, apaga todo o vestígio do viajor.

A impressão única é a pegada do presente. O passado... o futuro... areias levadas pelo vento.


Krishnamurti, 1929

Os problemas do mundo estão unicamente dentro de vós

9ª Pergunta: Para ser inteiramente franco para comigo mesmo, devo dizer que não possuo o inflamado desejo de atingir a libertação e a verdade. Nem tampouco, — se tivesse tal desejo — confiaria em ter força e perseverança bastante para consegui-lo. Somente possuo um ardente desejo; ser um servidor dos Mestres para auxílio à humanidade. Penso, assim, que a coisa única que para mim sobreleva é continuar o seu trabalho em diferentes departamentos para auxiliar os outros...

Krishnamurti: Eis aí o ponto. Quereis auxiliar aos outros. Muito bem, mas só existe um meio de auxiliar aos outros — que é ultrapassardes vós próprios, a carência de serdes auxiliados, tornando-vos incorruptíveis. Não podeis ajudar verdadeiramente, de modo perdurável, por outra maneira. Não é que não devais auxiliar no processo de atingir. Como gostais de torcer as coisas!...

Continuando:... por outro lado sinto que sois o “Despertante”, e talvez pela vossa influência eu possa ser desperto um dia no ardente desejo pela verdade e a libertação...

Krishnamurti: Jamais sereis despertos pelo meu desejo. Vós é que tendes de possuí-lo, vós é que tendes de ter o anseio, por serdes vós que haveis sofrido. Não posso despertar o que em vós está dormindo. Vós próprios é que tendes de despertá-lo e então possuirdes a maior das alegrias de viver.

Continuando:... Será, sob tais circunstâncias, permitido continuar a assistir aos Acampamentos e reuniões, posto que ainda não lute pela Libertação?

Krishnamurti: Naturalmente. Ninguém vos embaraçará ou vos sujeitará a exame sobre se realmente estais buscando a libertação. E como o poderiam fazer? Vinde, pois, a estes Acampamentos, se quiserdes vir. Não vamos examinar quem, realmente, está lutando pela Libertação e quem não está. Quem vo-lo poderia dizer? Certamente não seria a Gerência do Acampamento, nem eu tão pouco. Sois vós quem tendes de a vós assegurar se realmente estais buscando. Por favor, verificai isto. Todos os problemas do mundo e a solução deles está unicamente dentro de vós. Todos os problemas externos são a resultante da luta individual. Os problemas do exterior são as expressões da caótica luta individual e não podereis solver esses problemas externos se dentro de vos houver ainda tristeza, sofrimento, regozijo, prazer, sufocação.

Assim, se realmente quiserdes ajudar, — e todos vós dizeis que o quereis — o modo único de que dispondes é o da perfeição do eu, o tornar o eu incorruptível e por nenhuma outra maneira.


Krishnamurti, 7 de agosto de 1929, Acampamento de Ommen 

A essência da amizade é medo e auto-interesse


6ª Pergunta: Que direis a um grupo de estudantes de colégio que afirmassem não ter credo, nem religião, nem crença, exceto a ciência material, e que não consideram necessário ideal algum desde que possam ganhar a sua vida?

Krishnamurti: Eu lhes perguntaria se eles sentem ou não tristeza, se não amam alguma coisa, se não amam a alguém. Um colegial como qualquer outra pessoa, acha-se colhido pelas garras da tristeza de várias espécies — posto que não da espécie da vossa, particularmente. Ele não se preocupa acerca do essencial, ou com a reta espécie de cerimonial, porém sim com os seus sofrimentos e deles quer libertar-se. Ele deve amar a alguém cujo intermédio lhe advém os emaranhados do amor, e manifesta-se a tristeza. É muito fácil falar a tais pessoas por não alimentarem elas tantas ideias preconcebidas, prejuízos, seguranças. Quereis examinar, criticar, aquilo que diante delas colocais.

7ª Pergunta: Não julgais ser muito difícil à criaturas jovens verificar o que é essencial e o que o não é?

Krishnamurti: Não sei se somente os jovens é que têm tal dificuldade. Expliquei já como se deve discernir. Não vos posso dizer o que é essencial e o que é falso, o que é durável e o que é passageiro, porque, se o fizesse, constituiria uma gaiola. Vós é que tendes de sofrer, vós é que tendes de lutar, vós é que deveis ser capazes de distinguir agora. Digo que as coisas essenciais são as que vos dão liberdade, absoluta e incondicionada, que vos darão essa felicidade que é inabalável. Todas as outras coisas são não-essenciais. Tendes que examinar e verificar por vós mesmos o que pensais ser essencial. Se, ao contrário, eu vos dissesse quais as coisas essenciais, onde estaria o vosso progresso, onde estaria vossa “uniquidade” na consecução?

8ª Pergunta: Para quem quer que esteja desapegado do afeto humano, qual o valor da humana amizade?

Krishnamurti: O estar verdadeiramente desapegado significa que estais apegados a todos, portanto, o desapego é a resultante de todo o afeto humano e sobrepuja toda a amizade especializada. No fim das contas, o amor verdadeiro que é desapegado, pelo fato de ter apego a toda a coisa, é a resultante, a consumação de todos os afetos humanos, é o preenchimento de todo o amor. Assim, é absolutamente desnecessário ao homem que atingir, o ter amizades humanas, pois que a humana amizade é, na maioria dos casos, a resultante do isolamento, das tristezas, do anseio pela companhia. Se, porém, a todo instante lutardes para firmar o amor por todos, então servir-vos-eis do afeto humano, de toda a afeição que agite o vosso coração, para atingir essa perfeição do amor.   


Krishnamurti, 7 de agosto de 1929, Acampamento de Ommen 

A verdadeira memória é inteligência

5ª Pergunta: Sinto-me inclinado à suposição de que pôr de lado o passado e esquece-lo completamente, são coisas não exatamente as mesmas. Poderíeis dar-nos o vosso ponto de vista sobre a memória?

Krishnamurti: Esta pergunta é realmente interessante para efetuar uma modificação. “Sinto-me inclinado a supor que expelir o passado e esquece-lo completamente são coisas não exatamente idênticas. Poderíeis fornecer-nos vosso ponto de vista sobre a memória?” Para mim, a memória não deveria ser a da experiência em si, porém antes a memória daquilo que é o resultado da experiência. Precisais esquecer a experiência e recordar a lição. Isto é que é a verdadeira memória. Esta é eterna, por ser a coisa única de valor na experiência. Esta verdadeira memória é inteligência. Como disse a noite passada, inteligência é a capacidade de escolher, com discernimento, com cultura, aquilo que é essencial daquilo que é falso. Esta inteligência adquire-se por meio da experiência, por meio das lições que permanecem após a experiência. A mais elevada forma desta inteligência é a intuição, por ser o resíduo de todas as experiências acumuladas. Esta é a verdadeira função da memória.

“Qual a espécie correta de recordação e a correta espécie de esquecimento?” A espécie correta de lembrança, do meu ponto de vista, é recordar e apegar-se a esse resíduo de toda a experiência, de modo a não mais condescenderdes na mesma espécie de experiências. O condescender com as experiências que houverdes já realizado, cria barreiras. Para um homem sábio, uma experiência de certa espécie determinada é suficiente. Assim a correta espécie de lembrança e de esquecimento é o haver aprendido das experiências e o apagar todas as experiências que não tem valor.

A pergunta a seguir “qual a espécie correta de gratidão?” Para mim não existe tal assunto de gratidão, porque, se realmente amardes a todos, do mesmo modo de todos aprendereis. Não vos apegareis a uma pessoa. Sereis gratos, em vosso amor, a todos. Aprendeis de vossos servos, se fordes observador, do operário, do homem que cava a terra, e do maior de vossos heróis. Deles todos aprendereis à medida que a todos eles amardes e não haverá gratidão para pessoa em particular. Sereis leal a um ser, especificadamente se a todos o fordes — pelo fato de a todos amardes. Digo-vos que é muito mais belo, muito mais tranquilo, sereno, o amar a todos do mesmo modo; na realidade, ter a toda gente no coração, não ser indiferente a ninguém, se possuirdes um tal amor, aprendereis, não de uma coisa, porém de todas, móveis ou imóveis que elas sejam, de tudo quanto for transitório ou eterno. Se amardes somente a uma pessoa, começareis a cultuá-la, a olhar para essa pessoa em sentido ascendente e começais a sufocar a vós próprios, não estareis aprendendo da vida, não vos regozijareis com a vida, nem com a vida estareis em amor. A questão da gratidão é uma questão de amor e para a pessoa que ama a um e não a outro, há tristeza. Isto não é mera chatice, porém uma realidade. Assim, o amor é uma flor que proporciona seu perfume a todo transeunte, que ele seja de uma cor quer de outra, deste ou daquele tipo. A flor dá seu perfume a todos, e, se fordes sábios, aspirareis esse perfume e nele vos regozijareis. Do amor que é mesquinho, que embaraça, que é corruptível, chegareis a esse amor que não embaraça, que é incorruptível.

“De que modo se relaciona a memória com a arte de discernir entre o essencial e o não-essencial e deverá ela porventura ser educada de maneira a funcionar corretamente?” Naturalmente. É isto que tenho estado a dizer. À verdadeira autodisciplina é a educação do “Eu”. “Porque modo se relaciona a memória com a arte de discernir entre o essencial e o não-essencial?” Não se trata de um modo, é o todo que importa. Se não tiverdes a memória reta, se sempre estiverdes hesitando, se estiverdes inseguro, então vosso discernimento não terá valor; porém, se a memória for o resíduo de toda a experiência, quando vos defrontardes com inúmeras coisas não-essenciais e entre elas uma essencial, devereis ser capazes de escolher essa única coisa essencial pelo fato de vossa memória se achar adestrada. Examinai toda a experiência que se vos defronte, como o vento que encrespa o face lisa das águas e verificai se essa experiência é essencial. Se o não for, deixai-a de parte porque se não for essencial é porque já a haveis realizado. Uma criança que certa vez queimou os dedos jamais se aproximará novamente do fogo. Ela realizou sua experiência e a lição permanece. Assim, pois, se uma vez houverdes tido certa experiência ela deve proporcionar-vos a plenitude de todas as suas consequências.

“E deverá ela ser educada de modo a funcionar retamente?” Pois não a estais adestrando a todo o momento do dia quando ansiosamente estais vigilantes, quando vos autodisciplinais a vós próprios constantemente à luz do vosso entendimento eterno? Não precisais passar por nenhum adestramento especial; a vida vos treinará se fordes acurados, observadores. É o indolente que necessita de assistência, aqueles que são preguiçosos, que estão cansados de examinar tudo quanto lhes vem. O meio único de tornar o eu absolutamente puro e incorruptível é a autodisciplina imposta a vós próprios, não em vista de repressão, porém em vista do amor dessa liberdade que é verdade.


Krishnamurti, 7 de agosto de 1929, Acampamento de Ommen 

A Verdade reside no desdobramento do “Eu” progressivo

 

4ª Pergunta: Se é “aqui” e “agora” que alcançamos a Libertação, que desenvolvimento nos é possível após a morte?

Krishnamurti: Teria sido melhor fazer a seguinte pergunta: “Que desenvolvimento nos é possível enquanto estamos vivos?” Achai-vos muito mais interessados pela morte do que pela vida. A Libertação, a Verdade da qual estou falando, não é algo exterior, porém consiste no processo da própria consecução. A verdade reside na luta continua, na rejeição e consecução que são o resultado dessa luta. A Verdade reside no desdobramento do “Eu” progressivo, o ego e não na sua consecução final. Esta progressão do ser não está nem no futuro, nem em uma época longínqua, porém, enquanto estais vivendo, lutando, regozijando-vos, entristecendo-vos, agora. Assim, seria muito melhor que buscásseis compreender e adestra-vos com a vida, agora, do que investigar a vida após a morte. Assim como vos preparais para a treva, durante o dia, assim, para vos preparardes para a morte, precisais viver. Vivei agora, pois é esta a coisa única que importa. O alterar o curso de vosso pensamento, o modificar o vosso amor corruptível agora, é a coisa única que importa. Por favor, olhai a isto, verificai que precisais lutar constantemente, continuamente, agora, de modo a criardes essa incorruptibilidade de que falo, em vossas mentes e corações. É uma coisa muito difícil o lutar de continuo; requer grande força, grande determinação. Como muito poucas pessoas a possuem, eis porque tendes todos esses caminhos laterais inumeráveis para encorajar-vos; porém, ainda mesmo que andeis vagueando por esses caminhos laterais, tereis que voltar sempre, que retroceder a esta coisa única. Podeis adorar em um milhar de altares, executar um milhar de ritos, porém volvereis sempre a esta coisa única. Não vos é possível esquecer a tristeza, não podeis por de lado a desgraça, a solidão ou o temor por esses meios ilusórios. Tendes que chegar à raiz de toda a tristeza e aí estabelecer a perfeição, essa harmonia entre a razão e o amor e, então, todos esses caminhos laterais não terão mais valor.    


Krishnamurti, 7 de agosto de 1929, Acampamento de Ommen 

Não existe morte para o homem incorruptível


3ª Pergunta: O temor da morte, não tanto por nós como por amor daqueles a quem amamos, é quase universal, posto que mais, talvez, no Ocidente que no Oriente. É um mistério obscuro do qual penso não haver escapatória e para o qual não existe explicação. Podeis informar-nos, como, do vosso ponto de vista, nos podemos lançar à tarefa de nos libertarmos deste temor da separação?

Krishnamurti: Vivendo no presente. O que é a morte? A morte não é senão a treva sobre esta vida que é continua. É um véu projetado que vos separa de alguém. A separação ocasiona a solidão e essa solidão causa tristeza. Assim, tendes que lutar contra a tristeza, a solidão e a separação e não contra a morte. A morte é inevitável, é semelhante à noite que segue o dia, porém, para vos preparardes para a noite, tendes que trabalhar durante o dia, portanto, não busqueis explicações para a morte, tornai, antes, o eu incorruptível, o que significa não mais estar ele separado de coisa alguma nem de ninguém. Então, tanto o nascimento como a morte, desaparecerão. A separação é a causa da tristeza e a separação é a afirmação do eu no subir para o cimo da montanha. Esta auto-afirmação existirá e deve existir em quanto o indivíduo for ainda corruptível. Para o homem que é incorruptível não existe nem nascimento nem morte, nem, portanto, tristeza.


Krishnamurti, 7 de agosto de 1929, Acampamento de Ommen 

O essencial e o não-essencial não podem coexistir


2ª Pergunta: Um sacerdote foi ao Sr. Krishnamurti e disse que, após a inspiração do Acampamento, ia-se embora para dedicar-se mais ardorosamente que nunca ao trabalho da Igreja e o Sr. Krishnamurti respondeu: “Afinal haveis entendido os meus ensinamentos”. Que também uma senhora, que lhe perguntou se deveria abandonar a co-maçonaria, o Sr. Krishnamurti replicou: “Porque vos atemorizais com a co-maçonaria?”. São autênticas estas histórias?

Krishnamurti: Que pensais a respeito? Não vos riais, por favor, não vos riais, porque isto não tem graça nenhuma. Não rebati esta história por ser ela tão tola. Ela demonstra, exatamente, a tristeza que existe no coração das pessoas, a pequenez de suas mentes, a futilidade de suas lutas. Eu não me estou esforçando por vos deprimir ou desanimar, porém, após haver falado durante estes três anos, como podereis acreditar em tais coisas?

Nenhuma dessas histórias é verdadeira. Eu sustento (e quão frequentemente o tenho feito) que essas coisas são absoluta e integralmente não-essenciais para o fim de tornarem o eu incorruptível. Se não buscardes essa perfeição do eu, então essas coisas serão necessárias. Eu quisera que discordásseis de mim antes do que inventásseis essa espécie de histórias, antes quisera que fosseis contra tudo que eu disse do que continuásseis a condescender. Porque, amigos, se estiverdes inseguros em vossas mentes e corações, sereis infelizes. Resolvei-vos por um dos lados e abandone o outro. Não jogueis com ambos. A Verdade e a falsidade, o essencial e o não-essencial, não podem coexistir para a pessoa que está buscando a incorruptibilidade do eu.


Krishnamurti, 7 de agosto de 1929, Acampamento de Ommen 

Podemos pensar em conjunto sobre a crise que estamos enfrentando? - Ojai...

Primeira palestra realizada por Jiddu Krishnamurti em Ojai, Califórnia no ano de 1980

Nada existe de novo sob os céus


Tem-me sido dito por muitas pessoas aqui, na Europa, como também na Índia e na América, que o que eu digo não é novo. Nada existe de novo sob os céus. Porém, para todo o homem que descobre, que atinge, tudo é novo. Se, pois, nada encontrais de novo no que eu digo, a culpa não é minha, é culpa daqueles (se realmente for uma culpa) que nada têm de novo em si mesmos. Assim como cada dia se torna renovado e penetrante, assim como cada primavera é nova, assim também, se quiserdes encontrar algo novo, original, claro, diferente, precisais vós mesmos ser diferentes. Para algo novo descobrirdes, deve existir em vosso coração o desejo de romper com o que é antigo.

1ª Pergunta: Constantemente nos dizem que o que dizeis acerca da inutilidade das cerimônias, igrejas (inclusive a Igreja Católica Liberal), religiões, não se aplica ao momento presente, porém destina-se à Sexta sub-raça. Que dizeis acerca deste fato?

Krishnamurti: Quando tendes fome, adiais a hora de vossa refeição? Quando vos afogais, prestareis ouvidos a um home que vos diga: “Amanhã eu vos salvarei?” Quando estais em tristeza, postergais o obter alívio, nessa hora sufocante, por meio do esquecimento? Que fazeis em tais casos? Quando tendes fome, saís em busca de alimento. Se vos estais afogando, lutais para obter ar fresco e se vos achais em tristeza quereis que ela vos seja removida imediatamente. Expliquei outro dia o que entendo pelo momento eterno e, do meu ponto de vista, este momento eterno deveria ser a preocupação de todos e não somente de uns poucos. Esta realização não é para o futuro, precisais obtê-la agora. Que valor terá ela no futuro? Quem dela se beneficiará? Nem vós mesmos nem vosso próximo.

Não quereis todos vós ser livres? Livres da tristeza, do constante aguilhoar da desgraça, AGORA? De que vale olhar para o futuro? Tendes que solver vossos problemas agora, tendes que viver agora, tendes que lutar agora em vossa vida diária. Tendes que alterar as circunstâncias que vos rodeiam agora. Tendes que limpar a floresta e abrir caminho agora,  não no futuro. O futuro será sempre futuro se não fizerdes as alterações agora. O futuro será sempre um mistério se não dominardes o presente. Vossa dificuldade é a de não saberdes que sois prisioneiros. Quando estais em tristeza — tristeza real —, não vos servis dessa tristeza para derrubar as paredes que criam outras tristezas? É o AGORA que importa: o modo pelo qual viveis, o modo pelo qual vos comportais, o modo pelo qual amais as outras pessoas, o modo pelo qual pensais a seu respeito. Que importa o que vireis a ser no futuro? Se não crescerdes ao máximo, agora, pelo vosso esforço sustido, o futuro iludir-vos-á sempre. Se não crescerdes agora para essa incorruptibilidade, construireis muros maiores, maiores barreiras, entre vós e o vosso atingir, e por meio delas criareis maiores limitações e maior tristeza.

Pensais que sois fracos, que dentro de vós não existe a força para vos suster em vossa integridade, imaginais que vos não podeis manter de pé por vós mesmos. Eu digo que podeis, se realmente o quiserdes, se tiverdes o formidável desejo de buscar a verdade, de procura-la, de raciocinar e lutar em prol dela e, por esse modo, estabelece-la dentro de vós — e precisais fazer isso AGORA, não no futuro. No futuro a treva e o mistério da morte vos esperam; assim, enquanto viveis, deveis vos preocupar com a vida, e alterar o curso dessa vida, despedaçando todas as barreiras, limitações, trivialidades, que existem entre vós e o vosso maior entendimento. Porque esperais pelo futuro e qual o valor de por ele esperardes? Porque modo o futuro vos há de proporcionar sua consecução, se não edificardes com grandeza, com vastidão, perigosamente, no momento presente? Vós matais o futuro por meio do presente . Esse futuro será sempre torcido, pervertido, se não viverdes no momento presente. Não posso conceber porque vos é tão difícil compreender o que vos estou dizendo. Que há nisso de tão complicado? Digo que ninguém, do exterior, vos pode proporcionar incorruptibilidade da mente e do coração e somente nessa incorruptibilidade reside a perfeição da vida, a beleza, a formosura, da qual cada um é parte. É tão simples, isto, que quereis complica-lo por meio de filosofias, sistemas, credos, religiões, igrejas, ritos. Como podereis viver com grandeza, com vastidão, com deleite, com beleza no futuro, se não lançardes o alicerce agora, se agora não viverdes nessa eternidade, com a vossa maior capacidade, com todo o vosso entusiasmo e ardor?

Se tendes fome, ides à procura de trabalho que vos proporcione dinheiro para comprar alimento. Não postergais a hora de comer, sais e lutais para satisfazer vossos anseios. Pelo fato de não possuirdes a ânsia real e ardente de encontrar a Verdade imediatamente, AGORA, é que existem todas essas complicações. O possuir essa incorruptibilidade do eu no momento presente, AGORA, é da maior e máxima importância. É somente AGORA que a podereis encontrar, e não no futuro. Ide a alguns dos bairros pobres de Londres ou de qualquer outra grande cidade e perguntai ao povo ali se quer ser provido de alimento, conforto, luz, no futuro.

Vós todos vos encontrais muito confortáveis em vossas mentes e corações, bem como fisicamente também. Estais satisfeitos e estagnados e, no entanto, quereis a verdade, que não provem da satisfação e da estagnação.       


Krishnamurti, 7 de agosto de 1929, Acampamento de Ommen 

Proporcionando aos outros o alimento eterno

Krishnamurti no Acampamento de Ommen
Na Índia considera-se coisa auspiciosa, especialmente após um casamento, quando os convidados se retiram, se chove e, como todos os vales ides embora amanhã, espero que esta chuva vos seja também auspiciosa.

Espero que esta semana vos tenha sido rica em experiências, que haja alterado completamente a vossa visão externa, que vos tenha aberto um novo panorama de pensamento e sentimento, imensos, afim de que façais brotar novas sementes no mundo da manifestação, sementes que cresçam, se multipliquem e cubram a terra com a sua formosura. Então não projetareis sombras sobre a face de outrem nem sereis portadores de lágrimas ou transitório regozijo para o coração. Espero que todos que aqui estiveram durante esta semana, que lutaram para compreender — e muitos há nessas condições, estou disso convencido — se tenham firmado na certeza e tornado mais seguros, mais determinados do que quando vieram. Para esses, de hoje em diante, só haverá uma coisa que importa, e esta é: vigiar, cuidar desse eu do qual todas as coisas dependem e do qual surgem todas as informações.

Não interpreteis isto por maneira egoísta, pois que, se puderdes tornar a purificação e a incorruptibilidade do eu a coisa única de importância para vós, então vossas ações, vossos pensamentos e afetos trarão consigo a marca da incorruptibilidade.

Se vós que aqui vos haveis reunido durante esta semana, houverdes, mediante o exame, estabelecido dentro de vós certeza, segurança, clareza de pensamento, sereis aqueles fortes que hão de nutrir, sustentar e soerguer os que se encontram na tristeza. Somente deste modo podereis verdadeiramente ajudar, e podereis proporcionar aos outros o alimento eterno, as águas que há de extinguir toda a sede, o bálsamo que há de curar todas as feridas. Pelo fato de aqui haverdes estado, pelo fato de haverdes lutado para compreenderdes, por meio desse próprio entendimento, para onde quer que fordes, vossos amigos, vosso próximo, espontaneamente virão a ser transformados. Não serão as invenções e gozo tirados de filosofias e teorias, porém sim o modo pelo qual viverdes vossa vida, com esse entendimento de que vos falo, no mundo que vos rodeia, que tem valor.

Semelhantes à águia que desce para o vale, assim deveis também sair deste Acampamento, repletos com a verdadeira determinação, com entusiasmo, com êxtase, afim de alterardes, de desarraigardes essas coisas não essenciais que cercam o homem e sobre ele lançam limitação e corrupção e por esse modo criam miséria e tristeza por toda a parte onde ele se acha. Deveis efetuar isto por meio da cuidadosa vigilância, do exame cuidadoso, da análise, e da autodisciplina desse eu do qual todas as coisas dependem e do qual surgem todas as transformações. O serdes mais determinados, o estardes mais ansiosos, o buscardes as veredas, os santuários secretos do pensamento para por esse meio purificardes e tornardes o eu incorruptível, afim de poderdes proporcionar alegria, felicidade e entendimento aos outros, é que devem constituir as únicas prerrogativas a levar convosco, aos vos retirardes, deste Acampamento.

Assim, a todos vós desejo uma feliz viagem, e espero que nos encontraremos de novo no ano próximo, cada qual de nós com maior determinação, com maior entusiasmo, porém com um sorriso e um andar diferentes, uma outra segurança da própria integridade e da força própria.          
  

Krishnamurti, 7 de agosto de 1929, Acampamento de Ommen 

A inspiração tem as suas raízes no eterno

Krishnamurti, momentos antes da conferência em Ommen
Disse eu que para atingir o reino da espiritualidade não existe lei e quero explicar isto mais para adiante. A inteligência é a capacidade de discernir o essencial e o não essencial. A inteligência é, do meu ponto de vista, a essência de toda a experiência. Pela constante prática do discernimento e pelo conservar essa inteligência constantemente desperta, atinge ela seu ponto mais elevado, que é a inspiração. A inspiração, portanto, tem as suas raízes no eterno, na verdade perdurável. Para o homem que houver plenamente desenvolvido a inteligência, que houver alcançado esse estado de libertação que eu chamo a harmonia da razão e do amor, para um tal indivíduo, a inspiração não é intermitente e sim continua. Essa continuidade de inspiração é o que todos buscam. É por essa continuidade de felicidade que todo o homem no mundo luta. Ele busca estabelecer dentro de si mesmo essa felicidade constante, invariável, que reside sempre nessa harmonia que é o perfeito equilíbrio.

Sendo tal o estado de libertação, tal sendo a condição da Verdade, quem é que vos pode auxiliar a atingir e conservar dentro de vós essa continuidade, sem solução, sem intercorrência, esse vasto, infindável preenchimento da vida? Ninguém pode auxiliar-vos a não serdes vós próprios, pois não é algo ao qual se chegue pelo auxílio de outrem ou pela confiança posta em outrem. Como é, pois, que um indivíduo tem de atingir? A vida precisa aperfeiçoar-se a si mesma para atingir a libertação e este é o preenchimento de toda a vida individual. Pelo manterdes a vossa inteligência constantemente desperta, aprendeis a distinguir entre o que é passageiro e o que é perdurável, a discernir o falso na falsidade e a verdade no verdadeiro. Porém esta inteligência altamente desperta pode somente ser resultante da vigilância continua, do acautelamento, do auto-recolhimento, e da autodisciplina imposta a vós próprios por meio do entendimento do propósito da vida.

Por todo mundo hoje em dia, a autoridade, a autoridade externa, com especialidade, está sendo expelida. A jovem geração, se vos derdes ao trabalho de observá-la, vereis que se está libertando da autoridade imposta pelos seus maiores que se supõe saberem mais do que eles. Esta autoridade está sendo demolida, porém existe ainda a autoridade à qual o homem se apega em seu coração, para seu crescimento espiritual, autoridade da qual ele precisa também libertar-se antes que lhe seja permitido desenvolver a sua inteligência ao ponto mais elevado. Necessitais tornar-vos a única autoridade para vós mesmos, os arquitetos de vossa própria inteligência e, daí, de vossa própria vida, à luz daquilo que é eterno. Isto, digo eu, é libertação, é a harmonia, entre a razão e o amor. Quando houverdes atingido isto, todo o medo, oriundo da falta de entendimento, desaparecerá. Portanto, construindo a vossa vida sobre o entendimento da finalidade da existência, estabelecereis por vós mesmos a felicidade que é continua, emitireis uma raiz para esse reino que é eterno. É uma questão de esforço individual, de luta individual, de acautelamento constante, de constante autodisciplina. Não pode mais haver uma autoridade para sobre ela repousardes, para a ela vos arrimardes. O quer que construais na luz dessa eternidade, será permanente, por estar bem estabelecido, residindo sempre na libertação. Para o homem que atingiu, não há cessação, não há interrupção naquilo que é eterno, que é livre.


Krishnamurti, 6 de agosto de 1929, Acampamento de Ommen 

Como pode a liberdade ser entendida e vivida

3º Diálogo de Jiddu Krishnamurti em Brockwood Park no ano de 1978

A observação é a total negação da análise

Segunda palestra realizada por Jiddu Krishnamurti em Ojai, California no ano de 1980

O indivíduo e a libertação da corrupção do amor imperfeito

Krishnamurti, momentos antes da conferência em Ommen
Quando olhais em redor e ponderais as coisas, vedes que o grupo se opõe sempre ao indivíduo. Quando uso o termo “indivíduo” falo do homem que é íntegro, completo dentro de si mesmo, como apartado do grupo que proclama que existe para beneficiar o indivíduo. Em todos os departamentos de pensamento e emoção encontrareis este grupo opondo-se ao indivíduo. E, no entanto, o próprio grupo é o indivíduo pois que o grupo se compõe de indivíduos. Vou preocupar-me com o indivíduo, pois que é o indivíduo que cria o caos, a angústia ao redor de si. Dentro do indivíduo — isto é, dentro de cada qual, por todo o mundo, com raras exceções — existe o caos, a angústia e a tortuosidade. E no entanto o grupo esforça-se por estabelecer a ordem, a serenidade e a retidão. No coração do grupo, existe o caos, a angústia e a luta; assim, pois, para estabelecer ordem, serenidade e retidão em geral, temos que ter em consideração o indivíduo. O indivíduo é da máxima importância.

O indivíduo é vós próprios, e é no tornar o indivíduo reto, sereno, criativo, que encontrareis a verdadeira autoexpressão. É o indivíduo que tendes que ter em vista a todos os instantes, porém não quer isto dizer que o vosso considerar deva ser feito a expensas de vosso próximo: pois sustento eu que mesmo desde o próprio início do seu desenvolvimento, o indivíduo, deve, ele próprio, ser uma lâmpada para si mesmo, afim de não projetar sombras sobre a face de outrem.

Ninguém pode tornar o indivíduo reto, sereno, criativo, a não ser ele mesmo. Por criação entendo eu a verdadeira autoexpressão, não mera criação de ornamentos, como sejam cadeiras, quadros e assim por diante; essas coisas não as considero eu verdadeira criação. A expressão do preenchimento, a fruição, a consumação do eu é, segundo o meu modo de pensar, a verdadeira criação. Isto somente pode ser o resultado da percepção individual. Nenhuma instituição, nenhuma corporação religiosa, nenhuma coação externa, nenhuma busca de auxílio exterior, pode tornar o indivíduo reto, sereno e verdadeiramente criativo, pois que o indivíduo é absolutamente livre e responsável para consigo mesmo. Quisera que tomásseis cuidadosamente em consideração este pensamento, porque, se não entenderdes isto, tudo mais que eu disser terá significado diferente, não será apropriadamente compreendido, não vos será claro. Todo indivíduo, no mundo, sejam quais forem as suas circunstâncias, é absoluta e inteiramente responsável perante si mesmo. No eu, somente, portanto, reside a possibilidade, o poder de libertar-se a si mesmo inteira, integral, incondicionalmente dos emaranhados, da corrupção do amor imperfeito. É ele a pessoa única que pode vencer sua própria fraqueza, que pode dominar suas próprias paixões, que pode subjugar seus desejos e que é integralmente responsável pelas suas ambições. É da máxima importância, se quiserdes produzir ordem, serenidade, pensamento claro e felicidade, não somente no indivíduo, porém em todos no mundo, é preciso prestar atenção ao indivíduo, desde o próprio começo. Pois que, se o indivíduo for dentro de si mesmo caótico, cria o caos; se dentro em si próprio for tortuoso, torna tortuosas todas as coisas que o rodeiam; se dentro em si mesmo estiver perturbado, cria a perturbação ao redor de si.   

Que é que o indivíduo deseja a todo instante? Que é que busca continuamente? Que é que persegue em sua luta, em sua corrupção, em sua angústia, em sua desgraça, em suas lágrimas, em seus prazeres? Está buscando despedaçar as limitações por ele próprio colocadas sobre si, de modo a atingir essa libertação que é perfeição, a incorruptibilidade do amor e pensamento que estabeleça perfeita harmonia, a qual é felicidade. O desejo que todos têm, que é a própria vida — está continuamente encorajando, propelindo, impulsionando a todos para adiante; o desejo está sempre buscando consumação na experiência, por exigir uma objetivação externa, uma autoexpressão. A experiência sem propósito é destrutiva, enquanto que a experiência com propósito é verdadeiramente criativa. Esta é a razão pela qual necessitais primeiro estabelecer dentro de vós próprios a finalidade da vida e depois, após este estabelecimento que será para a eternidade, continuo, sem variação de geração em geração, esse propósito será a meta, o objetivo em direção ao qual todo o desejo — que é a própria vida — conduz. Se existir tal propósito — e eu sustento que existe e que o realizei — então toda a experiência que é a consumação de um desejo deve fortificar, libertar o indivíduo desse mesmo desejo. Isto é: quando houverdes passado por uma experiência ela deve bastar para libertar-vos dessa espécie particular de experiências. Assim, rompereis com toda a limitação e chegareis a essa libertação que é o preenchimento de toda a vida.

Conhecendo, portanto, o propósito da vida e sabendo que o indivíduo é inteira e absolutamente responsável para consigo mesmo, sobrepujais o medo, seja ele de que espécie for. É o medo que estrangula, que sufoca a todo o ser humano. É o fantasma que persegue a todo o ser humano como uma sombra, pois ele não se apercebe que por toda a ação e resultado da ação, por todo o desejo e preenchimento do desejo é ele integralmente responsável. Com essa verificação o medo de todas as espécies desaparecerá, pelo fato de o indivíduo se tornado dono absoluto de si mesmo.

Quando não mais tiverdes medo, começais realmente a viver. Não vivereis no futuro nem no passado, nem esperando pela salvação futura, nem encarando o passado morto para obter vossa força, porém — pelo fato de não terdes medo — vivereis nesse momento da eternidade que é o AGORA.

É o AGORA que tem importância, não o futuro nem o passado. É o que fazeis, o que pensais, como viveis e como agis AGORA que tem valor. A verdade não está no futuro nem no passado. O homem que não é limitado pelo medo vive integralmente responsável para consigo mesmo, concentrado nesse momento que é o AGORA, que é a eternidade.

Para um tal homem não existe nem nascer nem morrer. A maioria das pessoas atemorizam-se com a morte, porque temem viver. Preocupam-se mais com a morte do que com o viver no momento imediato, que é eternidade, que é AGORA.   

Conhecendo, portanto, qual o futuro de todo o ser humano, de todo o indivíduo, como ele se consumará a si mesmo na libertação, que é incorruptibilidade do eu, que é a harmoniza entre a razão e o amor — sabendo isto, importa vital, grandemente, que vivais na realização dessa grandeza e dessa beleza no imediato presente.

Quando houver sofrimento, quando houver lágrimas, quando houver temor em vosso coração de que serve o saberdes que tais coisas hão de desaparecer no futuro? Quereis a felicidade, quereis a liberdade, no presente momento, não em um futuro distante. Ninguém vos pode dar felicidade, ninguém vos pode libertar, exceto vós próprios. Não podeis atingir a meta por caminho algum, por meio de nenhuma religião ou seita. A libertação está dentro do próprio indivíduo; está integralmente dentro de seu controle e vem somente sob o seu mandado.

A libertação, essa felicidade que é invariável, serena, essa perfeição, não está distante nem perto, pois que a perfeição está onde está o indivíduo, acha-se dentro dele mesmo.

Para o atingir desta harmonia, que é a consumação de toda a vida, que é a perfeição do eu, tudo o que o indivíduo é, tudo o que ele faz, o que pensa, como se comporta e porque maneira ama, tem importância. Não no futuro nem no passado deve ele começar a atingir essa perfeição, porém no próprio momento de percepção clara, no justo momento de entendimento — que é o AGORA.


Krishnamurti, 4 de agosto de 1929, Acampamento de Ommen 

A Verdade reside no adestramento do eu

Vou narrar-vos pequeno incidente que se passou comigo o ano passado, enquanto estava na Índia. Fui ao encontro de alguns amigos em uma estação de caminho de ferro — e não podeis imaginar o que é uma estação indiana, muito mais bulhenta e mesmo suja do que o costumam ser vulgarmente as estações ferroviárias. Vi um homem que fazia rodeios, desejoso de falar-me. Era um daqueles que puxam os rickshaw — carros de duas rodas nos quais um homem se senta e um outro o puxa. Por fim ele encheu-se de suficiente coragem e veio falar-me. Perguntou-me em inglês muito errado e falho onde eu morava, que fazia e se estava para assistir à chegada de irmãos e irmãs minhas. Expliquei-lhe onde me encontrava domiciliado; e, finalmente, perguntou-me se lhe seria permitido descer a plataforma, acompanhando-me. Achava-se quase tão acanhado quanto eu! Daí a pouco puxou um cigarro do bolso e começou a fumar. Após algumas baforadas perguntou-me se fumava. Disse-lhe que não. Então, olhou por algum tempo para o cigarro e disse: “Suponho ser desnecessário fumar”, e eu respondi-lhe: “Provavelmente”. Pois esse homem, cujo maior prazer era talvez fumar, retrucou: “De hoje para o futuro, nunca mais fumarei”, e atirou fora o cigarro com uma violência que, realmente, me surpreendeu.

Não vos narro este incidente para vos incitar a que não fumeis — isto é assunto aparte. Porém, um ato de real entendimento praticado com real profundeza de sentir, colocará um homem em um pináculo de grande visão, de grande entendimento, de grande deleite. Como disse em minhas palestras, para descobrir essa eternidade que é o eu em consecução, essa harmonia de estabilidade entre a razão e o amor, é necessário, do meu ponto de vista, afastar-se de todas as coisas não-essenciais e deve produzir-se uma expressão física desse afastamento. Por favor, não penseis que pelo fato de as coisas não serem essenciais deveis continuar a condescender com elas; sei que muita gente dirá: “Continuarei a fazer estas coisas por não serem elas essenciais”. Isto pode ser maneira muito cômoda de encarar a vida, porém vós necessitais, ao contrário, pelo processo de eliminação, afastar-vos de todas essas coisas não-essenciais, por serem absolutamente infantis, triviais, absurdas. Mediante este afastamento descobrireis o eu verdadeiro e disciplinareis a esse eu. Não é por meio dessas complicações, por meio dessas coisas não-essenciais, mas antes pela sua eliminação, pelo deixa-las de parte que encontrareis a verdade, que encontrareis o eu verdadeiro, mediante o qual o genuíno processo de autodisciplina começará.

Pela autodisciplina eu não entendo a repressão, mas antes a auto disciplina mediante o entendimento que vos conduz à libertação, esse equilíbrio da razão e do amor. Se quiserdes encontrar a verdade, essa disciplina do eu, que é a semente da razão e do amor, deve ter lugar a todo o instante do dia, deve estar focalizada agudamente em toda a coisa que fizerdes. A verdade está no processo e não na consecução. À medida que viverdes, vos manifestardes e atuardes na vida diária, a encontrareis. No adestramento desse eu reside a Verdade — e em nada mais. O assunto de importância, pois, não é a invenção de multidão de teorias ou filosofias, mas antes a descoberta do “Eu” que é progressivo e tornar esse “Eu” progressivo incorruptível. No educar, no cuidar, no encorajar este “Eu” em direção à liberdade, em direção ao reino no qual não existe limitação do ser, reside a verdade. Tendo como vossa visão essa libertação da qual vos falo, mediante o processo da autodisciplina imposta a vós próprios por vós próprios, não tendo em conta a recompensa ou o tenor da punição, encontra-se o verdadeiro atingimento, o preenchimento, a incorruptibilidade do eu. Toda a manifestação — não em sentido filosófico, pois estou usando a linguagem vulgar — é a criação do eu, é a sombra do eu. Se o eu for impuro, corruptível, então todas as manifestações desse eu serão impuras, e corruptíveis. Assim, necessitais buscar primeiramente a perfeição, a incorruptibilidade do eu, pois somente nisso reside a verdade. Deveis afastar-vos de todas as coisas não-essenciais, pois que põem uma limitação sobre o eu. Tendes de vir descarregados, livres, ilimitados; então essa verdade, que não está longe nem está perto, será descoberta e aquele que a houver descoberto constituir-se-á um perigo para todas as irrealidades, para todas as falsidades da vida.


Krishnamurti, 3 de agosto de 1929, Acampamento de Ommen 
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill