“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

Qual é a verdadeira vocação do homem?

[...] PERGUNTA: Podeis dizer-nos o que entendeis pelas palavras “nossa vocação”? Parece-me que entendeis coisa diferente da significação comum das palavras.
Krishnamurti: cada um de nós segue uma dada vocação — o advogado, o militar, o policial, o negociante, etc. É bem óbvio que há certas profissões prejudiciais à sociedade: o advogado, o militar, o policial, o negociante que não cuida de tornar outros homens igualmente ricos.
Quando desejamos, quando escolhemos uma dada vocação, quando estamos educando os filhos para seguirem uma determinada profissão, não estamos criando um conflito com a sociedade? Escolheis uma profissão, e eu escolha outra; e isso não faz nascer conflito entre nós dois? Não é isso o que está acontecendo no mundo, visto que nunca pudemos achar a nossa verdadeira vocação? Estamos apenas sendo condicionados pela sociedade, por uma determinada civilização, a aceitar certas profissões, que geram competição e ódios entre os homens. Sabemos disso, estamo-lo vendo.
Ora, existe alguma outra maneira de viver, em que vós e eu possamos exercer as nossas verdadeiras vocações? Não existe uma vocação única para o homem? Tende a bondade de prestar atenção, Senhores. Há vocações diferentes para o homem? Vemos que há: um é funcionário de escritório, outro engraxate; um é engenheiro, outro político. Vemos que há inúmeras variedades de profissões e que todas elas estão em conflito entre si. Assim, pois, por causa da sua vocação o homem está em conflito com o homem, o homem odeia o homem. Sabemos disso. São-nos familiares esses fatos da vida, de cada dia. Pois bem, vejamos se não existe uma só vocação para o homem. Se pudermos descobri-la, então a expressão de diferentes capacidades não produzirá conflito entre os homens. Eu afirmo existir apenas uma vocação para o homem. Uma só, e não muitas. A vocação do única do homem é a de descobrir o que é o Real. Senhores, não vos mostreis espantados; isto não é uma asserção mística.
Se estamos, vós e eu, aplicados a descobrir o que é a Verdade, o que constitui a nossa verdadeira vocação, então, nessa busca, não haverá competição entre nós. Não competirei convosco, não lutarei contra vós, ainda que expresseis essa verdade de maneira diversa. Podeis ser Primeiro Ministro, mas eu não serei ambicioso e não desejarei tomar-vos o posto, porque estou buscando, do mesmo modo que vós, a Verdade. Por conseguinte, enquanto não descobrirmos aquela verdadeira vocação do homem, estaremos necessariamente em competição uns com os outros, e haveremos de odiar-nos mutuamente; e, sejam quais forem as leis que promulgardes, nesse nível só podeis produzir mais caos.
Não é possível, pois, desde a infância, mediante educação adequada, ministrada por verdadeiros educadores, ajudar o jovem, o estudante, a ser livre, para descobrir o que é a Verdade, a Verdade relativa a todas as coisas, e não simplesmente a Verdade em abstrato; descobrir a Verdade existente em todas as relações — a relação do jovem com a máquina, com a natureza, com o dinheiro, com a sociedade, o governo, etc.? Requer isso, não achais, — uma outra espécie de preceptores, cujo interesse seja o de ajudar o jovem, o estudante, dando-lhe liberdade, para que seja capaz de descobrir a maneira de cultivar uma inteligência nunca suscetível de ser condicionada por uma sociedade em perene decomposição.
Não existe, pois, uma vocação para o homem? O homem não pode existir no isolamento; ele só existe em relação. E quando, nessas relações, não há o descobrimento da Verdade respeitante ao estado de relação, há então conflito.
Há tão-somente uma vocação para vós e para mim. E na busca dessa vocação encontraremos a expressão em que não entraremos em conflito um com o outro, em que não nos destruiremos mutuamente. Mas tudo deve começar, sem dúvida, pela educação correta, ministrada por educador adequado. O educador também necessita de educação. Fundamentalmente, o verdadeiro preceptor não é meramente um homem que transmite conhecimentos, mas aquele que faz nascer no estudante a liberdade, a revolta que o habilitará a descobrir o que é a Verdade.


Krishnamurti em, Autoconhecimento — Base da Sabedoria

Você realmente ama o seu trabalho?

Pergunta: Dizeis que uma mente ocupada não pode receber aquilo que é a Verdade ou Deus. Mas, de que jeito posso ganhar a vida, a menos que esteja ocupado com meu trabalho? E vós, não estais ocupado com estas palestras, que são o vosso particular meio de ganhar a vida? 

Krishnamurti: Deus me livre de estar ocupado com minhas palestras! Não estou. E elas não constituem meu meio de vida. Se eu estivesse ocupado, não existiria nenhum intervalo entre pensamentos, aquele silêncio que é essencial para se ver qualquer coisa nova. Em tal caso, o falar me seria a coisa mais aborrecida do mundo. Não quero aborrecer com minhas palestras, e por esta razão não falo de memória. O que faço é uma coisa completamente diferente. Mas, isso não tem importância, e podemos conversar a seu respeito, noutra ocasião. 
O interrogante pergunta omo poderá ganhar o seu sustento, se não se ocupar com seu trabalho. Escutais bem isto: Se vos ocupais com vosso trabalho, então não amais o vosso trabalho. Compreendeis a diferença? Se amo o que estou fazendo, não estou ocupado com isso, meu trabalho não está separado de mim. Porém, neste país, somos exercitados — e infelizmente este mesmo hábito se está generalizando no mundo inteiro — para adquirirmos eficiência num trabalho que não amamos. Pode haver uns poucos cientistas, uns poucos técnicos especialistas, uns poucos engenheiros que realmente amam o que fazem, no sentido total da palavra, o que explicarei mais adiante. Mas, em geral, não gostamos do que estamos fazendo, e por esta razão é que andamos ocupados com nosso meio de vida. Acho que se pode perceber uma diferença entre as duas coisas, se se examinar bem isso. Como posso amar o que estou fazendo, se estou sendo impelido, a todas as horas, pela ambição, se quero, com meu trabalho, alcançar um fim, tornar-me pessoa importante, ter êxitos felizes? O que artista está interessado no seu nome, sua grandeza, na comparação, na realização de suas ambições, deixou de ser artista, sendo meramente um técnico como outro qualquer. E isso significa, realmente, que para se amar uma coisa, faz-se necessária a cessação completa de toda ambição, todo desejo de reconhecimento por parte da sociedade, que afinal está podre (risos). Senhores, por favor, não façais isso! Mas, nós não somos preparados para isso, não somos educados para isso; temos de adaptar-nos a uma certa rotina que a sociedade ou a família nos deu. Porque os meus antepassados foram médicos, advogados, ou engenheiros, tenho de ser médico, advogado ou engenheiro. E atualmente há necessidade de mais e mais engenheiros, porque a sociedade o está exigindo. E, assim, perdemos o amor à coisa em si — se alguma vez o tivemos, do que duvido muito. E, quando amais uma coisa, não há nenhuma ocupação com ela. O espírito não está pretendendo alcançar alguma coisa ou procurando ser melhor do que outro; toda comparação, toda competição, todo desejo de sucesso, de preenchimento, desapareceu totalmente. É só a mente ambiciosa que anda ocupada.

De modo idêntico, a mente que está ocupada a respeito de Deus, da verdade, nunca o descobrirá, porque se a mente está ocupada com uma coisa, já a conhece. Se já conheceis o imensurável, o que conheceis é produto do passado, e, por conseguinte, não é o imensurável. A Realidade não pode ser medida, e por conseguinte não pode haver ocupação com ela; o que deve haver é só uma serenidade da mente, um vazio, em que nenhum movimento existe, e é só então que pode despontar na existência o Desconhecido.

Krishnamurti em, Realização sem esforço - 14 de agosto de 1955

Todo sistema é uma gaiola

Amigos, penso que cada um de nós está aprisionado seja num problema religioso seja numa luta social ou num conflito econômico. Cada um de nós está a sofrer pela falta de compreensão destes variados problemas, e tentamos resolver cada um deles por si; isto é, se têm um problema religioso, pensam que o vão resolver pondo de lado o problema econômico ou social e centrando-se inteiramente no problema religioso, ou se têm um problema econômico pensam que vão resolver esse problema econômico limitando-se inteiramente a esse conflito específico. Ao passo que eu digo que não podem resolver estes problemas por si sós; não podem resolver o problema religioso por si só, nem o problema econômico nem o problema social, a menos que vejam a inter-relação entre os problemas religiosos, sociais e econômicos.

Aquilo a que chamamos problemas são meramente sintomas, que aumentam e se multiplicam porque não agarramos a vida toda como uma coisa só, mas dividimo-la em problemas econômicos, sociais ou religiosos. Se olharem para todas as variadas soluções que são oferecidas para os vários padecimentos, verão que lidam com os problemas em separado, em compartimentos estanques, e não tomam os problemas religiosos, sociais e econômicos compreensivamente como um todo. Ora é minha intenção mostrar que enquanto lidarmos com estes problemas em separado apenas aumentamos o desentendimento, e portanto o conflito, e desse modo o sofrimento e a dor; até que lidemos com o problema social e com os problemas religiosos e econômicos como um todo compreensivo, não dividido, mas de preferência vendo a ligação delicada e subtil entre aquilo que chamamos problemas religiosos, sociais ou econômicos – até que vejam esta ligação real, esta ligação íntima e subtil entre os três, seja qual for o problema que possam ter, não o vão resolver. Apenas incrementarão a luta. Embora possamos pensar que resolvemos um problema, esse problema surge novamente de uma forma diferente, e assim vamos através da vida resolvendo problema após problema, luta após luta, sem compreender totalmente o pleno significado do nosso viver.

Portanto, para compreender esta ligação íntima entre aquilo a que chamamos problemas religiosos, sociais e econômicos, tem que haver uma completa reorientação do pensamento – isto é, cada indivíduo tem que deixar de ser uma peça de engrenagem, uma máquina, seja na estrutura social seja na religiosa. Olhem e verão que a maior parte dos seres humanos são escravos, meras peças de engrenagem nesta máquina. Não são realmente seres humanos, apenas reagem a um meio estabelecido e por isso não existe verdadeira ação individual, pensamento individual; e para descobrir essa relação íntima entre todas as nossas ações, religiosas, políticas ou sociais, têm que pensar como indivíduos, não como um grupo, não como um corpo coletivo; e essa é uma das coisas mais difíceis de fazer, que os indivíduos saiam da sua estrutura social, ou religiosa, e a examinem com espírito crítico, para descobrir o que é falso e o que é verdadeiro nessa estrutura. E então verão que já não estão preocupados com um sintoma, mas estão a tentar descobrir a causa do próprio problema, e não apenas a lidar com os sintomas.

Talvez alguns de vocês digam no fim da minha palestra que nada lhes dei de positivo, nada em que possam claramente trabalhar, um sistema que possam seguir. Eu não tenho nenhum sistema. Penso que os sistemas são perniciosos, porque podem de momento aliviar os problemas, mas se simplesmente seguirem um sistema são escravos dele. Apenas substituem o velho sistema por um novo, o que não origina compreensão. O que origina compreensão não é procurar um novo sistema, mas sim descobrirem por si próprios, como indivíduos, não como uma máquina coletiva mas como indivíduos, o que é falso e o que é verdadeiro no sistema existente, e não substituir o velho sistema por um novo.

Ora, ser capaz de criticar, ser capaz de questionar, é o primeiro requisito essencial para qualquer homem pensante, para que possa começar a descobrir o que é falso e o que é verdadeiro no sistema existente, e por esse motivo nesse pensamento há ação, e não mera aceitação. Assim durante esta palestra, se quiserem compreender o que vou dizer, tem que haver espírito crítico. O espírito crítico é essencial. O questionamento é correto, mas nós fomos treinados para não questionar, para não criticar, fomos cuidadosamente treinados para nos opormos. Por exemplo, se eu disser algo que não vão gostar – como o farei, espero – naturalmente começarão a opor-se, porque a oposição é mais fácil do que descobrir se o que digo tem algum valor. Se descobrirem que o que eu digo tem valor, então há ação, e por isso terão que alterar toda a vossa atitude perante a vida. Por esse motivo, como não estamos preparados para fazer isso, criamos uma hábil técnica de oposição. Isto é, se não gostarem de qualquer coisa que estou a dizer, apresentam todos os vossos preconceitos profundamente enraizados e obstruem-na, e se eu estiver a dizer algo que os possa magoar, ou que os possa aborrecer emocionalmente, refugiam-se nestes preconceitos, nestas tradições, neste pano de fundo; e reagem a partir desse pano de fundo, e a essa reação chamam crítica. Para mim não é espírito crítico. É apenas oposição habilidosa, que não tem valor.

Ora bem, se forem todos Cristãos – e presumivelmente são todos Cristãos – talvez eu vá dizer algo que podem não compreender, e em vez de tentarem descobrir o que quero transmitir, imediatamente se refugiarão por trás das tradições, por trás dos preconceitos profundamente enraizados e das autoridades da ordem estabelecida, e a partir dessa fortaleza, na defensiva, atacarão. Para mim isso não é crítica: isso é uma maneira engenhosa de não atuar, de evitar a ação plena, completa.

Se quiserem entender o que vou dizer, pedia-lhes que fossem realmente críticos, não habilidosos na vossa oposição. Ser crítico requer muita inteligência. A crítica não é cepticismo, ou aceitação; isso seria igualmente estúpido. Se simplesmente dissessem, “Bem, eu sou céptico sobre o que diz”, isso seria tão estúpido como simplesmente aceitar. Ao passo que a verdadeira crítica consiste, não em transmitir valores, mas em tentar descobrir os verdadeiros valores. Não é assim? Se conferirem valores às coisas, se a mente conferir valores, então não estão a descobrir o mérito intrínseco da coisa, e a maior parte das nossas mentes está treinada para conferir valores. O dinheiro, por exemplo. Abstratamente o dinheiro não tem valor. Tem o valor que lhe damos. Isto é, se quiserem o poder que o dinheiro dá, então usam o dinheiro para ter poder, portanto estão a dar um valor a algo que inerentemente não tem valor; assim, da mesma maneira, se descobrirem e compreenderem o que vou dizer, têm que ter esta capacidade de crítica, que é realmente fácil se quiserem descobrir, se quiserem encontrar, não se disserem, “Bem, não quero ser atacado. Estou na defensiva. Tenho tudo o que quero, estou perfeitamente satisfeito.” Então, uma tal atitude é perfeitamente irremediável. Estão então aqui apenas por curiosidade – e a maioria provavelmente está – e o que eu vou dizer não terá significado, e por isso dirão que é negativo, nada construtivo, nada positivo.

Portanto por favor lembrem-se que esta tarde vamos descobrir, considerar em conjunto, quais são as coisas falsas e as verdadeiras na situação social e religiosa existente; e para fazer isso por favor não tragam continuamente os vossos preconceitos, sejam Cristãos, ou de qualquer outra seita, mas tenham antes esta atitude inteligente e crítica, não só a respeito do que vou dizer, mas com respeito a tudo na vida, o que significa a cessação da procura de novos sistemas, e não a procura de um novo sistema que, quando encontrado, será de novo pervertido, corrompido. Na descoberta do falso e do verdadeiro nos sistemas social, religioso e econômico – o falso e o verdadeiro que nós próprios criamos – nessa descoberta, impediremos as nossas mentes e corações de criar falsos ambientes nos quais provavelmente a mente será de novo aprisionada.

A maior parte de vocês está à procura de um novo sistema de pensamento, um novo sistema de economia, um novo sistema de filosofia religiosa. Porque procuram um novo sistema? Vocês dizem, “Estou insatisfeito com o antigo”, isto é, se estiverem a procurar. Ora eu digo, não procurem um novo sistema, mas em vez disso examinem o próprio sistema em que estão presos, e então verão que nenhum sistema de nenhuma espécie originará a inteligência criativa que é essencial para a compreensão da verdade ou Deus ou seja lá qual for o nome que gostam de lhe dar. Isso significa que não seguindo qualquer sistema vão descobrir a realidade eterna; mas só a vão encontrar quando vocês, como indivíduos, começarem a compreender o próprio sistema que edificaram através dos séculos, e nesse sistema descobrirem o que é verdadeiro e o que é falso.

Portanto por favor lembrem-se disso – que não lhes estou a dar um novo sistema de filosofia. Penso que estes sistemas são gaiolas para manter presa a mente. Não ajudam o homem, são apenas impedimentos. Estes sistemas são um meio de exploração. Ao passo que se vocês, como indivíduos, começarem a questionar, verão que nesse questionamento criam conflito, e a partir desse conflito compreenderão – não na mera aceitação de um novo sistema que é apenas outro soporífero que os adormece e os transforma em mais uma máquina.

Vamos portanto descobrir o falso e o verdadeiro nos sistemas existentes – os sistemas da religião e da sociologia. Para descobrir o que é falso e o que é verdadeiro, temos de ver em que se baseiam as religiões. Ora, eu falo de religião como a forma cristalizada de pensamento que se tornou no mais elevado ideal da comunidade. Espero que acompanhem tudo isto. Isto é, as religiões tal como são, não como vocês gostariam que fossem. Tal como são, em que se baseiam? Qual é o seu fundamento? Quando olham, quando examinam e pensam realmente com espírito crítico sobre isso – não trazendo as vossas esperanças e preconceitos, mas quando realmente pensam sobre isso – verão que se baseiam no conforto, dando-lhes consolo quando estão a sofrer. Isto é, a mente humana está continuamente à procura de segurança, de uma posição de certeza, seja numa crença ou num ideal ou num conceito, e portanto estão continuamente a procurar uma certeza, uma segurança, em que a mente se refugie como conforto. Ora o que acontece quando estão continuamente à procura de segurança, proteção, certeza? Naturalmente isso gera medo, e quando há medo tem que haver conformidade. Por favor, não tenho tempo de entrar em detalhes. Fá-lo-ei nas minhas várias palestras, mas nesta quero pôr tudo concisamente, e se estiverem interessados podem ponderar sobre isto, e depois podemos discuti-lo em reuniões de perguntas e respostas.

Portanto as pretensas religiões conferem o padrão de conformidade à mente que procura segurança nascida do medo na busca de conforto; e onde há procura de conforto, não há compreensão. As nossas religiões em todo o mundo, no seu desejo de dar conforto, no seu desejo de os conduzir a um padrão específico, de os moldar, dá-lhes vários padrões, moldes, seguranças, através daquilo a que chamam fé. Essa é uma das coisas que exigem – fé. Por favor não interpretem mal. Não se adiantem a mim. Elas exigem fé, e vocês aceitam a fé porque ela lhes proporciona um refúgio do conflito da existência diária, da luta contínua, das preocupações, dores e sofrimentos. Portanto dessa fé, que tem que ser uma fé dogmática, nascem as igrejas, e daí são estabelecidas ideias, crenças.

Ora para mim – e por favor lembrem-se disto, quero que critiquem, não que aceitem – para mim todas as crenças, todos os ideais são um obstáculo porque os impedem de compreender o presente. Vocês dizem que as crenças, os ideais, a fé, são necessários como um farol que os orientará através da confusão da vida. Isto é, estão mais interessados em crenças, em tradição, em ideais e na fé, do que em compreender a própria confusão. Para compreenderem a confusão não podem ter uma crença, um preconceito; têm que olhar para ela completamente, agarrá-la com uma mente clara, com uma mente não corrompida, não com uma mente que está influenciada por preconceitos específicos a que chamamos um ideal. Portanto onde há uma procura de conforto, de segurança, tem que haver um padrão, um molde, no qual nos refugiamos, e por isso a preconceber o que deve ser Deus, e o que deve ser a verdade.

Ora para mim, existe uma realidade viva. Existe algo que devém eternamente, algo fundamental, real, duradouro, mas que não pode ser preconcebido; não requer crenças, requer uma mente que não esteja acorrentada a um ideal tal como um animal está atado a um poste, mas que pelo contrário, requer uma mente que esteja continuamente a mover-se, a experimentar, nunca permanecendo. Eu afirmo que há uma realidade viva; chamem-lhe Deus, verdade, o que quiserem, coisa que é de muito pouca importância – e para compreenderem isso, é preciso haver suprema inteligência, e por isso não pode haver qualquer conformidade, mas antes o questionamento dessas coisas falsas e verdadeiras em que a mente se encontra aprisionada. E verão que a maior parte das pessoas, a maior parte de vocês são religiosamente propensos, estão à procura da verdade, e essa mesma procura indica que estão a fugir do conflito do presente, ou que estão insatisfeitos com a situação presente. Por isso tentam descobrir o que é real; isto é, deixam a situação que cria conflito e fogem e tentam descobrir o que é Deus, o que é a verdade. Por isso essa procura é a negação da verdade, porque estão a fugir – há evasão, desejo de conforto, de segurança. Por isso, quando as religiões se baseiam, como o fazem, na oferta de seguranças, tem que haver exploração; e para mim as religiões tal como são subsistem em nada mais do que numa séria de explorações. Aquilo a que chamamos os mediadores entre o nosso presente conflito e essa suposta realidade tornaram-se os nossos exploradores, e eles são os sacerdotes, os mestres, os professores, os salvadores; porque eu afirmo que só através da compreensão do conflito presente com todo o seu significado, com todas os seus delicados matizes – só assim podem descobrir o que é real, e ninguém os pode conduzir a isso.

Se ambos, o inquiridor e o professor, soubessem o que é a verdade, então ambos poderiam ir na sua direção; mas o discípulo não pode saber o que é a verdade. Por isso a sua inquirição sobre a verdade só pode existir no conflito, não longe dele, e assim, para mim, qualquer professor que descreva o que é a verdade, o que é Deus, está a negar isso mesmo, esse algo incomensurável que não pode ser medido por palavras. A ilusão das palavras não lhes dá segurança, e a ponte das palavras não os pode conduzir a esse algo. É somente quando vocês, como indivíduos, se começarem a aperceber no conflito imenso, da causa, e por consequência da falsidade desse conflito, que descobrirão o que é a verdade. Ali existe a felicidade eterna, a inteligência; mas não nesta coisa espúria chamada espiritualidade que é apenas uma conformidade, conduzida pela autoridade através do medo. Eu afirmo que existe algo extremamente real, infinito; mas para o descobrir o homem não deve ser uma máquina imitativa, e as nossas religiões não são nada mais que isso. E além disso, as nossas religiões em todo o mundo mantêm as pessoas separadas. Isto é, vocês com os vossos preconceitos específicos, autodenominando-se Cristãos, e os Indianos com as suas crenças específicas, autodenominando-se Hindus, nunca se encontram. As vossas crenças mantêm-nos separados. As vossas religiões estão a mantê-los separados. “Mas”, dizem vocês, “se os Hindus pudessem ao menos tornar-se Cristãos, então haveria uma unidade”, ou os Hindus dizem, “Deixemos que se tornem todos Hindus.” Mesmo então há divisão, porque a crença necessita de uma divisão, uma distinção, e por esse motivo a exploração e a luta contínua da diferença de classes.

Dizemos que as religiões unem. Pelo contrário. Olhem para o mundo fraccionado em seitas pequenas e tacanhas, lutando umas contra as outras para aumentar o seu número de membros, a sua riqueza, as suas posições, as suas autoridades, pensando que elas são a verdade. Só há uma verdade, mas não podem chegar a ela através de nenhuma seita, através de nenhuma religião. Para descobrir o que é verdade na religião, e o que é falso, não podem ser uma máquina; não podem aceitar as coisas como elas são. Fá-lo-ão se estiverem satisfeitos, e se estão satisfeitos não me ouvirão, e a minha palestra será inútil. Mas se estão insatisfeitos ajudá-los-ei a questionar corretamente, e desse questionamento descobrirão o que é a verdade, e nessa descoberta do que é verdadeiro descobrirão como viver amplamente, completamente, extaticamente; não com esta constante luta, batalhando contra tudo para vossa própria segurança, à qual chamam virtude.

Mais uma vez, este medo que é criado através da procura de segurança, procura refúgio na sociedade. A sociedade nada mais é que a expressão do individual multiplicada por milhares. Afinal, a sociedade não é uma coisa misteriosa. É o que vocês são. É premente, controladora, dominadora, tortuosa. A sociedade é a expressão do indivíduo. Esta sociedade oferece segurança através da tradição, a que chamamos opinião pública. Isto é, a opinião pública diz que possuir, possuir bens, é perfeitamente ético, moral, e dá-lhes distinção neste mundo, confere-lhes honras; vocês são pessoas notáveis neste mundo. É isso que, tradicionalmente, é aceite. É essa a opinião que criaram como indivíduos, porque é isso que vocês procuram. Todos vocês querem ser alguém no estado, seja Sir Qualquer Coisa ou Lord, e todo o resto, como vocês sabem, que se baseia na possessividade, nas posses; e isso tornou-se moral, verdadeiro, bom, perfeitamente cristão, ou perfeitamente hindu. É a mesma coisa. Ora nós chamamos a isso moralidade. Chamamos moralidade ao ajustamento a um padrão. Por favor, não estou a pregar o contrário disso. Estou a mostrar-lhes a falsidade disso, e se quiserem descobrir atuarão, não procurarão o reverso. Isto é, vocês consideram as posses, já sejam a vossa mulher, os vossos filhos, os vossos bens, vocês consideram isso perfeitamente moral. Agora suponham que tinha nascido uma outra sociedade em que as posses fossem más, onde esta ideia de possessividade fosse eticamente proibida – que entrasse na vossa mentalidade como a possessividade entra agora pelas circunstâncias, pela situação, pela opinião. Então a moralidade perde todo o seu significado, a moralidade é então uma mera conveniência. Não a percepção correta das coisas, mas o engenhoso ajuste às circunstâncias – a que chamam moralidade. Suponham que querem, como indivíduos, não ser possessivos, vejam o que têm que combater! Todo o sistema da sociedade não é senão possessividade. Se o compreendessem e não fossem levados pelas circunstâncias que não são chamadas morais, então vocês, como indivíduos, teriam que começar a afastar-se desse sistema voluntariamente, e não teriam que ser levados como cordeiros a aceitar a moralidade da não-possessividade.

Atualmente são forçados quer gostem quer não, quer pensem que é sensato ou não; são forçados pelas situações, pelo meio que criaram, porque são ainda possessivos, e agora talvez apareça um outro sistema que os leve ao oposto – a ser não-possessivos. Certamente não é moralidade; é apenas timidez ser forçado pelo meio a ser possessivo ou não-possessivo. Ao passo que, para mim, a verdadeira moralidade consiste em compreender totalmente o absurdo da possessividade e combatê-la voluntariamente; e não ser conduzido de uma maneira ou de outra.

Agora, se olharem, esta sociedade está baseada na consciência de classes que é mais uma vez a consciência da segurança. Da mesma maneira que as crenças se tornam em religiões, também as posses se tornam na expressão da nacionalidade. Da mesma maneira que as crenças separam as pessoas, condicionam as pessoas, mantêm-nas separadas, também a possessividade, expressando-se como consciência de classes e tornando-se em nacionalidade, mantém as pessoas separadas. Isto é, toda a nacionalidade se baseia na exploração da maioria pela minoria para seu próprio benefício através dos meios de produção. Essa nacionalidade, através do instrumento do patriotismo, é um processo de guerra. Todas as nacionalidades, todos os países soberanos, têm que se preparar para a guerra; é o seu dever, e não adianta serem pacifistas e ao mesmo tempo falar de patriotismo. Não podem falar de fraternidade, e depois falar sobre Cristianismo, porque isso nega-a; não mais aqui que na Índia, ou em qualquer outro país. Na Índia podem falar sobre Hinduísmo e dizer que somos um só, que toda a humanidade é uma só. São apenas palavras – hipocrisia.

Portanto todas as nacionalidades são um processo de guerra. Quando falava na Índia, disseram-me (presentemente os Hindus estão a travessar uma fase dessa doença do nacionalismo), “Olhemos primeiro pelo nosso país porque há tanta gente a morrer de fome; depois podemos falar sobre a unidade da humanidade”, que é a mesma coisa de que falam aqui. “Protejamo-nos e depois falaremos sobre unidade, fraternidade, e todo os resto.” Ora, se a Índia está realmente preocupada com o problema da fome, ou se vocês estão realmente preocupados com o problema do desemprego, não podem lidar apenas com o problema de desemprego da Nova Zelândia; é um problema humano, não um problema de um grupo específico chamado Nova Zelândia. Não podem resolver o problema da fome como um problema Indiano, ou como um problema Chinês, ou o problema do desemprego como um problema Inglês, ou Alemão, ou Americano, ou Australásio, mas têm que lidar como ele como um todo; e só podem lidar com ele como um todo quando não forem nacionalistas, e não forem explorados através do processo de patriotismo. Vocês não são patriotas todas as manhãs quando acordam. Só são patriotas quando os papéis dizem que têm que o ser, porque têm que conquistar o vosso próximo. Somos por isso bárbaros, e não os que invadem o vosso país. O bárbaro é o patriota. Para ele o seu país é mais importante que a humanidade, que o homem; e eu digo-vos que não resolverão os vossos problemas, este problema econômico e de nacionalidade, enquanto forem Novo Zelandeses. Só o resolverão quando forem seres humanos verdadeiros, livres dos preconceitos nacionalistas, quando deixarem de ser possessivos, e quando a vossa mente não estiver dividida pelas crenças. Então poderá haver verdadeira unidade humana, e então o problema da fome, o problema do desemprego, o problema da guerra, desaparecerá, porque vocês considerarão a humanidade como um todo e não como algum povo específico que quer explorar outro povo.

Veem portanto o que está a dividir o homem, o que está a destruir a verdadeira glória de viver na qual, unicamente, podem encontrar essa realidade viva, essa imortalidade, esse êxtase; mas para a encontrar têm que ser em primeiro lugar indivíduos. Isso significa que têm que começar a compreender, e por consequência a agir, para descobrir o que é falso no sistema existente, e assim, como indivíduos, formarão um núcleo. Não podem alterar as massas. O que são as massas? Vocês próprios multiplicados. Esperam que as massas atuem, esperando que por algum milagre haja uma mudança completa do dia para a noite, porque não pensam, não querem agir. Enquanto esta atitude de espera existir, haverá cada vez maior luta, cada vez mais sofrimento, falta de compreensão; a vida torna-se uma tragédia, algo sem valor. Ao passo que, se vocês, como indivíduos, agirem voluntariamente porque querem compreender e descobrir, então tornar-se-ão responsáveis, então não se tornarão reformadores, então haverá uma mudança completa, não baseada na possessividade, nas distinções, mas na verdadeira humanidade na qual há afeto, há pensamento, e por isso um êxtase de viver.
Auckland, Nova Zelândia - 1ª palestra 28 de março, 1934.

A crença é uma coisa artificial

Amigos, direi apenas algumas palavras antes de tentar responder a algumas destas questões.

Em primeiro lugar, gostaria de salientar que o que vou dizer não deveria ser compreendido com um espírito partidário. A maior parte de vocês é provavelmente Teosofista, com determinados ideais e ideias definidas, com determinados ensinamentos definidos, e pensam que eu detenho opiniões contrárias e assumem que pertenço a um outro campo com outros ideais e crenças. Vamos antes abordar todo o assunto a partir do ponto de vista da descoberta antes de tentar dizer, “Acreditamos nisto, e você não; por isso, somos detentores de determinadas ideias que está a tentar destruir.” Ora esse espírito, esse tipo de atitude, indica mais oposição que compreensão; indica que têm algo que desejam proteger, e se alguém questiona o que têm, imediatamente dirão que está a atacar ou que eu estou a atacar. Não é de todo a minha intenção atacar alguma coisa, mas antes ajudá-los a descobrir se aquilo que detêm é verdadeiro. Se for verdadeiro, então ninguém poderá atacá-lo, e não importa que alguém o ataque se aquilo que detêm é verdadeiro; e só podem descobrir o que é verdadeiro considerando-o, não protegendo-o, não estando na defensiva.

Sabem, onde quer que eu vá os Teosofistas pedem-me, tal como o fazem outras organizações, para falar para eles; e os Teosofistas com os quais vivi durante tanto tempo tomaram esta atitude infeliz de que estou a atacá-los, a destruir as suas crenças prediletas que devem proteger a todo o custo, e todos esses disparates. Ao passo que eu sinto que se pudermos realmente considerar em conjunto, raciocinar em conjunto, e ver o que temos em mãos que queremos proteger, então em vez de pertencer a um qualquer campo específico, ou a uma secção específica de pensamento, compreenderemos naturalmente o que é verdade; e aquilo que é verdade não tem partido. Não é nem vosso nem meu. Portanto é essa a minha atitude ao dirigir-me a vocês, e ao falar em qualquer lado; ajudá-los a descobrir – e digo-o honestamente – se o que detêm é realmente duradouro, ou uma coisa que edificaram a partir de uma opinião, a partir da auto-proteção, da auto-preservação, a partir da procura de segurança. Coisas assim não têm valor embora possam usar as roupagens da certeza e da sabedoria.

Agora, senhores, gostaria de dizer que, para mim, a verdade não tem aspectos. Temos o hábito, especialmente os Teosofistas, penso eu, para além de outros, de dizer que a verdade tem muitos aspectos: a Cristandade é um aspecto, o Budismo outro, o Hinduísmo outro, etc. Isto apenas indica que queremos manter-nos fiéis ao nosso próprio temperamento específico e aos nossos próprios preconceitos, e ser tolerantes para com os preconceitos dos outros. Ao passo que, para mim, a verdade não tem aspectos; é uma, e aquilo que é completo, integral, não tem aspectos. Não é como uma luz com muitas lâmpadas coloridas. Isto é, colocam lâmpadas coloridas por baixo dessa luz, e depois tentam ser tolerantes com uma luz vermelha se vocês forem uma luz verde, e inventam essa infeliz palavra tolerância, que é tão artificial, uma coisa seca que não tem valor. Certamente que não são tolerantes com o vosso irmão, com os vossos filhos. Quando existe verdadeiro afeto não há tolerância, portanto, é somente quando o coração murchou que falamos sobre tolerância. Eu, pessoalmente, não me importo com o que acreditam ou não acreditam, uma vez que o meu afeto não se baseia na crença. A crença é uma coisa artificial; ao passo que o afeto é o carácter inato das coisas, e quando esse afeto definha, então tentamos espalhar a fraternidade através do mundo e falamos de tolerância, da unidade das religiões. Mas onde há verdadeira compreensão não há conversa sobre tolerância.

A compreensão não reside nos livros. Podem ser estudiosos de livros durante muitos anos, e se não souberem como viver, então todo o vosso conhecimento definha; não tem substância, não tem valor. Ao passo que, um momento de plena consciência, de total compreensão consciente, origina uma paz verdadeira, duradoura; não uma coisa que é estática, mas sim essa paz que está continuamente em movimento, que é ilimitada.
Agora pergunto-me como vou responder a todas estas questões.
Pergunta: Pode uma cerimónia ser útil, e ainda não ser limitativa?
Krishnamurti: Quer realmente aprofundar a questão, ou quer apenas tratá-la superficialmente? Quantos de vocês efectuam realmente cerimónias? Tornou-se, infelizmente, um assunto sobre o qual vocês discutem na S.T.
Ora o que é uma cerimónia? Não é pôr uma gravata, lavarem-se, comer, ou a apreciação da beleza – porque eu discuti com pessoas, e elas exibiram todos estes argumentos. Elas dizem, “Vamos à igreja porque há nela tanta beleza. É a nossa própria expressão. Não é vestir um fato e lavar os dentes, uma cerimónia?” Certamente que isto não é uma cerimónia. A apreciação da beleza não é uma cerimónia. Vocês não vão à igreja ou assistem a uma cerimônia para se expressarem. Portanto a cerimônia tal como vocês a usam tem um significado muito preciso. Uma cerimônia, tanto quanto posso perceber, de acordo com a vossa própria utilização da palavra, é onde vocês, ou esperam avançar espiritualmente através da sua eficácia, ou assistem a ela para difundir pelo mundo forças espirituais. Vamos limitar-nos a isto, e não trazer argumentos alheios? Não é assim? A cerimônia só se aplica onde vocês difundem força espiritual, e na qual esperam obter avanço espiritual. Examinemos estas duas coisas.

Em primeiro lugar, quando dizem que estão a difundir força espiritual no mundo, como sabem que o estão a fazer? Ou tem que estar baseada na autoridade, na aceitação de decretos ou ordens de algum outro, ou sentem que a estão a difundir. Coloquemos portanto de parte a autoridade de outro, porque isso é infantil. Se alguém diz apenas, “Faça isto”, e vocês o fazem, então não tem qualquer valor; não importa quem seja. Então apenas nos reduzimos a crianças, e tornamo-nos os instrumentos da autoridade. Por esse motivo não há vitalidade nas vossas ações. Somos apenas máquinas imitativas.

Ora nós podemos pensar que indo à igreja nos sentimos exultantes, nos sentimos cheios de vitalidade e de uma sensação de bem-estar. Não estou a ofender quando digo que passando a gostar de beber sentem o mesmo, ou assistindo a uma conferência estimulante; mas porque é que colocam a cerimônia como sendo muito mais importante, mais vital, mais essencial, que a apreciação de algo que realmente os estimule? Se realmente examinarem a questão, aquilo que estimula é muito mais que a apreciação da beleza. Ao assistir a uma cerimônia, vocês esperam que, por qualquer processo milagroso, todo o vosso ser seja limpo. Ora para mim, uma tal ideia é, se me permitem dizê-lo, realmente absurda. Tais ideias são os instrumentos da verdadeira exploração. Ao passo que, sendo realmente integrantes, completos em vocês próprios, não podem contar com alguém para purificar a vossa mente e o vosso coração. Têm que se descobrir por si mesmos. Portanto, para mim, toda esta ideia de que as cerimônia lhes vão dar compreensão espiritual e consecução, é na verdade justamente aquilo que cada pessoa chamada materialista pensa. Ela quer ser alguém neste mundo, ela quer ter dinheiro, portanto começa a acumular, a possuir, a explorar, a ser implacável; e o homem que quer ser alguém no mundo espiritual faz exatamente a mesma coisa, só que lhe chama espiritual. Isto é, por trás de tudo isso, há esta ideia de obtenção; e para mim uma tal ideia, o desejo de obter, é em si uma limitação. E se realizam cerimônia como um meio de obtenção, então todas as cerimônia não são senão limitação. Ou, se vão e realizam cerimônia como sendo o essencial, o necessário, então estão apenas a aceitá-las por autoridade ou tradição. Certamente que uma mente assim não pode compreender o que é a vida, o que é todo o processo de viver.

Surpreendo-me que esta questão surja onde quer que eu vá, especialmente entre aqueles que se supõe serem um pouco mais avançados, seja o que for que isso signifique, aqueles que foram estudantes de filosofia durante anos, que se supõe serem ponderados. Isso apenas indica que na verdade procuraram substitutos. Estão fartos das vossas velhas igrejas e instituições, e querem algum brinquedo novo para brincar, e aceitam esse novo brinquedo sem descobrir se tem algum valor; não podem descobrir se algo tem valor enquanto estiverem apenas à procura de substitutos.
Tratei da questão completamente, exaustivamente? Gostaria realmente de discutir isto com as pessoas, esta ideia das cerimónias. Discuti-a com aqueles que recentemente se tornaram sacerdotes, e deram-me, não uma qualquer razão válida, mas algumas razões baseadas na autoridade, tais como “Disseram-nos”, ou qualquer outro tipo de desculpa para a sua acção.
Agora, há um outro aspecto que é completamente diferente. É a ideia de que na cerimónia reside a magia – não a magia branca ou negra, não estou a falar disso – de que o mistério da vida é revelado através da cerimónia. Sabem, falei com alguns Católicos Romanos, e eles dir-lhes-ão que essa é a razão pela qual vão à igreja. Essa não é a razão dada por nenhum dos cerimonialistas de tendência Teosófica, por isso não usem essa moca contra mim outra vez. Ora a vida é mistério. Há algo imenso, mágico, na vida; mas penetrar o seu véu para descobrir o verdadeiro mistério não é criar coisas falsas, antinaturais – e, para mim, estas cerimônia sacerdotais são antinaturais. São na realidade um meio de exploração.

Pergunta: Foi sugerido que o poder que fala através de si pertence aos planos superiores, e não pode ser transmitido abaixo do intuitivo, por conseguinte temos que escutar mais com a nossa intuição se quisermos compreender a sua mensagem. Isso é correto?

Krishnamurti: O que quer dizer com intuição? O que significa para vocês todos a intuição? Dizem que é algo que sentimos instintivamente sem passar pelo processo da razão lógica; um “pressentimento” como diriam os Americanos. Ora na realidade eu questiono se a vossa intuição é real ou apenas as esperanças inconscientes glorificadas; anseios subtis, enganadores. Sabem, quando ouvem falar da reencarnação, ou quando ouvem um conferencista falar da reencarnação, ou leem um livro sobre ela, e tiram conclusões e dizem, “Sinto que é verdade, tem que ser”, chamam a isso intuição. É realmente intuição, ou é a esperança de que terão uma outra oportunidade para viver a próxima vida; por isso se ligam a ela, e lhe chamam intuição? Esperem um momento. Não estou a negar que existe intuição, mas ao que a pessoa comum chama intuição, e isso não é verdade, isso é algo sem razão, sem validade, sem compreensão por trás disso.
Ora o interlocutor diz que foi sugerido que o poder que fala através de mim pertence aos planos superiores, e não pode ser transmitido abaixo do intuitivo. Certamente compreendem aquilo de que falo, não compreendem? É bastante óbvio. Agora esperem um momento. É fácil compreender aquilo de que falo, mas se não o procurarem, se não o puserem em acção, não há compreensão; e porque não o põem em acção, transferem-no antes para o mundo intuitivo, e por esse motivo dizem que se sugere que falo de um plano superior, e por isso têm que ir ao vosso superior e tentar compreender o que isso significa. Por outras palavras, embora compreendam razoavelmente bem o que estou a tentar dizer, é difícil pô-lo em acção; por isso, vocês dizem “Vamos antes removê-lo para um plano superior, e a partir daí podemos discuti-lo”. Não é assim? Se disserem, “Não compreendo do que fala”, então há a possibilidade de mais discussão. Tentarei então explicá-lo de maneira diferente, para que o possamos discutir, aprofundar, considerar em conjunto; mas começar com a suposição de que para me compreenderem têm que ir ao plano superior – sem dúvida que há algo radicalmente errado nessa atitude. Qual é o plano mais elevado, excepto esse que é o pensamento? Porquê ir mais além? Mas não vêem que o que quero dizer é que estamos a começar com algo misterioso, algo distante, e a partir daí tentamos descobrir o óbvio, as realidades, e portanto, elas forçosamente são enormes desilusões, enormes ações hipócritas, limitadas à falsidade? Ao passo que, se começarmos com as coisas que conhecemos, que são simples de descobrir se pensarem nelas, então podem realmente ir longe, infinitamente. Mas é absurdo começar do misterioso, e depois tentar relegar a vida a esse mistério, que pode ser romanticismo, pode ser falso, imaginativo. Uma tal atitude da mente que diz, “Para compreender temos que escutar com a nossa intuição”, pode ser falsa, portanto eis porque eu disse que as vossas intuições podem ser completamente falsas. Como podem escutar com algo que pode ser falso, que pode ser as vossas esperanças, predileções, anseios ou sonhos? Porque não escutar com os vossos ouvidos, com a vossa razão? Daí, quando conhecem a limitação da razão, então podem prosseguir – isto é, para subirem alto têm que começar por baixo; mas já subiram alto, e não têm mais para onde ir. É esse o problema com todos vocês. Subiram às alturas intelectualmente; naturalmente os vossos seres estão vazios, são arrogantes. Ao passo que, se começarem de perto, então saberão como subir, como mover-se infinitamente.
Sabem, todos estes são meios e maneiras de exploração. É a maneira dos sacerdotes – complicar os assuntos, quando as coisas são infinitamente simples. Não aprofundarei o que tenho que dizer, já o expliquei vezes sem conta; mas complicá-lo, revesti-lo de todo o tipo de tradições ou preconceitos e não reconhecer os vossos preconceitos, eis onde reside a hediondez.
Pergunta: Se uma pessoa considera a Sociedade Teosófica um canal através do qual se pode expressar e ser útil, porque deveria deixar a Sociedade?
Krishnamurti: Em primeiro lugar, vamos descobrir se assim é. Não diga porque é que deveria ou não deveria sair; investiguemos o assunto.
O que quer dizer com um canal através do qual se pode expressar? Não se expressa através do negócio, do casamento? Expressa-se ou não todos os dias quando está a trabalhar para a subsistência, quando está a criar os filhos? E como se vê que aí não se expressa, quer uma Sociedade na qual se possa expressar. Não é isso? Por favor, espero não estar a dar nenhum significado subtil a tudo isto. Portanto você diz, “Como não me estou a expressar no mundo da ação, no mundo quotidiano, onde é impossível expressar-me, por esse motivo utilizo a Sociedade para o fazer.” É assim, ou não? Quero dizer, até onde compreendo a questão.

Como é que se expressa? Tal como é, expressa-se à custa de outros. Quando fala de auto-expressão, tem que ser à custa de outros. Por favor, existe a verdadeira expressão, com a qual todos lidamos presentemente, mas esta ideia de auto-expressão indica que você tem algo para dar, e por esse motivo, a Sociedade tem de ser criada para seu uso. Em primeiro lugar, tem algo para dar? Um pintor, ou um músico, ou um engenheiro, ou qualquer destes indivíduos, se for realmente criativo, não fala sobre auto-expressão; expressa-a durante todo o tempo; fá-lo no mundo exterior, em casa, ou num clube. Não quer uma sociedade específica que possa usar para a sua auto-expressão. Portanto quando diz “auto-expressão”, não quer dizer que está a usar a Sociedade para irradiar para o mundo um conhecimento específico ou algo que você tenha. Se tem algo, você dá-o. Não tem consciência disso. Uma flor não é consciente da sua beleza. O seu encanto está sempre presente.

“Ser útil ao mundo”. Você é realmente útil ao mundo? Por favor, sabem, gostaria que pudessem realmente pensar, honestamente, francamente; então se realmente pensarem, honestamente, francamente, serão utéis ao mundo – não desta forma extraordinária. Vamos decobrir que somos úteis ao mundo. De que precisa o mundo actualmente – ou em qualquer altura, no passado ou no futuro? De gente que tenha a capacidade de ser completamente humana; isto é, gente que não esteja limitada pelos seus círculos tacanhos de pensamentos e preconceitos e pelas limitações do emocionismo da sua auto-consciência. Sem dúvida que, se realmente quiserem ajudar o mundo, não podem pertencer a nenhuma seita ou sociedade específica, não mais que a uma qualquer religião específica. Se dizem que todas as religiões são uma, porquê ter então alguma religião? As religiões e as nacionalidades na realidade enjaulam as pessoas, impedem-nas. Isto é demonstrado em todo o mundo, em toda a história; e agora aparecem no mundo cada vez mais seitas, cada vez mais pessoas limitadas pelos muros da crença, com os seus guias especiais; e no entanto vocês falam de fraternidade! Como pode haver verdadeira fraternidade quando este instinto possessivo é tão profundo, e portanto tem que conduzir a guerras porque está baseado no nacionalismo, no patriotismo. A vossa conversa sobre fraternidade mostra sem dúvida que não são realmente fraternos. Um homem que é realmente fraterno, afetuoso, não fala de fraternidade; vocês não falam de fraternidade à vossa irmã, à vossa mulher, aí há afeto natural. E como pode haver fraternidade, verdadeira unidade do homem, quando existe exploração? Portanto para ajudar realmente o mundo – uma vez que falam em ajudar o mundo – se realmente o quisessem ajudar a ser livre de todos os seus compromissos, dos seus interesses próprios, dos seus ambientes, então veriam que nunca falariam sobre ajudar o mundo; então não se poriam mum pedestal para ajudar alguém à distância, mais abaixo.

Pergunta: Aprova a nossa invocação de ajuda aos anjos do reino angélico, tais como o Anjo Rafael na doença, o Anjo de Fogo na cerimônia de cremação? Eles são apoios e muletas? (Riso)

Krishnamurti: Por favor, alguns de vocês riem-se, mas têm as vossas próprias ideias preconcebidas, as vossas próprias superstições. Podem não ter esta superstição “angélica”. Têm outras.

Ora não olhemos para isso do ponto de vista de invocar ajuda. Em primeiro lugar, se forem normais, então há um milagre normal a acontecer no mundo; mas somos tão anormais que queremos que aconteçam ações anormais. Respondi a esta questão tantas vezes. Bom. Em primeiro lugar, suponham que estão a sofrer e são curados, pode ser por um médico, pode ser por um anjo; se não conhecerem a causa do sofrimento, ficarão doentes outra vez. Pessoalmente, interessei-me um pouco pela cura, mas quero fazer outra coisa na vida, curar realmente a mente e o coração; isto é, deixá-los descobrir por si mesmos a causa do sofrimento; e asseguro-lhes, nenhum convite aos anjos, nenhuma assistência médica contínua, alguma vez lhes mostrará a causa do sofrimento. Podem ser curados sintomaticamente de momento, mas a menos que realmente descubram por si mesmos – mais ninguém pode descobrir por vocês – qual é a causa do sofrimento, ficarão de novo doentes. Na descoberta da causa tornar-se-ão saudáveis.

Pergunta: Tem simpatia por aqueles que admiram a sua beleza, mas ignoram a sua sabedoria?

Krishnamurti: É a mesma coisa que a outra pergunta. Vamos ouvi-lo intuitivamente, e ignoremos as suas palavras. Só que esta pergunta é colocada de forma diferente. Sabem, a sabedoria não é para ser adquirida. Não a podem adquirir dos livros. Não a podem obter escutando, Podem escutar-me durante centenas de anos, mas não vão ser sábios. O que traz a sabedoria é a ação. A ação é sabedoria; não pode ser separada. E porque dividimos a ação do nosso pensamento, das nossas emoções, da nossa capacidade intelectual de raciocinar, somos arrebatados pelas coisas superficiais, e por isso somos explorados.

Pergunta: Considera que a Sociedade Teosófica terminou o seu trabalho no mundo, e deveria retirar-se?

Krishnamurti: O que é que vocês pensam, vocês que são os seus membros? Não é essa uma pergunta muito mais apropriada, do que a vossa a mim? Senhores, posso colocar as coisas desta maneira? Porque pertencem a alguma Sociedade? Porque são Cristãos, Teosofistas, Cientistas Cristãos, e sabe Deus o quê? Porque se excluem e se apartam? “Porque”, dizem vocês, “esta forma específica de crença, esta forma específica de expressão, de ideias, me atrai; por isso vou subscrevê-la.” Ou pertencem-lhe porque esperam obter algo dela: felicidade, sabedoria, posto, posição. Portanto em vez de me perguntarem se a Sociedade deveria retirar-se, perguntem-se porque pertencem a ela. Porque pertencem a alguma coisa? Existe esta ideia terrível de que querem ser exclusivos – o Western Club, o Eastern Golf Course, e todo o resto. Hotéis exclusivos – sabem. Portanto, da mesma forma, dizemos que temos algo especial, e também os Hindus, e também os Católicos Romanos. Todas as pessoas do mundo falam sobre ter qualquer especial, e portanto excluem-se, e tornam-se proprietários dessa coisa especial, e criam assim mais divisões, mais conflitos, mais desgostos. Além disso, quem sou eu para lhes dizer se a Sociedade deve retirar-se? Pergunto-me quantos de vocês se perguntaram realmente porque pertencem à Sociedade. Se são realmente uma associação social, não uma associação religiosa, não uma associação ética, então há alguma esperança para ela no mundo. Se são realmente uma associação de pessoas que está a descobrir, não que encontrou, se são uma associação de pessoas que está a dar informação, não a conferir distinções espirituais, se são uma associação de pessoas que tem uma plataforma realmente aberta, não para mim ou para alguém especial, se são uma associação de pessoas entre as quais não há nem lideres nem seguidores, então há alguma esperança. Mas receio que sejam seguidores, e por isso todos vocês têm líderes. E uma sociedade assim, seja esta ou outra, é inútil. Vocês são apenas seguidores ou apenas líderes. Na verdadeira espiritualidade não há distinção do aluno e do professor, do homem que tem conhecimento e do que não o tem. São vocês que a criam, porque é disto que estão à procura – ser continuamente distintivos. Vocês não podem ser todos Sir Richard Qualquer Coisa, e portanto querem ser alguém nesta Sociedade, ou noutra sociedade, ou no céu. Não vêem que se realmente pensassem sobre estas coisas e fossem honestos, poderiam ser uma associação extraordinariamente útil no mundo. Poderiam então trabalhar realmente para o mérito intrínseco das suas ideais – não para uma qualquer fantasia e para o emocionalismo dos vossos líderes. Então examinariam qualquer ideia e descobririam o seu verdadeiro significado e trabalhá-la-iam, e não dependeriam das honras conferidas pelos vossos serviços, não dependeriam de um engodo para trabalhar. Esse caminho leva à estreiteza, ao fanatismo, a mais divisões e crueldades, e em última análise ao absoluto caos do pensamento.

Pergunta: Qual é a sua atitude em relação aos primeiros ensinamentos de Teosofia, do tipo Blavatsky? Considera que nos deterioramos ou que avançamos?

Krishnamurti: Receio não saber, porque não sei quais são os ensinamentos de Madame Blavatsky. Porque deveria eu saber? Porque devem saber dos ensinamentos de outro? Sabem, só há uma verdade, e portanto só há um caminho, que não está distante dessa verdade; só há um método para essa verdade, porque o meio não é distinto do fim.

Agora vocês que estudaram Madame Blavatsky e a Teosofia mais recente, ou seja lá o que for, porque querem ser estudantes de livros em vez de estudantes da vida? Porque implantam líderes e perguntam que ensinamentos são melhores? Não vêem? Por favor, não estou a ser desagradável, nem nada no gênero. Não vêem? Vocês são Cristãos; descubram o que é verdadeiro e o que é falso no vosso meio com todas as suas opressões e crueldades, e então descobrirão o que é verdadeiro. Porque querem filosofias? Porque a vida é uma coisa feia, e vocês esperam fugir-lhe através da filosofia. A vida é tão vazia, aborrecida, estúpida, ignominiosa, e vocês querem algo que traga romanticismo ao mundo, alguma esperança, algum sentimento persistente e impressionante; ao passo que, se realmente enfrentassem o mundo como ele é e o procurassem enfrentar, achá-lo-iam algo muito melhor, infinitamente melhor que qualquer filosofia, melhor que qualquer livro no mundo, melhor que qualquer ensinamento ou melhor que qualquer professor.

Na realidade perdemos todo o sentido de sentimento, sentimento pelos oprimidos, e sentimento pelo opressor. Vocês só sentem quando são oprimidos. Portanto gradualmente explicamos intelectualmente todos os nossos sentimentos, a nossa sensibilidade, as nossas delicadas percepções, até sermos absolutamente superficiais; e para preencher essa superficialidade, para nos enriquecermos, estudamos livros. Li todos os tipos de livros, mas nunca filosofias, graças a Deus. Sabem, sinto uma espécie de contração – por favor, para falar com certa moderação – quando dizem, “Sou um estudante de filosofia”, um estudante disto, ou daquilo; nunca são estudantes da ação do dia-a-dia, nunca compreendendo realmente as coisas como elas são. Asseguro-lhes que, para vossa felicidade, para vossa própria compreensão, para a descoberta dessa coisa eterna, têm realmente que viver; então encontrarão algo que nenhuma palavra, nenhuma imagem, nenhuma filosofia, nenhum professor pode dar.

Pergunta: Os ensinamentos que a Teosofia dá relativos à evolução têm alguma consequência para o objectivo de crescimento da alma?

Krishnamurti: O que querem dizer com evolução, senhores? Tanto quanto posso perceber, crescer do não essencial para o essencial. É isso? Crescer da ignorância para a sabedoria. Não é assim? Ninguém abana a cabeça. Muito bem. O que querem dizer com evolução? Ganhar cada vez mais experiência, cada vez mais sabedoria, cada vez mais conhecimento, cada vez mais e cada vez mais; infinitamente cada vez mais. Isto é, vão do não essencial para o essencial; e esse essencial torna-se o não essencial no momento em que o conseguiram, que o alcançaram. Não é assim?

Também estão cansados? É muito tarde? Por favor, têm que pensar comigo. Esta é a minha segunda palestra do dia; mas se não pensarem comigo, será muito difícil para mim. Tenho que empurrar uma parede.

Vocês consideram algo como essencial hoje, e vão atrás disso, e obtêm-no; e amanhã essa coisa torna-se não essencial, e vocês dizem, “Aprendi isso.” Aquilo que consideravam essencial tornou-se não essencial, e assim vocês prosseguem, e prosseguem e prosseguem. E chamam a isso crescimento, evolução; obter cada vez mais, discernir cada vez mais entre o essencial e o não essencial – e contudo não existe tal coisa como o essencial e o não essencial. Existe? Porque aquilo que pensam que é essencial hoje torna-se não essencial amanhã, porque vocês querem outra coisa.

Deixem-me colocar as coisas de maneira diferente. Vocês vêem um qualquer objecto deleitante que pensam que querem possuir, e possuem-no: satisfeitos então, avançam para outra coisa. Pode ser alguma ânsia emocional, um desejo, e obtêm-no. Querem uma ideia, e procuram-na, e obtêm-na. E em última instância querem alcançar Deus, a verdade, a felicidade; e vocês consideram espiritual o homem que quer a felicidade, Deus, a verdade, e chamam mundano e materialista ao homem que quer um chapéu ou uma gravata, o seja lá o que for. O não essencial é o chapéu, e o essencial é Deus ou a verdade. O que é que fizemos? Apenas mudamos o objecto dos nossos desejos. Dissemos, “Bem, tenho chapéus suficientes, carros suficientes, casas suficientes, e quero algo mais”, e vão atrás disso e obtêm isso, e depois acabam com isso e querem uma outra coisa; assim prosseguem gradualmente até que em última análise querem algo a que chamam Deus, e depois pensam que alcançaram o fundamental. Tudo o que fizeram foi brincar com os vossos desejos, e a este processo de escolha contínua vocês chamam evolução. É assim ou não?

Comentário da audiência: Num momento um indivíduo está satisfeito com uma coisa e outro indivíduo com outra.

Krishnamurti: Mas certamente que o desejo é a mesma coisa. O desejo é o mesmo seja o desejo de um chapéu ou de Deus. Existe o desejo por trás disso; querer, até termos passado a amplitude do nosso desejo; ao passo que, se realmente compreendessem o significado de cada objecto que o desejo persegue, que não é nem essencial nem não essencial, compreenderiam então o verdadeiro significado desse objecto; e a evolução tem então um significado diferente – não esta consecução, esta obtenção perpétua, sempre sucessiva.

Comentário: Pararemos o desejo?

Krishnamurti: Sem dúvida que não. Se pararem o desejo, então – adeus! É a morte. Como podem parar o desejo? Não é uma coisa que se ligue e desligue. Porque querem parar o desejo? Porque lhes confere dor. Se lhes der prazer vocês continuam, não me perguntam; mas no momento em que lhes confere dor vocês dizem, “Será melhor que o pare.” Porque têm dor? Porque não há compreensão. Se compreenderem uma coisa, então não há dor.

Comentário: Pode ilustrar-nos esse ponto? Que a dor pára quando a compreendemos.

Krishnamurti: Não o conseguem considerar cuidadosamente? Talvez o possa fazer mais tarde. Deixem-me colocar tudo de outra maneira. Estamos habituados a esta ideia de matar o desejo, de disciplinar o desejo, de o controlar, de o subjugar. Para mim, esta maneira de pensar é doentia, antinatural. Vocês desejam um chapéu ou uma coisa ou qualquer coisa – não sei o quê – e multiplicam desejos porque o objecto que o desejo está à procura não os satisfaz. Não é assim? Portanto vocês procuram-no, mas mudam para outro objecto. Agora, porque é que o vosso desejo procura uma coisa após a outra? Porque vocês não compreendem o próprio objecto que o desejo procura; não vêem o significado completo do desejo de um objecto. Estão mais interessados com a obtenção e com a perda, do que com o significado da procura, Estou a explicar-me? Por favor, tem que se pensar nisto.

Pergunta: O que escreveu em “Aos Pés do Mestre” ainda se mantém?

Krishnamurti: Muito bem, senhores. O que implica essa pergunta? Quais são as implicações dessa pergunta? Continuo a acreditar em Mestres, hem? Não é isso? E naturalmente, se acreditar neles, tenho que continuar a acreditar nos ensinamentos, etc. Descubramos. Olhemos para a questão muito abertamente, não como se eu estivesse a atacar os vossos Mestres, a quem têm que proteger.

Ora, porque é que querem um Mestre? Vocês dizem que precisamos dele para uma orientação – a mesma coisa que dizem os espiritualistas – a mesma coisa que os Católicos Romanos dizem – a mesma coisa que toda a gente no mundo diz. Isto aplica-se a todos, não a vocês em particular. Para nos guiar a quê? Essa é a questão seguinte, obviamente, não é? Vocês dizem, “Tenho que ter um guia para a felicidade, para a verdade, para a libertação, para o nirvana, para o céu” – têm que ter alguém que os conduza a isso. (Por favor, não sou um advogado esperto a tentar intimidá-los; estou a tentar ajudá-los a descobrir por si próprios. Não estou a tentar convertê-los a alguma coisa). Ora, se estiverem interessados na descoberta da verdade, então os guias não têm importância, pois não? Não interessa – escolheriam qualquer pessoa. Como sabem que ele os vai ajudar com a verdade? Pode ser que o homem que varre a rua os ajude – a vossa irmã, o vosso vizinho, irmão, qualquer pessoa; assim sendo porque dão uma atenção particular aos vossos guias? Oh, não abanem as cabeças. Eu sei disso. Vocês dizem, “Oh sim, muito bem, é assim”; e contudo todos vocês estão à procura de um estágio de discipulado, à procura de distinções, de iniciações. Portanto para vocês o que importa é, não a verdade, mas quem os irá conduzir. Não é isso? Não? Então digam-me o que é.

Comentário: O senhor em “Aos Pés do Mestre” disse que tínhamos que não ter desejos, e agora diz que temos…

Krishnamurti: Um momento senhor. Sim, é uma contradição. Espero que haja muitas contradições. Há uma senhora que disse “Não.” Abanou a cabeça. Gostaria de descobrir.

Comentário: Esqueci-me de como era exatamente a sua pergunta no que respeita ao Mestre. Sinto que não é a maneira como eu pessoalmente olho para o Mestre. Creio que tal como conto consigo para me ajudar a compreender e descobrir, assim o Mestre nos ajudará a compreender e a descobrir.

Krishnamurti: Isto é, para a maior parte de vocês o Mestre é um guia. Não podem negar isso, pois não? Não podem dizer, “Não, não me importo com quem é que nos conduzirá à verdade.”

Comentário: Não creio que o importante seja o guia; não o guia especial.

Krishnamurti: Não têm guias especiais?

Comentário: É por isso que viemos ouvi-lo a si.

Krishnamurti: Por favor, tentem descobrir de que é que estou a falar. Não digam. “Não queremos Mestres, guias”, e tudo isso; vamos descobrir. Portanto não digam, “Isto não se aplica a mim.” Se realmente pensarem sobre o que estou a dizer, isso aplicar-se-á a vocês, porque estamos todos no mesmo círculo.

Portanto, se quiserem descobrir o que é a verdade, conforme eu disse esta manhã, se perguntarem a um guia, então têm que saber, e ele tem que saber, ambos têm que saber o que é a verdade. Mas se vocês sabem o que é a verdade, e se têm uma percepção ténue dela, então não perguntarão a ninguém, Então não estarão preocupados se são alunos estagiários, ou iniciados com honras especiais, e todo o resto. Vocês querem a verdade, não distinções. O que dizem a isto?

Comentário: Eu diria que muitos têm o desejo de compreensão e não o desejo de distinção.

Krishnamurti: Vocês não estão a tentar proteger. Eu não estou a tentar abater. Por favor, vamos discutir juntos com esta atitude. Como podem ter compreensão quando são alunos, uma pessoa distinguida, uma entidade distinta com mais privilégios especiais que qualquer outra pessoa?
Comentário: Eu não sinto que tenha quaisquer privilégios especiais; só o que eu próprio faço. Não sinto que alguém me confira privilégios.

Krishnamurti: Lamento não me estar a explicar completamente. Muito bem. O que é senão distinção, auto-engrandecimento, quando são o aluno especial de alguém? Vocês dirão, “Não. Isso ajudar-me-á com a verdade. Esse passo é necessário para a verdade.” Não é assim? Portanto esse passo é apenas a acentuação e o exagero da auto-consciência. Para compreender, tem que haver cada vez menos consciência do “eu”, não cada vez mais. Não é assim? Para compreender qualquer coisa não pode haver preconceito; não pode haver consciência do “meu caminho” e do “teu caminho”, “meu” este e “teu” aquele. Qualquer coisa que acentue a ideia de “meu” tem que ser um obstáculo. Não tem?

Comentário: Ensinaram-nos que há Mestres.

Krishnamurti: Bem, não me posso meter nisso. Se dizem, “É a autoridade, disseram-nos”, então nada há a dizer; mas isso satisfaz-los a todos?

Comentário: Não.

Krishnamurti: De momento, esqueçam tudo o que aprenderam aqui sobre os Mestres, os discípulos, a iniciação. Se fossem realmente francos, veriam. Trata-se apenas de que toda a gente quer ser algo, e este processo de querer ser alguém é usado e explorado.

O que é esta consciência a que chamamos “eu”? Quando estamos conscientes dela? (Por favor, tenho que ser breve, porque tenho que parar). O que é esta consciência? Quando estão conscientes de si próprios? Quando há conflito, quando há um obstáculo, uma frustração. Eliminem todas as frustrações, eliminem todos os obstáculos, e então não dirão “eu”. Então estarão a viver. É somente quando estão conscientes da dor que estão conscientes do corpo. Portanto quando há dor, emocionalmente ou intelectualmente, então estão conscientes como algo separado. Agora acentuamo-la, originamos uma situação na mente a que chamamos o “eu”, e tomamos isso como um facto e desejamos prosseguir com a expansão dessa consciência para a verdade – alargar essa consciência cada vez mais, através de estágios e iniciações e todo o resto, o que indica que têm uma falsa causa. Isto é, o “eu” não é a realidade. Têm uma causa falsa e têm as respostas falsas, como as iniciações, como a expansão da consciência do “eu”; e por isso dizem que é necessário alguém para os ajudar a compreender a verdade, a expandir a vossa consciência; ou dizem, “O mundo precisa de um plano, e há pessoas mais sábias que eu; por isso tenho que me tornar no seu instrumento para ajudar o mundo.”. Em consequência estabelecem um mediador entre eles e vocês – alguém que sabe e alguém que não sabe. E por isso, tornam-se apenas num instrumento de exploração. Sei que todos sorriem e discordam de mim; mas por favor, isso não tem importância. Não estou aqui para os convencer, ou para que me convençam. Se olharem para a questão com a razão, verão.

Assim estabelecem um plano conhecido por uma minoria, e tornam-se apenas um instrumento de ação, para cumprir ordens. Por exemplo, se os Mestres dissessem, “A guerra é correta”. Não estou a dizer que o tenham dito. Sabem como na última guerra toda a gente disse, “Deus está do nosso lado”, e lançamo-nos todos a ela. Agora, se vocês, como indivíduos, começarem realmente a pensar, verão que a guerra é uma coisa perniciosa, e se realmente pensaram nisso, não poderiam entrar na guerra. Mas vocês dizem, “Não sei. O plano diz que tem que haver uma guerra e que o bem virá do mal, portanto deixa-me entrar na guerra.” Por outras palavras, realmente param de pensar. São apenas instrumentos a ser conduzidos, carne para canhão. Sem dúvida que isso não é espiritual, todas essas coisas. Portanto por favor, no que respeita a se eu acredito em Mestres ou não, para mim é de muito pouca importância. Se acreditam num Mestre ou não nada tem a ver com espiritualidade. Qual é a diferença entre um médium que recebe mensagens, e vocês que recebem mensagens dos Mestres?

Comemtário: Não devemos acreditar em nada?

Krishnamurti: Por favor, um momento. Por favor, eu tenho estado a falar disto. Porque querem a crença? (Riso) Por favor não se riam, porque toda a gente está nessa posição. Todos queremos crenças como apoios, como algo que nos sustente. Sem dúvida que quanto mais crenças tenham, menos força têm, menos riqueza interior têm. Lamento não poder entrar em pormenores em tudo isto. São oito e meia, mas gostaria de dizer isto. Não se chega à sabedoria, ou a compreensão, agarrando-nos às coisas; agarrando-se às vossas crenças ou ideias. A sabedoria nasce quando estão realmente em movimento, não ancorados a uma forma particular de crença; e então descobrirão que não importa se os mestres existem ou não, se a vossa Sociedade é essencial para o mundo ou não. Estas coisas são de muito pouca importância. Estarão então a originar uma nova civilização, uma nova cultura no mundo.

Sabem, é extraordinário! A Dra. Besant disse a todos os membros, e eu costumava ouvir isto muitas vezes, “Estamos a preparar-nos para um Professor do Mundo. Mantenham uma mente aberta. Ele pode contradizer tudo o que pensam, e dizê-lo de outra maneira.” E vocês tem estado a preparar-se, alguns de vocês, durante vinte anos ou mais; e não importa se eu sou o Professor ou não. Ninguém lhes pode dizer, naturalmente, porque mais ninguém sabe excepto eu; e mesmo então eu digo que não importa. Nunca o contradisse. Eu digo, “Deixem isso. Não se trata disso.” Tem-se preparado durante vinte anos ou mais, e muito poucos de vocês têm uma mente realmente aberta. Muito poucos disseram, “Vamos descobrir do que está a falar. Vamos entrar em pormenores. Vamos descobrir se o que diz é verdadeiro ou falso, independentemente do seu rótulo.” E após vinte anos estão exatamente na mesma posição em que estavam antes. Têm inúmeras crenças, têm certezas e o vosso conhecimento, e não estão realmente dispostos a examinar o que digo. E parece uma perda de tempo, é uma pena que estes vinte anos e até mais se tenham perdido, e que vocês se encontrem exatamente onde estavam, só que com um novo conjunto de crenças, um novo conjunto de dogmas, um novos conjunto de condições. Garanto-lhes, não podem encontrar a verdade, ou a libertação, ou o nirvana, ou o céu, ou o que quiserem chamar-lhe, por este processo de apego. Isso não significa que todos vocês tenham que se tornar desapegados, o que só quer dizer que se tornam secos, mas tentem descobrir, francamente, honestamente, simplesmente, se aquilo a que se agarram com tal implacável possessividade tem algum significado, se tem algum valor; e para descobrir se tem algum valor não pode haver o desejo de se lhe manterem fiéis. E depois quando tiverem realmente olhado para isso dessa maneira, descobrirão algo que é indescritível. Então descobrirão algo verdadeiro, duradouro, eterno. Então não haverá necessidade de um professor e de um aluno. Será um mundo feliz onde não há nem alunos nem professores.

Auckland, Nova Zelândia - palestra com teosofistas 31 de março, 1934.

Para além de todas as limitações das crenças

Amigos, provavelmente a maior parte de vocês veio porque estão à procura de algo. Pelo menos a maior parte de vocês está aqui porque esperam encontrar algo assistindo a esta reunião, porque estão à procura de algo que não conhecem, mas esperam descobrir. Estão aqui porque há um desejo de encontrar felicidade, porque toda a gente, de uma maneira ou de outra, está a sofrer; há uma tortura constante que prossegue nas nossas mentes e corações, estamos insatisfeitos, incompletos, interrogantes. São dadas explicações contínuas para os nossos inumeráveis sofrimentos, e portanto vimos aqui para descobrir se podemos obter algo em troca da nossa busca. Assistindo a esta palestra, esperam encontrar uma resposta para os vossos problemas, a causa do vosso sofrimento.

Ora, geralmente, o que acontece quando sofrem? Querem um remédio. Quando há um problema, querem uma solução. Quando há uma dor, querem um remédio. Vão portanto de um remédio para outro. Sofremos e queremos descobrir qual é o remédio para esse sofrimento, portanto vamos de uma lição, de uma experiência, para outra, de um remédio para outro ou de uma explicação para outra, de um sistema para outro ou de uma crença para outra, mudando constantemente as facções – isto é, indo de uma jaula para outra jaula, repetidamente batendo em vão nas grades para descobrir porque há sofrimento; e durante todo o tempo a mente e o coração apenas procuram um remédio, uma explicação. Assim, nunca encontrarão a explicação, porque, o que acontece quando estão a sofrer? A vossa solicitação imediata é que o sofrimento seja aliviado, que a dor seja aliviada, portanto aceitam um remédio que lhes é dado, sem o examinarem devidamente, sem descobrirem devidamente o seu verdadeiro significado. Aceitam-no porque, psicologicamente, estabeleceram uma esperança e essa esperança cega, e por isso não há uma compreensão clara desse remédio. Se refletirem sobre isto, verão que é um fato. Vocês vão a um médico; ele dá-lhes um remédio. Nunca lhe perguntam o que é. Tudo o que lhes interessa é que a dor desapareça.

Agora estão aqui nesta reunião com essa mesma atitude de espírito, se estiverem a procurar. Se estão aqui por curiosidade, bem, receio não ter muito a dizer. Mas se estão aqui para descobrir, se estão à procura de um remédio, então ficarão despontados, porque eu não dou um remédio, uma explicação; mas considerando as coisas em conjunto, raciocinando em conjunto, descobriremos qual é a causa do sofrimento.

Portanto, para descobrir qual é a causa para o sofrimento, não procurem um remédio; mas tentem antes descobrir qual é a causa do sofrimento, Pode-se tratar superficialmente, sintomaticamente, mas dessa maneira não descobrirão a causa real, básica, fundamental; e só podem descobrir a causa do sofrimento se não estiverem a criar uma barreira pela ânsia imediata de se libertarem dessa dor. Por exemplo, se perderem alguém a quem amam muito, há sofrimento intenso. Então é-lhes oferecido um remédio – de que esse alguém vive no lado de lá, a ideia da reencarnação, etc. Vocês aceitam esse remédio para o vosso sofrimento, mas essa mágoa permanece. Essa solidão, esse vazio continua lá, só que o encobriram com uma explicação, um remédio, uma droga superficial. Ao passo que, se estivessem realmente a tentar descobrir qual é a causa desse sofrimento, então examinariam, tentariam descobrir o significado total do remédio que lhes foi oferecido, seja a ideia de que esse alguém vive no lado de lá, ou a crença na reencarnação. Nesse estado de espírito, quando há sofrimento, há agudeza de pensamento, há um intenso questionamento; e este intenso questionamento é o que realmente causa sofrimento. Não é? Se vivessem com a vossa mulher, com o vosso irmão, ou com alguém, e esse irmão, ou mulher, ou amigo tivesse morrido, então estariam cara a cara com a vossa própria solidão, o que cria na vossa mente a atitude de questionamento – a plena consciência dessa solidão. Esse momento de consciência intensa, de consciência plena, é o momento de descobrir qual é a causa do sofrimento.

Ora, para mim, para descobrir a causa do sofrimento, tem que haver esse estado intenso de mente e coração que está à procura, que está a tentar descobrir. Nesse estado, verão que a mente e o coração se tornaram escravos do meio. A mente, na grande maioria das pessoas, nada mais é que o meio. A mente e o coração são o meio, dependendo do seu estado; e enquanto a mente for escrava do meio, tem que haver sofrimento, tem que haver conflito contínuo do indivíduo contra a sociedade; e o indivíduo só se libertará do meio quando, questionando o meio, conquistar a limitação que lhe foi colocada pelo meio. Isto é, só quando compreendem o verdadeiro significado de cada meio, o verdadeiro valor do meio que foi colocado em vosso redor pela sociedade, pelas religiões, é que penetram através da limitação imposta, e em consequência nasce a verdadeira inteligência.

Afinal, é-se infeliz porque não há inteligência, que é compreensão. Quando compreendem uma coisa deixam de estar em conflito, deixam de estar limitados por aquilo que lhes foi imposto pela autoridade, pela tradição, por preconceitos profundamente enraizados. Portanto a inteligência é necessária para se ser extremamente feliz e para despertar essa inteligência a mente tem que estar livre do meio. As inumeráveis encrustações criadas pelas religiões e pela sociedade, através dos tempos, tornaram-se o nosso meio. Só se podem libertar do meio, que os indivíduos criaram, quando compreenderem os seus padrões, os seus valores, os seus preconceitos, as suas autoridades. E então começam a descobrir qual é a causa fundamental do sofrimento, que é a falta de verdadeira inteligência, e essa inteligência não se descobre por nenhum processo milagroso mas sim estando continuamente conscientes, e portanto questionando continuamente, tentando descobrir o falso e o verdadeiro no meio colocado em nosso redor.

Deram-me algumas perguntas, e vou tentar respondê-las esta tarde.

Pergunta: Acredita em Deus? É ateu?

Krishnamurti: Suponham que todos vocês acreditam em Deus. Deve ser assim, porque são todos Cristãos, pelo menos afirmam sê-lo, portanto devem acreditar em Deus.

Ora, porque é que acreditam em Deus? Por favor, vou responder dentro em pouco, portanto não me chamem ateu, ou teísta. Porque é que acreditam em Deus? O que é uma crença? Vocês não acreditam em algo que é óbvio, como a luz do sol, como a pessoa que está sentado ao vosso lado; não têm que acreditar. Ao passo que a vossa crença em Deus não é real. É uma esperança, uma ideia, uma ânsia preconcebida que pode nada ter a ver com a realidade. Se não acreditarem, mas se se tornarem realmente conscientes dessa realidade na vossa vida, tal como têm consciência da luz do sol, então toda a vossa conduta de vida seria diferente. Presentemente, a vossa crença nada tem a ver com a vossa vida diária; portanto, para mim, quer acreditem em Deus quer não é irrelevante, (Aplausos) Por favor não se incomodem em bater palmas. Há muitas perguntas para responder.

Portanto a vossa crença em Deus, ou a vossa descrença em Deus, para mim é a mesma coisa, porque não tem realidade. Se estivessem realmente conscientes da verdade, como estão conscientes daquela flor, se estivessem realmente conscientes dessa verdade como estão conscientes do ar fresco ou da falta desse ar fresco, então toda a vossa vida, toda a vossa conduta, todo o vosso comportamento, os vossas próprios afetos, os vossos próprios pensamentos, seriam diferentes. Quer se denominem crentes ou descrentes, pela vossa conduta não o estão a mostrar; portanto quer acreditem em Deus quer não acreditem é de muito pouca importância. É apenas uma ideia superficial imposta pelas situações e pelo meio, através do medo, através da autoridade, através da imitação. Por isso, quando dizem, “Acredita? É ateu?” eu não posso responder-lhes categoricamente; porque, para vocês, a crença é muito mais importante que a realidade. Afirmo que há algo imenso, incomensurável, imperscrutável; há uma inteligência suprema, mas não a podem descrever. Como podem descrever o sabor do sal se nunca o provaram? E são as pessoas que nunca provaram sal, que nunca estão conscientes desta imensidade nas suas vidas, que começam a perguntar se eu acredito ou se não acredito, porque a crença para elas é muito mais importante que essa realidade que podem descobrir se viverem corretamente, se viverem verdadeiramente; e como não querem viver verdadeiramente pensam que a crença em Deus é algo essencial para se ser verdadeiramente humano.

Portanto, ser um teísta ou um ateu, para mim, ambas as coisas são absurdas. Se soubessem o que é a verdade, o que é Deus, não seriam nem teístas nem ateus, porque nessa consciência a crença é desnecessária. O homem que não está consciente, que somente espera e supõe, é que conta com a crença ou com a descrença para o apoiar e para o levar a agir de uma maneira específica.

Agora, se abordarem o assunto de maneira bastante diferente, descobrirão por vocês próprios, como indivíduos, algo real que está para além de todas as limitações das crenças, para além da ilusão das palavras. Mas isso – a descoberta da verdade, ou Deus – requer grande inteligência, que não é a afirmação da crença ou da descrença, mas o reconhecimento dos obstáculos criados pela falta de inteligência. Portanto para descobrir Deus ou a verdade – e eu digo que tal coisa existe, eu tive consciência dela – para reconhecer isso, para ter consciência disso, a mente tem que estar livre de todos os obstáculos que foram criados através dos tempos, baseados na auto-proteção e na segurança. Não podem libertar-se da segurança dizendo apenas que estão livres. Para penetrarem os muros desses obstáculos, precisam de muita inteligência, não apenas de intelecto. A inteligência, para mim, é mente e coração em plena harmonia; e então descobrirão por vocês próprios, sem perguntar a ninguém, o que é essa realidade.

Agora, o que está a acontecer no mundo? Têm um Deus Cristão, Deuses Hindus, Maometanos com o seu conceito particular de Deus – cada pequena seita com a sua verdade particular; e todas estas verdades estão a tornar-se como as muitas doenças no mundo, separando as pessoas. Estas verdades, nas mãos de minorias, estão a tornar-se meios de exploração. Vocês vão a cada uma delas, uma após a outra, provando-as todas, porque começam a perder o sentido de discriminação, porque estão a sofrer e querem um remédio, e aceitam qualquer remédio que seja oferecido por qualquer seita, seja Cristã, Hindu, ou qualquer outra. Portanto, o que está a acontecer? Os vossos deuses estão a dividi-los, as vossas crenças em Deus estão a dividi-los e contudo falam sobre a fraternidade do homem, da unidade em Deus, e ao mesmo tempo negam precisamente aquilo que querem descobrir, porque se mantêm fiéis a estas crenças como o meio mais potente de destruir a limitação, que apenas a intensificam.

Estas coisas são tão óbvias. Se forem Protestantes, têm horror aos Católicos Romanos; e se forem Católicos Romanos, têm horror de todos os outros. Isto acontece em todo o lado, não só aqui. Na Índia, entre os Maometanos, entre todas as seitas religiosas acontece isto; porque para todos, a crença – essa coisa cruel – é mais vital, mais importante, que a descoberta da verdade, que é a verdadeira humanidade. Por isso, as pessoas que acreditam tanto em Deus não estão realmente apaixonadas pela vida. Estão apaixonadas por uma crença, mas não pela vida, e por isso os seus corações e mentes murcham e se tornam em nada, são vazios, superficiais.

Pergunta: Acredita na reencarnação?

Krishnamurti: Em primeiro lugar, não sei quantos de vocês são versados nesta ideia da reencarnação, explicar-lhes-ei brevemente o que significa. Significa que para atingir a perfeição, têm que passar por uma série de vidas, recolhendo cada vez mais experiência, cada vez mais conhecimento, até chegarem a essa realidade, a essa perfeição. Sucinta e grosseiramente, sem entrar nas suas subtilezas, é isso a reencarnação: que vocês como o “eu”, a entidade, o ego, tomem uma série de formas, vida após vida, até que sejam perfeitos.

Agora não vou responder se acredito nela ou não, uma vez que quero demonstrar que a reencarnação é irrelevante. Não rejeitem imediatamente o que digo. O que é o ego? O que é esta consciência a que chamamos o “eu”? Dir-lhes-ei o que é, e por favor considerem-no; não o rejeitem. Vocês estão aqui para compreender o que estou a dizer, não para criar barreiras entre vocês e eu pela vossa crença. O que é o “eu”, esse ponto focal a que chamamos o “eu”, essa consciência da qual a mente se torna continuamente consciente? Isto é, quando é que estão conscientes do “eu”? Quando estão conscientes de vocês próprios? Só quando estão frustrados, quando estão impedidos, quando há uma resistência; caso contrário, são extremamente inconscientes do vosso pequeno ego como “eu”. Não é assim? Estão realmente conscientes de vocês próprios quando há um conflito. Portanto, como nós não vivemos senão em conflito, estamos conscientes dele a maior parte do tempo; e, por isso, existe essa consciência, essa ideia, que nasce do “eu”. O “eu” nesse conflito não é nada mais que a consciência de si como uma forma com um nome, com determinados preconceitos, com determinadas idiossincrasias, tendências, faculdades, ânsias, frustrações; e isto, pensam vocês, deve continuar e crescer e atingir a perfeição. Como pode o conflito atingir a perfeição? Como pode essa consciência limitada atingir a perfeição? Pode expandir-se, pode crescer, mas não será a perfeição, por maior que seja, com tudo incluído, porque os seus alicerces são o conflito, os desentendimentos, os obstáculos. Portanto dizem para vocês próprios, “Tenho que viver como uma entidade para além da morte, por isso tenho que voltar a esta vida até que atinja a perfeição.”

Ora então, dirão, “Se eliminarmos esta ideia do “eu”, qual é o ponto focal na vida?” Espero que estejam a acompanhar isto. Vocês dizem, “Eliminem, libertem a mente desta consciência de mim como um “eu”, e depois o que resta?” O que permanece quando são extremamente felizes, criativos? Permanece a felicidade. Quando estão realmente felizes, ou quando estão muito apaixonados, não há nenhum”eu”. Há esse tremendo sentimento de amor, ou aquele êxtase. Afirmo que isto é o real. Todo o resto é falso.

Portanto vamos descobrir o que cria estes conflitos, estes obstáculos, este atrito contínuo, descubramos se é artificial ou real. Se for real, se este atrito estiver destinado a ser o próprio processo da vida, então a consciência do “eu” tem que ser real. Ora, eu afirmo que este atrito é uma coisa falsa, que não pode existir numa humanidade onde há um planeamento bem organizado para as necessidades dos seres humanos, onde há verdadeiro afeto. Portanto descubramos se o “eu” é a criação falsa de um meio falso, uma sociedade falsa, ou se o “eu” é algo permanente, eterno. Para mim, esta consciência limitada não é eterna. É o resultado de um meio falso de crenças falsas. Se estivessem a fazer o que realmente quisessem fazer na vida, não sendo forçados a fazer um determinado trabalho que detestam, se estivessem a seguir a vossa verdadeira vocação, realizando-se na vossa verdadeira vocação, então o trabalho deixaria de ser atrito. Para um pintor, um poeta, um escritor, um engenheiro, que realmente gosta do seu trabalho, a vida não é um fardo.

Mas o vosso trabalho não é a vossa vocação. O meio e as condições sociais estão a forçá-los a fazer um certo trabalho quer gostem dele quer não, portanto vocês criaram já um atrito. Depois, certos padrões morais, certas autoridades estabeleceram vários ideais como sendo verdadeiros, como sendo falsos, como sendo virtuosos, etc., e vocês aceitam-nos. Aceitaram esta máscara sem compreender, sem descobrir o seu correto valor, e por isso criaram atrito. Assim, gradualmente, toda a vossa mente é deformada e pervertida e está em conflito até que se tenham tornado conscientes desse “eu” e de nada mais. Portanto, começam com uma causa errada, produzida por um meio errado, e têm uma resposta errada.

Portanto quer a reencarnação exista ou não, para mim, é irrelevante. O que importa é realizar, que é perfeição. Não podem realizar num futuro. A realização não é do tempo. A realização está no presente. Portanto o que é que está a acontecer? Através do atrito, através do conflito contínuo, está a criar-se a memória, memória como o “eu” e o “meu”, que se torna possessiva. Essa memória tem muitas camadas e constitui essa consciência a que chamamos o “eu”. E eu afirmo que este “eu” é o resultado falso de um meio falso, e por isso os seus problemas, as suas soluções, têm que ser inteiramente falsos, ilusórios. Ao passo que se vocês, como indivíduos, começarem a despertar para as limitações do meio que lhes foram impostas pela sociedade, pelas religiões, pelas condições econômicas, e começarem a questionar, e por isso a criar conflito, então dissiparão essa pequena consciência a que chamam o “eu”; então saberão o que é essa realização, esse viver criativo no presente.

Colocando as coisas de maneira diferente, muitos cientistas dizem que essa individualidade, essa consciência limitada, existe depois da morte. Descobriram o ectoplasma e todo o resto, e dizem que a vida existe após a morte. Terão que acompanhar isto com algum cuidado, como espero tenham acompanhado a outra parte; senão, não a compreenderão. A individualidade, esta consciência, esta auto-consciência limitada, é um fato na vida. É um fato na vossa vida, não é? É um fato, mas não tem realidade. Estão constantemente auto-conscientes, e isso é um fato, mas conforme lhes demonstrei, não tem realidade. É apenas o hábito de séculos de um meio falso que fez um fato de algo que não é real. E embora esse fato possa existir, e existe, enquanto isso continuar não pode haver realização. E afirmo que a realização da perfeição não está na acumulação de virtudes, não está na postergação, mas sim na completa harmonia de viver no presente. Senhores, suponham que agora têm fome e que eu lhes prometo comida na próxima semana, que valor tem isto? Ou se perderam alguém que amam muito, mesmo embora lhes possam dizer ou possam saber como sendo um fato que ele vive no outro lado, e daí? O que importa, e o que na realidade acontece, é que há esse vazio, essa solidão no vosso coração e na vossa mente, esse imenso vácuo; e pensam que podem afastar-se disso, fugir disso, com o conhecimento de que o vosso irmão, ou a vossa mulher, ou o vosso marido, continua a viver. Continua a haver morte nessa consciência; continua a haver limitação nessa consciência; continua a haver um vazio nessa consciência, uma contínua dor de sofrimento. Ao passo que se libertarem a mente dessa consciência do “eu” descobrindo os valores corretos do meio que ninguém lhes pode dizer, então conhecerão por vocês próprios essa realização que é a verdade, que é Deus, ou qualquer outro nome que gostem de lhe dar. Mas através do desenvolvimento dessa auto-consciência limitada, que é o resultado falso de uma causa falsa, não descobrirão o que é a verdade, ou o que é Deus, o que é a felicidade, o que é a perfeição; porque nessa auto-consciência tem que haver conflito contínuo, esforço contínuo, sofrimento contínuo.

Pergunta: O senhor é o Messias?

Krishnamurti: Isso importa muito? Sabem, esta é uma das perguntas que me colocam onde quer que eu vá: por jornalistas para um artigo; pela audiência porque querem saber, uma vez que pensam que essa autoridade os convencerá. Ora eu nunca neguei nem reivindiquei que sou o Messias, que sou o Cristo que voltou; isso não importa. Ninguém lhes pode dizer isso. Mesmo que eu lhes dissesse, isso não teria absolutamente nenhum valor, e portanto não lhes vou dizer, porque, para mim, isso é tão irrelevante, tão pouco importante, tão inútil. Afinal, quando vêem uma maravilhosa peça de escultura, ou um quadro maravilhoso, há júbilo; mas receio que a maior parte de vocês esteja interessada em quem pintou o quadro, que a maior parte de vocês esteja interessada em quem é o escultor. Não estão realmente interessados na pureza da ação, seja num quadro ou numa estátua, ou no pensamento; estão interessados em saber quem está a falar. Portanto isso indica que não têm a capacidade de descobrir o mérito intrínseco de uma ideia, mas estão bastante preocupados com quem fala. E receio que esteja a cultivar-se cada vez mais um esnobismo, um esnobismo espiritual, tal como há um esnobismo mundano, mas todo o esnobismo é a mesma coisa.

Portanto, amigos, não se aborreçam, mas tentem descobrir se o que digo é verdade; e tentando descobrir se o que digo é verdade, estarão livres de toda a autoridade, uma coisa perniciosa. Para os seres humanos realmente criativos e inteligentes não pode haver autoridade. Para descobrir se o que digo é verdade, não o podem abordar pela mera oposição, ou dizendo, “Disseram-nos isso”, “Foi dito”, “Certos livros dizem isto ou aquilo”, “Os nossos guias espirituais disseram”. Sabem que isso é a coisa mais recente, “Os nossos guias espirituais disseram isto.” Não sei porque dão mais importância a esses espíritos que estão mortos que aos vivos. Sabem que os vivos podem sempre contradizê-los, por isso não lhes prestam atenção, ao passo que os espíritos podem sempre iludir.

Treinamos as nossas mentes, não para apreciar a coisa em si, mas antes para apreciar quem a criou, quem pintou, quem falou. Assim as nossas mentes e corações tornam-se cada vez mais superficiais, vazios, e nisso não há nem afeto nem pensamento real, razoável, mas apenas grande quantidade de preconceitos.

Pergunta: O que é a espiritualidade?

Krishnamurti: Eu digo que é o viver harmonioso. Agora esperem um momento. Explicarei o que quero dizer. Não podem viver harmoniosamente se forem nacionalistas. Como podem fazê-lo? Se têm consciência de raças, ou consciência de classes, como podem viver inteligentemente, supremamente, livres dessa consciência de classes? Ou como podem viver harmoniosamente quando são possessivos, quando existe essa ideia de meu e teu? Ou como podem viver inteligentemente, e por isso harmoniosamente, se estão limitados pelas crenças? Afinal, a crença á apenas uma evasão do conflito presente. Um homem que está num imenso conflito com a vida, querendo compreender, não tem crenças, está no processo de experimentação; ele não acredita categoricamente e depois continua com a sua experiência. Um cientista não começa as suas experiências com uma crença, ele começa a experimentar. E um homem que estiver limitado pela autoridade, social ou religiosa, certamente não pode viver harmoniosamente, e por isso espiritualmente, inteligentemente. A autoridade, então, é apenas o processo de imitação, de falsidade. Um homem que está cheio de pensamento está livre da autoridade, porque a autoridade apenas o transforma numa máquina imitativa, numa peça de engrenagem – seja numa máquina social ou religiosa. Por isso um homem assim pode viver harmoniosamente, e nessa harmonia a sua mente e o seu coração são normais, sãos, plenos, completos, não sobrecarregados com medo.

Pergunta: O estudo da música, da arte em geral, é de valor para aquele que está desejoso de alcançar a realização de que fala?

Krishnamurti: Quer dizer que vai ouvir música como se fosse obter algo em troca? A música não é de fato mercadoria para ser vendida. Você vai lá para se divertir, não para ter algo em troca. Não é uma loja. Seguramente que toda a nossa ideia da realização da verdade ou de viver extaticamente não é a acumulação de coisas, a acumulação de ideias, a acumulação de sensações. Vocês vão ver um quadro, arquitetura – qualquer uma destas coisas – porque sentem prazer nelas, não porque vão obter algo em troca. Essa é a verdadeira atitude materialista, a atitude de troca, de comércio. Essa é a vossa abordagem da realidade, essa é a vossa abordagem de Deus. Dirigem-se a Deus com orações, flores, confissões, sacrifícios, porque em troca vão obter qualquer coisa. Portanto os vossos sacrifícios, orações, implorações, súplicas, não têm valor, porque estão à procura de algo em troca. É como o homem que é amável porque lhe vão dar alguma coisa, e todo o processo da civilização está baseado nisso. O amor é uma mercadoria a ser trocada. A espiritualidade, ou a realização da verdade, é algo que vocês procuram em troca de fazer uma boa ação. Senhor, não é uma ação correta quando procura algo em troca desse ato bondoso.

Pergunta: Se os sacerdotes e as igrejas, e organizações similares, estão a atuar com o homem no sentido de uma primeira ajuda para aliviar os sintomas até que o Grande Médico chegue para tratar da causa, isso é errado?

Krishnamurti: Fazem portanto dos sacerdotes e das igrejas o ponto de passagem. É isso? Estão à espera que alguém venha e lhes revele a causa? Estão a dizer, tanto quanto pude perceber, “Como há tantos sintomas, como estamos a sofrer superficialmente, isto é, como estamos a lidar com os sintomas, é necessário ter sacerdotes e igrejas.” É isso o que dizem? Reconhecem isso? Reconhecem e afirmam que as igrejas e os sacerdotes tratam apenas dos sintomas? Se realmente admitem isso, então descobrirão a causa. Mas não o farão. Vocês não dizem que os sacerdotes e as igrejas tratam superficialmente, sintomaticamente. Se realmente o dissessem e o sentissem, então descobririam a causa por vocês próprios imediatamente; mas não o dizem. Dizem que os sacerdotes e as igrejas os conduzirão para descobrir a causa, portanto a questão não está fielmente colocada. Para a grande maioria das pessoas, praticamente para toda a gente, as igrejas e os sacerdotes ajudá-los-ão a dirigir-se à realidade da verdade. Vocês não dizem que eles tratam dos sintomas. Se o fizessem, pô-los-iam de parte imediatamente, já amanhã. Quem me dera que o fizessem! Então descobririam. Então ninguém precisaria de lhes dizer qual é a causa, porque estariam a funcionar inteligentemente, porque estariam a começar a questionar, não a aceitar. Então tornar-se-iam verdadeiros indivíduos, não máquinas conduzidas pelo meio e pelo medo. Então haveria mais consideração, mais afeto, mais humanidade no mundo, não estas terríveis divisões.

Pergunta: Visto que a sociedade humana tem que ser cooperante e colectiva, que valor pode ter o indivíduo para o seu sucesso? A liderança suprime a liberdade do indivíduo, e torna a sua singularidade sem valor.

Krishnamurti: “Visto que a sociedade humana tem que ser cooperante e colectiva, que valor pode ter o indivíduo para o seu sucesso?” Ora descubramos se o indivíduo, ao tornar-se verdadeiramente individual, não cooperará. Isto é, em vez de ser levado à cooperação tal como vocês o são pelas circunstâncias – não devia dizer levado à cooperação, vocês não são cooperantes – em vez de serem levados pelas situações a agir por vocês próprios, o que aliás não é verdade, à cooperação inteligente, é possível cooperar ao tornarem-se verdadeiros indivíduos? Eu digo que é possível ao tornarem-se verdadeiramente indivíduos, que haverá cooperação verdadeira e natural, sem serem levados pelas circunstâncias; vamos portanto investigar.

Afinal, vocês são indivíduos, funcionando com a vossa plena volição? Isso é, afinal, o verdadeiro indivíduo, não é? – o homem que funciona com plena liberdade; caso contrário não são indivíduos, são apenas peças de engrenagem que estão a ser conduzidas. Portanto posso dizer que só quando forem verdadeiramente indivíduos é que haverá verdadeira cooperação. Agora, o que é um indivíduo? Não o ser humano que é conduzido à ação pelo meio, pelas circunstâncias. Eu afirmo que a verdadeira individualidade consiste em libertar a mente do ambiente do falso, e tornando-se portanto um verdadeiro indivíduo, e portanto tem que haver cooperação.

Por favor, já é tarde, e não posso entrar em detalhes, mas se estiverem interessados reflectirão sobre isto, e verão que neste mundo, tal como está constituído, cada indivíduo luta com o seu próximo, procurando a sua própria segurança, protecção, preservação. Não pode haver cooperação. É uma impossibilidade. Só pode haver uma cooperação que é inteligente, humana, criativa, não egoísta, quando vocês como indivíduos, se tornarem indivíduos completos. Isto é, quando virem que para ter verdadeira cooperação no mundo, não pode haver procura competitiva de auto-segurança. Isso significa alterar toda a estrutura da nossa civilização, com os seus interesses próprios, com a sua possessividade de classes, com as suas nacionalidades, consciência racial, divisão das pessoas pelas religiões. Quando vocês, como indivíduos, forem realmente livres, quando virem o significado destas coisas e a sua falsidade, então tornar-se-ão verdadeiramente indivíduos, e serão então capazes de cooperar inteligentemente; isso é inevitável. O que nos separa é o nosso preconceito, a nossa falta de percepção dos valores correctos, de todos estes obstáculos que nós, como indivíduos, criámos; e é somente como indivíduos que poderemos deitar abaixo este sistema. Significa que não podem ter qualquer nacionalidade, que não podem ter o sentido de possessividade, embora possam ter roupas, casas. Esse sentido de possessividade desaparece quando tiverem descoberto as vossas necessidades reais, quando toda a vossa atitude não for a de uma consciência de classes possessiva. Quando cada indivíduo se interessar no bem-estar da comunidade, então pode haver verdadeira cooperação. Agora não há cooperação porque vocês estão apenas a ser conduzidos como carneiros, numa direção ou noutra, pelas circunstâncias, e os vossos líderes subjugam-nos porque vocês não são senão o meio de exploração, e são explorados porque todo o vosso pensamento, toda a vossa estrutura é de auto-preservação à custa de todos os outros. E eu afirmo que há verdadeira auto-preservação, verdadeira segurança, no plano do mundo como um todo, quando vocês, como indivíduos, destruírem essas coisas que mantêm as pessoas separadas, lutando umas com as outras em guerras contínuas que são o resultado das nacionalidades e dos governos soberanos. E asseguro-lhes que não terão paz, não terão felicidade, enquanto essas coisas existirem. Elas apenas provocam cada vez mais contendas, cada vez mais guerras, cada vez mais calamidades, dores e sofrimentos. Foram criadas por indivíduos, e como indivíduos têm que começar a destruí-las e a libertarem-se delas, e só então compreenderão o êxtase da vida.

Auckland, Nova Zelândia - 2ª palestra nos Paços do Concelho 1 de abril, 1934.
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill