“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Sobre ser "Radical"

Não sei se houve, um professor sequer que, nas primeiras semanas de aula, não tenha usado a palavra 'radical'.

"... mas não devemos ser radicais..." Eles dizem.

Parece que para o senso comum, 'radical' é uma qualidade negativa. E no discurso comum, radical é sempre o outro, e nunca eu mesmo.

Lançando mão do significado comum para essa palavra, a mim me parece que a radicalidade é uma questão completamente relativa.

As minhas escolhas na vida e as minhas opiniões só podem parecer radicais a quem tem escolhas e opiniões diferentes das minhas. Já aos que compartilham meus pontos de vista, as minhas idéias são apenas sensatas.

Não deixo de observar também, que no contexto coletivo da sociedade, radical é quase sempre uma qualidade da minoria.

Os pais que alimentam seus filhos com alimentos industrializados potencialmente cancerígenos não são radicais. Radical é a família que não admite produtos Nestlé em sua mesa.

O sujeito urbanóide que passa 2 horas preso no trânsito, respirando um ar poluído, para chegar ao seu emprego infeliz de 40 horas semanais, é apenas um cara comum. O sujeito bicho-grilo fugido da capital pra viver no meio do mato, nadando pelado e fumando maconha quando quer, é um cara muito radical.

A parturiente guiada cegamente a um parto hospitalar convencional, correndo risco de mais de 50% de ser submetida a uma cirurgia desnecessária, 25% de chance de sofrer violência obstétrica, quase 100% de chance de ser submetida a algum procedimento invasivo e não ter o seu protagonismo respeitado, nunca pode ser chamada de radical. Radical é a mulher que escolhe parir em casa.

O grande latifundiário que enche o bolso de sangue indígena, envenena o solo, esgota a água, derruba a floresta, aniquila a biodiversidade, explora os trabalhadores... é só um rico invejado. Radical é o MST.

Não sei se os calouros de agronomia, ciências agrárias ou engenharia agrícola escutam tantas vezes esse termo quanto eu, estudante iniciante de agroecologia.
Agora, abrindo mão do significado dado pelo senso comum e buscando o significado real da palavra, descobrimos que 'radical' vem de 'raiz'. Logo, facilmente interpretamos que radical é aquele que busca a raiz, enxerga a raiz, ou resolve um problema cortando-o pela raiz.

Desde a Revolução Verde a fome aumentou de # a 1 bilhão (?) de pessoas no mundo todo.

Chamamos de agricultura convencional essa que tem exaurido o solo, a água, a biodiversidade e as pessoas no mundo todo.

Mas por que convencional? Se esse modelo surgiu na metade do século XX e nem sequer atingiu os primeiros 100 anos de idade? Enquanto que os sistemas agroecológicos (mesmo que ainda não existisse esse nome) alimentaram a humanidade ao longo de pelo menos # anos.

O agronegócio se alastrou pelo mundo tão rapidamente, não porque fosse mais eficiente que os modelos milenares, mas porque ele aplica não somente as tecnologias originadas nas grandes guerras mundiais, mas também a mentalidade da guerra.

Mentalidade de guerra é enxergar o outro como inimigo, alguém a ser destruído, conquistado ou escravizado.

Os fungos, bactérias, protozoários, insetos e outros animais devem ser destruídos. A terra deve ser conquistada. As pessoas devem ser escravizadas. A natureza e tudo o que dela faz parte, incluindo os animais humanos, são inimigos a serem dominados.

E da mesma forma que só se convence um povo a entrar em guerra, utilizando estratégias muito eficientes de propaganda, o agronegócio só cresce através de muita propaganda.

Graças à grandes magos da publicidade, manipuladores do inconsciente, a agricultura ecológica, sustentável, familiar, milenar, criativa, saudável e produtiva, em poucos anos, deixou de ser convencional e passou a ser alternativa, ou retrógrada, primitiva, pobre, ineficiente... Enquanto que o novo câncer sócio-econômico-ambiental da agricultura de guerra se tornou o convencional.

Digo câncer, porque se somos a Natureza uma coisa só, mas pensamos que somos divididos, nos comportamos de maneira autodestrutiva. Como um câncer.
A Agroecologia é a ciência que nos aponta as raízes desse câncer.

Entendo que a Agroecologia surgiu mais como uma ciência de princípios do que de metodologia definida.

Não sei quem foi o primeiro a juntar 'agro' com 'ecologia', nem sei se houve alguém que tenha escrito algum tratado oficial enumerando os princípios da Agroecologia.

Mas sei que a Agroecologia começou a florescer em mim, não através de estudos do pensamento de algum filósofo ou cientista do final do último século; mas sim, através da absorção, desde a minha primeira infância, das mensagens gritadas pela Natureza.

Vejo a Agroecologia como uma ciência comum a todos os homens e mulheres do planeta que procuram desenvolver a capacidade de sentir o que a Natureza diz. Sejam estes homens e mulheres, doutores ou analfabetos.

Escuto a Natureza me dizer "Quem pensa que a mim submete, mais e mais será a mim submetido."

Escuto a Natureza me dizer " A competição é uma atitude autodestrutiva."

Escuto a Natureza me dizer "A cooperação é a melhor qualidade adaptativa que um indivíduo pode ter."

Escuto a Natureza me dizer "Não há homens donos de terra; nem homens donos de outros homens; nem homens ou mulheres, maiores ou menores; nem homens donos de mulheres. Quem vive em mim nasceu para amar livremente e não para possuir."

Escuto a Natureza me dizer "Nos diversos ecossistemas há espaço para todos os seres dotados do dom do ciclo da vida-morte-e-vida. E se confiares em mim, nada te faltará."

Escuto a Natureza me dizer "Não és tu quem precisa de um movimento de humanos sem terra, sou eu quem faço o movimento da terra sem humanos. 

Tragam-me de volta o Homo sapiens ou Adão e Eva! Pois tu és uma espécie dispersora de sementes, e tu és uma espécie manifestadora da autoconsciência do Universo." 

Nossa, como eu escrevo de forma exagerada! E quanto poder eu me rogo, ao ponto de até querer falar em nome da Natureza!

Sim, sim. Podem dizer. Eu sou mesmo uma menina muito radical (e bastante prepotente). Assim como eu acho que a Agroecologia é radical por definição.
Pois ser radical não é ser desrespeitoso. Ser radical não é ser violento. Ser radical não é ser sectário.

E falando em sectário...

Numa das pausas que fiz durante a escrita desse texto, abri o meu mais recente livro adquirido, Pedagogia do Oprimido. E já nas Primeiras Palavras, Paulo Freire, como se em 1968 já se sentisse solidário ao meu conflito, me vem com essa:

"[...]
É que a sectarização é sempre castradora, pelo fanatismo de que se nutre. A radicalização, pelo contrário, é sempre criadora, pela criticidade que a alimenta.
Enquanto a sectarização é mítica, por isso alienante, a radicalização é crítica, por isso libertadora.

Libertadora porque, implicando o enraizamento que os homens fazem na opção que fizeram, os engaja cada vez mais no esforço de transformação da realidade concreta, objetiva.

[...]
O radical, comprometido com a libertação dos homens, não se deixa prender em "círculos de segurança", nos quais aprisione também a realidade. Tão mais radical quanto mais se inscreve nesta realidade para, conhecendo-a melhor, melhor poder transformá-la.

Não teme enfrentar, não teme ouvir, não teme o desvelamento do mundo. Não teme o encontro com o povo. Não teme o diálogo com ele, de que resulta o crescente saber de ambos. Não se sente dono do tempo, nem dono dos homens, nem libertador dos oprimidos. Com eles se compromete, dentro do tempo, para com eles lutar. Se a sectarização, como afirmamos, é o próprio do reacionário, a radicalização é o próprio do revolucionário."

Então, irmãos e irmãs, só posso concluir dizendo que radical pra mim é elogio.
Gratidão.

Lua Multieterno"
Texto de Luane Muliterno, caloura de agroecologia em Campina Grande, Paraíba
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)