“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

O homem existe como que dormindo

O homem existe como que dormindo. O homem está adormecido. O que quer que seja conhecido como acordar também é sono. A iniciação significa estar em contato íntimo com alguém que está acordado. A não ser que você esteja em contato com alguém que esteja acordado é impossível sair do seu sono, porque a mente é capaz de sonhar que está acordada. A mente pode sonhar que agora não há mais sono. 

Quando digo que o homem está adormecido, isso deve ser compreendido. Estamos continuamente sonhando, vinte e quatro horas por dia. A noite ficamos fechados para o mundo exterior, sonhando por dentro. Durante o dia nossos sentidos estão abertos para o mundo exterior, mas o sonho continua por dentro. Feche os olhos por um momento, e você poderá estar novamente num sonho. É a continuidade interior. Você está consciente do mundo exterior, mas essa consciência não existe sem a mente sonhadora. Ela se impõe à mente sonhadora, mas, por dentro, o sonho continua. Por isso é que não estamos vendo o que é real, mesmo quando estamos "supostamente" acordados. Impomos nossos sonhos à realidade. Nunca vemos o que é; vemos sempre nossas projeções. 

Se eu olho para você e há um sonho em mim, você se tornará um objeto de projeção. Projetarei meu sonho em você, e tudo quanto entender a seu respeito estará mesclado ao meu sonho, à minha projeção. Quando eu o amo, você me parece bastante diferente. Quando eu não o amo, parece-me completamente diferente. Não é o mesmo porque eu lhe usei como uma tela, e projetei minha mente sonhadora sobre você. 

Quando eu o amo, o sonho é diferente, de forma que você me parece diferente. Quando não o amo, você é o mesmo — a tela é a mesma — mas a projeção é diferente. Agora eu o estou usando como uma tela para outro sonho meu. O sonho pode mudar, mais uma vez; de novo eu o amo. Então, você parecerá diferente para mim. Nunca vemos o que é; estamos sempre vendo nosso próprio sonho projetado no que é. 

Eu não sou o mesmo para cada um de vocês. Cada um projeta sobre mim alguma coisa. Eu sou apenas um, no que a mim, pessoalmente, se refere. E, se eu próprio estou sonhando, então, mesmo a mim, sou diferente a cada momento, porque a cada momento minha interpretação da vida difere. 

Mas, se estou acordado, então sou o mesmo. Buda disse que a prova de um iluminado, como tal, é o fato dele ser sempre o mesmo, tal como a água do mar. 

Onde quer que esteja, seja como for que seja, ela é salgada.

Você tem em torno de si uma película envolvente de projeções, ideias, concepções, noções e interpretações. 

Você é um projetor, sempre projetando coisas que não estão em parte alguma, a não ser dentro de si, e o todo se torna uma tela. Por isso, você nunca pode estar consciente, por si mesmo, de que está profundamente adormecido.

O S H O 

Um novo olhar sobre o que é "disciplina"


A Verdadeira Revolução - Meditação


Como viver nesse mundo?


É preciso fazer muito para atingir o não-fazer

A meditação é sempre passiva; sua própria essência é passiva. Não pode ser ativa porque a própria natureza dela é o não-fazer. Se você está fazendo algo esse fato de fazer algo perturba tudo. O fazer, em si mesmo, sua própria atividade, cria perturbação. 

Não-fazer é meditação, mas quando digo que não-fazer é meditação não quero dizer que você não precise fazer nada. Mesmo para atingir esse não-fazer precisamos fazer muito! Mas esse fazer não é meditação. É, apenas, um degrau, um trampolim. Todo o "fazer" não passa de um trampolim — não é meditação. 

Você está exatamente à porta, nos degraus... A porta é o não-fazer, mas, para atingir o estado de espírito do não-fazer é preciso fazer muito. Mas é preciso não confundir esse fazer com meditação. 

A energia vital trabalha com contradições. A vida existe como uma dialética: não é um simples movimento. Não flui como um rio: é dialética. Com cada movimento a vida cria seu próprio oposto, e através da luta com o oposto move-se para a frente. Cada movimento leva a tese a criar antítese. E isso continua sempre: tese criando antítese, incorporando-se à antítese, e tornando-se a síntese que, então, faz de novo tese. Então, vem de novo a antítese. 

Quando falo em movimento dialético não quero falar de movimento simples, direto: é um movimento dividido em si mesmo, criando o oposto, depois encontrando-se novamente com o oposto, e dividindo-se de novo no oposto. E a mesma coisa se aplica à meditação, porque ela é a coisa mais profunda da vida. 

Se eu lhe digo: "Relaxe, apenas", isso é impossível, porque você não saberia o que fazer. Assim, muitos dos pseudoprofessores de relaxamento continuam dizendo: "Relaxe, apenas, não faça nada, relaxe, apenas." Então, o que você vai fazer? Pode se deitar, mas isso não é relaxamento. Todo redemoinho interno permanece... E agora há um novo conflito: relaxar. Algo foi acrescentado sobre e acima. Toda insensatez está ali, todo redemoinho está ali, com algo acrescentado: relaxar. Uma nova tensão está, agora, acrescentada a todas as velhas tensões. 

Assim, a pessoa que está tentando viver uma vida relaxada é a pessoa mais tensa possível. Está fadada a sê-lo, porque não compreendeu o fluxo dialético da vida. Pensa que a vida é um fluxo reto, bastando que se diga a si mesmo que relaxe para estar relaxado. 

Isso não é possível! Assim, se você vier a mim, jamais direi que apenas relaxe. Primeiro fique tenso, tão fortemente tenso quanto puder. Fique totalmente tenso! Primeiro deixe que todo seu organismo fique tenso, e continue a estar tenso até o máximo, até a sua total possibilidade. E então, subitamente, você sentirá que o relaxamento se instala. Você fez o que lhe era possível: agora a energia da vida cria o oposto. 

Você levou a tensão ao auge. Agora, não há nada para além disso, você não pode continuar. Toda energia foi devotada a tensão. Mas você não pode continuar com essa tensão indefinidamente. Ela tem de se dissolver, e depressa começará a se dissolver. Agora, seja uma testemunha desse acontecimento. 

Através da tensão você chegou ao limiar, do ponto de onde se salta. Por isso você não pode continuar. Se continuasse, poderia estourar, morrer. O ponto excelente foi encontrado. Agora, a energia da vida relaxará a si mesma. 

Ela se relaxa. Agora, fique consciente, e veja esse relaxamento se instalar. Cada membro do corpo, cada músculo do corpo, cada nervo do corpo vai relaxando, inocentemente, sem que nada seja feito de sua parte. Você nada está fazendo para relaxar, ele está se relaxando. Você começará a sentir muitos pontos no organismo que se relaxa. Todo organismo será uma reunião de pontos relaxados. Fique consciente.

Essa consciência é meditação. Não é um não-fazer. Você nada está fazendo, porque estar consciente não é um ato. Não é absolutamente um ato, é sua natureza, uma qualidade intrínseca de seu ser. Você é consciência. Sua não-consciência é a sua conquista... e você a conquistou com muito esforço. 

Assim, para mim, a meditação tem dois passos: primeiro, um ativo (que não é, realmente, de modo algum, meditação) e segundo, um completamente não-ativo (a consciência passiva, que é, realmente, meditação). A consciência, ou conhecimento, é sempre passiva, e, no momento em que você se torna ativo perde seu conhecimento. É possível estar ativo e consciente apenas quando a consciência chegou a um tal ponto que agora já há, necessidade da meditação para alcançá-la, ou conhecê-la, ou senti-la. 

Quando a meditação se torna inútil, você, simplesmente, coloca de lado a meditação. Agora, você está consciente. Se então você pode estar ao mesmo tempo consciente e ativo — de outra maneira não é possível. Enquanto a meditação ainda for necessária, você não será capaz de estar consciente durante a atividade. Mas, quando a meditação já não é necessária...

Se você se tornou meditação, já não precisará dela. Então, pode ser ativo, mas mesmo nessa atividade você é sempre o espectador passivo. Agora, você jamais é o ator: é, sempre, uma consciência que testemunha

A consciência é passiva... e a meditação está fadada a ser passivo porque é apenas uma porta para a consciência — a perfeita consciência. Assim, quando as pessoas falam de meditação "ativa", estão erradas. Meditação é passividade. Você pode precisar de alguma atividade, de algum "fazer" para chegar a ela — e isso pode ser compreendido — mas isso não se dá porque a meditação seja, em si, ativa. Isso, antes, se dá, porque você esteve ativo em tantas e tantas vidas — a atividade tornou-se de tal forma parte e parcela de sua mente — que você precisa até mesmo da atividade para alcançar a não-atividade. 

Você esteve tão envolvido em atividade que não pode abandoná-la. Assim, pessoas como Krishnamurti podem continuar a dizer: "Abandone isso", mas você continuará perguntando como abandonar isso. Krishnamurti dirá: "Não pergunte como. Estou dizendo para que você abandone isso! Não há um 'como' para tanto. Não há necessidade de nenhum 'como'."

De certa forma ele está certo. Consciência passiva ou meditação passiva não têm um "como". Não pode ter, porque se houver um "como" então não pode ser passiva. Mas está certo, também, porque não leva em conta seu ouvinte. Está falando de si próprio. 

A meditação se faz sem "como", sem tecnologia, sem qualquer técnica. Assim, Krishnamurti está absolutamente correto, mas o ouvinte não foi levado em conta. O ouvinte nada mais tem senão a atividade; para ele, tudo é atividade. Assim, quando você diz "A meditação é passiva, não-ativa, sem escolha; você pode apenas estar nela; não há necessidade de esforço, de nenhum esforço, ela é sem esforço", você está falando uma linguagem que o ouvinte é capaz de entender. Ele entende a parte linguística do que você diz — e é isso que torna tudo tão difícil. Ele diz: "Intelectualmente, compreendo tudo. Tudo o que o senhor está dizendo está sendo inteiramente compreendido", mas ele é incapaz de compreender o significado. 

Não há nada de misterioso nos ensinamentos de Krishnamurti. Ele é o menos místico dos mestres. Nada há de misterioso! Tudo é obviamente claro, exato, analisado, lógico, racional, de forma que todos podem entender. E isso tornou-se uma das grandes barreiras, porque o ouvinte pensa que compreendeu. Compreende a parte linguística, mas não compreende a linguagem da passividade. 

Compreende o que lhe está sendo dito — as palavras. Ouve-as, compreende-as, conhece o sentido daquelas palavras. Faz correlações. Um quadro inteiramente correlato vem à sua mente. O que está sendo dito é compreendido, há uma comunicação intelectual. Mas ele não compreende a linguagem da passividade. Não pode compreender. Só pode compreender a linguagem da ação — da atividade.

O S H O — Meditação: a arte do êxtase - Ed. Pensamento

Que preparação é necessária para a experiência do Satori?

Pergunta: "Que espécie de preparação é necessária para a experiência do Satori?"

 O Satori torna-se possível para um grande número de pessoas, porque, às vezes, não necessita preparação. Às vezes acontece por acaso. A situação é criada, mas sem conhecimento. Há muitas pessoas que conhecem o satori. Podem não o ter conhecido com esse nome, podem não o ter interpretado como satori, mas o conheceram. Um grande fluxo de amor pode criá-lo. 

Mesmo através de drogas químicas, o satori é possível. É possível através da mescalina, do LSD, da maconha, porque, através de certa modificação química, a mente pode expandir-se o bastante para que haja o relance. Afinal, todos temos corpos químicos — a mente e o corpo são unidades químicas — assim, através da química, o relance também é possível. 

Às vezes, um perigo súbito pode penetrar tanto em você, que o relance se faz possível... às vezes um grande choque o leva tanto ao momento, que o relance pode ser possível. E, para aqueles que têm alguma sensibilidade estética, que têm coração poético, que têm uma atitude de "sensibilidade" para com a realidade (não uma atitude intelectual) o relance pode ser possível. 

Para uma personalidade racional, lógica, intelectual, o relance é impossível. Às vezes pode acontecer com uma pessoa intelectual, mas através de alguma intensa tensão intelectual — quando, subitamente, a tensão é relaxada. Aconteceu com Arquimedes. Ele estava em satori quando saiu de seu banho, e, nu, correu para a rua gritando: "Eureka, eu encontrei!" Foi uma liberação súbita da constante tensão em que ele estava em relação a um problema. O problema foi resolvido, assim, a tensão causada por ele foi, de súbito, e completamente afrouxada. Ele correu nu pelas ruas, gritando: "Eureka, eu encontrei!"

Para uma pessoa intelectual, se um grande problema exigiu de sua mente total que chegasse ao auge da tensão intelectual, e é subitamente resolvido, isso pode levá-lo ao momento do satori. Mas para as mentes estéticas é mais fácil. 

Pergunta: "Quer dizer que mesmo a tensão intelectual pode ser um caminho para chegar ao satori?"

Pode ser, e pode não ser. Se você se torna intelectualmente tenso durante esta discussão e a tensão não é levada ao extremo, ela será um obstáculo. Mas se você se torna totalmente tenso, e, então, de súbito, algo é compreendido, aquela compreensão será uma libertação, e o satori pode ocorrer. 

Ou, se esta discussão não for absolutamente tensa, se estivermos apenas conversando despretensiosamente — totalmente relaxados, totalmente não-sérios — mesmo que esta discussão pode ser uma experiência estética. Não são estéticas apenas as flores: mesmo as palavras podem sê-lo. Não são estéticas apenas as árvores: seres humanos também podem sê-lo. Não se trata de você estar observando as nuvens flutuantes e isso tornar possível o satori: mesmo se você está participando de um diálogo, isso se torna possível. Mas é necessária uma participação relaxada, ou uma participação muito tensa. Você pode estar relaxado para começar, ou o relaxamento pode vir porque sua tensão chegou ao auge e então liberou-se. Quando qualquer dessas coisas acontece, mesmo um diálogo, uma discussão podem tornar-se fonte de satori

Qualquer coisa pode tornar-se fonte do satori: depende de você. Nunca depende de qualquer outra coisa. Você está passando por uma rua; uma criança está rindo... e satori pode acontecer!

Há um haicai que conta uma história mais ou menos assim: um monge ia atravessando uma rua e uma flor muito comum surgia de uma parede — uma flor muito comum, uma flor cotidiana, que existe por toda a parte. Ele olhou para a flor. Era a primeira vez em que realmente olhava para ela, tão comum, tão encontradiça era essa flor! Por isso mesmo, o monge nunca se dera ao trabalho de realmente contemplá-la. Olhou para ela... e o satori aconteceu!

Nunca se contempla uma flor comum. É tão comum, que nos esquecemos dela. Assim, o monge nunca tinha, antes, olhado realmente aquela flor. Pela primeira vez em sua vida tinha visto, e o fato tornou-se fenomenal. Aquele primeiro encontro com a flor, com aquela flor tão comum, tornou-se único. Agora, ele lamentava aquilo. A flor sempre estivera esperando por ele, mas ele jamais olhara para ela. Sentiu-se penalizado, pediu perdão... e a coisa aconteceu!

A flor está ali, e o monge está ali, dançando. Alguém pergunta: "O que você está fazendo?"

Ele diz: "Vi algo incomum numa flor muito comum. A flor sempre esteve esperando. Eu nunca antes tinha olhado para ela, mas hoje o encontro se deu." Agora, a flor já não é algo comum. O monge penetrou nela, e a flor penetrou no monge. 

Uma coisa comum, mesmo um seixo, pode ser uma fonte. Para uma criança, um seixo é uma fonte, porém para nós não o é, porque se tornou demasiado familiar. Tudo quanto seja incomum, tudo quanto seja raro, tudo quanto surja aos seus olhos pela primeira vez, pode ser a fonte para o satori, e se você estiver disponível — se você estiver ali, se sua presença ali se encontra — o fenômeno pode ocorrer. 

Satori acontece para quase todos. Pode não ser interpretado como tal, você pode não ter sabido que se tratava do satori, mas ocorre. E essa ocorrência é a causa de toda a busca espiritual. De outra forma, a busca espiritual não seria possível. Como você poderia procurar algo do qual nunca tivesse sequer um relance? Primeiro algo deve vir de você, algum raio veio a você (um toque... uma brisa...) algo deve vir até você para tornar-se uma procura. 

Uma procura espiritual só é possível se algo aconteceu sem que você soubesse. Pode ter sido no amor, pode ter sido na música, pode ter sido na natureza, pode ter sido na amizade. Pode estar em qualquer relacionamento. Algo lhe aconteceu e foi a fonte de beatitude; e agora é uma recordação, apenas uma memória. Pode não ser sequer memória consciente, pode ser inconsciente, pode estar à espera, como uma semente, em algum lugar, profundamente dentro de você. Essa semente irá tornar-se a origem de uma procura, e você irá investigando sobre algo que não conhece. O que você está procurando? Não o sabe. Mas ainda assim, em algum lugar, mesmo desconhecido de você, certa experiência, certo momento de beatitude tornou-se parte e parcela de sua mente. Tornou-se uma semente, e agora essa semente está procurando seu caminho de saída, e você está em busca de algo a que não se pode dar um nome, algo que você não pode explicar. 

O que você está procurando? Se uma pessoa espiritual é sincera e honesta, não pode dizer: "Estou procurando Deus", porque não sabe se Deus existe ou não. E a palavra "deus" é absolutamente destituída de significação, a não ser que você tenha tido o conhecimento. Assim, você não pode procurar Deus ou a liberação (moksha). Não pode. 

Um investigador sincero terá de voltar-se para si mesmo. A procura não se dirige para algo exterior: volta-se para algo interior. Em algum lugar, sabe-se que algo foi entrevisto de relance, e tornou-se uma semente, e o está compelindo, empurrando-o, em direção de alguma coisa que você desconhece. 

A busca espiritual não é um arrancar do exterior, é um impelir para o interior. É sempre um empurrão. Se for um puxão, a busca é insincera, sem autenticidade. Então nada mais é do que a procura de uma nova espécie de gratificação, novo movimento dos seus desejos. 

A busca espiritual é sempre um empurrão em direção de alguma coisa que está profundamente dentro de você, e da qual você teve um relance. Você não interpretou aquilo, não o conheceu conscientemente. Pode ser a recordação da infância, de um satori que mergulhou profundamente no inconsciente. Pode ser um beatífico instante de satori, no ventre materno, uma experiência beatífica sem preocupações, sem tensão, com a mente em estado de completo relaxamento. Pode ser um sentimento profundo, inconsciente, um sentimento que você não conheceu conscientemente, e que o está impelindo. 

Os psicólogos concordam em que todo o conceito de busca espiritual vem da experiência beatífica no ventre materno. É tão beatífico, tão escuro; não há um só raio de tensão. Com o primeiro relance de luz a tensão começa a ser sentida, mas a escuridão é de relaxamento completo. Não há preocupação, não há nada a fazer. Você nem mesmo tem de respirar; sua mãe respira por você. Você existe exatamente como se interpreta que alguém existe quando alcançou a liberação (moksha). Tudo apenas é... e ser é beatitude. Nada tem de ser feito para alcançar esse estado: é assim, apenas. 

Assim, pode ser que exista uma profunda e inconsciente semente dentro de você e que experimentou total relaxamento. Pode ser que se trate de alguma experiência da infância, experiência de bem-aventurança estética, um satori infantil. Toda infância é "dada-ao-satori", mas nós o perdemos. O Paraíso foi perdido, e Adão dali foi expulso. Mas a recordação está ali, a memória desconhecida que o impele. 

Samadhi é diferente disso. Você tem de conhecer samadhi, mas, através de satori há a promessa de que algo maior é possível. Satori se torna uma promessa que te leva em direção ao samadhi.

O S H O 

Satori: o bom é o inimigo do Melhor

Pergunta: Qual é a diferença na experiência entre satori (em Zen, um relance da iluminação) e samadhi (consciência cósmica)? 

Samadhi começa com um intervalo, mas nunca termina. Um intervalo sempre começa e termina — tem limites: um início e um fim, mas samadhi começa com um intervalo e assim se eterniza. Não há fim para ela. Portanto se a ocorrência vem como um intervalo, e não há fim nela, trata-se de samadhi, mas se é um intervalo completo — com um início e um fim — então é satori, e isso é diferente. 

Se é apenas um relance, apenas um intervalo, e o intervalo é de novo percebido — se algo está enquadrado e o enquadramento é completo (você dá uma olhada furtiva e volta; você salta para aquilo e volta), se algo acontece e de novo é perdido — trata-se de um satori. É um relance de samadhi, mas não é o samadhi. Samadhi significa o início do conhecimento, sem fim algum. 

Na Índia não temos palavra que corresponda a satori, assim, às vezes, quando o intervalo é grande, podemos confundir satori com samadhi. Mas uma coisa nunca é a outra. Trata-se de um relance, apenas. Você veio ao cósmico, olhou para ele, e então tudo tornou a desaparecer. Você não será o mesmo, naturalmente; agora, nunca mais será o mesmo. Algo penetrou em você, algo lhe foi acrescentado, você não pode ser novamente o mesmo, mas, ainda assim, o que lhe modificou não está em você. É apenas uma recordação, uma memória. É apenas um relance. 

Se você pode recordar isso — se pode dizer "Conheci o momento" — ele foi apenas um relance, porque, do momento em que o samadhi acontece, você não estará ali para recordar. Então, você nunca poderá dizer: "Eu o conheci", porque, com o conhecimento, o conhecedor se perde. Só com o relance o conhecedor permanece. 

Assim, o conhecedor pode conservar aquele relance como memória — pode adorá-lo, ansiar por ele, desejá-lo tentar novamente senti-lo — mas ele ainda ali está. Quem teve um relance, quem olhou, ali está. Aquilo fez-se uma lembrança. E agora aquela lembrança irá segui-lo de perto, irá assediá-lo, e pedirá o fenômeno, uma e muitas vezes. 

Do momento em que o samadhi acontece, você ali não está para recordá-lo. Samadhi jamais se torna uma parte da memória, porque o que era já não é. Como dizem no Zen: "O homem antigo já não existe, e o novo chegou..." Esses dois jamais se encontraram, portanto não há possibilidade de que exista qualquer  lembrança. O antigo se foi e o novo chegou, e não houve encontro entre os dois, porque o novo só pode vir quando o antigo se foi. Então, não há lembrança. Não há assédio nem anseio com relação a isso. Não há desejo dirigido a isso. Então, tal como você é, está à vontade e nada há a desejar. 

Não se trata de você ter matado o desejo — não! É a indesejabilidade, no sentido de que aquele que podia desejar já não está ali. Então, não há anseio, não há futuro, porque o futuro é criado através de nossos anseios, é uma projeção dos nossos desejos. 

Se não há desejo, não há futuro. E, se não há futuro, não há necessidade do passado, porque o passado é sempre o cenário de fundo contra o qual, ou através do qual, o futuro é desejado. 

Se não há futuro, se você sabe que neste  mesmo momento vai morrer, não há necessidade de recordar o passado. Então, não há necessidade nem mesmo de recordar seu nome, porque o nome só tem significação se houver um futuro. Pode ser necessário. Mas, se não há futuro, você apenas queima, todas as pontes que o ligam ao passado. Você não precisa delas. O passado fez-se inteiramente sem importância. É só contra o futuro, ou para o futuro que o passado tem importância. 

Do momento em que aconteceu o samadhi, o futuro torna-se não existencial. Não existe, só o presente existe. É o único tempo. Não há nem mesmo o passado.  O passado desapareceu e o futuro também, e uma só e momentânea existência se torna a existência total. Você está nela, mas não como uma entidade que é diferente dela. Você não pode ser diferente porque você só se torna diferente da existência total devido ao seu passado e ao seu futuro. O passado e o futuro, cristalizados ao seu redor, formam a única barreira entre você e o presente momento que está acontecendo. Assim, quando ocorre o samadhi, não há passado nem futuro. Então, é que você esteja no presente, mas você é o presente, você se tornou o presente. 

Samadhi não é um relance, samadhi é uma morte; satori, porém, é um relance, não uma morte. E satori é possível através de muitas formas! Uma experiência estética pode ser uma possível fonte para o satori; a música pode ser uma possível fonte para o satori, o amor pode ser uma possível fonte para o satori. Em qualquer momento intenso, no qual o passado se torna  sem importância — em qualquer momento intenso que você esteja vivendo no presente (um momento de amor, ou de música, ou de sentimento poético, ou qualquer outro fenômeno estético, no qual o passado não interfira e no qual não haja o desejo do futuro) —, o satori torna-se possível. Mas é apenas um relance. 

O relance é importante, porque através do satori, você pode sentir pela primeira vez o que o samadhi pode significar. O primeiro sabor, ou o primeiro perfume que distingue o samadhi, vem através do satori. Por isso, o satori auxilia. Mas tudo quanto auxilia pode ser um obstáculo se você se agarra a ele, e se você sentir que ele é tudo. O satori tem uma beatitude que pode lhe enganar, tem uma beatitude que lhe é própria. 

Por você não ter conhecido o samadhi, para você, o satori é o definitivo, e você se agarra a ele. Mas se você se agarra a ele, pode transformar o que era útil, o que era amistoso, em algo que se faz uma barreira, um inimigo. Portanto, você deve estar alerta para o possível perigo do satori. Se assim o fizer, então a experiência do satori será útil. 

Um só e momentâneo relance é algo que nunca poderá ser obtido por outros meios. Ninguém pode explicá-lo. Não há palavras, não há comunicação, que possa ao menos dar uma sugestão disso. O satori é importante, mas é apenas um relance, uma ruptura, como uma única e momentânea ruptura na existência, no abismo. 

Você nem sequer tomou conhecimento do instante, nem mesmo se fez alerta para ele, e já está fechado para você. Apenas um clique na máquina fotográfica — um clique — e tudo é perdido. Então uma obsessão é criada: você arriscará tudo por aquele momento. Mas não anseie por ele, não o deseje. Deixe que ele adormeça em sua memória. Não faça dele um problema: esqueça-o, apenas. Se você puder esquecê-lo, se puder não se agarrar a ele, esses momentos voltarão a você, mais e mais; os relances virão a você, mais e mais. 

A mente solicitadora torna-se fechada, o relance está encerrado. Ele sempre vem quando você não está alerta para ele, quando você não o está esperando — quando está relaxado, quando nem mesmo está pensando nisso, quando nem mesmo está meditando. Mesmo quando você está meditando, o relance se torna impossível, mas quando não está meditando, quando está num momento de abandono — nem mesmo fazendo alguma coisa, nem mesmo esperando por alguma coisa — nesse momento de relaxamento, o satori acontece.

Começará acontecer mais e mais, mas não pense nele, não anseie por ele. E nunca o tome, erradamente, por samadhi.

O S H O 

A mente adquirida é o barulho do mundo


Do colapso à um novo olhar existencial


Como posso eu, sendo eu mesmo, ficar livre de "mim"?


A mente adquirida impede o Vazio pleno


Como posso eu, sendo eu mesmo, ficar livre de “mim”?

Hoje em dia, parece que há muitos comentários acerca da liberdade, o que talvez não seja completamente espantoso numa sociedade que não é livre. Um homem, quando na prisão, anseia sempre pela amplidão do mundo além de suas grades. Instintivamente, muitos de nós sentem que a liberdade é um dos maiores benefícios na Terra, se não for o maior. Todavia, a palavra “liberdade”, como a palavra “amor”, apresenta-se de um modo opressivo. O que significa ela realmente para nós? Será liberdade de pensamento, ou liberdade da opressão, da miséria e da interferência do governo? Poderíamos definir muitas outras espécies de liberdade; porém, embora todas sejam necessárias numa sociedade honesta, nada significam quando comparadas à Liberdade no sentido mais fundamental da palavra, e pelo qual aqui nos interessamos. Essa Liberdade apresenta-se como uma condição interior da mente, que se desenvolve, apesar da independência ou falta da mesma; ao mesmo tempo, ela representa o único meio genuíno para a realização da liberdade exterior. Uma sociedade livre jamais pode nascer dos esforços de escravos, não importando o que façam. E somos escravos, e o seremos enquanto não reconhecermos que estamos completamente condicionados, que todos os nossos atos se originam no passado.

Fundamentalmente, a liberdade interior é estar-se livre das exigências do eu, que pode ser “você”, “eu”, bem como também a sociedade por nós criada. Uma vez não existindo maior tirania do que a do eu, a liberdade interior é a liberdade definitiva. Talvez possam perguntar: De que modo isso acontece? Como posso eu, sendo eu mesmo, ficar livre de “mim”? Este parece ser um caso no qual a simples lógica não nos levará muito longe, porque, obviamente, a nossa terminologia já dá a questão como provada. Uma vez que as palavras são imprescindíveis à comunicação, deveríamos usá-las parcimoniosamente, conferindo-lhes apenas um grau provisório quanto à finalidade de seus significados. Deste modo, criamos a liberdade necessária para irmos além das palavras, o que é importante para uma compreensão de qualquer profundidade.

Paradoxalmente, perder o nosso Eu é encontrar a nós mesmos. Isso quer dizer que devemos descobrir o que somos, não num sentido teórico — como ficar sabendo que somos filhos de Deus ou feitos à Sua imagem, ou qualquer uma dessas tolices — mas descobrir realmente, por nós mesmos, o que é a energia, a energia que é experimentada pelo “Eu”. Isso devido a que o Eu não deve ser constituído de uma abstração e, portanto, jamais pode ser descrito. Ele está constantemente em movimento; é a coisa mais evanescente que existe no mundo. No momento em que o senhor pensa conhecê-lo, já se torna uma coisa inteiramente diversa. Por não estar ele dentro do campo da ciência, o senhor não poderá descobrir o que seja essa “eu” por meio de uma outra pessoa qualquer — mesmo que fosse o seu psicanalista, o seu guru favorito ou este escritor.

Assim, as poucas palavras com as quais podemos apenas sugerir a natureza da “autognose” não terão qualquer sentido, a não ser que estejamos usando realmente o sistema da autodescoberta, que é meditação no sentido mais exato da palavra. Para compreender a natureza do eu, devemos estar atentos às nossas ações, pensamentos e sentimentos; devemos observar todos os anseios secretos, os desesperos silenciosos e os conflitos íntimos da mente, sem nos deixarmos arrebatar pelo que vemos. No momento em que nos deixamos arrebatar, não haverá mais observação, que deveria envolver-se tão pouco com a cena observada como no funcionamento de uma máquina fotográfica. Assim, se pudermos ficar “descuidadamente conscientes” ao nos observarmos, talvez descubramos que a cada momento o nosso comportamento é baseado na lembrança de uma experiência passada; essa experiência anterior que procura a continuação, a intensificação, a modificação e cria o futuro. Toda ação está preocupada em ligar a situação atual com a situação passada, proporcionando alguma continuidade a esse passado. Conseqüentemente, jamais vivemos no momento presente, embora intelectualmente possamos saber que somente este último existe. Não é estranho? Ao mesmo tempo deve-se observar que jamais aceitamos aquilo que é e que continuamente desejamos moldar aquilo que é no que deveria ser, condicionando-o com base na experiência anterior. E a sensação de divergência entre aquilo que é e o que deveria ser — que representa, na realidade, uma espécie de resistência contra o que é — não significa outra coisa senão o sentido do Ego, e se encontra na raiz de todo conflito; portanto, representa o único obstáculo para nossa liberdade. Estar realmente livre significa estar inteiramente submerso naquilo que é, não mais preocupado com o que possa ocorrer àquele Eu medíocre, e assim sem maiores projetos para o futuro.

Ora, quando já não estamos mais criando o tempo como uma necessidade psicológica, ainda existe um Eu? É evidente que não estamos falando do Eu físico — com suas necessidades puramente físicas — mas do centro psicológico, com suas muitas compulsões, que representa o foco de toda angústia mental. Se esse centro está temporariamente inativo, embora por um curto período, não significará isso a libertação de uma tremenda carga e uma indizível sensação de alívio? Se nos libertamos do ponto central, podemos viver inteiramente com aquilo que é, sem conflitos, até mesmo se o que é abrange uma sociedade de não-libertos. Isso não significa que estejamos satisfeitos com as coisas conforme elas são; ou que, tendo provado a liberdade total, digamos “estou bem, Jack” — e ignoremos, ou olhemos para baixo, para aqueles que ainda estão algemados pelos seus desejos, pela falta de compreensão do espírito sempre agitado. Ao contrário, isso significa que, pela primeira vez, vemos claramente a premência de uma revolução total na conscientização, sem nos identificarmos, por pouco que seja, com a sua necessidade. Isto acontece porque já não existe mais qualquer divisão entre nós, como entidade separada, e nossos semelhantes. E, parecendo um contra-senso, é somente nesse estado que podemos ser realmente eficientes ao provocar essa mudança radical em nossa conscientização e, portanto, na sociedade. A sociedade não pode ser libertada de fora, impondo a ela uma série de valores; sua estrutura psicológica intrínseca não é afetada por qualquer revolução política, embora drástica, ou por qualquer legislação, conquanto humanística. Ela só pode ser libertada do lado de dentro mediante uma completa transformação da conscientização, que está por baixo de todas as suposições e motivações básicas da sociedade. Isso significa que quando um “indivíduo” se liberta, com essa atitude ele faz mais pela libertação da humanidade do que todos os movimentos coletivos de libertação na História. Os feitos destes últimos não passam de pálidos reflexos do processo de auto-realização.


Realizando os abismos do ego-esvaziamento

Quando não estamos mais "apegados" a nada, quando não buscamos mais sentido para as coisas nem para os eventos do mundo, o que nos cerca e o que nos acontece parece perder toda a consistência, como se a subsistência dos seres dependesse da intensidade de nossas tensões afetivas e racionais.

"Deixar ser" e viver sem porquê leva-nos assim à realização do vazio: "Todas as criaturas são um puro nada. Não digo que elas são pequenas ou não importa o quê, elas são um puro nada". Aqui Mestre Eckhart é fiel ao ensinamento do prólogo de João: todas as coisas existem na Consciência e sem a Consciência nada existe; as criaturas só têm existência independente subjetiva. Quando esta subjetividade foi purificada pelo desapego e pelo não-agir mental, não resta mais do que a evidência, a objetividade fulminante de nosso nada. O ser humano capaz de suportar este clarão é libertado da ilusão e do desejo de viver, ele toca em si "alguma coisa" que está além do espaço e do tempo. O além da morte é a sua morada. Aceitar seu nada é de fato reunir-se de novo à Fonte incriada que torna possível toda manifestação.

"Ele é 'alguma coisa' na alma que é incriada e incriável. Se a alma inteira fosse assim, ela seria seria incriada e incriável.

Quando este "fundo" foi tocado, atingido, não é mais possível falar de Deus da mesma maneira, não é mais possível idolatrá-Lo sob forma de conceito ou de presença maleável, ao sabor do capricho humano; ele é aquela "Deidade" de que fala Mestre Eckhart e só os terrenos negativos conseguem caracterizá-la.

Nenhuma de nossas analogias apropriadas ao espaço e ao tempo pode convir quando se trata de falar de Deus. Ele é Imutável, Impensável; melhor seria dizer que "Ele não existe", que Ele é "um puro Nada", do que encerrá-Lo nos nossos conceitos. O espírito entra então numa vacuidade essencial e, além de toda representação, ele se une ao Desconhecido que o habita e o escava, o esvazia, até os abismos.

Esta experiência do vazio, ainda que dolorosa para o ser criado, não é uma experiência patológica, uma incapacidade de viver. É a própria condição para que se realize um novo nascimento, a vida do incriado em nós.

Jean-Yves Leloup — Enraizamento e Abertura - Ed. Vozes

O homem realmente disciplinado jamais se prende a nada

Disciplina é uma bela palavra, mas, assim como, no passado, o foram todas as belas palavras, ela tem sido mal empregada. A palavra disciplina tem a mesma raiz da palavra discípulo - o significado da raiz é “processo de aprendizagem”. Aquele que se mostra disposto a aprender é um discípulo, e a atitude de estar disposto a aprender é disciplina.

A pessoa douta nunca está disposta a aprender, pois acha que já sabe muito; ela se mantém muito centrada no que chama de conhecimento. Seu conhecimento não é nada senão alimento para o ego. Ela não é capaz de ser um discípulo, de se manter sob verdadeira disciplina.

Sócrates disse: “Só sei que nada sei” — esse é o princípio da disciplina. Quando você não sabe nada, claro, claro que lhe sobrevém o desejo intenso de inquirir, explorar, investigar. E, assim que começa a aprender, surge inevitavelmente outro fator: qualquer coisa que você tenha aprendido tem que ser abandonada sempre; em caso contrário, ela se tornará conhecimento, e conhecimento impede a aprendizagem de outras coisas.

O homem realmente disciplinado jamais se prende a nada; a cada momento, ele morre para qualquer coisa que tenha vindo a saber e volta a ser ignorante. Essa ignorância é verdadeiramente luminosa.

Concordo com Dionísio quando ele afirma que a ignorância é luminosa. Uma das experiências mais belas da existência é estar num estado de luminosa ignorância. Quando está nesse estado de luminosa ignorância, você está aberto, não há barreira em seu ser, você está disposto a investigar.

A disciplina tem sido mal-interpretada. As pessoas têm dito às outras que disciplinem sua vida, que façam isso, que não façam aquilo. Têm sido imposto ao homem milhares de deves e não-deves. E, quando o homem vive com inúmeros deves e não-deves, ele não consegue ser criativo. Ele se torna prisioneiro; em toda parte, ele deparará uma barreira.

A pessoa criativa tem que eliminar todos os deves e não-deves. Ela precisa de liberdade e de espaço, muito espaço; ela precisa do céu inteiro e de todas as estrelas que existem nele. Só assim sua espontaneidade pode começar a florescer.

Portanto, lembre-se: minha ideia de disciplina não envolve nenhum dos dez mandamentos; não estou impondo-lhes nenhum tipo de disciplina; estou simplesmente tentando fazê-lo discernir a ideia de como continuar a aprender e jamais arvorar-se em douto.

Sua disciplina tem que vir de seu próprio coração; ela tem que ser inteiramente sua - e há uma grande diferença nisso. Quando alguém lhe impõe algum tipo de disciplina, talvez ela jamais lhe sirva; será como vestir as roupas de outrem. Ou elas ficarão grandes demais ou muito apertadas, e você sempre se sentirá um tanto idiota nelas.

Maomé legou um corpo de disciplina aos muçulmanos; talvez isso tenha sido bom para ele, mas não pode ser bom para todos. Buda legou um corpo de disciplina a milhões de budistas; talvez isso tenha sido bom para ele, mas não pode ser bom para todos.

A disciplina é um fenômeno que se dá no âmbito da individualidade; toda vez que a adota de outrem, você começa a viver de acordo com princípios pré-estabelecidos, preceitos mortos. E a vida jamais é morte; a vida é transformação incessante. A vida é movimento.

Heráclito está certo: você não pode entrar no mesmo rio duas vezes. Aliás, gostaria de dizer-lhe que você não pode entrar no mesmo rio uma única vez sequer, pois ele se move muito rapidamente! A pessoa tem que estar atenta a cada situação e suas nuanças, observando-a, e é necessário que a pessoa reaja à situação de acordo com o momento, e não conforme a algum tipo de respostas prontas, fornecidas por outrem.

Você percebe a estupidez da humanidade? Há cinco mil anos, Manu transmitiu um corpo de disciplina aos hindus, e, até hoje, eles o seguem. Três mil anos atrás, Moisés deixou um corpo de disciplina aos judeus, e ainda hoje eles o seguem. Há cinco mil anos, Rsabhanatha transmitiu seu corpo de disciplina aos jainistas, e eles ainda o seguem.

O mundo está sendo levado à loucura com essas doutrinas! Elas são ultrapassadas; elas deveriam ter sido enterradas há muito, muito tempo. Vocês estão carregando defuntos nas costas, e esses defuntos fedem. E, quando você vive cercado por defuntos, que tipo de vida você pode levar?

Eu lhes ensino o momento, e a liberdade do momento, e a responsabilidade do momento. Algo pode ser correto neste momento e pode tornar-se errado no momento seguinte.

Não tente ser imutável, pois, nesse caso, você estará morto. Só os mortos são imutáveis. Procure estar vivo, com todas as suas inconstâncias, e viva cada momento sem nenhuma ligação com o passado nem com o futuro. Viva o momento, e suas reações serão plenas.

Essa plenitude é sublime, essa plenitude é criatividade. Com isso, tudo que você fizer terá beleza própria.

Osho, em "Criatividade : Libertando Sua Força Interior

Aceitando as dores do processo de ego-esfacelamento

Em primeiro lugar, a via descendente se traduz pela desvalorização das compensações. Quando pensamos em desfrutar algumas delas, uma voz logo se eleva em nós: "E depois?" ou "Para quê?" E o ilusório prazer proposto não NOS ATRAI MAIS. 

À medida que a tela psíquica sobre a qual eram projetados os fantasmas compensatórios perde sua opacidade, o olho espiritual percebe, através dele, a noite profunda, isto é, a nostalgia primitiva do nosso abandono à vontade divina. Isto é o que exprime Jesus crucificado ao gritar: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" Ao nascer, quando a alma — para falar como Platão — cai num organismo humano, tudo passa por nós como se realmente tivéssemos sido abandonados por Deus. 

À medida que o homem percebe a nostalgia primitiva — pois o processo é LENTAMENTE GRADUAL — começa a sentir uma NOVA TRISTEZA, aparentemente incondicionada, da qual ele procura razões; no entanto, NÃO AS ENCONTRA, ou elas não são proporcionais a essa tristeza profunda. Por outro lado, para utilizar esse sofrimento é preciso começar pela própria purificação, expulsando do pensamento essas circunstâncias. O sofrimento continua a estar presente, e podemos então senti-lo conscientemente, SEM PENSAR. Trata-se de um mal-estar difuso em todo o ser, em todo o corpo, talvez localizado a nível do coração. Essa primeira purificação do sofrimento torna-se possível e engrandecida pela compreensão de que TODO SOFRIMENTO MORAL, PEQUENO OU GRANDE, TRADUZ A NOSSA NOSTALGIA DE DEUS. O homem "liberto vivo" — no qual essa nostalgia evidentemente desapareceu — é totalmente invulnerável ao sofrimento justamente porque a fonte deste último já não existe.

Esta é a verdadeira aceitação do sofrimento, que nada tem a ver com a resignação. As palavras de Jesus exprimem perfeitamente essa aceitação: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!"

Quando o homem chega ao fundo da NOITE DOS SENTIDOS E DO ESPÍRITO (São João da Cruz), sua sensibilidade e pensamento tendem a parar completamente, originando a Realização. 

A um discípulo que perguntava qual era a última palavra do Ch'an, seu mestre respondia: "É sim". O homem comum, diante daquilo que lhe causa pesar, adota uma atitude negativa de revolta; esta, por sua vez, normalmente impotente, é cruel. Portanto, devemos aprender a adotar em todas as circunstâncias uma atitude positiva, a entrar em acordo com nossas desgraças, assim como com a nossa alegria. As felicidades são momentos de calma muito úteis, porém também devemos abençoar e experimentar totalmente as nossas infelicidades, sofrimentos e desgostos, já que só assim nossa condição egotista recebe os golpes que provocarão seu desaparecimento. Em nós é feito, então, um trabalho inconsciente que nosso intelecto seria incapaz de assumir e que unicamente realiza o SI. 

Hunert Benoit — A Realização Interior

O Fracasso como portal de acesso à Realização

Os homens destinados à Realização afastam-se de qualquer tipo de compensação em algum momento de suas vidas consagrando-se UNICAMENTE àquele objetivo. Seu pensamento parece não se desviar para nada além daquilo. Em paralelo ao DESINTERESSE comum, esses homens seguiram caminhos muito diferentes. No entanto, todos eles têm ALGO EM COMUM: o FRACASSO, ou sucessivos fracassos se decidiram percorrer diversos caminhos. Esta é a VIA DESCENDENTE dos fracassos repetidos até o fracasso final. Desejo citar sobre o tema uma notável intuição de Dag Hammarsjöld: "Levado pelo labirinto da vida, chego a um momento e a um lugar onde compreendo que o caminho conduz a um trunfo que é uma catástrofe, e uma catástrofe que é um trunfo... e que a única elevação possível para o ser humano está nas profundezas da humilhação". 

A morte do ego e o renascimento são simultâneos; quanto aos momentos imediatamente anteriores à "morte", são iguais para todos os homens. O estado interior nestes instantes está composto de uma humilhação completa e aceita, isto é, da visão de si como nada, como não sendo nada. O pensamento, desvalorizado, se detém. A afetividade também se dilui, porque o homem experimenta ao mesmo tempo sentimentos de igual intensidade: de um lado, o desespero nas suas próprias possibilidades, de outro, uma total confiança n'Ele a favor da abdicação do Eu. Nesse momento, finalmente, o homem deixa de FAZER algo por sua Realização, desejando-a COM TODO O SEU SER. 

Citemos uma frase do zen: " O SATORI cai sobre nós de maneira imprevista, após esgotarmos todas as forças do nosso SER"...

O instante em que se esgotam todas as forças do nosso ser é o instante da Realização. Eis uma descrição do mesmo Ch'an: "O leve contato de um fio de baixa tensão origina uma explosão que afeta até as estruturas da Terra; tudo o que jazia no espírito explode como uma erupção vulcânica ou brilha como um relâmpago". 

... A duração da evolução interior que vai do primeiro desejo da Realização aos últimos instantes dessa morte-para-renascer é muito variável. Embora tenha sido de apenas dois anos para Ramana Maharshi, também pode durar dezenas de anos. Será que Buda estava pensando nisso quando, ao ser interrogado sobre a maior virtude humana, respondeu que era a PACIÊNCIA?

Hubert Benoit - A Realização Interior

O despertar da essência intrínseca verdadeira

Qual o sentido da prática do Zen? É o despertar do homem para a sua essência intrínseca verdadeira, e, além disso, a disposição de permanecer receptivo ao Ser no seu interior, a fim de manifestá-lo no seu mundo, livremente e sem medo.

A prática do Zen exige três tipos de conhecimento: 
1- saber que é possível a Grande Experiência na qual o homem conhece sua essência intrínseca;

2- o conhecimento da natureza daquilo que o separa enquanto homem consciente da sua essência intrínseca;

3 - o aprendizado do caminho leva do erro à manifestação da sua verdadeira essência.
O conhecimento de tudo o que bloqueia o caminho do despertar e da renovação é decisivo para toda prática que visa forjar um homem novo. E qual é esse obstáculo? O eu que define, com sua forma de consciência e seu sistema de vida, a partir dos quais o homem identificado com esse eu sente e pensa. Portanto, o objetivo central do Zen é abolir essa identificação. É derrubar o eu e a sua carapaça, demolindo o seu sistema de vida.

A principio, todos os exercícios zen visam alcançar o mesmo objetivo: suprimir o ego e seus valores e, ao fazê-lo, puxar de sob os seus pés o chão fictício sobre o qual o homem se apoia, impedindo-o de alcançar os seus verdadeiros alicerces. É preciso derrubar os valores estabelecidos. Rejeitar aquilo a que se crê ter direito. Arrancar aquilo a que nos apegáramos. Ridicularizar aquilo que se pretendia. Desmascarar o que se pensava. Tomar absurdo aquilo que se julgava saber. E, para lográ-lo, o mestre zen lança mão de qualquer meio. Só se pode entender as afirmações e as ações, de outro modo incompreensíveis, do mestre, ao conhecer o elevado objetivo que justifica cada meio empregado. Tudo aquilo que é inconcebível e completamente inesperado para o eu - a resposta sem sentido, a agressão gratuita, o golpe bem dirigido, o choque, o bofetão no rosto, a pancada, a implicância, o riso debochado, o grito assustador -, aquilo que o eu tem de aceitar e suportar, aquilo que o derruba ao fazer cair por água abaixo tudo o que o sustenta, eleva ou abriga na ordem habitual, visa abrir esse eu à consciência de mundo. Pois é justamente nessa derrocada que o homem que busca poderá talvez ter um vislumbre da verdade que está por trás da ordem. Aí ele reconhece que os valores fixos e firmes, supostamente tidos como inabaláveis, que até então lhe pareciam a única verdade imaginável e que lhe davam uma posição estável, não eram senão a mera correlação objetiva da postura adotada pelo seu eu. E como esta sua postura do eu foi afirmada através de sua compreensão fixa, obstruiu aquilo que não era passível de ser determinado.

Porém, tudo isto supõe um pré-requisito: é preciso que aquele que busca esteja realmente disposto a encontrar; que o praticante esteja realmente disposto a aprender, ou seja, que ele também se prontifique a seguir o seu guia, portanto, que se disponha a sentir-se e a manter-se como aluno. Pois o que seria do mestre sem o discípulo? Mas quem pode chamar-se de discípulo? Só aquele que foi arrebatado de suas bases pelo anseio, aquele cuja angústia o levou até o último limite e que sente que, se não romper essa derradeira barreira, morrerá.Só se pode chamar de discípulo aquele que foi aprisionado pela inquietude do coração, que não o largará mais até ser satisfeita.

Só se pode chamar de discípulo quem começou a trilhar o caminho disposto a deixar-se conduzir e a obedecer.

Só se pode chamar de discípulo quem é capaz de ter uma inabalável confiança, e quem é capaz de seguir mesmo sem entender, pronto a encarar qualquer desafio.

Só se pode chamar de discípulo quem é capaz de ser exigente consigo mesmo, quem está preparado para abandonar tudo pela Unidade que o empurra na direção da luz.

Só se pode chamar de discípulo quem, cativado pelo incondicional, é capaz de se submeter a qualquer situação, e suportar os rigores da senda através da qual o mestre o guia.

TUDO OU NADA está escrito em letras maiúsculas sobre o portal da sala de exercícios freqüentada pelo discípulo. Este deixa tudo para trás, e só uma certeza o acompanha: de agora em diante, ele não irá mais se deparar com a arbitrariedade, mas com o olhar da sabedoria que, ao se concentrar na sua essência intrínseca, se vale de qualquer meio para trazê-la à tona, para reavivá-la, Pois o significado da morte que dele se espera não é a morte propriamente dita, mas a VIDA que transcende a vida e a morte. Não se trata da destruição da existência, mas do SER que se irradia através da vida.

Karlfried Graf Dürckheim

Compreendendo a natureza exata da humildade

Desejamos concluir este livro enfatizando um aspecto capital dessa compreensão teórica e prática, a única capaz de nos livrar da angústia. Trata-se de compreender a natureza exata da humildade e de perceber que nela está a chave da nossa liberdade e da nossa grandeza.

Estamos vivendo desde já em estado de satori; ficamos entretanto impossibilitados de usufruí-lo devido ao trabalho incessante de nossos automatismos psicológicos que aferrolham dentro de nós um circulo vicioso; nossa agitação imaginativo-emotiva nos impede de ver a nossa "natureza de Buda" e, julgando estar assim privados da nossa realidade essencial, somos forçados a imaginar para compensar essa carência ilusória.

Acredito estar separado de meu "ser" e o procuro para juntar-me a ele. Conhecendo-me apenas como indivíduo separado, procuro o Absoluto num molde individual; desejo me afïrmar absolutamente como ser-separado. Esse esforço cria e alimenta a minha "ficção divina", a minha pretensão fundamental a ser todo-poderoso como indivíduo no plano dos fenômenos.

Esse trabalho compensatório de meus automatismos psicológicos consiste, na minha representação imaginativa das coisas, em negar a minha atenção às constatações da minha impotência, e em retirar a minha pretensão nos casos em que a visão dessa minha impotência não pode ser evitada. Eu me arranjo de modo a jamais reconhecer a igualdade entre mim mesmo e o mundo exterior; declaro-me diferente do mundo exterior, desnivelado em relação a ele, acima dele quando posso, abaixo quando não posso. A ficção segundo a qual eu seria individualmente a Causa Primeira do Universo exige que só se cogite em condicionamento do mundo por mim: ou eu me vejo condicionando o mundo exterior, ou então me vejo incapaz de condicioná-lo, não podendo, porém, jamais reconhecer-me condicionado por ele num plano de igualdade. Daí a ilusão do "Não-Eu"; quando me vejo incapaz, trata-se do "Não-Eu"; eu não quero nunca reconhecê-lo como "Ele", por não ter consciência da hipóstase que nos une.

A impossibilidade em que hoje me encontro de usufruir da minha natureza mesma, da minha natureza-de-Buda, como homem universal e não como indivíduo separado, essa impossibilidade me obriga a fabricar continuamente uma representação radicalmente enganosa da minha situação no universo. Em lugar de me ver em igualdade com o mundo exterior, eu me vejo ora acima dele, ora abaixo, ora "no alto", ora "embaixo". Nessa ótica, na qual o "no alto" é Ser e o "embaixo" é Nada, sou obrigado a sempre fazer esforços em direção ao Ser. Todos os meus esforços tendem necessariamente, de modo direto ou indireto, a me elevar, seja grosseiramente, seja sutilmente ou, como se diz, "espiritualmente".

Antes do satori, todos os meus automatismos psicológicos naturais têm como base o amor-próprio, a pretensão pessoal, a reivindicação de "subir" de uma maneira qualquer; e é essa reivindicação de me elevar individualmente que me esconde minha dignidade universal infinita.

Às vezes é difícil reconhecer como tal a pretensão que anima todos os meus esforços, todas as minhas aspirações. Vejo com facilidade a minha pretensão quando o Não-Eu do qual pretendo me distinguir é representado por outros seres humanos; nesse caso, basta um pouco de lealdade interior para atribuir à tentativa o seu nome verdadeiro. Já o mesmo não acontece quando o Não-Eu do qual pretendo me distinguirr é representado por objetos inanimados ou, sobretudo, por essa ilusória e misteriosa entidade que eu denomino "Destino"; no entanto, no fundo, é exatamente a mesma coisa: minhas boas oportunidadess me exaltam, as desfavoráveis me humilham. Toda percepção da positlvidade no Universo me exalta; toda percepção da negatividade no Universo me humilha. Quando o mundo exterior é positivo, construtivo, ele está sendo como eu quero, parecendo-me portanto condicionado por mim; quando negativo, destrutivo (ainda que isso não me diga respeito diretamente), está sendo como eu não o quero, parecendo-me portanto que ele se nega a se deixar condicionar por mim. Quando enxerga­mos direito as bases profundas do nosso amor-próprio, compreende­mos que todas as nossas alegrias imagináveis constituem satisfações desse amor-prróprto e que todos os nossos sofrimentos imagináveis são ferimentos infligidos a esse mesmo amor-próprio. Compreendemos, portanto, que a nossa pretensiosa atitude pessoal domina a totalidade de nossos automatismos afetivos, ou seja, a totalidade da nossa vida. Só a Inteligência independente escapa dessa dominação.

Minha pretensão egotista em direção ao "no alto" precisa expressar-se num trabalho imaginativo incessante por ser enganosa, por estar em radical contradição com a realidade das coisas. Quando lanço ao conjunto da minha vida pessoal um olhar impessoal, vejo que ela pode ser comparada à explosão de fogos de artificio; a subida do foguete corresponde à vida intra-uterina quando tudo se está preparando sem ainda se manifestar; o instante em que explode o foguete é o do nascimento; o desabrochar do feixe luminoso representa esse período "ascendente" da minha vida, durante o qual o meu organismo desenvolve todas as suas potencialidades; a descida do feixe numa chuva de centelhas que se vão apagando representa a minha velhice, a minha morte. Parece-me, logo de início, que a "vida" desse foguete é um "crescendo", em seguida um "diminuindo". Mas, pensando melhor, vejo que ele é, em toda a sua duração, uma desintegração de energia; é um "diminuindo", uma diminuição, do começo ao fim da sua manifestação. O mesmo acontece comigo como indivíduo, a partir do instante em que sou concebido, meu organismo psicossomático é a manifestação de uma desintegração, de uma descida constante. Logo que sou concebido, eu começo a morrer, esgotando em manifestações mais ou menos espetaculares uma energia primeira que decresce ininterruptamente. A realidade cósmica contradiz radicalmente a minha pretensão a "subir", a estar "no alto"; na minha condição de "ser pessoal", só tenho à minha frente o "embaixo".

O problema da angústia humana está todo contido no problema da humilhação. Curar-se da angústia é livrar-se de toda possibilidade de humilhação. De onde vem essa humilhação? De me ver impotente? Não; isso não é suficiente. Ela deriva da minha vã tentativa de não perceber a minha impotência real. Não é a impotência em si que faz a humilhação, mas o impacto sofrido pela minha pretensão à onipotência quando ela entra em choque com a realidade das coisas. Eu não me sinto humilhado porque o mundo exterior me nega, mas pelo malogro do meu empenho em aniquilar essa negação. A verdadeira causa da minha angústia não está nunca no mundo exterior: ela está somente na reivindicação que lanço para fora e que se esfacela de encontro ao muro da realidade. Estou errado quando me queixo de que o muro se tenha desmoronado sobre mim e me tenha ferido; eu é que me feri esbarrando nele; foi o meu próprio movimento que provocou o meu sofrimento. Quando eu deixar de pretender, nunca mais nada me há de ferir.

Posso também dizer que minha angústia-humilhação expressa a lancinante dor de um conflito interior entre a minha tendência a me ver todo-poderoso e a minha tendência a reconhecer a realidade concreta na qual é negada a minha onipotência. Fico angustiado-humllhado quando me sinto dividido entre a minha pretensão subjetiva e a minha constatação objetiva, entre a minha mentira e a minha verdade, entre a minha representação parcial e a imparcial da minha situação no Universo. Só estarei a salvo da ameaça permanente da angústia quando a minha objetividade houver triunfado da minha subjetividadee; quando, em mim, a realidade houver triunfado do sonho.

Na nossa ânsia de, finalmente, escapar da angústia, nós buscamos doutrinas salvadoras, procuramos "gurus". Mas o verdadeiro guru não esstá longe: está diante de nossos olhos e nos oferece constantemente o seu ensinamento: é a realidade tal como ela é, é a nossa vida cotidiana. A evidência redentora está debaixo de nossos olhos, evidência da nossa não-onipotência, evidência de que a nossa pretensão é radicalmente absurda, impossível, e, portanto, ilusória, inexistente; evidência de que não há nada a recear para esperanças que não têm nenhuma realidade; evidência de que estou e sempre estive no chão, não havendo portanto nenhuma possibilidade de uma queda, nenhum motivo para vertigens.

Se eu me sinto humilhado é porque meus automatismos imaginativos conseguem neutralizar a visão da realidade e mantêm em xeque a evidência. Não tiro nenhum proveito do ensinamento salutar que me é constantemente proposto porque eu o recuso; eu recorro a todo o meu engenho para evitar a experiência da humilhação. Caso sobrevenha uma circunstância humilhante, propondo-me algum maravilhoso segredo iniciatico, imediatamente a minha imaginação se empenha em afastar aquilo que me parece um perigo; ela luta contra o ilusório deslocamento para "baixo"; ela faz tudo para me reinstalar naquele estado habitual de arrogância satisfeita no qual encontro um alívio transitório, mas também a certeza de novas angústias. Em suma: eu me mantenho numa constante defensiva contra aquilo que tem como objetivo me salvar; luto com unhas e dentes para defender a fonte mesma da minha infelicidade. Todos os meus trabalhos interiores tendem a impedir o satori porque visam lá "no alto" enquanto o satori está à minha espera "embaixo". De modo que tem razão o Zen quando diz que "o satori cai sobre nós de improviso, depois de termos esgotado todos os recursos do nosso ser".

Essas considerações parecem apontar a humildade como o "caminho". É verdade, num certo sentido. Vejamos, no entanto, em que sentido a humildade não constitui um "caminho" se, com essa palavra, estamos designando uma disciplina sistemática. Na minha condição atual, não posso fazer nenhum esforço que, direta ou indiretamente, não constitua um esforço para "o alto". Todo esforço visando conquistar a humildade só poderá levar a uma falsa humildade na qual eu ainda estarei me exaltando egotisticamente através do ídolo que criei para mim. É absolutamente impossível que eu me rebaixe a mim mesmo, isto é, que eu mesmo diminua a intensidade de minha reivindicação de "ser". A única coisa que posso e devo fazer, caso deseje me livrar definitivamente da angústia, é resistir cada vez menos ao ensinamento da realidade concreta, é deixar que a evidência da ordem cósmica me diminua. Mesmo nesse caso, não há nada que eu possa fazer ou parar de fazer diretamente. Deixarei de me opor aos benefícios construtivos e harmonizadores da humilhação na medida em que eu tiver compreendido que o meu verdadeiro bem está onde, paradoxalmente, eu até agora havia situado o meu mal. Enquanto eu não tiver compreendido, permanecerei voltado para o "alto"; tendo compreendido, eu não me volto para "baixo" - pois ainda uma vez não me é possível estar voltado para "baixo" e qualquer esforço nesse sentido transformaria o "embaixo" em "no alto" - porém, a minha aspiração que tende para "o alto" diminui de intensidade e, nessa medida, sou beneficiado pelas minhas humilhações. Tendo compreendido, passo a oferecer menos resistência e, por isso, vejo cada vez mais frequentemente que sou humilhado; vejo que, no fundo, todos os meus estados negativos constituem humilhações e que, até agora, eu me arranjava de modo a lhes atribuir outros nomes. Sou então capaz de me sentir humilhado, agastado, tendo em mim como única imagem a desse estado e de ali me deixar estar imóvel, pois a minha compreensão terá anulado os meus esforços reflexos de fuga. A partir do instante em que chego a não mais me mexer no meu estado humilhado, descubro, surpreendido, que é este o "asilo do repouso", o único porto de salvação, o único ponto do mundo onde se encontra a minha perfeita segurança. Minha adesão a esse estado, colocada diante da minha recusa natural, obtém o funcionamento do Princípio Conciliador; os contrários se neutralizam; meu sofrimento se desvanece, desvanecendo-se ao mesmo tempo uma parte da minha pretensão fundamental. Sinto-me mais próximo do solo, do "embaixo", da humildade real (humildade que não é aceitação de inferioridade, mas abandono da concepção "Vertical" na qual eu me via sempre acima ou abaixo. Um sentimento de tristeza, de "noite", acompanha esses fenómenos interiores; trata-se de um sentimento muito diferente da angústia, pois é impregnado de uma grande calma. Nesse momento de calma noturna e de relaxamento, elaboram-se os processos daquilo que denominamos "a alquimia interior". Desagrega-se o "homem antigo" em benefício da gestação do "homem novo". Morre o indivíduo para que nasça o universal.

A conquista da humildade, impossível diretamente, supõe portanto o uso da humilhação. Todo sofrimento, ao nos humilhar, modifica-nos. Mas essa modificação pode ser de dois tipos radicalmente opostos: se eu me debater contra a humilhação, ela me destruirá, agravará a minha desarmonia interior; se eu a deixar agir sem contrariá-la, ela há de construir a minha harmonia interior. Deixar agir a humilhação é simplesmente reconhecer para mim mesmo que estou humilhado.

O "Ser", na nossa perspectiva atual, nos aparece como o casal inconciliado do zero e do infinito. Nossa natureza nos compele a identificá-lo logo de início com o infinito e a tentar alcançá-lo sob essa forma, "subindo" constantemente. Mas esta é uma tentativa frustrada: nenhuma subida no finito poderia alcançar o infinito. O caminho para o "Ser" não é o infinito, mas o zero que, aliás, não sendo nada, não é um caminho.

Essa ideia de que a humildade não constitui um "caminho" é tão importante que desejamos enfatizá-la ainda uma vez. Se ela não ficar bem compreendida, eu fatalmente eliminarei estas ou aquelas manifestações da minha pretensão na vida prática, irei confinar-me numa categoria social medíocre, etc., ou seja, fugirei das humilhações em lugar de utilizá-las; os simulacros de humildade nunca passam de simulacros. Não se trata de modificar o funcionamento da minha pretensão fundamental, e, sim, de utilizar as evidências que surgem durante esse funcionamento, graças aos humilhantes malogros aos quais ele necessariamente leva. Quando deixo artificialmente de lutar contra o Não-Eu, eu me privo dos ensinamentos indispensáveis que me advêm de minhas derrotas.

Embora nem sempre o diga explicitamente, o Zen centra-se na ideia de humildade. Ao longo de toda a literatura zen, vemos os mestres em sua engenhosa bondade humilharem intensamente seus alunos no momento que lhes parece propício. Seja como for, seja a humilhação infligida por um mestre ou pelo fracasso final experimentado dentro de si mesmo, o satori sempre se desencadeia no instante em que a humildade do homem se realiza diante do absurdo finalmente evidente de todos os seus pretensiosos esforços. Lembremo-nos de que, para nós, a "natureza das coisas" é o melhor, o mais afetuoso e o mais humilhante dos mestres; ela nos envolve com sua vigilante ajuda. A única tarefa que nos cabe é compreender a realidade e deixar que ela nos transforme.

Hubert Benoit — "A Doutrina Suprema, segundo o pensamento zen"

O que devo fazer para me libertar?

Desde sempre o homem reflete sobre a sua condição, pensa que não é como gostaria de ser, define de maneira mais ou menos correta os vícios do seu funcionamento; faz, em suma, a sua auto­crítica. Esse trabalho de crítica, às vezes grosseiro, atinge ocasionalmente, em alguns ensinamentos, um altíssimo grau de profundidade e sutileza. As modalidades indesejáveis do funcionamento interior do homem comum são com frequência reconhecidas e descritas de modo bastante preciso.

Diante dessa riqueza do trabalho diagnóstico, surpreende a pobreza do trabalho terapêutico. As escolas que ensinaram e ensinam sobre o problema do homem, depois de mostrarem o que não anda bem no homem comum e a forma pela qual isso acontece, chegam necessariamente à pergunta: "Como remediar esse estado de coisas?" E aí começam a debandada e a pobreza das doutrinas. Chegando a esse ponto, quase todas elas se extraviam - ora grosseira ora sutilmente -, exceto a doutrina zen (ou, é preciso ainda esclarecer, "alguns mestres zen").

Isso não quer dizer que, em outros ensinamentos, certos homens não tenham obtido a sua "realização". Mas só o Zen puro expõe a questão e refuta os falsos caminhos de modo claro.

O erro essencial de todos os falsos caminhos consiste no fato de o remédio proposto não ter como objeto a causa profunda da miséria do homem comum. A análise critica do estado do homem não remonta o suficiente ao determinismo de seus fenômenos interiores; nesse encadeamento, ela não remonta ao fenómeno primeiro, detendo-se nos sintomas. O pesquisador que não vai além do sintoma, concentrando nele o seu esgotado pensamento analítico, não pode evidentemente conceber o remédio para a situação senão como a elaboração organizada e artificial de um sintoma que difere por inteiro do sintoma descoberto. Por exemplo: um homem chega à conclusão de que a sua miséria reside em suas manifestações de cólera, de amor-próprio, de sensualidade, etc., e julga que o caminho consiste em dedicar-se a produzir manifestações de doçura, de humildade, de ascetismo, etc. Outro homem, mais inteligente, chegará à conclusão de que a sua miséria reside em sua agitação mental e considerará que o caminho consiste em dedicar-se, por meio de certos exercícios, a tranquilizar a mente. Essa doutrina nos dirá: "A sua miséria vem do fato de você sempre desejar algo, do seu apego ao que você possui"; e isso desembocará, de acordo com o grau de inteligência do mestre, no conselho de distribuir todos os bens ou de aprender o desapego interior dos bens exteriores. Essa doutrina considerará que a miséria do homem reside na sua falta de autocontrole e ensinará "iogas", métodos que visam a um progressivo treinamento do corpo, do sentimento, do comportamento altruísta, do saber ou da atenção.

Tudo isso é, para o Zen, uma sofisticada domesticação e leva a uma ou a outra sujeição (dando a ilusória e exaltadora impressão de que nos tornamos livres). No fundo de todas essas coisas há este raciocínio simplista: "Isto não vai bem em mim dessa maneira; então, a partir de agora, vou fazer tudo ao contrário." Esse modo de apresentar o problema, ao partir de uma forma considerada má, encerra o pesquisador nos limites do domínio formal e lhe recusa, por conseguinte, toda possibilidade de restaurar a sua consciência para além de toda forma; quando me fecho no plano dualista, nenhuma inversão de sinal me liberta da ilusão dualista e me restaura na Unidade. Isso se assemelha por completo ao problema de "Aquiles e a tartaruga"; a maneira de formular o problema o encerra nos limites que devem ser transpostos e o torna, portanto, insolúvel.

O penetrante pensamento do Zen permeia todos os nossos fenômenos sem deter-se na consideração de suas modalidades. Ele sabe que, na realidade, nada vai mal em nós e que sofremos porque não compreendemos que tudo caminha à perfeição, porque cremos ilusoriamente que algo não está bem e que é preciso remediá-lo. Dizer que todo o mal advém do fato de o homem crer ilusoriamente que lhe falta algo constituiria ainda uma frase absurda, já que o "mal" de que fala é destituído de realidade e já que uma crença ilusória - portanto, sem realidade - não poderia ser a causa do que quer que seja. Além disso, se observo bem, não encontro positivamente em mim essa crença de que me falta algo (como poderia estar positivamente presente a crença ilusória numa ausência?); o que constato é que os meus fenômenos interiores caminham como se essa crença estivesse em mim. Mas, se os meus fenômenos o fazem, isso não se deve à presença dessa crença, mas ao fato de a intuição intelectual direta de que não me falta nada estar adormecida no fundo da minha consciência, de ainda não ter sido despertada. Ela está lá, pois nada me falta, sobretudo isso, mas está adormecida e não produz os seus efeitos. Todo o meu "mal" aparente provém do adormecimento da minha fé na perfeita Realidade; despertas em mim, não tenho senão "crenças" no que me oferecem os meus sentidos e a minha mente, que trabalha no plano dualista (crenças na inexistência de uma Perfeita Realidade Una). Essas crenças são formações ilusórias, sem realidade, consequências do adormecimento da minha fé. Sou um "homem de pouca fé", ou, mais exatamente, sem nenhuma fé, ou, melhor ainda, de fé adormecida, que não crê senão no que percebe no plano da forma. (Essa noção da fé presente mas adormecida explica a necessidade que temos, para nos libertar, de um mestre "despertador", de um ensinamento, de uma revelação; com efeito, o adormecimento comporta precisamente a não-fruição daquilo que pode despertar.)

Em suma, todas as coisas parecem ir mal em mim porque a ideia fundamental de que tudo é perfeito, eterno e totalmente positivo está adormecida no centro do meu ser, porque não está desperta, viva e atuante. Aí atingimos enfim o primeiro fenômeno doloroso, aquele de que deriva todo o resto dos nossos fenômenos dolorosos. O adormecimento da nossa fé na Perfeita Realidade Una (fora da qual nada "é") constitui o fenômeno primário de que deriva toda a cadeia distorcida; ele é o fenómeno causal, e nenhuma terapêutica do ilusório sofrimento humano poderá ser eficaz se não se encaminhar para esse ponto.

A pergunta "O que devo fazer para me libertar?" o Zen responde: "Você nada tem a fazer, já que nunca sofreu nenhuma sujeição e já que não existe, na realidade, nada de que você tenha de se libertar." Essa resposta pode ser malcompreendida e parecer desencorajadora porque encerra um equívoco referente à palavra "fazer". No homem comum, "fazer" se decompõe, de forma dualista, em concepção e ação, sendo à ação, à execução do que concebeu que o homem aplica a palavra "fazer"; tudo se organizará de modo espontâneo e harmonioso no nosso "fazer" quando deixarmos justamente de tentar modificá-lo de alguma maneira e trabalharmos apenas em despertar a nossa fé adormecida, isto é, em conceber a ideia primordial que temos de conceber. Essa ideia total, enquanto esférica e imóvel, não resulta, evidentemente, em nenhuma ação particular, não tem nenhum dinamismo específico; ela é a pureza central do Não-Agir, através da qual passará, não perturbado, o dinamismo espontâneo da vida natural real. Do mesmo modo, pode-se e deve-se dizer que despertar e alimentar essa concepção não é em absoluto "fazer", no sentido que essa palavra necessariamente assume para o homem comum, e até que esse despertar no pensamento se traduz na vida por uma diminuição (que tende à cessação) de todas as inúteis manipulações às quais o homem se dedica a partir de seus fenômenos interiores.

Evidentemente, é possível dizer que trabalhar na concepção de uma ideia é "fazer" algo. Mas, tendo-se em vista o sentido que essa palavra tem para o homem comum, é melhor, para evitar um perigoso equívoco, falar como o Zen e mostrar que o trabalho que pode abolir a angústia humana é um trabalho do intelecto puro que não implica a "feitura" de alguma coisa específica na vida interior, envolvendo, pelo contrário, a cessação do desejo de modificá-la.

Vejamos a questão com maiores detalhes. O trabalho que desperta a fé na única e perfeita Realidade que é o nosso "ser" se decompõe em dois momentos. Num momento preliminar, nosso pensamento discursivo concebe todas as ideias necessárias para que compreendamos teoricamente a existência em nós dessa fé adormecida e a possibilidade do seu despertar, bem como o fato de que só este último pode suprimir os nossos sofrimentos ilusórios. No curso desse momento preliminar, o trabalho efetuado pode ser denominado "fazer" alguma coisa. Mas essa compreensão teórica, supostamente obtida, ainda não modifica em nada o nosso estado doloroso; é preciso que ela se transforme numa compreensão vivenciada, experimentada por todo o nosso organismo, compreensão teórica e prática, ao mesmo tempo abstrata e concreta - só então a nossa fé será despertada. Mas essa transformação, esse transcender a forma, não pode resultar de nenhum trabalho direto "feito" pelo homem comum, inteiramente cego ao que não é formal. Não existe nenhum "caminho" para a libertação; isso é evidente, já que na realidade nunca estivemos submetidos a nada e continuamos a não estar. Não é preciso "ir" a lugar algum, não há nada a "fazer". O homem não tem nada a fazer diretamente para vivenciar a sua liberdade total e infinitamente jubilosa. O que ele deve fazer é indireto e negativo; o que deve compreender, através de um trabalho, é a enganosa ilusão de todos os "caminhos" que pode decidir trilhar. Quando seus esforços perseverantes lhe trouxerem a clara compreensão de que tudo o que pode "fazer" para libertar-se é vão, quando desvalorizar concretamente a própria noção de todos os "caminhos" imagináveis, irromperá o "satori", visão real que não tem "caminho" porque não é preciso ir a lugar algum, porque, desde toda a eternidade, estamos no centro único e fundamental de tudo.

Assim, pois, a "libertação", isso a que se dá esse nome e que é o desaparecimento da ilusão da sujeição, sucede cronologicamente a um trabalho interior, mas não é na verdade causada por ele. Esse trabalho interior formal não pode causar aquilo que transcende toda forma e que, por conseguinte, o transcende; ele é apenas o instrumento através do qual age a Causa Primeira.

Em suma, não existem formalmente nem a famosa "porta estreita" nem o "caminho" para o qual ela se abriria, a menos que se queira chamar assim a compreensão de que não há caminho, não há porta, não há lugar algum aonde ir. Eis aí o grande segredo - e, ao mesmo tempo, a grande evidência - que nos revelam os mestres zen.

Hubert Benoit
Do livro "A Doutrina Suprema, segundo o pensamento zen"*

O Zen e a experiência do chute psíquico

Esta experiência específica, sentida como humilhação pela pessoa comum, não provoca a mesma sensação quando vivida pelo iluminado, por não mais haver consciência do "eu" que possa ser afetada. A intensidade com que a humilhação ainda se faz sentir como dor constitui indício da força do ego. Outro aspecto importante é que, para o não-iluminado cuja atitude em relação ao Caminho é sincera, a humilhação pode representar grande auxílio no processo de despertar. Talvez seja esse o verdadeiro significado do Sofrimento: através dele podermos encontrar um Caminho para superar esse Sofrimento e encararmos a Realidade de frente.

O mesmo princípio dos efeitos potencialmente benéficos da humilhação parece-me valer para o significado mais profundo de certos procedimentos estranhos em mosteiros do Zen. É comum lermos a respeito de algum discípulo, em busca da mais alta verdade, ser relegado aos serviços da cozinha ou outras tarefas subalternas; e, talvez, ao se aproximar do Mestre com um pedido de lição, receber como resposta: "Vá lavar os pratos" — ou algo semelhante. Isto pode nos surpreender e parecer um tanto grosseiro — ou até engraçado —, mas de novo temos de nos lembrar que os ensinamentos do Zen regulam-se pelo Não-Ensinar e que só o Mestre tem condições de dizer o que é melhor para cada discípulo em particular. Além do mais, dessa maneira, este pode descobrir que a vida espiritual não está afastada da existência cotidiana, e pode ser alcançada através de uma vida perfeitamente comum e do não-fazer qualquer coisa especial.

Outro costume do Zen que pode deixar bastante intrigados os observadores ocidentais é o do Mestre bater nos discípulos. Neste ponto, porém, devemos admitir que ao tomarmos conhecimento do fato a nossa reação é falseada pelo condicionamento — nossas noções de bem e mal. No Zen, inexistem essas considerações; o único critério é o dos meios para um fim, o upaya do budismo (que significa, aproximadamente, "meio hábil") — sendo o fim, neste caso, representado pelo despertar mais rápido possível do discípulo. O tratamento austero, os trinta golpes, etc., parecem-me ter duplo significado: em primeiro lugar, podem ajudar o discípulo no sentido de fazê-lo conhecer profundamente a sua consciência do "eu" — para que ele, por fim, possa transcendê-la; em segundo lugar, pela reação do discípulo, o Mestre pode avaliar perfeitamente o estado mental do primeiro e o seu progresso em direção ao satori. E não me surpreenderia a existência de um terceiro fator, mais sutil: a possibilidade de um súbito despertar, através de um mecanismo talvez de alguma forma semelhante ao que se aciona ao se esbofetear um histérico para que desperte de seu sonho delirante.

Robert Powell - Zen e Realidade
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill