“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

Qual a relação entre o homem religioso e a sociedade?

Nossos problemas são muito mais profundos e temos necessidade de uma resposta profunda que, acho, encontraremos se examinarmos criteriosamente a questão de se a cultura que temos no presente — cultura envolvendo religião e toda a estrutura moral e social — ajuda o homem a descobrir a realidade. Se a resposta for negativa, então a mera reforma de tal cultura ou civilização não passará de uma perda de tempo; mas se ajudar o homem, no verdadeiro senso, então todos nós devemos empenhar nossos corações nessa reforma. Disso, penso eu, depende a solução do problema.

Por cultura queremos significar todo o problema do pensamento, não é? Para a maioria de nós, pensamento é o resultado de várias formas de condicionamento, de educação, de conformidade, de pressões e influências, às quais estamos sujeitos dentro do arcabouço de uma determinada civilização. Presentemente nosso pensamento é moldado pela sociedade e, a menos que ocorra uma revolução em nossa forma de pensar, a mera reforma de uma cultura ou sociedade superficial a mim parece uma loucura, um fator que apenas desencadeará maior miséria.

Afinal de contas, o que denominamos civilização constitui um processo de educar o pensamento dentro dos moldes hindus, cristãos ou comunistas, e assim por diante. Poderá uma forma de pensar tão educada criar uma revolução fundamental? Acaso qualquer tipo de pressão, de padronização de pensamento trará como consequência a descoberta ou a compreensão do que é a verdade? Claro, o pensamento precisa livrar-se de toda pressão, o que significa, realmente, livrar-se da sociedade, de todas as formas de influência e, assim, descobrir o que é verdade; então, esta mesma verdade tem poder para desenvolver uma ação sua e muito própria que dará origem a uma cultura totalmente diferente.

Isto é, a sociedade existe para descobrir a realidade ou precisamos nos livrar da sociedade para descobrir a realidade? Se a sociedade ajuda o homem a descobrir a realidade, então dado tipo de reforma dentro da sociedade é essencial; mas, se constitui um empecilho a essa descoberta, não deve o indivíduo cortar relações com a sociedade e buscar a verdade? Só a pessoa que é verdadeiramente religiosa o consegue, não o homem que celebra vários rituais ou aquele que vê a vida através de padrões teológicos. Quando o indivíduo se liberta da sociedade e busca a realidade, ele não suscita nessa mesma busca uma diferente cultura?

Acho que essa questão é muito importante porque a maioria de nós está meramente interessada em reformas. Constatamos a pobreza, a superpopulação, todas as formas de desintegração, de divisão e conflito e, vendo tudo isso, que podemos fazer? Começamos por participar de um grupo particular, ou trabalhar por uma ideologia? É essa a função do homem religioso? O homem religioso, sem dúvida, é aquele que busca a realidade e não aquele que lê ou cita a Bíblia, ou que vai todo dia ao templo. Isso, obviamente, não é religiosidade — é meramente compulsão, condicionamento do pensamento pela sociedade. Então, o que o homem justo, o homem que reconhece a necessidade e quer provocar uma imediata revolução deve fazer? Trabalhar em prol dessa reforma dentro da estrutura da sociedade? A sociedade é uma prisão e deverá ele apenas reformar a prisão, decorando suas grades e se esforçando para que as coisas sejam feitas de um modo mais bonito dentro de suas muralhas? Sem dúvida, o homem que é verdadeiramente justo, que é realmente religioso é o único revolucionário; não existe outro e esse homem é aquele que está buscando a realidade, que está tentando descobrir o que é Deus, ou a verdade.

Agora, qual deve ser a atitude desse homem? O que ele deve fazer? Deve atuar em meio à atual sociedade ou romper com ela, não se preocupar em absoluto com a sociedade? Rompimento não significa tornar-se um monge hindu, um eremita, isolando-se graças a peculiares sugestões hipnóticas. E, no entanto, ele não pode ser um reformista, porque constitui um desperdício de energia, de pensamento, de criatividade, o homem justo entregar-se a meras reformas. Então que deve o homem justo fazer? Se ele não tenciona decorar as grades da prisão, remover algumas grades, deixar entrar um pouco mais de luz, se não está absolutamente nisso, mas se também vê a importância de suscitar uma revolução de base, uma mudança radical no relacionamento de homem para homem — relacionamento que deu origem a esta apavorante sociedade em que existem pessoas imensamente ricas e aquelas que não possuem absolutamente nada, tanto interna como externamente — então, o que ele deve fazer? Acho importante fazer esta pergunta a nós mesmos.

Afinal de contas, a cultura se concretiza através da ação da verdade ou cultura é obra do homem? Se é obra do homem, obviamente não o conduzirá para a verdade. E nossa cultura é obra do homem porque se baseia em várias formas de aquisição. Não somente no que se refere a coisas mundanas, mas também às assim ditas espirituais; resulta do desejo de posição sobre todos os aspectos, de auto-engrandecimento e assim por diante. Tal cultura não pode, é claro, conduzir o homem à realização do supremo; e se compreendo isso, que posso, então fazer? O que você faria se compreendesse que a sociedade é uma barreira? Sociedade não significa apenas uma ou duas atividades, mas toda a estrutura do relacionamento humano, na qual toda a criatividade cessou, na qual existe constante imitação; consiste num arcabouço de medo em que a educação é mera conformidade e onde não existe nem um pouquinho de amor, mas simplesmente ação nos moldes de um padrão descrito como amor. Nessa sociedade os principais fatores são reconhecimento e respeitabilidade: é pelo que todos nós lutamos — para sermos reconhecidos. Nossa capacidade, nosso saber precisam ser reconhecidos pela sociedade para que sejamos ser alguém. Quando ele compreende tudo isso e vê a pobreza, a tremenda fome, a fragmentação da mente em diversas formas de crenças, o que o homem justo deve fazer?

Se realmente ouvimos o que se diz, ouvimos no sentido de querer descobrir a verdade, de forma que inexista o conflito de sua opinião contra a minha opinião ou de seu temperamento contra o meu, se podemos colocar tudo isso de lado e tentarmos descobrir o que é a verdade — o que requer amor — penso que nesse verdadeiro amor, nesse sentimento de bondade, encontramos a verdade que criará uma nova cultura. Então estaremos livres da sociedade, não mais preocupados com a reforma da sociedade. Mas a descoberta da verdade demanda amor e nossos corações estão vazios, pois estão repletos de coisas da sociedade. Estando repletos, tentamos reforma-la e nossa reforma não traz em si o perfume do amor.

Jiddu Krishnamurti — Sobre Deus

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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill