“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

O que acontece quando não fazemos esforço para fugir?

Para a maioria de nós a vida se baseia no esforço, em algum tipo de vontade. Não é possível imaginar uma ação sem vontade, sem esforço. A vida social, a econômica e a que chamam espiritual são uma série de esforços que sempre produzem um certo resultado. E, assim, pensamos que o esforço é necessário, imprescindível.

Por que fazemos esforço? Falando simplesmente, não é porque queremos alcançar algum resultado, uma meta, nos tornarmos alguma coisa? Se não fazemos esforço, achamos que estamos estagnados. Formamos uma ideia a respeito do objetivo pelo qual estamos constantemente lutando, e essa luta torna-se parte de nossa vida. Se queremos nos modificar, efetuar uma mudança radical em nós mesmos, fazemos um tremendo esforço para eliminar antigos hábitos, para resistir às habituais influências do meio, e assim por diante. Então, estamos acostumados a essa série de esforços para encontrarmos ou realizarmos alguma coisa, enfim, para viver.

Todo esse esforço não é atividade do eu? Não é uma atividade egocêntrica? Se fizermos um esforço a partir do eu, isso inevitavelmente produzirá mais conflito, mais confusão, mais infortúnio. No entanto, continuamos a fazer esforço após esforço. Poucos de nós compreendem que a atividade egocêntrica do esforço não soluciona nenhum dos nossos problemas. Ao contrário, ela aumenta a nossa confusão e infelicidade. Sabemos disso, mas continuamos a achar que podemos progredir por meio dessa atividade egocêntrica do eu, dessa ação da vontade.

Penso que entenderemos o significado da vida se compreendermos o que significa fazer esforço. A felicidade vem por meio do esforço? Você já tentou ser feliz esforçando-se? Isso é impossível, não é? Você luta para ser feliz, e a felicidade não vem. A alegria não vem por meio da opressão, do controle, nem da complacência. Você pode ser complacente, mas o que encontra no fim é amargura. Pode oprimir ou controlar, mas nisso também há sempre conflito. Assim, a felicidade não vem pelo esforço, nem a alegria por meio da opressão e controle, mas, apesar disso, nossa vida é uma sequencia de atos repressores, controladores e de lamentável complacência. Há também um constante processo de superação, de luta contra as nossas paixões, contra a nossa ganância e estupidez. Não lutamos, então, não nos esforçamos, na esperança de encontrar a felicidade, de encontrar alguma coisa que nos dê um senso de paz e de amor?  Mas amor e compreensão vem pela luta? Penso que é muito importante esclarecermos o que entendemos por luta ou esforço.

Esforço não significa uma luta para transformar o que é no que não é, ou no que deveria ser? Estamos constantemente lutando para não encarar o que é, ou tentando fugir dele ou modifica-lo. Um homem que se sente verdadeiramente contente é aquele que compreende o que é e lhe dá o significado correto. O verdadeiro contentamento é esse, é não estar preocupado por ter poucas ou muitas posses, é compreender o total significado do que é. E isso só pode acontecer quando reconhecemos o que é, quando o percebemos, não quando estamos tentando modifica-lo.

Assim, vemos que o esforço é uma tentativa, uma luta, para transformar aquilo que é em algo que desejamos que seja. Estou falando apenas de luta psicológica, não da luta com uma situação física, como na engenharia, numa descoberta ou numa transformação, pois isso é puramente técnico. Só estou falando da luta psicológica, que sempre supera a da técnica. Pode-se construir uma sociedade maravilhosa usando o infinito conhecimento que a ciência nos dá. Mas enquanto o esforço e a luta psicológicos não forem compreendidos, as nuances e as tendências psicológicas não forem superadas, a estrutura da sociedade, apesar de maravilhosamente construída, correrá o risco de ruir, o que tem acontecido repetidas vezes.

O esforço desvia a nossa atenção do que é. No momento em que aceitamos o que é, a luta termina. Qualquer forma de luta ou conflito indica desvio, e esse desvio, que é esforço, obrigatoriamente existe quando nós, psicologicamente, desejamos transformar o que é em algo que não é.

Primeiro, precisamos ser livres para ver que a alegria e a felicidade não vêm por meio do esforço. A criação se dá por meio do esforço, ou apenas quando ele cessa? Quando é que criamos? Sem dúvida, quando não há esforço, quando estamos completamente abertos, quando, em todos os níveis, estamos completamente integrados. Então há alegria, e começamos a cantar, ou escrever uma poesia, ou pintar, ou criar alguma coisa. O momento da criação não nasce da luta.

Talvez, se compreendermos a questão da criatividade, possamos compreender o que queremos dizer com “esforço”. A criatividade resulta do esforço? Estamos cônscios de nós mesmos quando estamos sendo criativos?

Ou a criatividade é um senso total de esquecimento de nós mesmos, um estado que não há tumulto algum, em que estamos inteiramente inconscientes do movimento do pensamento e há apenas um rico senso de plenitude do ser? Esse estado é fruto de trabalho árduo, de luta, de conflito, de esforço? Não sei se você alguma vez notou que, quando faz algo com facilidade, rapidamente, não há esforço; ao contrário, há uma completa ausência de luta. Mas como a nossa vida é quase sempre uma série de batalhas, conflitos e esforços, não conseguimos nos imaginar vivendo um estado de ser em que toda luta cessou completamente.
Para que se entenda esse estado de ser sem luta, esse estado de existência criativa, é preciso analisar o problema do esforço. Por “esforço” queremos dizer a luta pela realização pessoal, pela satisfação do desejo de ser alguém, não é? Eu sou isto, quero ser aquilo. Não sou aquilo e quero ser. Querer ser “aquilo” gera luta, conflitos, batalhas. Nessa luta, invariavelmente nos preocupamos com nossa realização relativa a alcançar um certo fim. Buscamos realização pessoal em um objeto, uma pessoa, uma ideia, e isso exige batalha constante, exige que nos esforcemos para nos tornarmos alguma coisa, para nos sentirmos realizados. Então, consideramos esse esforço inevitável, e eu me pergunto se essa luta para nos tornarmos alguma coisa é inevitável. Qual o motivo dessa luta? Onde há o desejo de realização, em qualquer grau, a luta. Realização é o motivo, o impulso por trás do esforço e, seja um grande executivo, uma dona de casa, ou um homem pobre, todos estão batalhando para para ser alguma coisa, para se sentirem realizados.

Bem, por que existe esse desejo de autorrealização? É um desejo, obviamente, que surge quando a pessoa acha que não é nada. Como eu não sou nada, como sou insuficiente, vazio, pobre internamente, luto para me tornar alguma coisa, por dentro e por fora, luto para me realizar por intermédio de uma pessoa, uma coisa, ou uma ideia. Preencher esse vazio é todo o processo de nossa existência. Ao percebermos que estamos vazios, pobres por dentro, lutamos para conquistar coisas exteriores, ou cultivarmos a riqueza interior. Existe esforço apenas quando há uma fuga desse vazio interior, por meio de contemplação, aquisição, realização, poder, e por aí adiante. Essa é a nossa existência diária. Estou cônscio de minha insuficiência, dessa minha pobreza interior, e luto para fugir disso, preencher esse vazio. Essa fuga, ou essa tentativa de preencher o vazio, causa luta, conflito, esforço.

O que acontece quando não fazemos esforço para fugir? Vivemos com essa solidão, com esse vazio, e, ao aceitarmos isso, vemos surgir um estado criativo, que não tem nada a ver com luta, com esforço. Existe esforço apenas enquanto tentamos evitar a solidão interior, mas quando a examinamos, quando aceitamos o que é, sem tentar evita-lo, alcançamos um estado de ser em que toda luta cessou. Esse estado de ser é criatividade, e não resulta de esforço.

Quando compreendemos o que é, ou seja, o vazio, a insuficiência interior, e vivemos com essa insuficiência e a compreendemos completamente, encontramos a realidade criativa — a inteligência criativa —, que, por si só, traz felicidade.

Assim, a ação, como a conhecemos na verdade é reação, uma transformação incessante, e isso é negação do que é. Mas quando há uma conscientização do vazio, sem condenação ou justificativa, com compreensão do que é, então, sim, a ação é criatividade. Você compreenderá isso se estiver cônscio de si mesmo, quando em ação. Observe-se quando estiver agindo, veja a si mesmo não apenas externamente, mas procure perceber também o movimento de seus pensamentos e sentimentos. Quando perceber esse movimento, verá que o processo do pensamento, que também é de sentimento e ação, baseia-se em uma ideia de transformação. Essa ideia surge apenas quando há um senso de insegurança, e esse senso vem quando se está cônscio do vazio interior. Se você estiver cônscio desse processo de pensamento e sentimento, verá que há uma batalha em constante andamento, um esforço para mudar, alterar o que é. Esse é o esforço de transformação, e transformar é evitar diretamente o que é. Por meio do autoconhecimento, da constante conscientização de si mesmo, você descobrirá que a luta pela transformação leva à dor, ao sofrimento e à ignorância. Só quando estiver cônscio de sua insuficiência interior e viver com ela, sem tentar fugir, aceitando-a integralmente, é que você descobrirá uma maravilhosa tranquilidade, uma tranquilidade que não é fabricada, não é construída, mas que vem com a compreensão do que é. E é só nesse estado de tranquilidade que pode haver existência criativa.

Krishnamurti
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill