“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Uma vida pautada na simplicidade voluntária, livre de condicionamentos

Simplicidade significa não ter conflitos, não arder de desejos, não ter ambição. Você vê, queremos sempre a demonstração externa da simplicidade, enquanto internamente estamos fervendo, ardendo e destruindo. E você pergunta: “Por que ocorre isso?”(1)

Como dissemos, simplicidade implica honestidade, de tal forma que não haja contradição em si mesmo. E quando há tal estado de mente, há simplicidade real.(2)

Simplicidade é ação sem idéia. Mas isso é raríssimo; significa ação criadora. (…) A simplicidade não pode ser cultivada nem experimentada. Ela vem - como a flor que desabrocha - no momento oportuno; (…) Porque nunca pensamos a respeito, (…) nunca a observamos (…) damos valor às exteriorizações de poucas posses, mas isso não é simplicidade (…) Só vem à existência quando não mais existe o ” eu”, quando a mente não está toda entregue a especulações, conclusões, crenças, ideações. (…) Só a mente que é livre, pode achar a verdade. Só essa mente pode receber o imensurável, o inefável. E aí está a simplicidade.(3)

Sem dúvida, precisamos começar pelo lado psicológico para descobrir o que é vida simples, pois é o interior que cria o exterior. É a insuficiência interior que faz as pessoas se apegarem a seus haveres e suas crenças; é esse sentimento de insuficiência interior que nos força a acumular bens, roupas, saber, virtude.(4)

Só quando a mente é simples e vulnerável, é possível ver as coisas claramente, em suas exatas proporções. Assim, a simplicidade da mente é essencial à simplicidade da vida. O mosteiro não constitui solução. Surge a simplicidade quando a mente não tem apego, (…) não está adquirindo, (…) aceita o que é. Isso significa estar livre do background, do conhecido, da experiência adquirida. Só então a mente é simples, e só então é possível ser livre.(5)

E pensamos que vida simples significa usar tanga e alimentar-se uma vez ao dia; (…) Interiormente, o indivíduo pode estar (…) em concupiscência, na ânsia de dominar, de poder, de ser considerado personalidade popular, de ser saudado como um “grande homem”.(6)

A verdadeira simplicidade não é austeridade disciplinada, (…) A simplicidade implica uma mente capaz de estar só, (…) não depende de nenhuma exterioridade. E só a mente interiormente simples é capaz de estar só; só a mente simples, religiosa, é capaz de ver a beleza.(7)

Simplicidade não é mera ostentação exterior. O ajustamento a um padrão de simplicidade é exibicionismo; confere respeitabilidade ao homem que se cobre com uma tanga. Ser saniasi é uma forma burguesa de respeitabilidade. Mas, o santo nunca conhecerá a simplicidade, porque não é simples; vive numa batalha perpétua, consigo mesmo.(8)

Simplicidade, para a mente, é estar livre de crença, da luta pelo “vir-a-ser”, é permanecer com “o que é”. E a mente que está atravancada de crenças, de lutas, de esforços, no empenho de alcançar a virtude, (…) não é simples.(9)

Só existe simplicidade quando não existe desejo de ser algo (…) por que aí o “eu” está ausente, (…) Se esse “eu” está de todo ausente, há então simplicidade, a qual se expressa no mundo da ação.(10)

Ser simples não é uma conclusão, um conceito intelectual pelo qual lutamos. Só pode existir simplicidade quando cessa o “ego” e suas acumulações.(11)

Ser sensível interiormente requer muita simplicidade, que não significa andar de tanga, ou possuir poucas roupas, ou não ter carro; mas a simplicidade em que o “eu” e o “meu” perderam toda a importância, não há o sentimento de posse; não mais existe “aquele que faz esforço”.(12)

Vemos, pois, que a simplicidade do pensar não resulta de acumulação de conhecimentos. Pelo contrário, quanto mais sabemos, tanto menos simples é a nossa mente; e a mente tem de ser (…) simples, para compreender o que é.(13)

Simplicidade é compreensão do que é. E só há compreensão do que é quando a mente desistiu de lutar contra o que é, (…) de moldá-lo de acordo com suas fantasias. Na compreensão do que é, revelam-se-nos os movimentos do “eu”, do “ego”; e isso, certamente, é o começo do autoconhecimento.(14)

É sempre difícil manter-me simples e claro. O mundo adora o sucesso, quanto maior, melhor; quanto maior a audiência, maior o orador; os edifícios colossais, os carros, os aviões, e as pessoas. A simplicidade se perdeu. As pessoas de sucesso não são as que estão construindo um mundo novo. Ser um revolucionário real requer uma mudança completa de coração e mente, e tão poucos querem se libertar. A pessoa corta as raízes superficiais; mas para cortar as profundas raízes que alimentam a mediocridade, o sucesso, é preciso algo mais que palavras, métodos, compulsões. Parece que esses revolucionários são poucos, mas eles são os construtores reais - o resto trabalha em vão.(15)

Uma das coisas mais difíceis no mundo é olhar algo com simplicidade. Porque nossas mentes são muito complexas, nós perdemos esta qualidade da simplicidade. Eu não falo aqui em simplicidade no vestir ou no comer, usar somente uma muda de roupa ou quebrar o recorde de jejum ou qualquer outra tolice imatura que os santos cultivam, mas a simplicidade que pode olhar para as coisas diretamente sem medo – que pode olhar para nós mesmos como nós na realidade somos, sem qualquer distorção – dizer quando nós mentimos que nós mentimos, não esconder nem fugir disto. Simplicidade que pode olhar diretamente para as coisas.(16)

O homem sempre procurou superar esta coisa extraordinária chamada sofrimento, dor, miséria, mas, e mesmo quando está superficialmente feliz quando têm tudo o que quer, no fundo do inconsciente existe ainda as raízes do sofrimento. Portanto, quando falamos sobre o fim do sofrimento, significa o fim de todo sofrimento tanto consciente como inconsciente. Para terminar com o sofrimento é preciso ter a mente muito clara e muito simples. Simplicidade não é uma mera idéia. Para ser simples exige uma grande dose de inteligência e sensibilidade.(17)

Textos de Krishnamurti, extraídos de: Seleta de Krishnamurti
Fontes das citações:

(1) Talks and Discussions at Brockwood Park, 1969, pág. 36
(2) Talks and Discussions at Brockwood Park, 1969, pág. 37
(3) A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 266
(4) Nosso Único Problema, pág. 67
(5) Nosso Único Problema, pág. 68
(6) Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 87
(7) Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 87
(8) A Suprema Realização, pág. 74
(9) Nós Somos o Problema, pág. 97
(10) Nós Somos o Problema, pág. 97
(11) O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 249
(12) A Conquista da Serenidade, pág. 41
(13) Percepção Criadora, pág. 104-105
(14) Percepção Criadora, pág. 105-106
(15) Cartas a uma jovem amiga
(16) Freedom from the Known
(17) O Livro da Vida
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)