“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

A mente Séria



COMO vamos realizar dez palestras, conviria estabelecermos, já na primeira, uma base correta, não só verbalmente, mas também, se possível, de uma maneira diferente e mais significativa. Essa maneira diferente exigirá de todos nós ativa cooperação, e não simples e passiva audição do que se está dizendo - pois isso, em verdade, pouco significa. Mas se, ao mesmo tempo que estivermos escutando, tratarmos de examinar, refletida e seriamente, nosso próprio coração e mente e de fixar, em nós mesmos, as bases corretas, serão então verdadeiramente significativas estas reuniões.
Desejo agora, se me permitis, explicar o que entendo pela palavra "sério". Em geral, pensamos ser "sérios", isto é, dispostos a um exame refletido dos problemas da vida - e até certo ponto o somos, pois do contrário não estaríamos aqui. Despendestes grande soma de dinheiro, de energia e de tempo, sujeitando-vos aos incômodos de uma viagem, para virdes aqui; portanto, em certo grau, deveis ser sérios. Mas, tratemos de averiguar juntos o que entendemos por essa palavra.
A mente vulgar, superficial, pode também tornar-se muito "séria"; mas, quando se torna "séria", torna-se também algo absurda. Não sei se já notastes como as pessoas de mente vazia se mostram, freqüentemente, muito sérias. São muito loquazes, tomam ares importantes, e para essa mente tudo se torna um problema que cumpre estudar, analisar, penetrar; entretanto, continua a ser uma mente muito pouco profunda. E há, também, a mente muito lida, muito hábil no argumentar, no analisar, capaz de aduzir citações, extraídas de seu vasto reservatório de conhecimentos. Como muito bem sabeis, esse tipo de mente é solerte, incisivo, hábil, mas eu não a chamaria uma mente séria, como assim não o chamaria à mente superficial que quer mostrar-se séria. E há, ainda, a mente sentimental, emotiva, que facilmente se apaixona e se deixa levar a um sentimento de superficial qualidade, chamado "devoção"; mas essa mente, para mim, também não é séria.
Por mente séria entendo aquela que é profundamente religiosa. A mente religiosa pode ser intelectual, ser capaz de argumentar, de discutir, mas suas bases se acham num nível completamente diferente. A mente religiosa não pertence a nenhuma sociedade, grupo ou religião organizada, em particular. Os componentes de tais grupos não são sérios, em absoluto, ainda que se tornem monges e freiras, ainda que freqüentem a igreja todos os dias ou três vezes ao dia, ou o que quer que façam. Não quero parecer dogmático ou intolerante, mas ireis perceber, ao prosseguirmos, quanto é necessário, urgente, termos uma mente que não esteja simplesmente a buscar; porque a mente que busca está sempre em conflito. Apreciarei toda esta matéria no decorrer destas dez palestras.
O importante é termos uma mente que tenta - ou, pensando melhor, prefiro não empregar a palavra "tentar", que é uma palavra burguesa, se assim me posso expressar, sem denotar condenação. Não dou à palavra "burguês o sentido que lhe dão os comunistas. Quero apenas indicar que é uma mente vulgar, embotada, aquela que diz "tentarei". Seriedade não é questão de tentar, é questão de ser.
Chamo séria à pessoa que está constantemente olhando, observando, atenta a si própria e a outros, observando seus próprios gestos, palavras, sua maneira de falar, sua maneira de andar; e que está também atenta às coisas que a cercam, às pressões, às tensões, à influência do ambiente, da "cultura" em que se criou, e à totalidade de seu próprio condicionamento. A mente da pessoa que está totalmente atenta, eu chamo mente séria. Só essa mente é capaz de exame refletido, de dedicar sua energia a descobrir algo além das coisas construídas pelo homem - algo que se possa chamar Deus, ou como quiserdes.
Assim, eu sinto ser absolutamente necessário nos conservarmos verdadeiramente sérios durante estas três semanas, se queremos alcançar uma compreensão das coisas que vamos examinar. Como disse, em geral pensamos ser sérios; mas, a meu ver, qualidade que consideramos como seriedade deve ser radicalmente modificada, porque, no sentido em que estou empregando a palavra, nós não somos sérios. Muitos dentre vós me têm ouvido falar repetidas vezes - feliz ou infelizmente - nestes últimos quarenta anos e, se deveras fossem sérios, se teriam transformado completamente. E o mundo tem necessidade de tal transformação, de total mutação da mente. Mas essa mutação não pode ocorrer mediante uma certa prática deliberada, ou pelo aderir a um dado conjunto de sutis idéias teológicas ou práticas. A transformação a que me refiro não se produz por meio de idéia - sendo "idéia" uma conclusão "racionalizada", lógica, um sistema de palavras e pensamentos, convenientemente organizados. Por mais que possamos organizar o pensamento e atuar em conformidade com ele, por meio desse pensamento e desse atuar não é possível a mutação. Trata-se de coisa toda diferente, de uma qualidade completamente diversa; é a esse respeito que vou falar nesta série de reuniões.
Ora, uma das perguntas mais importantes que devemos fazer a nós mesmos é esta: até onde, até que profundidade pode a mente penetrar em si mesma? Esta é a qualidade de seriedade a que me refiro, porquanto implica que estamos atentos a toda a estrutura de nosso próprio ser psicológico, como seus impulsos e "compulsões"(1), seu desejo de preenchimento e conseqüentes frustrações, suas angústias, tensões e ansiedades, suas lutas, e pesares, e inumeráveis problemas. A mente que está perpetuamente às voltas com problemas não é, de modo nenhum, uma mente séria; mas a mente que compreende cada problema que surge e imediatamente o dissolve, para que não seja "transportado" para o dia seguinte, essa é a mente séria.
Mas, por infelicidade, nós somos educados erroneamente. Nunca nos mostramos verdadeiramente sérios, a não ser quando se apresenta uma crise, uma exigência tremenda, ou quando recebemos um golpe terrível. Então, tentamos tornar-nos sérios, fazer alguma coisa - porém tarde demais. Crede-me, senhores, por favor: isto não é sarcasmo de minha parte; estou apenas apontando-vos fatos.
Em que está interessada a maioria de nós? Se temos dinheiro, voltamo-nos para as chamadas "coisas espirituais", ou buscamos entretenimento intelectual, ou discutimos sobre arte, ou damos para pintar, a fim de expressarmos nossa personalidade. Se não temos dinheiro, a maior parte de nosso tempo se consome, dia após dia, em ganhá-lo, e ficamos presos nessa rede de aflição, de interminável rotina e tédio. Em grande parte, somos preparados para funcionar mecanicamente, numa certa ocupação, entra ano e sai ano. Temos responsabilidades, mulher e filhos para sustentar e, vendo-nos completamente embaraçados nas redes deste mundo insano, tentamos tornar-nos sérios, tornar-nos religiosos; freqüentamos a igreja, ingressamos nesta ou naquela organização - ou, talvez, ouvindo falar a respeito destas reuniões, e estando em férias, vimos ter aqui. Mas nada disso poderá realizar aquela extraordinária transformação da mente.
O mundo se acha num estado de crise, e observa-se desintegração, degeneração. Vemo-nos arrastados por essa onda de degeneração e parecemos totalmente incapazes de mover-nos para fora dela. Pois bem, para que estas palestras tenham algum valor, alguma significação, temos de averiguar o que é necessário fazer, para sairmos desta onda de degeneração. Em maioria, estamos envelhecendo; aqueles que, feliz ou infelizmente, me têm escutado nestes últimos trinta ou quarenta anos, estão evidentemente muito mais velhos do que estavam quando começaram a ouvir-me. Fisicamente, degeneraram e, mentalmente... bem, eles próprios sabem melhor do que eu se degeneraram. E durante estas palestras e subseqüentes perguntas e respostas, iremos tratar de descobrir por nós mesmos, sem nenhuma sombra de dúvida, aquela extraordinária energia que surge espontânea e que, natural e inevitavelmente, nos impelirá para fora da onda de degenerescência. Isso não quer dizer que iremos rejuvenescer, fisicamente - esta é uma "daquelas" idéias absurdas, fantásticas, românticas. Eu me refiro a um estado mental interior que não degenera.
Vem a degeneração sempre que há conflito de alguma espécie, e é o conflito o que faz de vós isso que comumente se chama "um indivíduo". Pelo conflito, desenvolve-se o caráter e, como dentro da estrutura psicológica da atual sociedade sempre há conflito, temos de ter caráter. Vede: caráter significa resistência. Para abandonar o mundo e tornar-se monge, um homem necessita de caráter. Mas, não estamos falando a respeito de caráter, coisa relativamente fácil de adquirir. Estamos falando a respeito da mente que está completamente livre de conflito; pois só essa mente - a mente totalmente livre de toda espécie de conflito, consciente e inconsciente - nenhum problema tem. Se algum problema surge, ela é capaz de enfrentá-lo e de dissolvê-lo imediatamente. Essa mente é individual, no genuíno sentido da palavra; é única. E parece-me sobremodo importante que sejamos indivíduos assim; mas, não o somos.
Falando de individualidade, refiro-me à mente que está de todo só. Ainda que tenha passado por mil experiências, ainda que haja tido mil memórias, vivido mil anos, essa mente olhou a si própria, frente a frente, e já não é escrava da estrutura psicológica da sociedade. Ela está só - o que não significa estar isolada. Há enorme diferença entre esses dois estados. A mente que se isola torna-se neurótica. A mente isolada identificou-se com determinada idéia ou crença, isto é, com uma certa forma de conforto psicológico; e, quanto mais assim se isola, tanto mais espera ficar livre de conflito. Mas, o próprio processo de isolamento é conflito, é resistência. Examinaremos tudo isso enquanto formos prosseguindo; agora, porém, estamos falando a respeito da mente que se individualizou, pelo percebimento de seu próprio "processo", pela compreensão da estrutura, da psique própria, tanto consciente como inconsciente. É possível ultrapassar o inconsciente; mas este não é o momento oportuno para entrarmos em minúcias sobre a natureza do inconsciente e sobre a maneira de ultrapassá-lo. O que nesta manhã nos interessa é estabelecer as bases para nossa ulterior investigação.
Ora, só a mente que está completamente só pode achar a realidade. E existe uma realidade - não uma realidade teórica, não uma certa coisa inventada pelos cristãos ou pelos hinduístas ou experimentada por uns poucos santos, conforme o peculiar condicionamento de cada um, porém uma realidade, uma imensidade que só pode ser descoberta pela mente que percebeu seus próprios movimentos e compreendeu a si própria.
É maravilhoso uma pessoa descobrir por si mesma o que significa compreender uma coisa imediatamente, sem necessidade de palavreados; ver um fato como fato, completamente, sem argumentação. Desse ato de perceber pode-se passar à argüição, à discussão, ao exame das minúcias; mas é necessário ter, primeiramente, essa extraordinária intensidade de percebimento - percebimento sem pensamento - que produz a transformação. Isso poderá parecer um tanto absurdo, mas não o é, como vereis quando mais tarde o examinarmos.
Olhamos para as coisas, escutamo-las, tal como agora estamos fazendo. O que escutamos são apenas palavras, e estas produzem certas reações, conscientes ou inconscientes; e estas reações interpretam o que escutais. Vós já sabeis a respeito de que o orador está falando, pois o vindes escutando há trinta anos; ou, também, tendes lido muito, não só sobre o assunto de que está tratando o orador, senão também sobre outros mais. Nesse fundo em vós existente, as palavras provocam uma reação, e essa reação vos impede o escutar, vos impede o ver. Não sei se alguma vez já observastes, ao verdes subitamente algo muito belo - uma montanha majestosa, um rio de águas rápidas, ou um lindo sorriso de criança - não sei se já observastes de que maneira olhais isso, de que maneira o vedes. No primeiro momento da percepção, nenhum pensamento existe - trata-se de algo tão maravilhoso, que não há palavras que o expressem. Mas, um segundo após, entra em ação a verbalização, e começais a interpretar, a traduzir, a recorrer à memória. Essa ação impede o ver, impede o escutar.
Pois bem: Mesmo que já me tenhais ouvido muitas vezes, não podemos, no prosseguimento destas palestras, três vezes por semana, descobrir, por nós mesmos o que é esse ato de ver, esse ato de escutar? Se pudermos fazê-lo, tudo o mais virá por si, porque o próprio ato de ver produz transformação. Mas, para ver, para escutar, deve a mente estar completa e espontaneamente quieta - sem ter sido forçada, disciplinada para a quietude. Só a mente verdadeiramente quieta pode escutar, pode ver, e não aquela que tem uma infinidade de problemas. Ao perceber a mente que não pode ver, por causa de seus numerosos problemas, esse reconhecimento da própria incapacidade de ver dá origem ao ato de ver.
Tudo isso requer excepcional atenção. Quando sois capaz de atenção completa, não-dividida - não apenas atenção intelectual ou verbal - capaz de estar atento com todo o vosso ser - corpo, mente, emoção - vos achais, então, num estado de suprema sensibilidade. Só então é a mente virtuosa.
Escutai isto, por favor: O homem que luta para alcançar a virtude não é virtuoso. O homem que luta para ser bom, generoso, não é bom nem generoso, porque a bondade, a generosidade, ou amor, só vem quando a mente se acha tão completamente atenta, que nenhum conflito tem.
Espero que venhamos a compreender todas essas coisas no decorrer destas três semanas, à medida que formos avançando. Talvez desejeis fazer agora perguntas atinentes ao que estivemos dizendo, e possamos examinar algumas delas.

PERGUNTA: A deterioração mental que se está processando em cada um de nós não resulta de distração?
KRISHNAMURTI: Ora, senhor, por que razão somos distraídos? E porque não devemos ser distraídos? Enquanto vos falo, é distração escutar aquela corrente, escutar os pássaros, ver as folhas reluzindo ao sol? Isso, por certo, só se torna distração, se desejais afastar tudo mais para o lado, a fim de vos concentrardes no que estou dizendo. Distração denota conflito, não achais? Desejais prestar atenção ao que estou dizendo, mas a mente se desvia para o pássaro, o rio, o trem, a folha. Resistis a essas fugas da mente, desejais detê-las, obrigar a mente a voltar e, daí, por conseguinte, resulta distração, conflito. Mas, se, ao contrário, puderdes escutar ao mesmo tempo a corrente e o que se está dizendo, não há distração, não há contradição. Porque estais atento, não estais lutando contra a distração. No momento em que se luta contra a distração, há conflito e, por conseguinte, deterioração.
Assim, para a mente que está atenta não há distração. Experimentai o que estou dizendo. Escutai a corrente, ficai cônscio do pássaro que canta, notai aquela folha - se a estais vendo como eu a vejo, daqui - reluzindo ao sol, vede todas estas pessoas aqui presentes, vestidas de diferentes cores, olhando em direções várias, escutando em diferentes posturas, e não vos irriteis com a importunação destas moscas. Vereis então que não haverá distração alguma, e a mente estará, por conseguinte, sobremaneira vigilante. Mas a mente que está sempre a lutar contra a distração, porque deseja concentrar-se numa dada coisa, acha-se em conflito e, por conseguinte, num estado de deterioração.
PERGUNTA: É possível o cérebro ficar quieto, alguma vez?
KRISHNAMURTI: Este é com efeito um problema tremendo, uma vez que o cérebro é produto do tempo; ele vem à existência pela associação, por meio de reações nervosas, e acumulou durante séculos um cabedal de memória ou conhecimento instintivo, mediante o qual reage. Isto é um fato, e não uma explicação pessoal de cunho especulativo. O cérebro humano desenvolveu-se, do macaco ao homem primitivo e deste ao homem civilizado. Aprendeu, acumulou vastíssima experiência. Sabe quando há perigo, busca o prazer e procura evitar a dor. Tem inumeráveis desejos, ambições, impulsos, exigências, todos a solicitá-lo em diferentes direções.
Ora bem, em vista de tudo isso, a questão é se é possível ao cérebro - que acumulou tão extraordinária soma de experiência, na forma de memória, e que, neurologicamente é sensível, está sempre à escuta, observando, sentindo, interpretando - se é possível ao cérebro, em tais condições, ficar completamente quieto. Pode ele manter-se ativo, sensível, e ao mesmo tempo completamente tranqüilo? Digo que pode, não teoricamente, porém de fato; e é só então que a mente, o cérebro, é capaz de meditação. O ato da meditação é uma coisa maravilhosa - mas não tratarei disto nesta manhã.
O interrogante, pois, deseja saber se é possível ao cérebro tornar-se quieto - esse cérebro tão altamente desenvolvido, com seu enorme cabedal de memória, mediante o qual está constantemente reagindo. Sendo produto de associação, experiência, de memória, resultado do tempo, pode, em algum tempo, o cérebro ficar quieto? A maioria das pessoas se acha em conflito, dividida por inumeráveis desejos: desejo de preencher-se, pintando, escrevendo, fazendo isto ou aquilo. Desejam tornar-se conhecidas, tornar-se alguém, neste mundo monstruoso e estúpido. E, nessas condições, pode o cérebro - que tanto é o consciente como o inconsciente - ficar totalmente silencioso? Se pode, de que maneira poderá saltar de um estado para o outro? Iremos examinando esse problema enquanto formos prosseguindo.
PERGUNTA: Quando olhamos uma flor, em conseqüência da associação e da memória, lhe damos nome imediatamente, dizemos que é uma rosa ou uma violeta. Dado que esta verbalização é instantânea, que se pode fazer a esse respeito?
KRISHNAMURTI: Entendestes a pergunta? Por favor, não penseis que estou fazendo pouco de vós; mas entendestes, todos, esta pergunta? Sim? Muito bem. Ora, isso também não acontece convosco? Quando olhais uma flor, não dizeis imediatamente que é uma violeta, que é isto ou aquilo? Quando olhais para uma mulher, um homem, um amigo, não dizeis que é fulano de tal? E quando se verifica esse processo de dar nome, ele vos impede de escutar com uma mente fresca o que essa pessoa está dizendo; ou, não estais verdadeiramente olhando a flor, porque vossa mente se prendeu a uma palavra, com todas as respectivas associações, provindas do passado. Assim, que sucede realmente? Vamos analisá-lo rapidamente, e vereis o que sucede.
Ao verdes uma certa flor, vossa reação imediata é dizer que é um narciso, porque, por efeito do tempo e da instrução que recebestes, tal flor está associada em vossa mente à palavra "narciso", de modo que vossa memória reage prontamente com esse termo. Assim, que aconteceu? Destes nome à coisa que vedes, dizeis que é um narciso; e, com lhe dardes nome, fixastes mais ainda, em vossa memória, essa imagem, com todas as suas associações. Esse processo de dar nome vos impede de olhar a flor "não botanicamente", isto é, sem vosso cabedal de conhecimentos botânicos. Compreendeis?
Ora, é possível olhar sem dar nome? Podemos olhar para outro ser humano, sem denominá-lo alemão, russo, comunista, capitalista, hinduísta, negro, isto ou aquilo? Por certo, para podermos olhar sem dar nome, temos de estar livres das palavras. Vossa mente é escrava das palavras, porque sem elas não podeis pensar. Para qualquer espécie de comunicação, tendes de empregar palavras, e cada palavra tem suas associações, suas nuanças de sentido. Mas, sois incapaz de esquecer a palavra e olhar. Deveis perceber a existência, em vós mesmo, desse extraordinário processo de dar nome, de associar; deveis perceber o desmedido valor que damos às palavras, em conseqüência de nossa educação e de nossa memória. O perceber, em sua inteireza, esse processo, e dele libertar-se, requer extraordinária vigilância. Se o tentardes - "tentardes" não, se o fizerdes, tereis a possibilidade de descobrir. Não tem sentido "tentar uma coisa". Ou a fazemos, ou não a fazemos.
PERGUNTA: Ao percebermos uma árvore ou uma flor, há geralmente dois estados mentais, um subseqüente ao outro. Por uns segundos não estamos cônscios de estar olhando, estamos simplesmente olhando; mas, um momento após, começamos a traduzir o que vemos em conformidade com nossas idéias estabelecidas, queremos verificar se pode ser fotografada, etc.
KRISHNAMURTI: Exatamente, senhor. Olhais aquela montanha, imensa, majestosa, e a própria beleza dela apaga a vossa consciência, torna-a quieta por um segundo. Depois, recuperando-vos do choque, começa a funcionar todo o "processo" da memória.
Esta pergunta exige muito exame. Nos primeiros segundos a consciência está quieta, como resultado de uma influência: a beleza da árvore, da montanha, vos empolgou, tornando-vos quieto. Mas, esta é a verdadeira quietude? Não é um "processo" que se está verificando continuamente, no mundo? Se ides à igreja assistir à missa, a beleza, o aparato dessa cerimônia vos comunica um extraordinário sentimento de fervor, de temor, inspiração, e vos tornais quieto. Mas isso não é um "processo" de narcotização da mente? Segui, por favor, o que estou dizendo.
Se algo de externo, por influência de sua beleza, de sua majestade, de sua pompa, força a mente a quietar-se, está vigilante esta mente? Ou a mente vigilante é aquela que já se acha em silêncio ao ver a montanha; ou que, não tendo sido silenciada pela beleza do que vê, não se envolve em verbalização? Essa mente observa sem dar nome, acha-se permanentemente num estado de silêncio - mas, não quero empregar esta palavra, "permanentemente", porque podeis compreendê-la mal. Pois é isso o que desejais - quereis conquistar tal estado, para nele ficardes permanentemente - o quê é pura infantilidade.
Vede primeiro, o problema, a beleza do problema. Um incidente faz-nos silenciar momentaneamente: um acidente de automóvel, a vista de uma montanha majestosa ou de uma bela árvore, a morte de alguém que amamos. Depois, começa  o "processo" de verbalização, de dar nome, associar, dizer "estou desolado", ou "que beleza!" Todos conheceis esses dois estados: o estado de silêncio forçado, seguido do estado de perpétua verbalização. Surge, assim, o problema: Como alcançar aquele estado em que a mente possa olhar sem dar nome; aquele silêncio não ocasionado pela grandeza de alguém, ou pela imponente grandeza de uma montanha? Não sei se compreendestes o problema.
PERGUNTA: Qual a relação do indivíduo com a sociedade?
KRISHNAMURTI: Qual a relação do indivíduo - o indivíduo real, a cujo respeito tenho falado - com a sociedade? E qual a nossa relação atual - a relação do chamado "indivíduo" - com a sociedade? E que se entende por "relação"?
Comecemos com a "relação". Que se entende por esta palavra? Estar em relação é estar em contato, em comunhão com outro que me entende e a quem eu entendo; é ter camaradagem, amizade com outro. Quer se trate da relação de marido e mulher, entre pai e filho, quer da relação do indivíduo com a sociedade, tal palavra tem para nós um sentido de comunhão, de contato, fraco ou forte, superficial ou profundo. Penso ser isso o que em geral entendemos por "relação".
Ora, nós estamos em relação com alguém? Estais em relação com vossa mulher ou marido? Por favor, investigai esta questão, sem meramente presumirdes que estais. Para estardes em relação com alguém, deveis estar em contato com a pessoa, não apenas fisicamente, mas também emocional, intelectualmente - em todos os níveis. E estamos? Parece-me que não. Nossas atitudes, nossas atividades, nossas arrogâncias, nosso orgulho, nos isolam; e, nesse estado de isolamento, procuramos estabelecer uma relação com outro, com a sociedade. Isto é um fato, não é invenção minha. Nós gostaríamos de estar em relação, mas não estamos. Nesse "processo" que chamamos "relações" - as quais constituem a sociedade - julgamo-nos indivíduos, porque temos nome, família, conta no banco; nossos rostos diferem, trajamo-nos diferentemente, etc. etc. Tudo isso nos dá um peculiar sentimento de individualidade. Mas, somos indivíduos reais, ou mero produto condicionado de determinada sociedade, de determinadas influências ambientes?
Ser indivíduo é ser único, interiormente distinto, tranqüilo, só. A mente que está só encontra-se liberta de todo o seu condicionamento. E qual a sua relação com a mente que se acha condicionada? Qual a relação de uma mente que é livre, com outra que não o é? Pode haver relação entre elas? Se vós vedes e eu não vejo, que relação há entre nós? Podeis ajudar-me, guiar-me, dizer-me isto, aquilo ou aquilo outro; mas só pode haver entre nós um estado de relação, no exato sentido da palavra, quando ambos vemos, isto é, quando podemos comungar imediatamente, no mesmo nível e ao mesmo tempo. Só então, por certo, há possibilidade de comunhão - que é amor, não achais?

Krishnamurti - PALESTRAS EM SAANEN - SUÍÇA - 7 de julho de 1963
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill