“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

Admitindo a impotência perante o fluxo do pensamento condicionado

O pensamento não irá resolver os nossos problemas, porque eles foram criados pela atividade do pensamento. E o nosso principal problema é produzir uma mudança fundamental, radical, revolucionária, psicológica. (1)
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Todos os chamados livros sagrados são produtos do pensamento. Eles podem ser venerados como uma revelação, mas eles são essencialmente pensamento. (2)
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Qualquer ação nascida do pensamento limitado deve inevitavelmente provocar conflito. (3)
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Todos os problemas que a humanidade hoje enfrenta, tanto psicologicamente, como nas outras esferas, são o resultado do pensamento. E nós estamos alimentando o mesmo padrão de pensamento, e o pensamento nunca solucionará nenhum desses problemas. Há contudo um outro tipo de instumento que é a inteligência. (4)
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O pensamento, sem dúvida nenhuma, é a reação daquilo que vocês sabem. O conhecimento reage, e damos a isso o nome de pensamento. Se ficarem alertas, conscientes do seu próprio processo de pensamento, vocês vão se dar conta de que o que quer que pensem já moldou a mente; e uma mente moldada pelo pensamento deixou de ser livre, e por isso não é uma mente individual. (5)
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O pensamento é tão astuto, tão esperto, que deturpa tudo para sua própria conveniência. O pensamento em sua exigência de prazer cria seu próprio cativeiro. O pensamento é o criador de dualidade em todas as nossas relações: existe em nós a violência que nos dá prazer, mas há também o desejo de paz, o desejo de ser gentil e pacífico. Isto é o que acontece todo o tempo em todo nosso viver. O pensamento não só cria esta dualidade em nós, esta contradição, mas também acumula nas inumeráveis memórias tudo que nós tivemos de prazer e dor, e destas memórias ele renasce". (6)
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Para fazer cessar o pensamento é indispensável entender inicialmente o mecanismo do pensar. Preciso, até o mais profundo do meu ser, compreender o pensamento como um todo. Preciso examinar cada pensamento; eu não posso deixar que algum deles escape sem ser plenamente compreendido; desse modo, o cérebro, a mente, todo o ser ficarão bastante atentos. E quando então eu perseguir todo e qualquer pensamento até o fim, até a extremidade de sua raiz, desse momento em diante, verei que o pensamento cessa por si mesmo. Não preciso fazer nada a respeito porque o pensamento é memória. A memória é a marca deixada pela experiência e, enquanto a memória não for compreendida de forma plena e total, continuará a deixar marcas. A partir do momento em que eu tiver vivenciado completamente a experiência, esta não deixará marcas. Desse modo, se examinarmos cada pensamento e descobrirmos onde se situa a marca, e se permanecermos com essa marca, aceitando-a como um fato, esse fato irá desnudar-se e fará cessar esse processo particular de pensar, de maneira que cada pensamento, cada sentimento será compreendido. Então o cérebro e a mente se libertarão de um acúmulo enorme de recordações. Isso requer tremenda atenção, atenção não apenas para as árvores e os pássaros, mas atenção interior, para cuidar que cada pensamento seja compreendido. (7) 
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O pensamento é limitado porque o conhecimento é limitado, e qualquer que seja a atuação do pensamento, o que quer que ele crie, tem de ser limitado. Nossa mente e nosso coração precisam ser claros para saber o que é uma mente religiosa. Para descobrirmos a mente religiosa temos de negar todo e qualquer ritual e símbolos inventados pelo pensamento. Só negando aquilo que é falso encontraremos o que é verdadeiro. Você nega todos os métodos de meditação porque, no íntimo, sabe que eles foram inventados pelo pensamento. Foram apenas reunidos pelo homem. Como nossa vida é frágil e incerta, desejamos alguma satisfação mais profunda, um pouco de amor, algo estável, permanente e duradouro. Desejamos algo mais firme, imutável, e achamos que poderemos obtê-lo se fizermos certas coisas. Essas coisas são inventadas pelo pensamento e, sendo ele por si só contraditório, qualquer tipo de estrutura reunido na meditação não é meditação. Isso significa total negação de tudo o que o homem criou psicologicamente. Não me refiro à tecnologia, que não pode ser negada, mas à rejeição a todas as coisas que o homem inventou ou escreveu sobre a busca da verdade. Para fugirmos do cansaço, da tristeza e dos tormentos caímos nessa armadilha. Portanto, temos de rejeitar completamente todas as nossas atitudes mentais, os exercícios respiratórios, toda a atividade do pensamento. (8)
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Se você achar difícil estar atento, então experimente escrever todo pensamento e sentimento que surge ao longo do dia, anote suas reações de ciúme, inveja, vaidade, sensualidade, as intenções atrás de suas palavras, e assim por diante. Reserve algum tempo antes do café para escrever isto – o que pode exigir sair mais cedo da cama e abandonar alguma atividade social. Se você anota estas coisas sempre que pode, e à noite antes de adormecer olha tudo que escreveu durante o dia, estuda e examina isto sem julgamento, sem condenação, você começará a descobrir as causas ocultas de seus pensamentos e sentimentos, desejos e palavras... Agora, o importante nisto é estudar com a inteligência livre tudo que você escreveu, e estudando isto você se dará conta de seu próprio estado. Na chama da autoconsciência, do autoconhecimento, as causas do conflito são expostas e consumidas. Você deveria continuar a escrever seus pensamentos e percepções, intenções e reações, não uma vez ou outra, mas por um número considerável de dias até que você possa estar imediatamente atento a eles... Meditação não é só autoconsciência constante, mas abandono constante do ego. Além do pensamento de comum conhecido, existe a meditação, da qual provém a tranqüilidade da sabedoria, e na serenidade a algo maior acontece. Ao escrever o que a pessoa pensa e sente, os seus desejos e suas reações, propicia a consciência interior, a cooperação do inconsciente com o consciente, e isto por sua vez conduz em troca à integração e à compreensão. (9)
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Autoconhecimento não significa conhecer-se, mas conhecer a atividade do pensamento. Porque o eu é pensamento, a idéia. Portanto, observe cada movimento do pensamento, não deixando nunca que um pensamento passe sem se certificar do que ele é. Tente. Faça isso e você verá o que acontece. Isso revigora o cérebro. Veja: o pensamento é medo, o pensamento é prazer, o pensamento é tristeza. E o pensamento não é amor. O pensamento não é compaixão. (10)
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O autoconhecimento brota quando você observa e compreende todos os seus sentimentos e pensamentos, momento por momento, dia a dia. A totalidade dessa compreensão resolverá os problemas da vida. (11)
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O autoconhecimento não é um processo de continuidade do pensamento, mas de redução, de cessação do pensamento... O pensamento só pode terminar quando você conhecer o conteúdo total da pessoa que pensa; e assim começamos a ver como é importante ter autoconhecimento. A maioria de nós se contenta com o autoconhecimento superficial, com arranhar a superfície, com o bê-a-bá da psicologia. Não adianta ler alguns livros de psicologia, arranhar um pouco a superfície e dizer que sabe. Isso é mera aplicação à mente daquilo que se aprendeu... Uma mente que acumula não pode aprender. (12)
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Nunca investigamos a profundidade mesma do pensamento: e porque nunca o questionamos, ele assumiu a predominância. Ele é o tirano da nossa vida e os tiranos raramente são desafiados. (13)
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Permanecemos presos nas rotinas do embotamento, porque pensar com muita seriedade significa estar descontente, o que é muito doloroso; e a maioria de nós não deseja atrair tristezas. Desejamos fugir da tristeza, e por isso toda a nossa estrutura de pensamento é confusão, distração... Ser sensível significa dor; mas precisamos ser dolorosamente sensíveis, para compreender. Entretanto, procuramos manter-nos do lado de fora da dor, e, evitando-a, reduzimo-nos a simples máquinas de imitação. (14)
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Meditação é o perceber total de cada movimento do pensamento, e jamais negação dele; quer dizer, é deixar cada pensamento "florescer" livremente: pois só em liberdade pode o pensamento "florescer" e terminar. Assim, com esse trabalho (se isso se pode chamar "trabalho") ou, melhor, com essa observação, a mente tudo compreende. Está então quieta, sabe o que realmente significa "estar quieta", estar verdadeiramente tranqüila. E, nessa tranqüilidade, existem várias outras formas de movimento que, para quem nunca refletiu a esse respeito, só verbalmente se podem descrever. (15)
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A menos que a mente descubra a fonte do pensamento, ver-se-á sempre de novo enredada num sistema de vida que levará finalmente ao conflito, uma maneira de vida que é violência. Aquela fonte precisa ser descoberta. Enquanto existir observador e coisa observada, haverá contradição, distância, intervalo de tempo, separação entre ambos, e o pensamento tem de existir... Enquanto houver observador e coisa observada, e, entre ambos, intervalo de tempo, distância, espaço - essa separação dará origem ao pensamento. Só quando o observador é o objeto observado, e não há observador nenhum, não há pensar. (16)
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Se você observar a sua própria mente, verá o quanto é difícil estar livre de conclusões. Afinal, o que você sabe é uma série de conclusões, constituída daquilo que lhe foi ensinado, do que você aprendeu dos livros ou do que achou em suas próprias reações - e sobre tal base começa a pensar, a levantar o edifício do pensamento! Mas, sem dúvida, a mente que deseja descobrir o que é a Verdade ou Deus, deve começar sem nenhum pressuposto, nenhuma conclusão, quer dizer, livre para investigar. E se você observar sua própria mente, verá que não é livre. Está cheia de conclusões, pejada de conhecimentos, provindo de muitos milhares de dias passados; ela pensa segundo o Gita, segundo a Bíblia ou o Alcorão, ou um certo instrutor, e começa com o pressuposto de que o que dizem é a Verdade. Mas, se ela já sabe o que é a Verdade, é claro que não tem necessidade de procurar a Verdade. (17)
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Infelizmente, para a maioria de nós, o pensamento se tornou demasiado importante. Dizeis: "Como posso existir, ser, sem pensar?" "Como posso ter a mente vazia?" Para a maioria das pessoas, ter a mente vazia equivale a ficar em estado de estupor, de idiotia, ou coisa parecida, e vossa reação instintiva é de rejeitar tal estado. Mas, sem dúvida, a mente que é muito tranqüila, a mente que não está sendo distraída pelo próprio pensamento, a mente que é aberta, pode encarar o problema de maneira muito direta e muito simples. É essa capacidade de olharmos nossos problemas sem nenhuma distração, que representa a única solução. Para tanto, é preciso que a mente seja muito tranqüila, muito serena. Essa mente não é resultado, não é produto do exercício, de meditação, de controle. Ela não nasce de qualquer espécie de disciplina, constrangimento ou sublimação; nasce sem esforço algum por parte do "eu", do pensamento; nasce quando compreendo o processo total do pensar, quando posso ver um fato sem distração alguma. Nesse estado de tranqüilidade, da mente que se acha verdadeiramente silenciosa, existe o amor. E só o amor pode resolver todos os problemas humanos. (18)
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Bibliografia
(1) Krishnamurti - Sobre a Mente e o Pensamento
(2) Krishnamurti - A Arte de Aprende
(3) Krishnamurti - O Futuro da Humanidade
(4) Krishnamurti - O Futuro da Humanidade
(5) Krishnamurti - Sobre a aprendizagem e o conhecimento
(6) Krishnamurti
(7) Krishnamurti e a Educação 
(8) Krishnamurti - Nossa Luz Interior
(9) Krishnamurti - O Livro da Vida 
(10) Krishnamurti - Diálogos sobre a visão intuitiva
(11) Krishnamurti - O Problema da Revolução Total
(12) Krishnamurti - Sobre a aprendizagem e o conhecimento
(13) Krishnamurti - A Arte de Aprender
(14) Krishnamurti - Da Insatisfação à Felicidade
(15) Krishnamurti - A Mutação Interior
(16) Krishnamurti - Encontro com o eterno
(17) Krishnamurti - O Homem Livre
(18) Krishnamurti - A Primeira e a ùltima Liberdade
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)