“Não se pode falar do oceano para um sapo do brejo — criatura de uma esfera mais acanhada. Não se pode falar de um estado isento de pensamento para um pedagogo; sua visão é demasiado restrita”. — Chuang Tzu

krishnamurti - Observação que Brota do Silêncio

        Para descobrirmos o significado do amor não deveremos estar livres do sentimento de posse, do sentimento de apego, do ciúme, da irritação, do ódio, da ansiedade e do medo? Tomemos por ora a libertação do apego. Quando sentimos apego, a que coisa nos sentimos apegados? Suponhamos que sentimos apego por uma mesa qualquer. Que coisa implica esse sentimento? Prazer, uma certa sensação de posse, a apreciação da sua utilidade, e sensação de ser uma coisa estupenda, etc. E quando um indivíduo sente apego por outro, o que acontece? Quando alguém sente apego por nós, que sensação sentirá? Há nesse apego uma sensação de orgulho pela posse, uma sensação de domínio, medo de nos perder e portanto ciúme, e desse modo um fortalecimento do sentimento de apego, uma maior sensação de posse e ansiedade. Mas, a ansiedade do apego não significará ausência de amor e responsabilidade?
      Para a maioria de nós amar significa esse conflito terrível existente entre os seres humanos, que torna as relações pessoais num perpétuo acto de ansiedade. Isso é sobejamente conhecido, e escusado seria referi-lo. Mas nós chamamos a isso amor. E depois, para podermos fugir dessa enorme tensão a que chamamos "amor", recorremos a todo o gênero de entretenimentos, desde a televisão até á religião; de seguida voltamos a sentir-nos postos em questão e uma vez mais voltamos costas em direção à Igreja, ou ao templo para, uma vez de volta fazermos exatamente a mesma coisa. Isso está  a acontecer o tempo todo. Será que o homem (ou a mulher) não poderão ver-se livres disso tudo, ou tal coisa é impossível? Se não for possível então a vida deve ser um estado de perpétua ansiedade  em resultado do que ocorrerá todo o tipo de atitudes, crenças e atos neuróticos. Será, pois, possível sermos livres do apego? Isso implica uma tarefa e tanto. Será que conseguiremos ter liberdade do apego e ainda assim possuir um sentido de responsabilidade? Mas ser-se livre do apego não quer dizer o seu contrário, o desapego. Muito importa entender isto porque quando sentimos apego e conhecemos a sua dor, a sua ansiedade, dizemos: ”Por amor de Deus, tenho que me desafeiçoar de todo este horror”. E assim dá-se início a toda uma luta pelo desapego e  pelo conflito.
     Se tivermos consciência da palavra e do fato (da palavra apego) e possuirmos liberdade com relação à palavra, com relação á sensação, não seremos então capazes de observar a sensação sem nenhum julgamento, e perceber se dessa observação total não poderá ocorrer um movimento completamente distinto que nem constitua apego nem desapego? Estarão a empreender isso á medida que conversamos ou estão meramente a escutar um amontoado de palavras?
    Têm consciência que possuem uma vasta sensação de apego por uma crença, um preconceito, uma conclusão, uma pessoa ou por algum ideal- apego esse que lhes dá um enorme sentido de segurança, mas que todavia é uma ilusão, não será?
    É uma ilusão estar-se apegado a alguma coisa, simplesmente porque essa coisa pode desaparecer. Por isso aquilo a que estão apegados é a imagem que criaram acerca da coisa. Assim, poder-se-á ser livre do apego de modo que daí resulte um sentido de responsabilidade que não constitua nem um dever nem  uma obrigação?
    E que coisa será então o amar se não houver sentimento de apego? Se sentirmos apego pela nação, passaremos a venerar a nação com todo um sentido de isolamento em relação às demais, o que é uma forma de tribalismo  glorificado. Mas isso deverá contribuir para nos dividir, não será? Se eu possuir um tremendo sentido de ligação á minha nacionalidade de Hindu e vós  tiverdes idêntico sentimento com relação á vossa nacionalidade de franceses, italianos ou ingleses, então estaremos apartados e a guerra com  toda a sua complexidade só poderá ter continuidade.
   Já se não possuirmos tal sentimento de apego o que é que acontecerá? Poderá ocorrer o amor? Por isso, o apego é separativo. Se estiver apegado á minha crença e vós á vossa, desse jeito ocorrerá uma separação. Vejam as consequências e as implicações disso. Onde houver apego haverá separação e portanto conflito. E onde houver conflito não poderá haver amor.
     Que relacionamento haverá entre duas pessoas se existir liberdade do apego e das suas implicações? Poderá ser o início da compaixão? Utilizo a palavra início mas não enveredem já por aí.
    Se não existir o sentimento de nacionalidade nem apego a qualquer crença ou conclusão então as suas relações brotarão de um sentimento de liberdade, amor e compaixão. Vejam bem, isso faz parte da tomada de consciência.
     Mas, deveremos empregar a análise, como o fizemos para ver o significado do apego — com todas as suas implicaçõesou poderemos observar a sua totalidade instantaneamente e só então analisar? Não ao contrário, muito embora estejamos acostumados á análise e com ela despendamos muito tempo. Mas propõe-se algo completamente diferente: observarperceber a sua totalidade e então analisar. Então isso tornar-se-á muito simples. Porém, se analisarmos primeiro e de seguida procurarmos alcançar a totalidade podemos ser mal sucedidos; e isso é o que geralmente acontece.
     Mas, a observação da totalidade de uma coisa — que significa não impor sentido nenhum de direção — tanto torna a análise importante como não importante, de modo que tanto podeis empregar a análise como não.
     Gostaria porém, de adentrar uma outra questão a que isto conduz. A  de sabermos se existe algo de sagrado na nossa vida, que faça parte de tudo isto.  Existirá na nossa vida alguma coisa sagrada, santificada? Removam a palavra, separem a palavra da imagem e do símbolo — o que é bastante perigoso — e tendo-o feito questionem-se se existirá alguma coisa verdadeiramente sagrada na vida, ou se tudo não será um mero agregado superficial do pensamento — porque o pensamento não é sagrado. Concordam? Mas vocês pensam que o pensamento e aquilo que ele reuniu são sagrados, porque foram condicionados a tal coisa; fomos condicionados como hindus, budistas ou cristãos a venerar, a adorar, a orar para coisas que o pensamento criou. E chamámos isso de sagrado.
   Temos que descobrir isso porque se não pesquisarmos a existência do que seja verdadeiramente sagrado, e não reunido pelo pensamento, a vida torna-se cada vez mais superficial e mecânica, e então  a questão de pôr fim a essa forma de vida será completamente destituída de sentido.
     Vejam bem, nós encontrámo-nos de tal modo apegados ao pensar e a todo o seu processo que chegamos a venerar as coisas que o pensamento criou. A imagem, o símbolo, a escultura,  que foram criados quer pela mão quer pela mente, constituem um processo de pensamento. Mas o pensamento é memória, experiência e conhecimento; tudo isso é o passado e esse passado modifica-se através da tradição; e por sua vez esta torna-se a coisa mais sagrada. Assim, veneramos a tradição, não é mesmo?
      Haverá alguma coisa que não tenha nada que ver com o pensamento nem com a tradição, com rituais e todo esse circo? Temos de o descobrir. Mas como haveremos de o fazer? Não que tenhamos de recorrer a qualquer método, porque ao utilizar a palavra como, não estou a sugerir método nenhum.
   Existirá pois alguma coisa sagrada na vida? Há todo um conjunto de pessoas que afirma não existir nada sagrado, absolutamente. Dizem que somos o resultado do meio, cuja estrutura podemos modificar sem precisar recorrer a conversa nenhuma com relação ao que quer que seja desse domínio; dizem eles que se agirmos de modo mecânico poderemos tornar-nos indivíduos perfeitamente felizes. Porém, se formos verdadeiramente sérios com relação à questão — e temos que ser profundamente sérios — não pertenceremos nem ao bloco materialista nem ao religioso; que, por sua vez também se acha fundado no pensamento. Em vez disso temos de descobrir a resposta. Não afirmaremos coisa nenhuma, mas trataremos de começar a inquirir.
      Mas, o que significa inquirir, de modo a podermos descobrir na nossa vida essa questão do sagrado, desse algo santificado — não na nossa vida, mas — na vida — no viver? Haverá alguma coisa supremamente sagrada? Ou não existirá absolutamente nada?
      Precisamos possuir uma mente bastante silenciosa, pois somente nessa liberdade poderemos descobri-lo. Temos que ter liberdade para olhar porém, se dissermos que é preferível manter as crenças, que nos são mais gratificantes, então não seremos livres. E se dissermos que tudo não passa dum processo material,  um movimento do pensamento, também não seremos livres. Assim, para o observarmos, tem de haver liberdade com relação às imposições da civilização, dos desejos pessoais, às esperanças pessoais, aos preconceitos, aos anseios e aos medos.
     Só podemos observar quando a mente se encontra completamente silenciosa; será que ela poderá permanecer nesse estado sem movimento completamente nenhum? Porque se houver movimento haverá distorção.
   Achamos isso terrivelmente difícil porque o pensamento eclode imediatamente e aí dizemos ter de o controlar. Todavia o controlador é a coisa controlada, e se o perceberem, se perceberem que o pensador é o pensamento e que o controlador é a coisa controlada — e o observador a coisa observada — então todo o movimento cessará. Então tomaremos consciência de que a irritação é parte do observador que diz estar irritado, e de que a irritação e o observador são a mesma coisa. Isso é bastante  simples e evidente. Do mesmo modo, o pensador que procura controlar o pensamento é ainda pensamento. Se tomarmos consciência disso o movimento do pensamento cessará. E quando não subsistir nenhum movimento na mente — nenhum tipo de movimento — então esta permanecerá naturalmente quieta sem esforço nem compulsão e sem o desejarmos. Ela tornar-se-á naturalmente imóvel. Não se trata de uma imobilidade cultivada porque isso constitui um processo mecânico e não imobilidade, de todo, mas somente uma aparência de imobilidade.
   Desse modo resultará liberdade e isso implicará tudo aquilo de que falamos; nessa liberdade haverá silêncio, silêncio esse que significa ausência de movimento. Então, seremos capazes de observar, porque então existirá observação; então existirá unicamente observação e não o observador a observar. Então só existirá observação procedente do completo silêncio, da completa imobilidade da mente.
     E que acontece nesse estado?
  Se tivermos avançado até esse ponto, que significa liberdade do próprio condicionamento, e assim também ausência de todo o movimento, completo silêncio, imobilidade, então a inteligência entra em operação, não será? Porque perceber a natureza do apego e das suas implicações e obter um vislumbre disso significa  inteligência. Somente quando tivermos chegado a esse ponto — que significa que seremos livres — e movermos a operação da inteligência, poderemos ter uma mente serena, saudável e tranquila. E nessa tranquilidade descobriremos se existe alguma coisa verdadeiramente sagrada ou não.

Krishnamurti - 1Agosto 1976
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)