“Assimila o que puderes, das verdades destas páginas — e cria em tua alma uma atmosfera propícia para compreenderes mais, com o correr dos anos e tua progressiva evolução espiritual, que consiste essencialmente na abolição do egoísmo em todos os seus aspectos, e na proclamação de um amor sincero e universal para com todas as criaturas de Deus”. — Huberto Rohden

Krishnamurti — A Consumação Das Nossas Energias

O pensamento é limitado pela simples razão de o conhecimento também o ser, e assim, qualquer que seja a ação que empreenda, o que quer que ele crie, deve igualmente ser limitado. Temos de possuir clareza mental e pureza do coração a fim de podermos compreender a natureza da mente religiosa. Para descobrirmos isso devemos efetivar a completa negação de todos os rituais e símbolos criados pelo pensamento. Se negarmos isso, e recusarmos aquilo que é falso, então descobriremos o verdadeiro. Se percebermos por nós próprios que todos os sistemas de meditação são criados pelo pensamento, então negá-los-emos todos. Porquanto eles são concebidos pelo homem. A vida que levamos é tão ordinária e incerta que chegamos a alcançar a tendência de procurar um tipo qualquer de satisfação interior profunda ou um pouco de amor, algo que seja estável, permanente, duradouro. Queremos algo que se apresente imutável, inalterável, e pensamos que o conseguiremos se empreendermos determinadas coisas. Essas coisas são inventadas pelo pensamento, mas o pensamento por si mesmo é contraditório e por essa razão, toda a meditação que seja assente numa estrutura concebida pelo pensamento não poderá ser meditação, absolutamente. Isso implica a completa recusa de tudo que o homem concebeu psicologicamente. No campo da tecnologia não podemos efetuar essa negação, contudo temos de negar todas as coisas que criamos e escrevemos sobre a busca da verdade. Mas nós caímos sempre nessa armadilha por querermos escapar do cansaço, da tristeza e das agonias da vida. Desse modo temos de recusar todas essas posturas, todos esses exercícios respiratórios e atividade do pensamento, para que assim possa surgir a questão do pensamento ser ou não capaz de chegar a um término. Ou seja, sabermos se o pensamento que se torna tempo, poderá deixar de existir. Não o tempo externo mas o tempo que está implícito ao vir a ser, quer isso represente tornar-se iluminado, ou não-violento, ou o vir a ser do homem vaidoso na busca de um meio para se tornar humilde. Todo esse padrão psicológico de nos tornarmos alguém constitui o tempo. E o tempo é também pensamento. Portanto poderá o pensamento ter fim? Não findar através de uma disciplina nem duma forma de controle qualquer, pois que entidade será essa que disciplina?

Sempre subsiste em nós o sentido de dualidade psicológica: do controlador e da coisa controlada, do observador e da coisa observada, daquele que experimenta e da coisa experimentada, do pensador e do pensamento. Temos sempre presente essa dualidade divisiva, provavelmente decorrente da observação do mundo físico, porque aí existe a dualidade da luz e da sombra, da claridade e da escuridão, do homem e da mulher, etc. É pois provável que tenhamos transferido a observação disso para o campo psicológico. Mas será que existe um controlador que seja diferente da coisa controlada? Pensem cuidadosamente nisso, por favor.

Na meditação clássica ou comum, os gurus que a propagam interessam-se pela questão do controlador e da coisa controlada, e recomendam o controlo do pensamento a fim de o eliminarmos e reduzirmos a um só. Mas nós estamos interessados em investigar a identidade do controlador. Podemos referir que seja o " eu superior", "a testemunha", "algo que não seja formado pelo pensamento", porém é óbvio que o controlador constitui parte intrínseca do pensamento. Portanto, o controlador é a coisa controlada. O pensamento dividiu-se em controlador e aquilo que procura controlar, todavia isso ainda é atividade do pensamento.

Chega a ser um fenôeno bastante estranho que o pensamento invente deuses e depois se ponha a adorá-los. Isso é idolatria de si mesmo.

Assim, quando compreendemos que todo o movimento do controlador é o controlado, então deixa de existir controle. Trata-se de uma coisa verdadeiramente perigosa de referir a alguém que não o compreende, porque não estamos a advogar a falta de controle. Aquilo que estou a dizer é que quando se observa que o controlador é a coisa controlada, quando se observa que o pensador é o pensamento — e se permanece com a verdade disso — com a sua realidade, sem nenhuma interferência do pensamento, então podemos passar a deter um tipo de energia completamente diferente.

A meditação consiste na congregação de todas as nossas energias. Não da energia criada pelo pensamento através de um qualquer tipo de choque, mas a energia de um estado mental em que não subsiste conflito completamente nenhum. A palavra "religião" provavelmente significa reunir ou juntar todas as nossas energias de forma a atuarmos de modo diligente. A mente religiosa age com prontidão, ou seja, é atenta, observadora e cuidadosa na acção. E essa sua observação comporta afeto e compaixão.

A concentração é uma outra invenção do pensamento. Na escola ordenam-nos que estejamos atentos ao livro. Desse modo aprendemos a concentrar-nos, procurando excluir os outros pensamentos e impedindo-nos de olhar pela janela. Mas na concentração há resistência e estreitamento do imenso campo de energia da vida a um determinado nível. Ao invés, na atenção — que consiste numa forma de consciência em que não há escolha, uma consciência indistinta — toda a nossa energia se faz presente. Quando possuímos essa atenção não existe um centro a partir do qual ela seja exercida, enquanto que na concentração sempre existe um centro a partir do qual prestamos atenção.

Devíamos também falar sobre a importância do espaço. Pelo modo como vivemos neste mundo moderno, em apartamentos construídos uns sobre os outros, o espaço físico tornou-se diminuto. Externamente sofremos com essa falta de espaço mas interiormente também não possuímos espaço nenhum porque o nosso cérebro está constantemente a tagarelar. Meditar é entender ou descobrir um espaço que não seja criado pela ação do pensamento, espaço que não seja nem "eu" nem "não eu". Esse espaço não pode ser inventado nem constituir uma ideia, tem que ser um espaço real, ou seja, uma sensação ilimitada de distância, observação desimpedida e um movimento perpétuo isento de barreiras. Isso constitui um espaço imenso, destituído de tempo, porque o tempo nascido do pensamento ficou para trás, devido a que tenhamos compreendido que, enquanto o pensamento ocupar o seu próprio espaço, não poderemos possuir essa imensidão de espaço ilimitado. Quando pretendemos aprender uma técnica, o saber e o pensamento necessitam de tempo e de espaço.

A memória é necessária num determinado nível, porém não necessitamos dela no campo psicológico. Sempre que possuímos atenção que purifica o cérebro de toda a acumulação da memória, então o "eu" que progride e alcança, o "eu" que se acha em conflito chega ao fim, por termos deixado a "nossa casa" em ordem. O cérebro possui o seu próprio ritmo, todavia esse ritmo foi distorcido por toda a extravagância e maus tratos das drogas, da fé, das crenças, da bebida e do tabaco. E desse modo perde a sua vitalidade prístina.

A meditação é a noção do completo entendimento da vida no seu todo, a partir do que se origina a ação correta. A meditação é o silêncio absoluto da mente; não o silêncio relativo nem o silêncio que o pensamento projetou e estruturou, mas o silêncio da ordem, que também significa liberdade. Somente nesse completo silêncio, nesse silêncio incorrupto assenta a verdade, que existe por todo o sempre. Isso é meditação.

Krishnamurti — O significado autêntico da meditação — 5 Fev. 1982
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"Quando você compreende, quando chega a saber,
então traz toda a beleza do passado de volta
e dá a esse passado o renascimento, renova-o,
de forma que todos os que o conheceram
possam estar de novo sobre a terra
e viajar por aqui, e ajudar as pessoas." (Tilopa)



"Nos momentos tranqüilos da meditação, a vontade de DEUS pode tornar-se evidente para nós. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com DEUS dentro de nós. Uma premissa básica da meditação, é que é difícil, senão impossível, alcançar um contato consciente, à não ser que a mente esteja sossegada. Para que haja um progresso, a comum sucessão ininterrupta de pensamentos tem de parar. Por isso, a nossa prática preliminar será sossegar a mente e deixar os pensamentos que brotam morrerem de morte natural. Deixamos nossos pensamentos para trás, à medida que a meditação do Décimo Primeiro Passo se torna uma realidade para nós. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação, e a nossa experiência confirma isso." (11º Passo de NA)


"O Eu Superior pode usar algum evento, alguma pessoa ou algum livro como seu mensageiro. Pode fazer qualquer circunstância nova agir da mesma forma, mas o indivíduo deve ter a capacidade de reconhecer o que está acontecendo e ter a disposição para receber a mensagem". (Paul Brunton)



Observe Krishnamurti, em conversa com David Bohn, apontando para um "processo", um "caminho de transformação", descrevendo suas etapas até o estado de prontificação e a necessária base emocional para a manifestação da Visão Intuitiva, ou como dizemos no paradigma, a Retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa...


Krishnamurti: Estávamos discutindo o que significa para o cérebro não ter movimento. Quando um ser humano ESTEVE SEGUINDO O CAMINHO DA TRANSFORMAÇÃO, e PASSOU por TUDO isso, e esse SENTIDO DE VAZIO, SILÊNCIO E ENERGIA, ele ABANDONOU QUASE TUDO e CHEGOU AO PONTO, à BASE. Como, então, essa VISÃO INTUITIVA afeta a sua vida diária? Qual é o seu relacionamento com a sociedade? Como ele age em relação à guerra, e ao mundo todo — um mundo em que está realmente vivendo e lutando na escuridão? Qual a sua ação? Eu diria, como concordamos no outro dia, que ele é o não-movimento.

David Bohn: Sim, dissemos que a base era movimento SEM DIVISÃO.

K: Sem divisão. Sim, correto. (Capítulo 8 do livro, A ELIMINAÇÃO DO TEMPO PSICOLÓGICO)


A IMPORTÂNCIA DA RENDIÇÃO DIANTE DA MENTE ADQUIRIDA
Até praticar a rendição, a dimensão espiritual de você é algo sobre o que você lê, de que fala, com que fica entusiasmado, tema para escrita de livros, motivo de pensamento, algo em que acredita... ou não, seja qual for o caso. Não faz diferença. Só quando você se render é que a dimensão espiritual se tornará uma realidade viva na sua vida. Quando o fizer, a energia que você emana e que então governa a sua vida é de uma frequência vibratória muito superior à da energia mental que ainda comanda o nosso mundo. Através da rendição, a energia espiritual entra neste mundo. Não gera sofrimento para você, para os outros seres humanos, nem para qualquer forma de vida no planeta. (Eckhart Tolle em , A Prática do Poder do Agora, pág. 118)


O IMPOPULAR DRAMA OUTSIDER — O encontro direto com a Verdade absoluta parece, então, impossível para uma consciência humana comum, não mística. Não podemos conhecer a realidade ou mesmo provar a existência do mais simples objeto, embora isto seja uma limitação que poucas pessoas compreendem realmente e que muitas até negariam. Mas há entre os seres humanos um tipo de personalidade que, esta sim, compreende essa limitação e que não consegue se contentar com as falsas realidades que nutrem o universo das pessoas comuns. Parece que essas pessoas sentem a necessidade de forjar por si mesmas uma imagem de "alguma coisa" ou do "nada" que se encontra no outro lado de suas linhas telegráficas: uma certa "concepção do ser" e uma certa teoria do "conhecimento". Elas são ATORMENTADAS pelo Incognoscível, queimam de desejo de conhecer o princípio primeiro, almejam agarrar aquilo que se esconde atrás do sombrio espetáculo das coisas. Quando alguém possui esse temperamento, é ávido de conhecer a realidade e deve satisfazer essa fome da melhor forma possível, enganando-a, sem contudo jamais poder saciá-la. — Evelyn Underhill